SÃO GREGÓRIO PALAMAS E A TRADIÇÃO DOS PADRES
Seguindo os SANTOS PADRES "…Era normal, na Igreja
primitiva, se introduzir afirmações doutrinais por frases como esta. O Decreto
de Calcedónia abre precisamente com estas palavras. O Sétimo
Concílio Ecuménico introduz sua decisão a respeito dos Santos
Ícones de maneira mais elaborada: "Seguindo o ensinamento
Divinamente inspirado dos Santos Padres e a Tradição
da Igreja Católica..." A didaskalia dos Padres é o formal e normativo
termo de referência.
Porém, isto era muito mais do que um simples
"apelo à Antiguidade." De facto, a Igreja sempre enfatizou a
permanência de sua fé através dos séculos, desde o princípio. Esta identidade,
desde os tempos apostólicos, é o sinal mais conspícuo e simbólico da fé
correcta — sempre a mesma. No entanto, Antiguidade de per si não é prova
adequada da verdadeira fé. Além disso, a mensagem Cristã foi obviamente uma
"novidade" chocante para o "mundo antigo," e, de facto, uma
chamada para uma radical "renovação." O "Velho" tinha
passado, e tudo tinha que ser "feito Novo." De outro lado, heresias
podiam também fazer apelo ao passado e invocar a autoridade de certas
"tradições." Na verdade, as heresias ficavam, com frequência, persistindo
no passado. Fórmulas arcaicas podem frequentemente ser perigosamente
enganadoras. Vincent de Lerins estava plenamente consciente deste perigo. Será
suficiente citar esta patética passagem dele: "E agora, que surpreendente
inversão de situação! Os autores da mesma opinião são julgados católicos, mas
os seguidores — heréticos; os mestres são absolvidos, os discípulos são
condenados; os escritores dos livros serão filhos do Reino, seus seguidores
irão para a Gehena" (Commonitorium,
capítulo 6). Vincent tinha em mente, por certo, São Cipriano e os Donatistas. O
próprio São
Cipriano enfrentou a mesma situação. "Antiguidade"
como tal pode acontecer ser simplesmente um inveterado prejuízo: "nam antiquitas sine veritate vetustas
erroris est
(Epístola 74). Quer dizer — Antiguidade sem verdade é um erro antigo, ou seja,
"velhos costumes" em si não garantem a verdade. "Verdade"
não é um simples "hábito".
A verdadeira tradição só é tradição da verdade, traditio veritatis. Esta tradição, segundo São Ireneu,
é baseada em, e assegurada por, aquele charisma
veritatis certum (carisma seguro da verdade), que
foi "depositado" na Igreja desde do inicio desta e que foi preservado
pelo ininterrupto ministério episcopal. "Tradição" na Igreja não é a
continuidade da memória humana, ou a permanência de ritos e hábitos. É uma
tradição viva — depositum juvenescens, na frase de São Ireneu. Consequentemente,
ela não pode ser considerada inter mortuas
regulas [entre regras mortas]. Finalmente, a tradição é a presença permanente
do Espírito Santo na Igreja, a continuidade do Divino direccionamento e
iluminação. A Igreja não é limitada pela "letra". Ao invés, ela é movida
constantemente pelo "Espírito". O mesmo Espírito, o Espírito de
Verdade, Que "falou pelos Profetas", que guiou os Apóstolos, ainda
está continuadamente guiando a Igreja na sua total compreensão e entendimento
da Divina verdade, de glória em glória.
"Seguindo os Santos
Padres"... Isto não é uma referência a alguma tradição
abstracta em fórmulas e proposições. É principalmente um apelo para um santo
testemunho. Na verdade, nós apelamos para os Apóstolos, e não simplesmente para
uma "Apostolicidade" abstracta. De maneira
similar nós nos referimos aos Padres. O testemunho dos Padres se refere,
intrínseca e integralmente, para a própria estrutura da crença Ortodoxa. A
Igreja está igualmente comprometida com o kerygma dos Apóstolos e com os dogmas
dos Padres. Devemos citar neste ponto um admirável hino antigo (provavelmente
da lavra de São romano o Melódio). "Preservando o kerygma dos apóstolos e
o dogma dos Padres, a Igreja selou a fé una e usando a túnica da verdade ela
forma justamente o brocado da teologia celeste e louva o grande mistério da
piedade".
