DIÁLOGO SOBRE A
ENCARNAÇÃO
São Cirilo de
Alexandria (+ 444)
Rejeitemos todos os disparates, fábulas
inconsistentes, falsas opiniões, ilusórias frases pomposas. Guardemos distância
de tudo que é nocivo, mesmo que os adversários nos ensurdeçam com seus
discursos astutos ou agressivos. Porque o mistério divino “não consiste em
discursos persuasivos da sabedoria humana, mas na manifestação do
Espírito".
O Unigénito, que conforme as Escrituras era Deus e
Senhor de todas as coisas, revelou-se a nós. Foi visto sobre a terra e iluminou
os que jaziam nas trevas, fazendo-se homem. Não só pelas aparências: não se
pense assim, é loucura pensá-lo e dizê-lo! Nem tampouco porque se tivesse
tornado carne mediante uma mudança ou transformação: o Verbo é imutável, ele
permanece eternamente o mesmo! Nem porque sua existência fosse contemporânea à
da carne: ele é o Autor dos séculos! Nem porque, como pura palavra (sem
subsistência) se tivesse tornado homem: é ele o preexistente, que chama as
coisas a existirem e nascerem! É ele a Vida, procedente da Vida, que é Deus
Pai, o qual, como sabemos, o é na realidade, existe em própria hipóstase. Nem
simplesmente se revestiu de uma carne privada de alma racional: foi
verdadeiramente gerado por uma mulher, mostrou-se homem, assumindo a forma de
servo, ele, o Deus Verbo, co-eterno e coexistente com o Pai; e assim como é
perfeito em sua divindade, assim o é na sua humanidade, constituindo um só Cristo,
Senhor e Filho, não apenas por justaposição da divindade e da carne, mas pela
conexão paradoxal de dois elementos completos, a humanidade e a divindade, num
único e mesmo ser.
- Quem, pois, foi gerado pela Santa
Virgem? O homem ou o Verbo procedente de Deus?
- Eis aí o erro, o pecado, contra todas as
conveniências e contra a verdade! Não me vás dividir ou separar o Emanuel em um
homem e um Deus Verbo, não mo faças um ser de dupla personalidade. Porque senão
estaremos incorrendo numa afirmação condenada pela Sagrada Escritura, não
estaremos pensando correctamente. Eis, na verdade, o que diz um dos discípulos
de Cristo: "Quanto a vós, caríssimos, lembrai-vos do que foi predito pelos
apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, quando vos falavam: nos últimos tempos
virão impostores, que viverão segundo suas ímpias paixões, homens que semeiam a
discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito”
- Então não se deve introduzir divisão alguma?
- Não. E, sobretudo não se devem afirmar dois seres
após a união, pensando cada um em separado. É preciso reconhecer que a mente
considera certa diferença entre as naturezas: a divindade e a humanidade não
são, seguramente, a mesma coisa; mas ao mesmo tempo que tais conceitos, há de
se admitir a fusão das duas numa unidade.
Assim, ele nasceu de Deus Pai enquanto Deus, da
Virgem enquanto homem. Esplendor derivado do Pai, acima de toda palavra e de
todo pensamento, o Verbo é dito também gerado por uma mulher, pois, descendo à
humanidade, tornou-se o que não era; não para ficar nesse aniquilamento, mas
para que o creiamos Deus, mesmo quando se manifestou na terra sob uma forma
como a nossa; não simplesmente habitando no homem, mas tornando-se, ele mesmo,
homem por natureza, e conservando sua própria glória. Assim, esses dois
elementos tão distantes de qualquer consubstancialidade, separados por
incomensurável diferença, a humanidade e a divindade, Paulo os vê unidos num
só, em razão da Economia, indicando que dos dois se constituiu um só Cristo,
Filho de Deus: "Paulo - disse ele - servo do
Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, segregado para o Evangelho de Deus,
outrora prometido pelos profetas nas Santas Escrituras a respeito de seu Filho,
nascido, segundo a carne, da semente de David, estabelecido em seu poder de
Filho de Deus, segundo o Espírito de santidade"
Veja-se como ele se diz "segregado para o
Evangelho de Deus", embora escreva também: "Não pregamos a nós, mas a
Jesus, Cristo e Senhor" , e ainda: "Não quis
saber nada mais entre vós senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado".
Ora, ao mesmo tempo que designando-o como Filho de
Deus, Paulo diz também que Cristo nasceu da semente de David e foi estabelecido
Filho de Deus. Como - diz-me - é Deus o que nasceu da
semente de David? O Filho anterior aos séculos, eterno enquanto nascido de Deus
- pode ser estabelecido filho de Deus, como se de
pouco tivesse vindo à existência? Na verdade, ele mesmo disse de si: "O
Senhor me falou: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei", e no entanto a
palavra "hoje" nos indica o momento presente, não o passado.
- Isso não deixou de me embaraçar muito, e diria que
outros também tiveram dificuldades para compreendê-lo.
