HOMILIA
SOBRE A DORMIÇÃO DA SANTÍSSIMA MÃE DE DEUS
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(c.
676-749) – monge, teólogo e Pai da Igreja
Quem ama ardentemente alguma coisa costuma trazer
seu nome nos lábios e nela pensar noite e dia. Não se me censure, pois, se
pronuncio este terceiro panegírico da Mãe
de meu Deus, como oferenda em honra de sua partida. Isso não será favor
para ela mas servirá a mim mesmo e a vós, aqui presentes -
divina e santa assembleia - como um manjar salutar que, nesta noite sagrada,
satisfaça nosso gosto espiritual. Estamos sofrendo, como sabeis, de penúria de
alimentos. Assim, improviso a refeição; se não é sumptuosa nem digna daquilo
que no-la inspira, possa ao menos acalmar-nos a fome. Sim, não é Maria que
precisa de elogios, nós é que precisamos de sua glória. Um ser glorificado, que
glória pode receber ainda? A fonte da luz, como será iluminada ainda? É pois
para nós mesmos que fazemos a coroa. "Vivo eu, diz o Senhor, e
glorificarei os que me glorificam" (2 Sm. 2,
30).
O vinho agrada sem dúvida, é deliciosa bebida, e o
pão alimento nutritivo: um alegra, o outro fortifica o coração do homem (Sl. 104, 15). Mas que existe de mais suave do que a Mãe de
meu Deus? Ela cativou meu espírito, ela reina sobre minha palavra, dia e noite
sua imagem me é presente. Mãe do Verbo, dá-me de que
falar! Filha de mãe estéril, torna fecundas as almas estéreis! Eis aquela cuja
festa celebramos hoje em sua santa e divina Assunção.
Acorrei, pois, e subamos a montanha mística.
Ultrapassando as imagens da vida presente e da matéria, penetrando na treva
divina e incompreensível, ingressando na luz de Deus, celebremos o seu infinito
poder. Aquele que, de sua transcendência super-essencial e imaterial, desceu ao
seio virgíneo para ser concebido e se encarnar, sem deixar o seio do Pai;
aquele que através da Paixão marchou voluntariamente para a morte, conquistando
pela morte a imortalidade e voltando ao Pai; como não pôde ele atrair ao Pai
sua Mãe segundo a carne? Como não elevaria da terra ao céu aquela que fora um
verdadeiro céu sobre a terra?
Hoje a escada espiritual e viva, pela qual o
Altíssimo desceu, se fez visível e conversou entre os homens (Baruc 3, 38), ei-la que sobe,
pelos degraus da morte, da terra ao céu.
Hoje a mesa terrestre que, sem núpcias, trouxera o
pão celeste da vida e a brasa da divindade, foi levada da terra aos céus, e
para a Porta oriental, para a Porta de Deus, se ergueram as portas do céu.
Hoje, da Jerusalém terrestre, a Cidade viva de Deus
foi conduzida à Jerusalém do alto; aquela que concebera como seu primogénito e
unigénito o primogénito de toda criatura e o Unigénito do Pai, vem habitar na
Igreja das primícias (Hb. 12, 23); a arca do Senhor, viva e racional, é
transportada ao repouso de seu Filho (Sl. 132, 8).
As portas do paraíso abrem-se para acolher a terra
portadora de Deus, onde germinou a árvore da vida eterna, redentora da
desobediência de Eva e da morte infligida a Adão. É o Cristo, causa da vida
universal, quem recebe a gruta escondida, a montanha não trabalhada, donde se
destacou, sem intervenção humana, a pedra que enche a terra.
Aquela que foi o leito nupcial onde se deu a divina
encarnação do Verbo, veio repousar em túmulo glorioso, como em tálamo
nupcial, para de lá se elevar até a câmara das núpcias celestes, onde reina em
plena luz com seu Filho e seu Deus, deixando-nos também como lugar de núpcias
seu túmulo sobre a terra. Lugar de núpcias, esse túmulo? Sim, e o mais
esplendoroso de todos, a refulgir não por revérberos de ouro, de prata ou de
gemas, porém pela divina luz, irradiação de Espírito
Santo. Proporciona, não uma união conjugal aos esposes da terra, mas a vida
santa às almas que se prendem pelos laços do Espírito, proporciona uma condição
junto de Deus, melhor e mais suave que outra qualquer.
Seu túmulo é mais gracioso do que o Éden: neste, sem
querermos repetir tudo o que lá se passou, houve a sedução do inimigo, sua
mentira apresentada como conselho amigo, a fraqueza de Eva, sua credulidade, o
engodo - doce e amargo - ao qual seu espírito se
deixou prender e pelo qual em seguida aliciou o marido; a desobediência, a
expulsão, a morte, mas - para não trazermos com tais
lembranças assunto de tristeza à nossa festa - houve o túmulo que elevou ao céu
o corpo de um mortal, ao contrário daquele primeiro jardim, que derrubou do céu
nosso primeiro pai. Pois não foi ali que o homem, feito à imagem divina, ouviu
a sentença: "tu és terra e em terra te hás de tornar"? (Gn. 3, 19).