A Mente dos
Padres
A Igreja é, de facto, Apostólica. Mas ela é também
"Patrística". Ela é, intrinsecamente, "a Igreja dos
Padres". Estas duas "posições" não podem ser separadas. Somente
por ser "Patrística" a Igreja é verdadeiramente
"Apostólica". O testemunho dos Padres é muito mais do que um simples
atributo histórico, uma voz do passado. Citemos um outro hino — do ofício dos
Três Hierarcas. "Pela palavra do conhecimento vós compusestes os dogmas
que os pescadores primeiro estabeleceram em simples palavras, com o
conhecimento dado pelo poder do Espírito, pois assim nossa simples piedade teve
que adquirir composição". Existem, como se fossem, dois estágios básicos
na composição na proclamação da fé Cristã. "Nossa fé simples teve que
adquirir composição". Existiu uma compulsão interna, uma lógica interior,
uma necessidade interior, nesta transição de kerygma para dogma. Na verdade, o
ensinamento dos Padres, e os dogmas da Igreja, são ainda a "simples
mensagem", que foi então liberada e depositada, de uma vez por todas,
pelos Apóstolos. Mas agora está, como se fosse, própria e perfeitamente
articulada. A pregação Apostólica é mantida viva na Igreja, não simplesmente
preservada. Neste sentido, o ensinamento dos Padres é uma categoria permanente
de existência Cristã, uma constante e definitiva medida do critério da fé
correcta. Os Padres não são somente testemunhas da fé antiga, testes antiquitatis.
Ao invés, eles são testemunhas da verdadeira fé, testes veritatis. A
"mente dos Padres" é um termo intrínseco de referência da teologia
Ortodoxa, não menos que as palavras da Santa Escritura, e na verdade, nunca
separada dela. Como foi dito muito bem, "a Igreja Católica de todos os
tempos não é meramente uma filha da Igreja dos Padres — ela é e permanece a
Igreja dos Padres".
O Carácter
Existencial da Teologia Patrística
A marca distintiva principal da Teologia Patrística
foi seu carácter "existencial", se nós podemos usar este neologismo
actual. Os Padres "teologizaram," como São Gregório de Nazianzeno coloca,
"na maneira dos Apóstolos, e não na maneira de Aristóteles" —
αλιευτικωςριστοτελικως
(Hom. 23, 12). Sua teologia era ainda uma
"mensagem", um kerygma. A teologia deles ainda era uma "teologia
kerigmática," ainda que ela, frequentemente,
fosse arranjada logicamente e suprida com argumentos intelectuais. As
referências definitivas eram ainda, segundo a visão da fé, ao conhecimento e
experiência espiritual. Separada da vida, a teologia Cristã não leva convicção,
e se separada da vida da fé, a teologia pode degenerar em dialéctica vazia,
numa vã polilogia, sem nenhuma consequência espiritual. A teologia Patrística
era enraizada existencialmente no decisivo comprometimento da fé. Não era uma
disciplina "auto-explanatória" que poderia ser apresentada argumentativamente,
isto é aristotelicamente, sem nenhum compromisso espiritual prévio. Na época da
disputa teológica e de debates incessantes, os grandes Padres Capadócios
protestaram formalmente contra o uso da dialéctica, dos "silogismos
Aristotélicos," e lutaram para referir a teologia de volta para a visão da
fé. A teologia Patrística só poderia ser "pregada" ou
"proclamada" — pregada do púlpito, proclamada também nas palavras das
orações e dos ritos sagrados, e assim manifestada na estrutura total da vida Cristã.
Teologia deste tipo não pode nunca ser separada da vida de oração e do
exercício das virtudes. "O clímax da pureza é o início da teologia",
como coloca São João Clímaco: τελος δε
αγνειας
υποθεσις
θεολογιας (Scala
Paradisi, grau 30).
