DEIFICAÇÃO NA TEOLOGIA, ESPIRITUALIDADE
E LITURGIA
CRISTÃ-ORIENTAL
O Plano da
Santíssima Trindade
Na
teologia cristã oriental, o fim último do homem é a união com Deus ou
deificação, a "theosis" dos Padres,
ou seja, a transformação, o estado deificado da criatura humana. O
desenvolvimento das lutas dogmáticas mantidas pela Igreja no correr dos séculos
de sua história teve como intuito salvaguardar a possibilidade de alcançar esta
plenitude de união mística: a deificação é o fim universal. “Deus se fez
homem, para que o homem pudesse tornar-se deus. Isto quer dizer entrar na união
perfeita com Deus, na própria vida da Santíssima Trindade, tornar-se
participantes da natureza divina” (cf. 2 Pd. 1,
4).
Deus é ao mesmo tempo transcendente e participável.
Se pudéssemos encontrar-nos unidos à essência de Deus, não seríamos mais o que
somos, mas seríamos também Deus por natureza. A transformação e assimilação
ocorrem, portanto participando da natureza de Deus. "Deus é sempre não
participado em sua essência incomunicável, e é participado naquilo que Ele nos
comunica" (São Máximo,
o Confessor).
"Deus-Trindade vive uma felicidade e bem-aventurança
perfeita. Mas como, na sua clemência e no seu amor infinito, Ele deseja
comunicar sua bem-aventurança, cria participantes bem-aventurados em sua
glória, e daqueles que dele a recebem e dela são feitos partícipes
ela retorna até Ele, e nesta circunvolução perpétua consiste a vida
bem-aventurada e a felicidade das criaturas”.
São
Máximo afirma: "Deus nos criou, produziu os seres existentes, todos eles,
trazendo à existência aquilo que não existia, a fim de que nos tornássemos
participantes da natureza divina, para que entrássemos na eternidade, para que
pudéssemos tornar-nos semelhantes a Ele, sendo por graça deificados”.
A encarnação e a deificação se correspondem e se
implicam reciprocamente. Deus desce ao mundo, toma-se homem e o homem se eleva
até a plenitude divina, toma-se deus. Esta união das duas naturezas, a divina e
a humana, foi determinada pelo plano eterno de Deus, é o fim último para o qual
foi criado o mundo. E por isso, em Cristo, Deus se fez homem.
A causa da nossa divinização é a incorporação a
Cristo, Deus Encarnado. Afirmam-no claramente Santo lrineu, Santo
Atanásio, Santo
Hilário: "Todo corpo humano remido está no Cristo para
ressuscitar, porque n'Ele a nossa carne nasceu com
Deus". E em Cristo o nosso corpo será divinizado e revivificado se
tomará templo do Espírito Santo, templo santificado na terra pela Eucaristia,
alimento da vida eterna e divina.
Segundo
Santo Irineu, já a Encarnação tem como fim a
koinonia-comunhão, adopção divina, deificação: “Deus se fez Homem, para que os
homens possam divinizar-se”. Portanto Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro
homem. “Como é que o homem poderia tornar-se deus, se Deus não se houvesse
feito homem? Deus-Filho se fez aquilo que somos, para que nós viéssemos a ser
aquilo que Ele é".
Santo Atanásio volta a insistir no mesmo tema: o
homem já era para tal fim criado à imagem de Deus, e por isso Deus se encarnou:
"O homem não deveria ser divinizado se Aquele que se encarnou não fosse o
Verbo de Deus". Põe-se por isso o acento na geração divina e não tanto na
remissão dos pecados. E para poder realizá-la, Cristo nos liberta previamente
do pecado.
Para São Gregório Nazianzeno: "Em Jesus nós nos
tornamos divinos”, e ele repete o que já afirmara São Basílio: "O homem é
uma criatura, mas recebeu de Deus a ordem de tomar-se deus.
E, São
Cirilo de Alexandria prossegue: "Se Deus se tornou um
homem, o homem tornou-se deus".
Segundo
os padres orientais, com a encarnação operou-se uma total revivificação da
natureza assumida pelo Verbo, que torna possível a co-naturalidade do Filho de
Deus com a natureza humana de seus irmãos e assenta as premissas da deificação
participada para toda criatura salva. Mas para que esta vida divina, esta
"medicina da imortalidade" pudesse circular no corpo místico de
Cristo, era necessária a acção libertadora do pecado: o amor até a morte na
Cruz opera este poder de regeneração. A Paixão é, porém sempre contemplada e
vista como voltada para a Ressurreição. E por isso a Igreja Bizantina celebra
com alegria e triunfalmente as festas da Epifania (manifestação do Senhor), da
Transfiguração e da Páscoa, sublinhando a infinita majestade gloriosa do Deus-homem ressuscitado. E mesmo crucificado, o Cristo é
representado como Rei. Na tradição oriental, a festa da Transfiguração é a
chave para se compreender a humanidade de Cristo, "em quem habita
corporalmente toda a plenitude da divindade" (CI 2, 9), e é o fim último
da humanidade.
Já
antecipada
É
o Espírito Santo que opera a deificação: "Nós bebemos o Cristo,
dessedentados pelo Espírito. "É pelo Espírito Santo que ocorre a
espiritualização, o incêndio dos corações, a deificação". "É o
Espírito Santo que inflama a alma sem cessar e a une a Deus". “É porque um
só Deus age e habita nos espíritos individuais, que todos os cristãos se acham
fraternalmente unidos em corpo místico no seio da Igreja Una. Princípio activo
por natureza, o Espírito Santo, que é uma espécie de energia universal, tem uma
particular natureza ígnea, que circula no cosmos e lhe dá vida. No mundo
espiritual, esta Força-Fogo derrama sobre as criaturas as chamas da graça
deificante. Flamejando línguas de fogo que vão pousar sobre a fronte os
eleitos”, circundando-os de glória, a graça com os seus dons múltiplos sempre
dada pelo Espírito Santo, doador por excelência.
"O Espírito Santo derrama sobre a alma a chuva
de ouro dos seus carismas e faz da criatura, como cera que se funde santificada
pela sua força e graça incandescente, o reflexo vivo do esplendor do Verbo,
revestindo-a da glória que não é outra coisa senão a divindade de Cristo-Deus. A alma pneumatófora
é cristificada”. O canal habitual, através do qual
vem até nós o Espírito Santo, são os Santos Sacramentos.
Através dos Santos
Sacramentos (sobretudo a Eucaristia),
a Igreja surge como o lugar dessa transformação espiritual que atesta a vida de
Deus na realidade humana. O Espírito nos conduz ao Pai através de Jesus Cristo,
fazendo-nos "com-corpóreos" com Ele (Ef. 3,
6), imagem claramente eucarística. São Cirilo de Jerusalém sublinha
vigorosamente este facto: os participantes na Eucaristia tomam-se
"com-carnais e consanguíneas" de Jesus Cristo. O homem é verdadeiramente
cristificado-verbificado: "O pó da terra recebe a dignidade régia,
transforma-se em substância do Rei”. O pão e o vinho transformam-se
verdadeiramente no Corpo e no Sangue divino de Cristo na Santíssima Eucaristia;
da mesma forma o homem, pela acção do Espírito Santo, é feito participante da
natureza deificada de Cristo. Assim, "consumindo a carne do Esposo e o seu
sangue nós entramos em comunhão nupcial com Ele. E mais: “A Santíssima
Eucaristia transforma em Si mesma e assemelha, de tal modo que os fiéis podem
ser chamados deuses, pois Deus todo inteiro os enche inteiramente”.