- Para os que separam e dividem (o Cristo), há de
que se embaraçarem, com efeito; mas para os que afirmam a unidade no Emanuel, é
fácil o conhecimento autêntico dos sagrados
dogmas. O Filho co eterno a aquele que o gerou, e
anterior aos séculos, quando desceu à natureza humana -
sem abandonar sua qualidade de Deus, mas acrescentando-lhe o elemento humano -
pode na verdade ser concebido como oriundo da semente de David e ter um
nascimento recente. Pois o que se lhe acrescentou não lhe era estranho, e sim
próprio; assim, foi computado como um consigo, exactamente como no caso do
composto humano, feito de elementos naturalmente desiguais (refiro-me à alma e
ao corpo) e que no entanto fazem resultar um único homem. Assim como a carne
empresta seu nome ao vivente inteiro, ou a alma também pode designá-lo, eis o
que acontece
- Não estou seguindo bastante bem; gostaria de uma
explicação mais clara.
- Nosso Senhor Jesus Cristo disse, dirigindo-se aos
judeus: "Se fosseis os filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão, em
vez de procurar matar-me - a mim que vos disse a
verdade. Isso Abraão não fez".
Paulo, por sua vez, escreve: "Foi ele que,
nos dias de sua vida mortal, ofereceu preces e súplicas, acompanhadas de um
grande brado e de lágrimas, àquele que o poderia salvar da morte, e foi ouvido
por sua reverência. Embora Filho, aprendeu pelo sofrimento o que significa
obedecer".
Diremos, então, que Cristo é puro homem, em nada
superior ao que nós somos?
- Não, não se diga assim!
- Ele, a sabedoria e o poder de Deus, admitiremos
que tenha descido a tal grau de fraqueza a ponto de temer a morte e a ponto de
suplicar ao Pai a salvação? Tiraremos ao Emanuel o privilégio de ser a Vida,
por natureza? Ou estaremos falando correctamente ao reportar à humanidade e à
limitação da natureza semelhante à nossa as expressões menos honrosas,
percebendo ao mesmo tempo a glória sobrenatural que lhe vem dos traços de sua
divindade, compreendendo que o mesmo é, a uma vez, Deus e homem, ou antes, Deus
feito homem?
- Como assim, diz-me?
- Venha testemunhar entre nós o ilustre Paulo, de
quem são estas palavras: "É da sabedoria que falamos aos perfeitos, não
de uma sabedoria deste mundo nem dos príncipes deste mundo, condenados a
perecer. Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que nenhum dos
príncipes deste mundo conheceu. Porque se a tivessem conhecido não teriam
crucificado ao Senhor da glória". E ainda: "Esplendor da
(divina) glória e figura da (divina) substância, ele mantém o universo com o
poder de sua palavra. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está
sentado à direita da Majestade divina no mais alto dos céus, tão sublimado
acima dos anjos, quanto excede o deles o nome que herdou". De facto,
ser e chamar-se "Senhor da glória" não está muito acima e além de
toda criatura, sujeita à mudança? E omito o que se refere à espécie humana, que
é bem menos importante: são aqui mencionados os anjos, as potestades, os
tronos, as dominações, são mencionados até os sublimes serafins,
reconhecendo-se que estão muito aquém desse sublime Esplendor, o que é claro ao
menos para quem não traz o espírito corrompido. Tais privilégios,
verdadeiramente extraordinários, são apanágio da natureza que reina sobre o
universo.
Ora, como o Crucificado poderia tornar-se Senhor da
glória? O Esplendor do Pai, a imagem de sua substância, o que sustenta o
universo por sua palavra poderosa, ei-lo dito feito superior aos anjos: penso
que só porque assumira antes uma condição inferior à deles, aparecendo como
homem. Está escrito, com efeito: "aquele que foi rebaixado um instante
sob os anjos, Jesus, nós o vemos coroado de glória e de honra, por causa da
morte que sofreu".
Apartaremos então o Verbo, nascido de Deus Pai, da
transcendência que lhe cabe por sua essência, da exacta semelhança com esse
Pai, quando o vemos inferior em glória aos anjos, na situação humilde que lhe
trouxe a Economia?
- Não, por certo. Não penso que se deva separar
completamente o Verbo de Deus das fraquezas humanas após sua união com a carne,
nem despojar da divina glória o elemento humano, se se
julga e se confessa estar este no Cristo. Alguns perguntarão, contudo, bem o
sabes: mas quem é então Jesus Cristo? O homem nascido da Virgem ou o Verbo
nascido de Deus?
- Francamente, é tolice estender-nos inutilmente na
resposta a um vão palavreado. Contento-me em dizer que é perigoso e culpável
separar em dois, pondo cada um à parte, o homem e o Verbo: a Economia não o
admite, a Escritura inspirada clama que Cristo é um. Quanto a mim, digo que nem
o Verbo divino sem a humanidade, nem o templo nascido da mulher, enquanto não
está unido ao Verbo, devem ser chamados Jesus Cristo. Por Cristo se entende o
Verbo procedente de Deus, unido à humanidade. Superior à humanidade enquanto
Deus, por natureza, e Filho. Inferiorizado à glória digna de Deus, enquanto
homem. Por isso, ora disse ele: "quem me viu, viu o Pai", "eu e
o Pai somos um"; ora disse, ao contrário: "meu Pai é maior do que eu".
Não é menor do que o Pai enquanto lhe é idêntico em substância, é seu igual sob
todos os aspectos, mas se diz menor em razão do que tem de humano. As Sagradas
Escrituras o pregam também assim, ora como inteiramente homem, sem mencionar
sua divindade, ora como Deus, sem nada dizer de sua humanidade. Não erram, por
causa da conjunção dos dois elementos na unidade.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)
Última actualização deste Link em 07 de Abril de 2009