De outro lado, teologia deste tipo é sempre
"propedêutica" já que seu último objectivo e propósito é procurar e
reconhecer o Mistério do Deus Vivo, e, de facto, ser testemunha disto, em
palavras e actos. "Teologia" não é um fim
O
Significado da "Época" dos Padres
Agora nós atingimos o ponto crucial. O nome
"Igreja dos Padres" é normalmente restrito aos professores ou
doutores da Igreja Antiga. E actualmente é assumido que a autoridade deles
depende de sua "antiguidade", de sua proximidade relativa da
"Igreja Primitiva", da "Época" inicial da Igreja. Já São
Jerónimo teve que contestar esta ideia. De facto, não houve decréscimo de
"autoridade" nem nenhum decréscimo de competência e conhecimento
espiritual, no curso da história Cristã. Na verdade, porém, esta ideia de
"decréscimo" afectou fortemente o pensamento teológico moderno,
porque é, com frequência, assumida a Igreja Primitiva como mais próxima da
fonte da verdade. Como admissão da nossa própria falha e inadequação, como um
acto de humilde auto-crítica, tal assunção é saudável e útil. Mas é perigoso
fazer disto um ponto de partida ou mesmo a origem da nossa "teologia da
história da Igreja", ou mesmo da nossa teologia da Igreja, porque a Época
dos Apóstolos deve reter esta posição única. No entanto, ela foi simplesmente
um começo. É largamente assumido que a "Época dos Padres" também
terminou, e de acordo com esta ideia ela é encarada como simplesmente uma
formação antiga, "antiquada" em certo sentido, e "arcaica".
O limite da Época Patrística é definido variadamente. É normal se olhar para São
João Damasceno como o "último Padre" no Oriente, e São
Gregório Dialoguista ou São
Isidoro de Sevilha como os "últimos" no Ocidente. Esta
periodização tem sido contestada correctamente nos últimos tempos. Não deveria,
por exemplo, ao menos São Teodoro o Estudita, ser incluído entre os
"Padres"? Mabillon sugeriu que São
Bernardo de Claraval, o Doutor melífluo, foi o
"último" dos Padres, e seguramente não desigual aos anteriores. Na
verdade, é mais do que uma questão de periodização. Do ponto de vista Ocidental
a "Época dos Padres" foi sucedida, e mesmo trocada pela "época
dos Eruditos" que foi um passo adiante essencial. Desde o surgimento do
Escolasticismo a "teologia Patrística" ficou antiquada, tornou-se
realmente "época passada", uma espécie de prelúdio arcaico. Este
ponto de vista, legitimado pelo Ocidente, tem sido, mui infelizmente, aceito
também por muitos no Oriente, cegamente e sem crítica. Coerentemente, tem-se
que enfrentar uma de duas alternativas. Ou se lamenta o "atraso" do
Oriente que nunca desenvolveu um Escolasticismo próprio. Ou se retirar para a
"Época Antiga", de maneira mais ou menos arqueológica, e praticar o
que tem sido descrito astutamente como a "teologia da repetição".
Esta última posição é, na verdade, simplesmente, uma forma peculiar de
"escolasticismo" imitativo.
Hoje em dia, não é raro que seja sugerido que,
provavelmente, "a Época dos Padres" tenha terminado muito antes de
São João Damasceno. Muito frequentemente, não se vai além da Época de
Justiniano, ou então do Conselho de Calcedónia. Não foi Leôncio de Bizâncio, já
o "primeiro dos Escolásticos"? Psicologicamente, esta atitude é
bastante compreensível, apesar de não poder ser justificada teologicamente. De
facto, os Padres do Quarto Século são muito mais impressionantes, e sua
grandeza única não pode ser negada. No entanto, a Igreja permaneceu
completamente viva também depois de Nicéia e Calcedónia. A actual super ênfase
nos "primeiros cinco séculos", distorce
perigosamente a visão teológica, e impede o correcto entendimento do próprio
dogma de Calcedónia. O decreto do Sexto Concílio Ecuménico é frequentemente
visto como um "apêndice" de Calcedónia, interessando só aos especialistas
teológicos, e a grande figura de São Máximo,
o Confessor, é quase que completamente ignorada. Coerentemente, o significado
teológico do Sétimo Concílio Ecuménico é perigosamente obscurecido. E se fica
pensando, porque a Festa da Ortodoxia deveria se relacionar com a comemoração
da vitória da Igreja sobre os Iconoclastas.