A Santíssima Eucaristia é um "fermento de
imortalidade" e poder de ressurreição que se une à natureza humana,
penetra-a e a transfigura. A vida espiritual é tomada de consciência sempre
mais adequada da vida sacramental que nos une a Cristo e nos deifica.
Nicolau
Cabasilas (séc. XIV), em seu tratado Vida em Cristo, constrói a sua teologia
tomando como base os Santos Sacramentos. Entre as outras obras, a de Cabasilas
nos parece particularmente significativa, pois ele é um leigo e insiste (L. VI,
c. 1; c. 4): ao propor a deificação, está escrevendo para os leigos.
Eis o pensamento de N. Cabasilas: "O Cristo se
une ao homem mediante os Sacramentos, por estes nos tomamos com-corpóreos com
Ele, participantes de sua vida, membros seus. É inefável o amor de Deus pelos
homens, amor que o levou a amá-los tanto e a saciá-los com dons imensos. Que
sinal de bondade e amor poderia ser maior?"
Privilégio incomparável, novidade inaudita! Os
homens tomam-se deuses e filhos de Deus, o pó da terra é elevado até a natureza
divina. É uma obra que supera as outras obras de Deus vencendo-as em grandeza e
beleza. A obra de Deus é sempre participação de um bem. Este é o móvel pelo
qual Deus faz tudo. A obra suprema e mais bela da bondade, o extremo limite da
condescendência é aquela com a qual Deus participa o máximo bem, o maior que
poderia jamais conceder. Tal é precisamente a economia disposta em favor dos
homens: por ela Deus não comunica simplesmente um bem
qualquer, mas derrama a divindade, a riqueza de sua natureza. Deus participa
sem inveja os seus bens e a comunhão de sua bem-aventurança”.
"Nós saímos da água baptismal sem pecado,
conformados com o Cristo. A seguir, o Crisma leva à perfeição o ser já nascido
infundindo-lhe a energia do Espírito Santo. Enfim comendo o pão santíssimo e
bebendo o diviníssimo cálice, comungamos da mesma carne e do mesmo sangue que o
Salvador assumiu. A Santíssima Eucaristia é o pão da vida. Pela Santíssima
Eucaristia vivemos a sua mesma vida, no século futuro seremos co-herdeiros com
Ele dos mesmos bens, com Ele reinaremos no mesmo Reino, a não ser que nós
mesmos fiquemos cegos e voluntariamente lancemos fora a veste real. A nossa contribuição
consiste em não jogar fora a coroa que o próprio Deus preparou para nós a preço
de muitas canseiras e suores" (L. 1, c. 6).
"Jesus Cristo com o lavacro
livra-nos da lama e infunde-nos a sua forma, com a unção faz-nos activos com as
energias do Espírito, à mesa dá em alimento o próprio corpo, transforma-nos
inteiramente e nos muda na própria substância. O barro recebe a forma régia,
torna-se o próprio corpo do Rei: é impossível pensar em alguma coisa mais
feliz! Recebemos na alma não apenas um raio de luz, mas o próprio sol, de sorte
que somos habitados por Ele e nos tornamos um só espírito com Ele (1 Cor. 6,
17), e a alma e o corpo de todas as potências se tornam espirituais, porque a
alma se mistura com a alma, o corpo com o corpo, o sangue com o sangue"
(L. 4, c. 1).
"Ele colocou em nossa natureza toda a sua
riqueza, porque n'Ele habita corporalmente toda a
plenitude da divindade (CI 2, 9), somos corpo de Cristo e membros seus, cada um
por sua parte (l Cor. 12, 27). Sendo Deus, Ele desce à terra, e na terra
leva-nos para o alto. Faz-se homem, e o homem é deificado. Mas, sobretudo
naquilo que nos comunica, Ele mostra o seu amor. Grande Mistério! - diz São
Paulo exaltando esta união (Ef. 5, 32). São estas as
núpcias, tão exaltadas, nas quais o Esposo santíssimo conduz como esposa a
Igreja, só por isso entre todos os mistérios somos carne de sua carne e ossos
dos seus ossos. E como os membros Vivem em virtude da cabeça e do coração, da
mesma forma quem me come, diz o Senhor, também ele viverá graças a mim" (Jo. 6, 57) (IV, 3).
"Assimilados
a Cristo, em virtude da Santíssima Eucaristia, seremos arrebatados ao encontro
dele quando se manifestar na sua glória. Qual é o homem celeste, tais são
também os celestiais” (I Cor. 15, 48). Isto não vale só para a alma, mas também
para o corpo: "a nossa vida está oculta com Cristo em Deus" (cf. CI
3, 3). Quando o Cristo aparecer, também este pó da terra mostrará a sua beleza;
então aparecerá como parte do fulgor de Cristo: os justos brilharão como o sol no
reino do Pai (Mt. 13, 43; Cl.
3, 3). Ele reunirá de todas as partes os seus membros, será Deus no meio dos
deuses, belíssimo regente de um coro belíssimo. Por isso, nós, que ainda
habitamos nesta tenda, suspiramos (cf. 2 Cor. 5, 4)" (IV, 8).
"E como o amor humano quando transborda e se
torna mais forte arrebata os amantes e os deixa fora de si, o mesmo acontece
com o amor de Deus pelos homens: esvaziou-o de Si (cf. Fi.
2, 7). Duas características revelam o amante e o levam ao triunfo: a primeira
consiste em fazer bem ao amado em tudo aquilo que é possível; a segunda, em
escolher sofrer por ele e padecer coisas terríveis, se necessário. Esta última
prova de amor, de longe muito superior à primeira, não podia, porém convir a
Deus que é impassível. E, no entanto, não devia ficar para sempre oculto o quão
imensamente Deus nos amava: por isso, para dar-nos experimentar o seu grande
amor e mostrar que nos ama com amor sem limites, Deus inventa o seu
aniquilamento. Encarnando-se, realiza-o e age de modo a tomar-se capaz de sofrer
e padecer coisas terríveis. Assim, com tudo aquilo que sofre, Deus convence os
homens de seu extraordinário amor por eles e de novo os atrai a Si. Com essas
chagas conquistou os destinatários do seu amor. Na Verdade, pelos servos foi
crucificado e teve o lado traspassado, essas feridas são um enfeite régio, um
raio de sua glória. O que poderia igualar este amor? Que mãe seria tão
carinhosa? Que pai jamais amou a tal ponto os seus filhos? Quem alguma vez
concebeu amor tão louco?"
A troca do Senhor com os servos não chega apenas a
este ponto, mas Ele se nos oferece inteiramente: somos templos do Deus Vivo
(cf. 1 Cor. 3, 16), estes nossos membros são membros de Cristo. Por isso,
quando o Senhor se manifestar será circundado pelos seus servos bons, e no seu
resplendor também eles resplandecerão. Que espectáculo! Ver uma multidão
incontável de luzes celebrar uma festa solene sem igual: o redor de Deus um
povo de deuses, belos cercando o Belo, familiares em tomo do seu Senhor, que
não é invejoso de associar os seus servos ao seu resplendor e não considera
diminuição de sua glória assumir muitos no seu Reino. Ali, aqueles que imitaram
o Cristo na sua imolação hão de mostrar também nos seus corpos luminosos as
cicatrizes e levar triunfalmente os sinais das chagas como títulos de glória:
uma coroa de heróis em tomo do Rei que, deixando-se imolar, triunfou (Ap. 5, 5)" (VI, 2).