O túmulo de Maria, mais precioso que o antigo
tabernáculo, encerrou o candelabro espiritual e vivo, brilhante de divina luz,
a mesa portadora de vida, que recebeu, não os pães da proposição, mas o pão
celeste, não o fogo material mas o fogo imaterial da divindade.
Esse túmulo é mais feliz que a arca mosaica, pois
teve por partilha a verdade, já não as sombras e as figuras; acolheu a urna
áurea do maná celeste, a mesa viva do Verbo encarnado por obra do Espírito
Santo, dedo omnipotente de Deus, Verbo subsistente; acolheu o altar dos
perfumes, a brasa divina que aromatizou toda a Criação.
Fujam portanto os demónios,
gemam os míseros nestorianos - como outrora os
egípcios - com seu chefe, o novo faraó, o cruel flagelo, o tirano, pois foram
engolidos pelo abismo da blasfémia. Nós, porém, salvos, que atravessamos a pé
enxuto o mar da impiedade, cantemos à Mãe de Deus o canto do Êxodo. Miriam, que
é a Igreja, tome nas mãos o tamborim e entoe o hino de festa; saíam as jovens
do Israel espiritual com tamborins e coros (Ex. 15, 20), exultando de alegria!
Que os reis da terra, os juízes e os príncipes, os jovens e as virgens, os
velhos e as crianças, celebrem a Mãe de Deus! Que reuniões e discursos de toda
espécie, raças e povos na diversidade de suas línguas, componham um cântico
novo! Que o ar ressoe de flautas e trombetas espirituais, inaugurando com
brilho de fogos o dia da salvação! Alegrai-vos, ó céus, e vós, nuvens, fazei
chover a alegria! Saltai, novilhos do rebanho eleito, apóstolos divinos que,
como montanhas altas e sublimes, aspirais às mais altas contemplações; e vós,
também, ó cordeiros de Deus, povo santo, filhos da Igreja, que pelo desejo vos
alçais como colinas até as altas montanhas!
Mas então? Morreu a fonte da vida, a Mãe de meu
Senhor? Sim, era preciso que o ser formado da terra à terra voltasse, para dali
subir ao céu, recebendo o dom da vida perfeita e pura a partir da terra, após
ter-lhe entregue seu corpo. Era preciso que, como o ouro no crisol, a carne
rejeitasse o peso da mortalidade e se tornasse, pela morte, incorruptível,
pura, e assim ressuscitasse do túmulo.
Começa hoje para Maria uma segunda existência,
recebida daquele que a fez nascer para a primeira, como também ela mesma dera
uma segunda existência - a vida corpórea - àquele,
cuja primeira existência, a eterna, não teve começo no tempo, embora
principiada no Pai como em sua divina causa.
Alegra-te, Sião, montanha divina e santa, onde
habitou a outra montanha divina, a montanha vivente, a nova Betel, ungida na
pedra, a natureza humana ungida pela divindade. De ti, como de um jardim de
oliveiras, e Filho se elevou às celestes alturas. Que uma nuvem se componha,
universal e cósmica, e que as asas dos ventos tragam os apóstolos dos confins
da terra até Sião! Quem são aqueles que, como nuvens e águias, voam para o
corpo - fonte de toda ressurreição, a fim de cultuar a
Mãe de Deus? Quem é a que sobe, na flor de sua alvura, toda bela, brilhante
como o sol? Que cantem as cítaras do Espírito, isto é, as línguas dos
apóstolos! Que ressoem os címbalos, isto é, os arautos eminentes da palavra de
Deus! Que esse vaso de eleição, Hieroteu, santificado
pelo Espírito Santo e pela união divina capacitado a sofrer as realidades
divinas, seja arrebatado do corpo, e em transportes de fervor entoe seus hinos!
Que todas as nações aplaudam e celebrem a Mãe de Deus! Que os anjos prestem
culto ao corpo mortal!
Filhas de Jerusalém, feitas cortejo da Rainha, e
virgens suas companheiras, ide com ela até o Esposo, levai-a à direita do
Senhor! Desce, ó Soberano, vem pagar à tua Mãe a dívida que ela merece por te
haver nutrido! Abre tuas mãos divinas e acolhe a alma de tua mãe, tu que sobre
a cruz entregaste o espírito às mãos do Pai! Dirige-lhe um suave apelo: vem, ó
formosa, ó bem-amada, mais resplandecente pela
virgindade do que o sol, tu me partilhaste teus bens, vem agora gozar junto de
mim o que te pertence!