Não foi ela uma controvérsia simplesmente "ritualista"? Nós
frequentemente esquecemos que a famosa fórmula do Consensus
Quinquaesecularis [acordo dos cinco séculos], o
que significa até Calcedónia, foi uma fórmula Protestante, e reflecte uma
peculiar "teologia da história" Protestante. Foi uma fórmula
restritiva, apesar dela ter parecido bastante inclusiva para aqueles que
queriam se afastar da Época Apostólica. A questão é, no entanto, que a actual
fórmula Oriental dos "Sete
Concílios Ecuménicos", não é muito melhor, se ela tender,
como quase sempre o faz, a restringir ou limitar a autoridade espiritual da
Igreja aos oito primeiros séculos, como se a "Idade Dourada" do
Cristianismo tivesse passado, e nós estivéssemos agora, já provavelmente, na
Idade de Ferro, muito mais baixos na escala do vigor e autoridade espirituais.
Nosso pensamento teológico foi perigosamente afectado pelo padrão de
decaimento, adoptado pela interpretação da história Cristã no Ocidente desde a
Reforma. A plenitude da Igreja foi então interpretada de maneira estática, e a
atitude para com a Antiguidade tem sido, correspondentemente, distorcida e mal
construída. Finalmente, não faz diferença se nós restringimos a autoridade
normativa da Igreja a um, cinco ou oito séculos. Não deveria haver nenhuma
restrição. Consequentemente, não há espaço para qualquer "teologia de
repetição". A Igreja ainda é completamente autoritativa como ela foi nos
tempos passados, já que o Espírito de Verdade a vivifica agora não menos
efectivamente do que no passado.
O Legado da
Teologia Bizantina
Um dos resultados da nossa descuidada periodização é
que nós simplesmente ignoramos o legado da Teologia Bizantina. Estamos
preparados, agora mais do que há algumas décadas atrás, a admitir a autoridade
perene "dos Padres", especialmente a partir do renascimento dos
estudos Patrísticos no Ocidente. Mas ainda tendemos a limitar o escopo da
admissão, e obviamente "Teólogos Bizantinos" não são prontamente
contados entre os "Padres". Estamos inclinados a discriminar bastante
rigidamente entre "Patrística" — em um sentido mais ou menos estreito
— e "Bizantinismo". Ainda estamos inclinados a olhar o Bizantinismo
como uma consequência inferior da Época Patrística. Ainda temos dúvidas sobre a
relevância normativa para o pensamento teológico. Porém, a Teologia Bizantina
foi muito mais do que uma simples "repetição" da Teologia Patrística,
e nem o que foi novo nela foi de qualidade inferior em comparação com a
"Antiguidade Cristã". Na verdade, a Teologia Bizantina foi uma
continuação orgânica da Época Patrística. Houve qualquer interrupção? O ethos
da Igreja Ortodoxa Oriental foi alguma vez mudado, em algum ponto histórico ou
data, que, no entanto, nunca foi unanimemente identificado, de modo que os
últimos desenvolvimentos fossem de menor autoridade e importância, que qualquer
outro? Esta admissão parece estar silenciosamente implicada nos compromissos
restritivos dos Sete Concílios Ecuménicos. Então São Simeão o Novo Teólogo e
São Gregório Palamas são simplesmente deixados de fora, e os grandes Concílios
Hesicastas do século catorze são ignorados e esquecidos. Qual é a posição e
autoridade deles na Igreja?