"O
nosso amor nasce dos pensamentos que têm como objecto o Cristo e o seu amor
pelos homens. É muito conveniente conservar esses pensamentos na memória, ora
meditá-los e reflectir consigo mesmo, ora fazer deles delícia de discurso na
conversação, de sorte que esses pensamentos se imprimam na alma e se apoderem
completamente do coração. O fogo não pode agir sobre os objectos se o contacto não
for contínuo". 'Em minha reflexão ateou-se o fogo'" (Sal. 38, 4).
Por isso, é mister aplicar a mente a esses
mistérios. Todos podem praticar a meditação, mesmo ocupando-se nas mais
diversas profissões, mesmo ficando
Recordação de Cristo reavivada pela contínua
invocação do seu Nome. Invocá-lo com a língua, com a vontade, com os
pensamentos, para aplicar o remédio a todas as faculdades com as quais pecamos,
"até alcançar a máxima das alegrias, que consiste em amar a Deus por Ele
mesmo" (VI, 11).
"Nos santos o poder da vontade e do desejo se
resolve totalmente
A espiritualidade crístico-sacramental, que teve um
intérprete tão feliz
A
liturgia exprime no rito religioso a festa do Paraíso que eternamente se vive
no amor, na adoração, no canto, no louvor e na glória de Deus. As celebrações da
Sagrada Liturgia são na Igreja as janelas do céu, expressões daquele Paraíso
extático que vive somente de Deus, por e para Deus, no amor de Deus, no eterno
sábado que não tem ocaso.
A liturgia é a vida do céu na terra, é imagem e
sombra daquilo que acontece no céu: "O serviço divino é uma imagem da
beleza do tempo celeste; a luz, o trono; uma imagem de inacessível glória de
Deus no céu; o agradável perfume do incenso: uma Imagem do perfume da santidade
os ícones da Mãe de Deus, dos Anjos e Santos: imagem do coro dos habitantes do
paraíso beatificados com a visão divina, um canto terrestre; um eco do inefável
canto dos louvores angélicos.
O homem é o ser litúrgico, o cantor do Sanctus, é
aquele que ama e prostrado adora: "Enquanto eu viver, cantarei ao Senhor"
(Sal. 104, 33).
No momento do Querubikon, cantam os fiéis: "Nós
que misticamente representamos os Querubins e cantamos à vivificante Trindade o
hino três vezes santo", realmente se associam à liturgia divina até se
tornarem imagens dos Querubins, então o mundo futuro se mostra muito próximo,
quase presente, e o homem se torna sacerdote do universo e oferece o universo a
Deus como num altar.
É
na liturgia que a matéria se eleva ao nível da sua verdadeira destinação:
veículo da vida divina. O pão e o vinho, fruto do trabalho do homem e fruto da
terra, se tornam o Corpo e o Sangue do Senhor. O óleo atinge seu ponto
culminante no óleo da Consagração e da Crisma, A água comunica o Espírito Santo
no Baptismo. Todo o mundo material se torna oferta espiritual ao Divino Doador.
O mistério do oitavo dia parece já inaugurado e o homem se sente de fato no
coração da Igreja: simultaneamente na terra e no céu.
"O
culto divino celebrado na Igreja é ao mesmo tempo celebrado no Céu. Todo Ofício
é duplo: aqui e no além".
A
liturgia insere na oração de Cristo. Nela o orante "concorre com as forças
celestes para o canto incessante; ficando na terra como um Anjo leva a Deus
toda criatura" (São Gregório Pálamas).
A liturgia faz compreender e praticar o "ama o teu próximo como a ti
mesmo!" (cf. Mt. 12, 31); eleva o orante das
intenções particulares e individuais à oração pela humanidade, pela paz, pela
Igreja, pela unção e a salvação de todos. O homem não mais está sozinho diante
de Deus e compreende que todos se salvam em comunidade, que se vai para o céu
em união com todos os outros.
A liturgia reaviva a aspiração aos bens divinos,
eternos. Assim fala um autor contemporâneo do poder transfigurante da liturgia:
“Saindo da Divina
Liturgia, todos os homens e todas as mulheres da nossa aldeia
eram Teóforos - portadores
de Deus. Todos haviam recebido a comunhão: em suas veias corria o Sangue de
Deus. Eram filhos de Deus, deificados. Sem dúvida, eram apenas rudes
camponeses, extremamente pobres. E sabem que o são, mas ao saírem da Igreja
estavam levando Deus dentro de si e caminhavam com precaução, como se caminha
quando se leva algo de valor inestimável, porque se sentiam deuses - portadores de Deus”.
Quando se leva uma lâmpada ou uma vela, o rosto fica
iluminado pela chama; quando se leva Deus dentro de si, Deus que é a Luz das
luzes, fica-se iluminado por dentro, de modo que todo o corpo e toda a carne se
transfiguram e resplandecem com a beleza da luz do Espírito divino". Os
Sacramentos e a liturgia levam à plenitude os seus frutos, se a alma se dispõe
e purifica com a ascese.
Pela
ascese a alma colabora e se dispõe para receber sempre mais profundamente a
acção do Espírito Santo. A ascese propõe a "via régia" que leva a
Cristo Ressuscitado através da mortificação, penitência e oração, até a
iluminação carismática onde a alma encontra a imagem divina. Purificação,
iluminação, união transformadora segundo os diversos graus da ascensão
espiritual que se aproxima sempre mais do divino.
E como a humanidade padecente do Cristo não pode ser
separada de sua divindade triunfante, a purificação da ascese traz consigo o
germe da glorificação futura na união com Deus. A ascese e a vida angelical na
terra constituem o propósito próprio do monge.
Sendo o destino da alma humana essencialmente o retorno a Deus, o monge com sua
vida dá testemunho do mistério escatológico da História. Isaac de Nínive afirma
que "o arrependimento é o tremor da alma diante das portas do paraíso”. E
São João Clímaco: "Monge é aquele que soube conservar o mesmo ardor até o
fim, aquele que acrescenta sem se cansar, até o termo da vida, fogo ao fogo,
ardor ao ardor, zelo ao zelo, desejo ao desejo".
Para se entregar a Deus, o monge tem como objectivo
a leitura da Palavra divina, a busca da vontade de Deus, a obediência ao
superior, a caridade fraterna, o arrependimento dos pecados, a pobreza, o
trabalho, a virgindade, a selecção dos pensamentos, o jejum, a humildade, as
lágrimas.
A prática constante e paciente dessas virtudes leva
enfim a alma à humildade e à caridade.
A humildade abate o vício principal que é a soberba.
A humildade liberta; pertence aos "pobres de espírito". Desconhecida
dos pagãos, a humildade "é a mãe, a nutriz, a base e sede de todas as
outras virtudes", "é a toda virtuosa". O modelo da humildade é
Jesus.
A
humildade humana é a réplica da humildade divina, da Quenose do Servo de Javé,
do homem das dores, do Criador omnipotente, do Rei dos reis, que se toma o
servo crucificado. A humildade vence o orgulho, e egocentrismo. O humilde não
faz o mundo girar em torno do próprio "eu", causa de todo pecado, mas
se coloca em Deus e assim encontra o seu lugar exacto. Por isso "a
santidade consiste na profundidade da humildade”.