Aproxima-te, ó Mãe, de teu Filhe,
aproxima-te e participa do poder régio daquele que, nascido de ti, contigo
viveu na pobreza! Ascende, ó Soberana, ascende! Já não vale a ordem dada a
Moisés: "Sobe e morre..." (Dn. 31,
48) Morre, sim, mas eleva-te pela própria morte!
Entrega tua alma às mãos de teu Filho e devolve à
terra o que é da terra, pois mesmo isso será carregado por ti.
Erguei vossos olhos, Povo de Deus, alçai vosso
olhar! Eis em Sião a arca do Senhor Deus dos exércitos, à qual vieram
pessoalmente prestar assistência os apóstolos, tributando seu derradeiro culto
ao corpo que foi princípio de vida e receptáculo de Deus. Imaterialmente e
invisivelmente os anjos o cercam com respeito, como servidores da Mãe de seu
Senhor. O próprio Senhor lá está, omnipresente, ele que tudo enche e abraça,
que na verdade não está em lugar algum porque nele tudo está como na causa que
tudo criou e tudo encerra.
Eis a Virgem, filha de Adão e Mãe de Deus: por causa
de Adão entrega seu corpo à terra, mas por causa de seu Filho eleva a alma aos
tabernáculos celestes! Santificada seja a Cidade santa, que acolhe mais essa
bênção eterna! Que os anjos precedam a passagem da divina morada e preparem seu
túmulo, que o fulgor do Espírito a decore! Preparai aromas para embalsamar o
corpo imaculado e repleto de delicioso perfume! Desça uma onda pura a fim de
aurir a bênção da fonte imaculada da bênção! Alegre-se a terra de receber o
corpo e exulte o espaço pela ascensão do espírito! Soprem as brisas, suaves
como o orvalho e cheias de graça! Que toda a criação celebre a subida da Mãe de
Deus: os grupos de jovens em sua alegria, a boca dos oradores em seus
panegíricos, o coração dos sábios em suas dissertações sobre essa maravilha, os
velhos de veneráveis cãs em suas contemplações. Que todas as criaturas se
associem nessa homenagem, que ainda assim não seria suficiente. Todos, pois,
deixemos em espírito este mundo com aquela que dele parte. Sim, todos, pelo
fervor do coração, desçamos com a que desce à sepultura e ali nos coloquemos.
Cantemos hinos sacros e nossas melodias se inspirem nas palavras: "Ave,
cheia de graça, o Senhor é contigo!" Permanece na alegria, tu que
foste predestinada a ser Mãe de Deus. Permanece na alegria, tu que foste eleita
antes dos séculos por um desígnio de Deus, germe divino da terra, habitação do
fogo celeste, obra-prima do Espírito Santo, fonte de água viva, paraíso da
árvore da vida, ramo vivo que portas o divino fruto, donde flúem o néctar e a
ambrosia, rio de aromas do Espírito, terra produtora da divina espiga, rosa
resplandecente da virgindade, donde emana o perfume da graça, lírio da veste
real, ovelha que geras o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo,
instrumento de nossa salvação, superior às potências angélicas, serva e Mãe!
Vinde, enfileiremo-nos em torno ao túmulo imaculado
para dali sorvermos a divina graça! Vinde, abracemos em espírito o corpo
virginal. Entremos no sepulcro e morramos nele, rejeitando as paixões da carne,
vivendo uma vida sem concupiscência e sem mácula. Escutemos os hinos divinos,
cantados imaterialmente pelos anjos. Entremos para adorar, aprendamos a
conhecer o mistério inaudito: como esse corpo foi elevado às alturas,
arrebatado ao céu, como a Virgem foi posta junto de seu Filho acima dos coros
angélicos, de sorte que nada se interpusesse entre Mãe e Filho.
Tal é, depois de outros dois, o terceiro discurso
que compus acerca de tua partida, ó Mãe de Deus, em honra e amor da Trindade,
cuja cooperadora foste, por benevolência do Pai e por virtude do Espírito,
quando recebeste o Verbo sem princípio, a Sabedoria omnipotente, a Força de
Deus. Aceita, pois, minha boa vontade, maior do que minha capacidade, e dá-me a
salvação, a libertação das paixões da alma, o alívio das doenças dos corpos, a
salvação das dificuldades, a vida de paz, a luz do Espírito. Inflama nosso amor
por teu Filho, regula nossa conduta sobre o que lhe apraz, a fim de que, na
posse da bem-aventurança do alto, e vendo-te refulgir com a glória de teu
Filho, façamos ressoar hinos sagrados, na eterna alegria, na assembleia dos que
celebram, em festa digna do Espírito, aquele que por ti opera nossa salvação, o
Cristo Filho de Deus e nosso Deus, a quem pertence a glória e o poder, com o
Pai sem princípio e o Espírito Santo e vivificador, agora e sempre pelos
séculos. Amem.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)
Última actualização deste Link em 07 de Abril de 2009