Porém, de facto, São Simeão e São Gregório são ainda
mestres e inspiradores autoritativos de todos aqueles que, na Igreja
Ortodoxa, estão lutando pela perfeição, e estão vivendo a vida
de oração e contemplação, seja nas comunidades monásticas sobreviventes, ou na
solidão dos desertos, ou até mesmo no mundo. Estas pessoas fiéis não estão
cientes de nenhuma alegada "quebra" entre "Patrística" e
"Bizantinismo". A Filokalia,
esta grande enciclopédia da piedade Oriental, que inclui escritos de muitos
séculos, está, em nossos dias, crescentemente se tornando o manual de guia e
instrução para todos aqueles que estão desejosos de praticar a Ortodoxia em
nossa situação contemporânea. A autoridade do compilador da Filokalia São
Nicodemos da Santa Montanha, foi recentemente reconhecido e melhorado por sua
formal canonização na Igreja. Neste sentido, somos levados a dizer, "a
Época dos Padres" ainda continua na "Igreja Venerante". Não
deveria continuar também na nossa busca e estudo teológicos, pesquisas e
instrução? Não deveríamos recuperar a "mente dos Padres" também em
nosso pensamento e ensinamento teológico? Recuperá-la, de facto, não como uma
maneira ou pose arcaica, e não simplesmente como uma venerável relíquia, mas
como uma atitude existencial, como uma orientação espiritual. Somente desta
maneira pode a nossa teologia se reintegrar na plenitude de nossa existência
Cristã. Na é suficiente manter uma "Liturgia Bizantina", como
fazemos, restaurar a iconografia
Bizantina e a música Bizantina, como ainda estamos relutando
em fazer consistentemente, e praticar certas maneiras Bizantinas de devoção.
Tem-se que ir para as próprias raízes desta tradicional "piedade", e
recuperara a "mente Patrística". De outra forma poderemos estar em
perigo de ficarmos divididos internamente — como muitos em nosso meio estão na
verdade — entre as formas "tradicionais" de "piedade" e um
hábito muito não-tradicional de pensamento. É um perigo real. Como
"reverenciadores" nós estamos ainda na "tradição dos
Padres". Não deveríamos estar, consciente e declaradamente, na mesma tradição
também como "teólogos", como testemunhas e professores de Ortodoxia?
Poderemos manter nossa integridade de alguma outra forma?
São Gregório
Palamas e a Theosis
Todas estas considerações preliminares são altamente
relevantes para nosso propósito imediato. Qual é o legado teológico de São
Gregório Palamas? São Gregório não era um teólogo especulativo. Era um monge
e um bispo.
Ele não estava preocupado com problemas abstractos de filosofia, apesar dele
ser bem treinado neste campo também. Ele só se interessava por problemas da
existência Cristã. Como teólogo, ele era simplesmente um intérprete da
experiência espiritual da Igreja. Quase todos os seus escritos, excepto
provavelmente suas homilias, foram escritos ocasionais. Ele esteve lutando com
problemas do seu próprio tempo. E foi um tempo crítico, uma época de
controvérsia e ansiedade. Porém, foi também uma época de renovação espiritual.
São Gregório ficou suspeito de inovações subversivas
por parte de seus inimigos ainda na sua própria época. Esta acusação ainda é
mantida contra ele no Ocidente. Mas, no entanto, São Gregório estava
profundamente enraizado na tradição. Não é difícil rastrear a maioria de suas
maneiras de ver e motivos para trás até os Padres Capadócios e São Máximo o
Confessor, que era, por sinal, um dos mestres mais populares do pensamento e
devoção Bizantinos. Além disto, São Gregório também estava profundamente
informado sobre os escritos do Pseudo-Dinis. Ele estava enraizado na tradição.
Porém, de maneira nenhuma, era a sua teologia simplesmente uma "teologia
de repetição". Ela foi uma extensão criativa da tradição antiga. Seu
ponto-de-partida foi Vida em Cristo.
De todos os temas da teologia de São Gregório,
destaquemos somente um, o crucial, e o mais controverso. Qual é o carácter
básico da existência Cristã? O objectivo e propósito final da vida humana foi definido pela tradição Patrística como a
θεωσις [theosis, divinização]. O tema é bastante
ofensivo ao ouvido humano moderno. Ele não pode ser adequadamente traduzido em
nenhuma língua moderna, nem mesmo
Porém, o problema permanece: Como pode mesmo este
intercurso ser compatível com a Transcendência Divina? E este é o ponto
crucial. O homem realmente encontra Deus, verdadeiramente e de facto, nesta
vida presente de oração? Ou, não há mais do que um «actio
in distans»? A alegação
comum dos Padres do Oriente era que, na sua ascensão devocional, o homem, de
facto, encontra Deus e contempla a Sua eterna Glória. Porém, como é possível,
se Deus habita na "Sua luz inaproximável"? O paradoxo era
extremamente profundo na Teologia Oriental, que estava sempre comprometida com
a crença de que Deus era absolutamente incompreensível —
ακαταληπτος — e
incognoscível na Sua natureza ou essência. Esta convicção foi poderosamente
expressa pelos padres Capadócios, especialmente na sua luta contra Eunomius, e também por São
João Crisóstomo, em seus magníficos discursos.