"Quando o humilde, nos sofrimentos e nas
perseguições dos homens e dos demónios até o limite do suportável, diz 'glória
a Deus,' e redobra a oração pelos próprios
perseguidores, então ele entra no coração de Deus e tem a graça de compreender
o indizível. Assim também quando, depois de ter visitado o homem, Deus se
retira, isto é graça. É a pedagogia divina da desolação educativa, que serve para
tornar a alma ainda mais humilde. “A graça se retira, para que nós a procuremos
ainda mais”. "Encontrar a Deus consiste em procurá-lo continuamente, e ver
a Deus é jamais saciar-se de deseja-lo”.
Quando a procura de Deus é particularmente intensa e
tomou posse já de toda a alma, cai o temor e ela diz: "Agora já não temo a
Deus; eu O amo!" E aparece então o dom das
lágrimas. É a alma-Maria-Madalena, que se derrama em pranto aos pés de seu
Senhor. Lágrimas de dor por tê-lo tanto ofendido no passado, lágrimas por lhe
ter sido tão ingrata, lágrimas de desejo, lágrimas de alegria, lágrimas de
amor. Se na ascese conventual os monges têm como propósito "a vida
angelical na terra", os cristãos que vivem no século devem ter propósitos
complementares: permanecer no mundo (cf. Jo. 17,
15-16) para instaurar o reinado de Deus no mundo (cf. Jo.
17, 21; Mc. 16, 15; Act.
26, 13) e levar o mundo transfigurado a Deus (cf. Jo.
3, 16-17; 6, 37-52). Os dois caminhos devem conduzir ao mesmo cume, ao repouso
em Deus, à alegria de Deus. Por isso, São João Crisóstomo se dirigia deste modo
aos seus fiéis: "Quando Cristo ordena que o sigamos pelo caminho estreito,
dirige-se a todos os homens. Por conseguinte, o monge e o secular devem
alcançar os mesmos píncaros".
Os
leigos não pronunciam votos de castidade ou de pobreza, mas deve encontrar para
eles o exacto equivalente, viver o seu espírito: "Aqueles que vivem no
mundo, mesmo casados, devem em tudo o mais assemelhar-se aos monges”. E
continua São João Crisóstomo: "A tua casa deve ser como uma igreja; põe-te
de pé no meio da noite. Durante a noite, a alma é mais pura, mais leve. E se
tens filhos, acorda-os e faz com que se unam a ti numa oração comum”.
Além dos Santos
Sacramentos, da liturgia e da ascese, dá-se importância toda
singular à oração.
Se mediante a oração "o homem se houvesse
apegado a Deus desde o primeiro movimento do seu ser, teria logo atingido a sua
perfeição" (São
Gregório Nissa). Na oração tudo se resume: a fé, a vida, a
salvação. "Nada vale tanto como a oração. Ela torna possível o que é
impossível, fácil o que é difícil. É impossível que o homem que reza continue
pecando" (S. João Crisóstomo). A oração é a ciência das ciências. Mediante
a oração, num mundo que se caracteriza pelo esquecimento de Deus e do seu amor,
o contemplativo deve chegar à contínua recordação de Deus. Os monges que O
procuram vêem na oração uma liturgia Angélica. Para São Gregório Nazianzeno,
"o pensamento de Deus deve ser mais habitual que a própria
respiração". E para São João Crisóstomo, "a oração ou o colóquio com
Deus é um bem supremo”. E São João Clímaco prossegue: "Não há uma arma
mais poderosa, na terra e nos céus", do que a oração; "a oração é o
ato mais digno do espírito, ato que exige o esquecimento do mundo visível e do
mundo invisível”.
A oração é a força motriz de toda a vida espiritual,
de todos os esforços humanos. É a conversação com Deus, é a relação pessoal com
Deus, é a união com Deus, "é a bússola do coração das virtudes".
"A oração é a mais divina de todas as virtudes". A oração é a
expressão da vida do Espírito Santo em nós, é "o respirar do
espírito", "o barómetro da nossa vida espiritual". A Igreja
"respira com a oração". A oração é "o prelibar do Céu e o
retorno ao Paraíso". "É o prelibar da bem-aventurança celeste, em que
o conhecimento se faz amor. "Deus desce até a alma em oração, e o espírito
emigra para Deus. Ela deve tornar-se "oração incessante",
"oração pura", "oração inflamada", contínua dilatação e
imersão da alma na presença do seu Senhor.
Para favorecer esta constante atitude de oração
(como a respiração ou como o pulsar do coração), foi elaborado o método
conhecido como “hesicasmo”, que consiste em habituar-se a repetir sem cessar
uma breve invocação jaculatória como, por exemplo: "Meu Deus, eu te
amo!" ou "Meu faz com que eu te ame”, ou "Senhor Jesus,
ajudai-me" ou "Senhor Jesus, tem piedade de mim, etc, com isto se
visa vencer a distração-dispersão-dissipação da alma e reuni-Ia e concentrá-la
sempre mais em Deus e na recordação do amor divino por nós.
Não
basta cultivar o hábito da oração, é preciso tornar-se, "ser oração viva”,
construir-se orando e transformar o mundo num templo de adoração, em liturgia
cósmica: tornar-se "louvor da glória de Deus" (cf. Ef. 1, 14). É o destino de amor que se faz adoração para o
qual nos criou Deus.
A oração, especialmente quando intensa e incessante,
é considerada uma forma eminente de amor ao próximo, é o acto de se retirar do
mundo por amor a Deus e aos homens, para uma caridade que visa mais a alma do
próximo que as suas necessidades materiais, conforme o exemplo de Jesus no
deserto e no Jardim das Oliveiras.
Conseguir tornar-se oração contínua exige grande
esforço: "Creio que não exista coisa mais penosa que a oração. Quando o
homem quer mesmo orar, então é que seus inimigos, os demónios, procuram
impedi-lo por todos os meios. A oração exige que se lute até o último
suspiro". Mas a oração pode também atingir tal intensidade que "um só
santo com suas orações é mais forte na sua luta que uma multidão de pecadores”.
"Devemos orar sem cessar até que ó Espírito
Santo desça sobre nós”.
Houve quem perguntasse a um Padre do deserto: "Abba, qual a perfeição da oração?" O Abba José se pôs de pé, estendeu as mãos para o céu e os
seus dedos se tornaram como dez velas acesas, Disse então: "Deves
tornar-te todo fogo”.
Importa orar até que se consiga rezar no próprio
sono ("Eu estava dormindo, mas meu coração velava": Ct. 5, 2), atingindo o estado psicológico do "sono
vigilante" que ao mesmo tempo é como que um despertar, pois a alma está
sempre "na presença de Deus”. Por isso, Isaac de Nínive dá este
testemunho: "Quando o Espírito Santo estabelece sua morada numa alma, esta
não pode mais cessar de orar, pois o Espírito Santo não cessa de rezar nela:
quer dormindo, quer acordada, a oração nunca se separa da alma. Comendo ou
bebendo, enquanto repousa ou trabalha, quando mergulhada no sono, o perfume da
oração emana espontaneamente da alma. Agora já não destina mais à oração um
tempo determinado, mas ora sempre. Então os actos da mente purificada se tomam
vozes silenciosas que cantam em união com as potências invisíveis, a sagrada
liturgia ao Ser Supremo, ao Senhor do Universo”.
A
oração tem como fruto o amor. E o amor ao próximo será o sintoma de ter-se
adquirido o verdadeiro amor a Deus, e a união com a vida de Cristo.
"Deus é chamado caridade, paz, e exorta-nos a
nos transformarmos nestas virtudes que o qualificam. Estas virtudes são a
medida de nossa deificação". Por isso o amor ao próximo é chamado pelos
Padres "o sacramento do irmão". "O amor a Deus e o amor ao
próximo são dois aspectos de um só amor total. O escopo da vida cristã
"não é só unir-se à Santíssima Trindade, mas exprimi-la e imitá-la em si
mesmo. Por isso, a virtude deificante é o amor a Deus ou ágape, toda bondade.
Por ela é preciso desejar apenas a Deus amando e fazendo bem a todos, em
particular àqueles que nos fizeram algum mal e desejando, sobretudo que cheguem
à salvação. Esta a Lei do Evangelho! Seremos julgados pelo mal cometido, mas,
sobretudo pelo bem omitido e por não termos amado o nosso próximo (São Máximo).
“Quando alguém vê todas as pessoas como boas e
quando ninguém se lhe apresenta como impuro, pode-se então dizer que é
autenticamente puro de coração" (Isaac de Ninive).
Tendo atingido o píncaro da caridade, "o homem
não condena mais nem os pagãos nem os pecadores, olha todos os homens com olhos
puros, alegra-se em todo o universo e não deseja outra coisa com todo o coração
senão amar e venerar todos e cada um" (Pseudo-Macário). E novamente Isaac
de Nínive: "Eis, irmão, o mandamento que te dou: que a misericórdia pese
sempre mais na tua balança, até chegares a sentir em ti mesmo a misericórdia
que Deus sente para com o mundo. O fervor espiritual "é acompanhado de um
amor imenso a Deus e um imenso fervor pelas obras de caridade" (Evágrio).
E
quando o amor a Deus habita no coração do homem, toma-o imagem do amor e da
misericórdia de Deus. "Um irmão possuía apenas um exemplar do Evangelho,
nada mais. Então o vendeu e deu o produto da venda aos famintos, acrescentando
estas memoráveis palavras: 'Eu vendi o próprio livro
que me diz: Vende tudo o que possuis e dá-o aos pobres!'" (Evágrio). São
Paísio o Grande orava pelo discípulo que renegara a Cristo. Enquanto fazia a
oração, apareceu-lhe o Senhor e disse-lhe: "Paísio, por que estás orando?
Não sabes que ele Me renegou?" Mas o santo não cessava de ter compaixão e
de orar pelo discípulo. E então o Senhor lhe disse: “Paísio, tu te tornaste
semelhante a Mim, com teu imenso amor”.
"Um coração caritativo se inflama de amor pela
criação inteira, pelos homens, pelos passarinhos do céu, pelos animais, pelos
demónios, por todas as criaturas. Por isso, um homem como este não cessa nunca
de orar também pelos inimigos da Verdade, por aqueles que lhe fazem mal, para
serem conservados e purificados. Ora também pelos répteis, movido pela piedade
infinita que desperta no coração daqueles que se assemelham a Deus" (Isaac
de Nínive).
"Homens como estes, mesmo que, dez vezes ao
dia, se lançassem às chamas por sua caridade para com o próximo, isto não lhes
pareceria suficiente" (Isaac de Nínive).
O homem deste modo se torna por graça aquilo que
Deus é por natureza: todo amor, porque Deus é Amor. O amor vem de Deus e leva a
Deus. Deus nos amou primeiro criando-nos para nos fazer participar livremente
na plenitude divina, para sermos amados e amar também.
"Quando a alma atingiu a perfeição, ela mesma
se fazendo puro espírito, toma-se toda luz, amor, suavidade, alegria e
misericórdia" (Pseudo-Macário).
O ideal da deificação mediante a ascese, a oração, o
divino amor, difundiu-se também entre o povo mediante o canal da Filocalia,
ampla antologia de autores espirituais da área cristã-oriental, elaborada por
Nicodemos, monge do Monte Athos,
publicada em grego, em Veneza, no ano de 1782, reelaborada e publicada em
eslavo em
"Deus, Bem-Aventurança, perfeição que supera
toda da outra perfeição, princípio criador de tudo o que é bom e belo desde
toda a eternidade preestabeleceu deificar o homem. Por este motivo, propôs-lhe
uma prova e o deixou entregue ao livre-arbítrio. E como prémio da luta
estabeleceu que recebesse a graça da deificação - já
presente na substância do seu ser - fazendo-o tornar-se deus, radiante pelos
séculos na luz pura de toda contaminação".
Mas a inveja do perverso tentador não suportou que
esse plano se realizasse, e com astúcia seduziu o homem e o induziu a
transgredir o preceito divino. Mas o propósito divino de deificar a natureza
humana continuou de pé para toda a eternidade. O Verbo, enviado pelo Pai, tendo-se
feito homem pelo Espírito Santo, assumiu a nossa natureza humana e a deificou,
e depois de ter semeado em nossos corações no Baptismo o Espírito Santo, como
divina semente, deu-nos o poder, vivendo segundo os seus vivificantes
Mandamentos, de obter o fruto final e de nos tomar, por graça, filhos de Deus,
ser deificados, chegando ao homem perfeito: Cristo. Mas, ai de mim!, geme
amargamente São João Crisóstomo, tendo recebido tal esplendor deiforme desde pequenos, no Baptismo, depois em parte por
ignorância e ainda mais enceguecidos pelas trevas das paixões e pelas
preocupações desta vida, corremos o perigo de extinguir o Espírito de Deus. Que
destruição fizeram em nós as paixões e o exagerado apego às coisas sensíveis!
Existe o perigo de extinguir-se a graça e de fracassar a nossa união com Deus e
sua obra deificante, à qual tendem como perfeitíssimo fim tanto a criação que
nos dá o ser como também a Encarnação do Verbo Divino. Aliás, se a alma não for
deificada, não é possível que o homem se santifique nem tampouco chegue à
salvação.
Por conseguinte, urge a necessidade de tornar a
recordação de Deus e de seu plano mais frequente que a respiração; aceitar o
convite ao banquete da Sabedoria, e chamar a todos: Venham! Embriaguem-se com
uma embriaguez verdadeiramente sóbria, porque vocês encontraram o Reino de
Deus, que é o doce Cristo Jesus.
Venham,
a fim de que, libertados da prisão das coisas terrestres, e purificado o
coração das paixões com a vigilância e a incessante oração e a invocação do
Senhor Nosso Jesus Cristo, fiquem unidos em si mesmos e unidos a Deus. E assim,
unidos a Ele e transformados, para que possuídos pelo amor divino sejam
abundantemente deificados, e alcancem a primitiva meta de Deus, glorificando o
Pai, o Filho, o Espírito Santo. A Ele toda a glória, a honra e a adoração pelos
séculos dos séculos!"
A colectânea dos escritos nem sempre consegue
manter-se em nível tão elevado, pois tem um carácter predominantemente
ascético: como reconhecer e purificar-se das paixões, como praticar as virtudes
e, sobretudo, a oração constante, a oração do coração, a oração inflamada:
"Quando a alma está livre das coisas exteriores e se une à oração, esta,
envolvendo-a como uma labareda, torna-a toda inflamada, como faz o fogo com o
ferro: a alma é agora intangível como o ferro em brasa, ao tacto
exterior".
E entre os Autores que praticaram e escrevem sobre a
oração pura se encontram páginas de verdadeira mística.