Περι
Ακαταληπτου. Assim, se
Deus é absolutamente " inaproximável" em Sua essência, e de acordo
com Sua essência simplesmente não pode ser "comunicado", como pode,
de todo, a «theosis» ser possível? "Insulta-Se Deus se se procura
compreender Seu Ser essencial", diz João Crisóstomo. Já
São Gregório Palamas permanece na antiga tradição
neste ponto. Em Suas "energias" o Deus inaproximável aproxima-se do
homem. E este movimento Divino efectua encontros:
προοδος εις τα εξω,
na frase de São Máximo (Scholia in
De Div. Nom. 1: 5).
São Gregório começa com a distinção entre
"graça" e "essência": a Divina e Divinizadora iluminação e
graça não é a essência, mas a energia de Deus; [η
θεια και
θεοποιος
ελλαμψις και
χαρις ουκ
ουσια, αλλ’
ενεργεια εστι
Θεου; Capita Phys., Theol., etc., 68-9]. Esta distinção básica foi formalmente
aceite e elaborada nos Grandes Concílios de Constantinopla de 1341 e 1351.
Aqueles que negassem esta distinção eram anatematizados e excomungados. Os
anátemas de 1351 foram incluídos no rito do Domingo da Ortodoxia no Triódio. Os
Teólogos Ortodoxos foram obrigados por esta decisão. A essência de Deus é
absolutamente incomunicável [αμεθεκτη].
A fonte e poder da «theosis» humana não é a Divina
essência, mas a "Graça de Deus": a energia divinizadora, por
participação daquele que é divinizado, é uma graça divina, mas de modo algum a
essência de Deus; [θεοποιος
ενεργεια, ης τα
μετεχοντα θεουνται,
θεια τις εστι
χαρις, αλλ’ ουχ η
φυσις του Θεου ibid. 92-3]. Charis
[χαρις] não é idêntica com a ousia
[ουσια]. É a Divina e incriada Graça e Energia;
[θεια και
ακτιστος χαρις
και ενεργεια ibid 69]. Esta distinção, no entanto, não implica em ou
efectua divisão ou separação. Nem é um simples "acidente",
ουτε
συμβεβηκοτος (ibid., 127). As Energias "procedem" de Deus e
manifestam Seu próprio Ser. O termo
προιεναι [proienai,
proceder] simplesmente sugere
διακρισιν [diakrisin,
distinção], mas não uma divisão: a graça do Espírito é diferente da Substância,
porém não é separada Dela; [ει και
διενηνοχε της
φυσεως, ου
διασπαται η
του Πνευματος
χαρις; Theophan, p. 940].
Na verdade todo ensinamento teológico de São
Gregório pressupõe a acção do Deus Pessoal. Deus Se move para o homem e o
abraça por Sua própria "graça" ou "acção", sem deixar
aquela luz inaproximável [φος απροσιτον],
na qual Ele habita eternamente. O propósito definitivo da teologia de São
Gregório foi defender a experiência Cristã. Salvação é mais do que perdão. É
uma genuína renovação do homem. E esta renovação é efectuada não por descarga
ou liberação, de certas energias naturais implicadas no próprio ser criado do
homem, mas pelas "energias" do próprio Deus, que ai encontra e
envolve o homem, e o admite em comunhão consigo. De facto, o ensinamento de São
Gregório afecta o sistema todo de teologia, o corpo todo da Doutrina Cristã.
Ele começa com a clara distinção entre "natureza" e
"vontade" de Deus. Esta distinção também era característica da
tradição Oriental, ao menos desde Santo Atanásio. Neste ponto pode-se
perguntar: esta distinção é compatível com a "simplicidade de Deus"?