O
amor transformador se revelou já na Transfiguração de Jesus: "Na sua Transfiguração,
o divino prevaleceu sobre o humano e comunicou ao corpo o resplendor próprio da
glória divina" (São João Damasceno).
Os místicos tiveram uma pequena amostra desse
mistério: "Eu Te dou graças porque Tu, Ser divino, acima de todos os
outros seres, te tomaste um só espírito como eu, sem confusão nem
separação" (São Simeão
o Novo Teólogo).
"Tu feriste a minha alma, ó Amor, e meu coração
não pode suportar as tuas chamas. Prossigo agora Te cantando" (São João
Climaco).
Mas essa glória só se revelará plenamente no Céu. A
ressurreição será a porta que nos fará entrar definitivamente na familiaridade
divina, por obra do Espírito Santo. O Espírito Santo restituirá a inocência e a
santidade à alma, fará ressurgir uma carne renovada, uma carne virgem, uma
carne com a sensibilidade natural sublimada, uma carne espiritualizada. O Céu
será a pátria das naturezas humanas restauradas, das criaturas humanas
glorificadas pelo Espírito Santo à imagem do Filho do Pai. E como o Espírito
Santo é Santidade e Luz, "o resplendor fulgurante da Beleza divina" (São
Basílio), na restaurada pureza da alma a tornará também pura
luz, beleza e amor. "Deus é Luz e habitará naqueles que ama, e que O amam.
Quem está unido à Luz, participa na luz e se torna também luz" (São
Gregório Palamás). Com a inabitação da Santíssima Trindade, a alma torna-se
"trono de Deus, toda luz, torna-se toda face e visão voltada para Deus e
se enche de luz" (Pseudo-Macário).
"Tendo-se
aproximado da Luz, a alma se torna luz. Tu te tomaste bela quando te
aproximaste da minha Luz, aproximando-te atraíste sobre ti a participação na
minha Beleza" (São Gregório Nisseno).
Mas a alma se inflama, sobretudo pelo incêndio do
amor: "O amor é a própria vida da natureza divina" (São Gregório
Nisseno).
"É o amor que aperfeiçoa a natureza humana e a
faz participante por graça da natureza divina" (São Máximo). "O amor
divino inflama sem cessar a alma e a une a Deus por acção do Espírito
Santo" (Diádoco de Fótica).
O amor nos une a Deus no seu Filho: participar na
divindade do Filho quer dizer ser deificado, ser penetrado pela divindade - como o ferro em brasa é penetrado pelo calor do fogo -
deixando resplandecer em nós a beleza da natureza inexprimível da Santíssima
Trindade. Somos deificados pelo Espírito Santo de Amor, que nos faz semelhantes
ao Filho, imagem perfeita do Pai" (São
Cirilo de Alexandria). Por isso, "o que de maior acontece
entre Deus e a alma é amar e ser amada" (Calisto). "A alma conhece
que foi acesa porque o fogo divino a inflamou. Deus se une ao homem espiritual
e corporalmente, Deus entra em união com todo o homem" (São Simeão o Novo
Teólogo). "É o amor que gera o conhecimento; o amor já é conhecimento, o
amor cria novamente a unidade originária do ser, o amor faz semelhante a
Deus" (São Máximo). Por ele, enfim, e para todo o sempre, "os justos
e os anjos resplandecerão como sóis na vida eterna, com Nosso Senhor Jesus
Cristo, vendo-o sempre e sendo sempre vistos por Ele numa alegria inexaurível, louvando-o
com o Pai e com o Espírito Santo pelos séculos dos séculos.
“Tudo se tornará luminoso, tudo penetrado pela Luz
se tomará fogo... Assim como o corpo do Senhor no Monte Tabor foi glorificado,
transfigurado em glória divina e em infinita luz, também os corpos de todos os
santos serão glorificados e translúcidos, pois assim como de um só fogo” se
acendem muitas tachas, todos os corpos dos santos membros de Cristo também
deverão tomar-se como Ele” (pseudo-Macário).
A
alma se torna assim, também, ela mesma, luz e fogo admitida à visão da Luz
Trinitária.
Veremos o Deus vivo tal como Ele é, seremos amados
por Ele e O amaremos. E esta visão de amor beatifica e deificante nos fará
semelhantes a Ele, nos fará comungar com cada Pessoa da Santíssima Trindade. E
cada Bem-Aventurado, com alma e corpo transfigurados e espiritualizados, tendo
regressado ao Pai, mediante o Filho no Espírito Santo, será um espelho do
imutável Amor e Luz de Deus. Os amados e amantes de Deus serão levados ao
próprio coração da vida e natureza de Deus, onde Deus, Amor Trino que comunica
a sua bem-aventurança inexaurível, vive e reina.
Será o Reino do Pai anunciado, prometido em herança
pelo Filho e por Ele transmitido à humanidade regenerada pelo Espírito Santo.
Vida e felicidade perfeita do próprio Deus, e que Deus quis dar às suas
criaturas fazendo-as "filhos e filhas de Deus" (cf. Jo. 10, 34), vivendo para sempre a vida daquele que é três
vezes Santo e três vezes Bem-Aventurado.
"Irmãos, deixai que vos fale sobre o amor
divino. Assim que me representei a beleza deste Amor imaculado, a sua luz
brilhou em meu coração e sua doçura me arrebatou para fora de mim mesmo. O Amor
Santo e digno de amor! Feliz aquele que te amou porque nunca mais se apaixonará
por nenhuma beleza terrestre. Feliz aquele que, seduzido por teus esplendores,
com eles se alegrou plenamente: este será santificado em sua alma pelo
santíssimo sangue e pela água vivificante que de ti jorram; feliz quem é amado
por ti, por ti instruído, por ti habitado, pois é nutrido com o alimento
imortal que é Nosso Senhor Jesus Cristo.
Ó Amor divino! Onde conservas tu o Cristo? Onde O
escondes? Abre-nos a porta, para que possamos ver Aquele que sofreu por nós,
porque somente entrevendo-o nunca mais poderemos morrer. Que Ele nos permita
cair aos seus puríssimos pés, perdoe o nosso pecado, digne-se de curar nossas
misérias e alimentar-nos eternamente.
Ó Santo Amor! Tu és a realização da lei, tu que me
enches, me aqueces e me inflamas, tu que abraças o meu coração com imensa
caridade. Tu és o mestre dos Profetas, o que desces sobre os Apóstolos, a força
dos Mártires, a inspiração dos Padres e Doutores, a perfeição de todos os
Santos e tu Amor preparas-me também" (São Simeão, o Novo Teólogo).
E
como o amor ao próximo tem sua origem no amor de Deus, como de uma fonte,
estaremos também unidos entre nós e em comunhão no único Amor que une a
Santíssima Trindade. "Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Este é o
meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei" (cf. Jo. 15, 8.12). "Que todos sejam um, como tu, Pai,
estás em mim e eu em ti" (cf. Jo. 17, 21). E
seremos tanto mais transformados, tanto mais unidos, tanto mais felizes, quanto
mais se é amado, seguindo a Jesus-Deus-Encarnado até morrer de amor, segundo o
particular carisma que cada pessoa recebeu do Espírito Santo: o martírio, o
ministério pastoral, o magistério, a oração contínua, a virgindade, as obras de
misericórdia, a família, etc..., vividos como breve e temporária separação
antes de sermos recebidos por Deus no reino da bem-aventurança. E então "o
olho verá, o ouvido ouvirá, o coração saboreará aquilo que Deus preparou para
aqueles que O amam"; então os membros da família humana em todos os
diversos aspectos da santidade reflectirão a santidade divina no banquete de
núpcias eternas de Deus com seus amigos-irmãos-esposas.