Não deveríamos ver todas estas distinções como meras conjecturas lógicas,
necessárias para nós, mas definitivamente sem nenhum significado ontológico? De
facto, São Gregório foi atacado por seus oponentes precisamente deste
ponto-de-vista. O Ser de Deus é simples, e Nele, inclusive, todos os atributos
coincidem. Já Santo Agostinho divergiu neste ponto da tradição do Oriente. Sob
as pressuposições de Santo Agostinho o ensinamento de São Gregório é
inaceitável e absurdo. O próprio São Gregório antecipou a abrangência das implicações
da sua distinção básica. Se não se aceita ela, ele argumentou, então seria
impossível distinguir claramente entre a "geração" do Filho e a
"criação" do mundo, sendo ambos actos da essência, e isto conduziria
a uma completa confusão na Doutrina Trinitária. São Gregório foi bastante
formal neste ponto.
Se, de acordo com os oponentes delirantes e com
aqueles que concordam com eles, a Divina energia não difere de modo algum da
Divina essência, então o acto de criar, que pertence à vontade, não diferirá de
modo algum da geração (γενναν) e da processão
(εκορευειν), que pertence à
essência. Se criar não é diferente de geração e processão, então as criaturas
não diferenciariam de maneira nenhuma do Gerado
(γεννηματος) e do Projectado
(οβληματος). E se este é o caso,
de acordo com eles, então ambos, o Gerado e o Projectado não seriam, de modo
algum, diferentes das criaturas, e as criaturas seriam tanto os gerados
(γεννηματα) quanto os projectados
(ροβληματα) de Deus Pai, e a
criação seria deificada e Deus estaria revestido de criaturas. Por esta razão o
venerável Cirilo, mostrando a diferença entre a essência e a energia de Deus,
diz que a geração pertence à Divina natureza, enquanto a criação pertence às
Suas Divinas energias. Isto ele
mostra claramente dizendo: "natureza e energia não são o mesmo". Se a
Divina essência de modo algum difere das Divinas energias, então gerar
(γενναν) e projectar
(εκρευειν) nγo
tem diferença com criar (οιειν). Deus o Pai cria pelo
Filho e no Espírito Santo. Então Ele também gera e projecta pelo Filho e no
Espírito Santo, de acordo com a opinião dos oponentes e daqueles que concordam
com eles (Capita 96 e 97).
São Gregório cita São Cirilo de Alexandria. Mas São
Cirilo, neste ponto, estava simplesmente repetindo Santo Atanásio. Este, em sua
refutação do Arianismo, enfatizou formalmente a diferença entre
ουσια [essência] e φυσις
[substância], de um lado e a βουλησις
(vontade) do outro. Deus existe, e então Ele também age. Há uma certa
"necessidade" no Ser Divino, na verdade não uma necessidade de
compulsão, e não «fatum», mas uma necessidade do Ser
Foi recentemente sugerido que a teologia de São
Gregório, deveria ser descrita, em termos modernos, como uma "teologia
existencialista". Porém, ela difere radicalmente dos conceitos modernos
que são actualmente cunhados com este rótulo. Na verdade, de toda forma, São
Gregório foi definitivamente oposto a todos os tipos de "teologias
essencialistas" que falham em considerar a liberdade de Deus, o dinamismo
da vontade de Deus, a realidade da acção Divina. São Gregório rastrearia sua
tendência para trás até Orígenes. Esta era a situação difícil da metafísica
impessoal grega. Se há qualquer espaço para uma metafísica de todo Cristã, ela tem
que ser uma metafísica de pessoas. O ponto inicial da teologia de São Gregório
foi a história da salvação: em escala maior, a história das Escrituras, que
consiste
No nosso tempo, nós estamos chegando cada vez mais à
convicção de que a "teologia de factos" é a única Teologia Ortodoxa
sã. Ela é Escriturística. Ela é Patrística. Ela está em completa conformidade
com a mente da Igreja. Em relação a isto, nós devemos encarar São Gregório
Palamas como nosso guia e professor, em nosso esforço por teologizar do
ponto-de-vista do coração da Igreja.
Notas Finais
Tem sido sugerido recentemente que os Gnósticos
foram, de facto, os primeiros a invocar formalmente a autoridade de uma
"Tradição Apostólica", e que foi este uso por eles que moveu São
Irineu a elaborar seu próprio conceito de tradição. Em todo caso, os Gnósticos
costumavam se referir à «Tradição».
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)
Última actualização deste Link em 07 de Abril de 2009