Será aquele amor "cuja paixão é violenta como o
abismo; cujas centelhas são centelhas incendiárias, labaredas divinas nas"
(cf. Ct. 8, 6), e ao mesmo tempo um amor finalmente
pacificado, saciado, jubilante; amor eterno, unitivo, na intimidade da
familiaridade divina.
E também a criação participará então, a seu modo e
em seu grau, no divino. O amor de Deus já elevou à glória o Corpo de Cristo
Ressuscitado e também nos elevará a nós e a Criação: "pois as criaturas...
também (esperam) participar da liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Pois
sabemos que toda a Criação até agora geme e sente dores de parto" (cf. Rm. 8, 21-22).
Os novos céus e a nova terra, de longe pressentidos
pelos Salmistas e os Profetas, exultarão no eterno louvor. Será o gozo, a
alegria, a doxologia cósmica, torrentes de alegria, pela presença também da
obra criada no divino. O mundo criado também manifestará a Deus. Nada de
renovado poderá ficar fora dele. Tudo então será a seu modo e em seu grau,
deificado, ao ser mergulhado na luz e no Amor divino, "a fim de que Deus
seja tudo em todos" (1 Cor. 15, 28). Nós, sobretudo seremos divinizados,
nós que consciente e pessoalmente estamos associados e unidos à vida de Deus na
Santíssima Trindade, Fonte de Vida, Amor, Luz, Alegria, Bem-Aventurança sem
fim. A Ele amor, louvor, glória, pelos séculos dos séculos.
Com
Jesus Ressuscitado, o dom do amor deificante de Deus já se realizou plenamente
também
Remida antecipadamente pela Paixão Divina do Filho,
(...), em vista de sua maternidade, Maria Santíssima é a Imaculada, a Sempre
virgem, a Mãe de Deus: da carne e do sangue puríssimo de Maria se formaram a
carne e o sangue do Deus feito homem.
O seu "sim" pronunciado como humilde serva
do Senhor, no momento da Encarnação, ela sempre o repetiu seguindo fielmente o
Filho em todos os mistérios de sua vida, abrindo o coração a tesouros
insondáveis de beleza e de graça. A virgem está situada no ponto culminante da
santidade da Igreja, sua virgindade de amor a Deus exprime a realidade do
Reino. Ela é a humilíssima, Ela é a sarça ardente, é o tálamo do Sanctus.
Na Mãe de Deus a natureza puríssima que levou em seu
seio o Verbo entrou em união perfeita com a divindade. São Gregório Palamás vê
em Maria a pessoa criada que une em si todas as perfeições: a realização
absoluta da beleza da criação: "Desejando criar uma imagem da beleza
absoluta e claramente manifestar aos anjos e aos homens o poder de sua arte,
Deus fez Maria verdadeiramente toda bela. Nela reuniu as belezas parciais
distribuídas pelas outras criaturas e a constituiu como ornamento comum de
todos os seres visíveis e invisíveis; melhor, Ele fez de Maria uma mistura de
todas as perfeições angélicas e humanas, uma beleza sublime que enfeita os dois
mundos, erguendo-se da terra ao céu e superando este último". "Ela se
acha no limite do criado com o incriado". Maria é a
"semelhantíssima", aquela que mais se assemelha à imagem divina, ao
Verbo Encarnado; e, por conseguinte, aquela que pode ser o modelo de imitação.
Depois de seu Filho divino, a Virgem Maria é a
primícia, (...). Ela é a primeira pessoa humana que já realizou plenamente o
fim último para o qual Deus criou o mundo. Nela a Igreja e todo o universo já
atingiram a sua realização, que abre o caminho da deificação para as outras
criaturas. Ela é o guia que precede a humanidade, e todos a seguem.
Contemplando-a, a Igreja lhe canta: "Alegra-te, ó Coroa dos Dogmas"
Por isso Maria Santíssima é o coração da Igreja, o seu centro místico, sua
perfeição já consumada.
E
como "não existe nada mais divino do que a bondade e a misericórdia"
(São Gregório Nazianzeno), com seu Filho divino, Maria Santíssima, que está toda
em Deus, é de Deus e para Deus, tomou-se espelho e canal da bondade e
misericórdia de Deus para os homens. Agora, livre dos condicionamentos
temporais, Ela preside aos que vêm após Ela e lhes dá os bens eternos. É por
Ela que os homens recebem a graça. Nenhum dom é recebido pela Igreja sem a
assistência da Mãe de Deus, (que preside aos destinos da Igreja e do universo).
Ela é a Tesoureira da misericórdia de Deus: a sua
protecção materna, que envolvia o Menino Jesus, cobre agora a humanidade e
todos os homens. Por isso, ela é invocada como baluarte e advogada dos
cristãos.
E como "Orante"
Maria prefigura o ministério da oração e da intercessão. Ela é a Esposa que,
com o Espírito Santo, invoca: "Vem, Senhor Jesus!" (cf. Ap. 22, 20).
Depois de Cristo, já no céu, com seu Filho, Maria é
a plena transfiguração e deificação da pessoa humana.
E, passando do plano ontológico ao simbólico, Maria,
Esposa do Espírito Santo, recebeu, além disso, uma função que a faz
extraordinariamente amável: Ela é o sorriso, o ícone, o rosto do amor de
carinho materno de Deus. A Mãe de Deus que, amorosamente, leva nos braços o
Menino Jesus, é "a Eleusa", a imagem da ternura indizível entre o
divino e o humano, a imagem do amor materno de Deus a cada um e a cada uma de nós
(cf. Is. 49, 15).
Como
a oração litúrgica é a expressão e a invocação da fé da Igreja, escutemos agora
como é que reza a Liturgia Bizantina. A deificação da humanidade é o propósito
da Santíssima Trindade. realizado:
a) Atraindo-nos
a Deus Pai:
"Como fonte e raiz, Tu,
ó Pai,
és a causa da consubstancial divindade
que reside no Filho e no Espírito Santo.
Infunde-me no coração a luz trissolar
e torna-o luminoso com a participação do teu esplendor deificante”.
b) Por obra de
Deus Espírito Santo:
“Luz é o Pai, Luz
o Verbo, Luz do Espírito Santo
que foi enviado aos apóstolos em línguas de fogo,
e graças a eles o mundo inteiro é iluminado
para honrar a Santíssima Trindade.
O Espírito Santo é luz e vida e fonte espiritual e viva;
Espírito de sabedoria, Espírito de ciência, bom e reto,
dominador, purificador dos pecados,
Deus que diviniza;
fogo que procede do fogo,
que fala, age e distribui os dons.
Graças a Ele,
todos os Profetas e Apóstolos de Deus e os Mártires são coroados.
É fogo que se divide pela difusão dos dons”.
"O Espírito Santo vivifica as almas,
exalta-as na natureza;
faz resplandecer nelas a natureza una da Trindade".
c)
"Com Tua vinda divino-humana,
misteriosamente iluminaste o mundo
com a aurora das maravilhas”.
“Tu és o Deus Uno
que te encarnaste e divinizaste a humanidade".
"O Verbo não circunscrito do Pai
tornou-se circunscrito com a Encarnação
e destruiu a imagem manchada do homem,
restituiu-a à sua original beleza,
enchendo o homem de esplendor verdadeiramente divino”.
"Cristo, da Virgem floresceste, Deus imaterial,
da Virgem ignara de núpcias.
Glória a teu poder, Senhor!
Enquanto éramos escravos do inimigo e do pecado,
Tu te tornaste em tudo pobre como um de nós
e divinizaste o nosso barro com tua união e participação".
“Preparando para seus amigos
a morada de glória para glória futura,
Cristo sobe à montanha,
elevando-os desta vida terrestre ao ser celeste”.
"Hoje Ele brilha indizivelmente no alto do Tabor
e de toda a sua carne ele derrama os raios de sua divindade,
iluminando aqueles que aclamam:
Cristo se transfigura e salva todos os homens!"
"O Criador soergueu hoje da corrupção
a nossa figura corrompida por Adão.
Cristo diviniza os nossos espíritos”.
"Neste dia, no alto do Tabor,
Cristo transformou a natureza obscurecida por Adão.
E depois de tê-la iluminado, Ele a divinizou”.
"Tu te transfiguraste no Monte Tabor, ó Salvador,
manifestando a transformação que sucederá aos mortais,
quando se der tua segunda vinda na glória".
“Tu purificaste com o fogo a natureza humana maculada.
Tu mostras o seu resplendor na tua carne,
tendo-te tornado mais luminoso que o sol,
à imagem da glória futura”.
“Ó bom (Jesus), pregado na cruz,
Tu divinizaste a nossa natureza.
Grande é o teu poder e o teu amor pelos homens!”
Para fazer do homem um deus, ó Bom (Jesus),
Tu te fizeste mortal e foste crucificado.
Glória Ti! Ó compassivo,
nunca deixaremos de exaltar-Te!
Deus de ternura,
Tu te dignaste sofrer, na tua crucifixão,
a ignomínia da morte.
Vendo-o, tua Mãe foi ferida no coração
e gemia maternamente:
'Que maravilha é esta, ó meu Filho muito amado?'
Ó Mãe Puríssima, ela deve revelar a vida ao universo’.
Oh! A bondade infinita d'Aquele que se encarnou em Ti, Mãe de Deus.
Com efeito, Ele quis sofrer a cruz e a morte
para salvar o mundo que havia criado.
Pede-Lhe que me liberte e que me conduza
onde brilha a Luz que não conhece ocaso".
“O Deus que existe antes dos séculos,
tendo misticamente divinizado a natureza humana que assumiu,
sobe hoje ao céu.
Os Anjos, prostrando-se diante d’Ele, dizem:
Glória a Deus que sobe hoje ao céu!”.
Tu que desceste dos céus à terra,
e como Deus restauraste o género humano humilhado pelos infernos;
com tua Ascensão, ó Cristo,
o fazes de novo subir ao céu,
e contigo sentar-se no trono do teu Pai,
porque Tu és compassivo e amigo dos homens.
"Tu subiste, ó Cristo, Doador de vida,
e exaltaste o nosso género humano.
Tu restabeleceste a natureza humana,
caída por causa da corrupção (do pecado),
e a soergueste com a tua Ascensão,
e nos glorificaste contigo”.
d) Com a
presença materna de Maria Santíssima:
“Com sabedoria, ó Virgem,
o Filho teu plasmou o homem decaído
e o replasmou nascendo de Ti.
De luz divina e de resplendor sem ocaso
Ele encheu a todos nós,
que na verdadeira fé te veneramos, ó Mãe de Deus.”
"Da divina natureza tornamo-nos participantes por Ti,
Mãe de Deus, sempre Virgem.
Geraste, com efeito, para nós o Deus Encarnado,
e por isso, como convém,
nós todos te celebramos piedosamente".
"Ave, imaculada! Voz retumbante dos profetas:
Ave, ornamento dos Apóstolos;
Ave, tálamo ilibado do Verbo,
causa da nossa divinização!
Ó Mãe de Deus,
tu geraste na carne o Filho e o Verbo de Deus!
Por isso, nós que fomos divinizados por tua intercessão,
Te aclamamos:
Ave, esperança dos cristãos!”
e) Também o
mundo criado será transfigurado:
“Ó Verbo, luz imutável da
luz do Pai não gerado,
na tua luz revelada vimos hoje, no Tabor,
a luz que é o Pai e a luz que é o Espírito
instruir toda a criação com a luz”.
"Alegra-te, ó céu,
que conheceste agora Aquele
que faz surgir a sua luz sobre a terra.
Que a terra exulte radiosamente,
ela se ilumina de resplendor celeste e se torna luz”.
Vamos concluir com um trecho
autobiográfico e uma oração do "Místico da luz” do Oriente, São Simeão o
Novo Teólogo:
"És Tu, meu Deus?
Sim, Eu, o Deus que se fez homem por ti,
e eis que te fiz e te farei deus, como vês".
“E ele se deu conta que estava no centro da luz,
e todo repleto de alegria e de lágrimas.
E vê a luz unir-se de modo indescritível à sua carne,
e penetrar aos poucos os seus membros,
e transformá-lo todo em fogo e luz”.
Oração:
“Glória a Ti
que, embora estejas acima de todos,
Deus de tudo,
justamente Tu te fizeste mortal,
acessível na carne que assumiste.
Aos que têm fé
tu te fizeste conhecer na glória de tua Divindade.
Deste modo a nós teus servos,
mergulhados nas coisas deste mundo,
tu nos fazes sair de nós
e nos arrastas para Ti,
resplandecente de luz,
e de mortais nos fazer imortais,
continuando a ser o que somos,
nos tornamos teus filhos, semelhantes a Ti,
e deuses que, pela tua graça, vêem a Deus.
Tu pertences ao nosso
género, quanto à carne,
nós somos do teu género pela Divindade;
pois assumindo a nossa carne,
nos deste o Teu Espírito.
Tu estás connosco, agora e
para todos os séculos;
de cada um de nós fazes a tua habitação
e nós habitamos em Ti.
Nós nos tomamos teus
membros,
e Tu te tornas um membro nosso.
Tu te tornas minha mão e meu pé;
de mim, miserável!
E eu sou a tua mão e teu pé!
Como é imensa a tua misericórdia, Senhor!
Tu te dignaste fazer de mim um membro do Teu Corpo,
eu que sou impuro, o pródigo.
Tu me deste uma veste
brilhante,
fulgurante de esplendor imortal,
que muda em luz tudo aquilo que sou,
teu Sangue se uniu a meu sangue,
eu me uni à tua Divindade, tomando-me brilhante, santo,
transparente, luminoso.
Vejo a beleza da tua graça
e reflicto a sua luz,
contemplo com espanto este resplendor inefável,
e entro em comunhão com o fogo.
Por mim mesmo não passo de palha, mas, que milagre!
Estou envolto como o foi a sarça ardente de Moisés
pelo teu Fogo que não consome.
Ó Jesus!
Todo o teu Corpo puríssimo e divino brilho
no fogo da tua Divindade,
inefavelmente unido a Ela.
E tu me concedeste, ó
Senhor,
que este meu corpo se unisse ao teu santo Corpo
e agora sou Teu membro, transparente e lúcido.
Estou fora de mim pensando
em mim mesmo:
como era e o que me tomei agora! Que prodígio!
Dou-te graças, Tu me fizeste viver,
Conhecer-te e adorar-te,
Meu Deus!
Tu és a alegria, a delícia e
a glória
daqueles que Te amam com fervor
por todos os séculos dos séculos!"
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)
Última actualização deste Link em 07 de Abril de 2009