CATEQUESES MISTAGÓGICAS
São Cirilo de Jerusalém
A obra catequética de S. Cirilo de Jerusalém
compõe-se de duas Catequeses. No presente texto apresentamos as Catequeses
Mistagógicas. Deixamos para um próximo texto a Catequese Preliminar e as dezoito
Catequeses Pré-baptismais. Publicamos em primeiro lugar as Catequeses
Mistagógicas não só pela importância das mesmas, mas por constituírem uma
unidade de doutrina que nos abre as portas para uma melhor compreensão e
aproveitamento das demais Catequeses.
As Catequeses de S. Cirilo são consideradas como
sendo a colecção catequética, após a de Santo Agostinho, a mais completa que a
Antiguidade nos legou. Através delas podemos apreciar o conteúdo de tudo quanto
constituía a educação religiosa ministrada aos que se convertiam ao
Cristianismo. O Credo,
detalhadamente comentado, é tido como uma jóia preciosa do tesouro teológico da
Igreja Primitiva. Nas Catequeses Pré-baptismais o Credo, muito semelhante ao
Credo Niceno-constantinopolitano, é-nos transmitido com comentários e
interpretações próprias da época. Nas Catequeses Mistagógicas é o culto
cristão: Baptismo,
Confirmação,
Celebração
Eucarística, com o respectivo rito, que é explicado. Pelas Catequeses temos
acesso ao anúncio da fé da Igreja Primitiva e às manifestações culturais desta
fé.
No ano 348 tornou-se Cirilo, bispo da cidade de
Jerusalém, onde provavelmente nasceu por volta do ano 315. Fora em 345 ordenado
sacerdote por Máximo II, a quem sucederia após sua morte ou deposição levada a
efeito pelos eusebianos. Muito depressa Acácio, metropolita da Província e um
dos chefes dos eusebianos, investe contra Cirilo, defensor da fé de Nicéia. Seguem-se
acusações mútuas acerca da fé de cada um. Cirilo é exilado por três vezes em
uma situação parecida à de São
João Crisóstomo com Teófilo de Alexandria.
Em 358/9 o Concílio de Seleucia o restabelece em sua
sé episcopal. No ano seguinte será desterrado por ordem do Imperador
Constâncio, movido por Acácio e seguidores. Ele permanece no desterro até 362,
quando é favorecido pela amnistia geral proclamada por Juliano. Porém, em 367,
apesar da morte de Acácio, ele volta ao exílio até que, em 378, Graciano
decreta a suspensão do desterro para todos os bispos. Em 381 encontramo-lo
entre os padres conciliares do primeiro
Concílio de Constantinopla. A liturgia ocidental e oriental comemora no dia
18 de Março a sua morte, que deve ter-se dado no ano de 387.
É necessário distinguir em Cirilo o teólogo e a
testemunha da fé e da Tradição
Cristã, de modo geral, e da Igreja de Jerusalém,
Uma rápida visão da época em que viveu Cirilo
ajudar-nos-á a melhor apreender o motivo que subjaz a muitos ditos seus ao
longo de suas obras.
No século II a Igreja se vê diante de correntes
religiosas que se esforçam para exercer uma espécie de sedução sobre os homens
de seu tempo: a gnose e as religiões de Mistério. O gnosticismo continuará
presente nos séculos posteriores sob formas diversas, sendo combatido por São Justino,
São
Ireneu, Tertuliano e o autor dos Philosophumena. Localizar-se-á, sobretudo,
no Egipto e na Síria. A gnose fala de uma centelha divina no homem, o qual,
provindo do reino divino, caiu neste mundo. Aqui o homem encontra-se submisso
ao destino, ao nascimento, à morte e tem necessidade de ser despertado por seu
arquétipo celeste ao qual ele finalmente se reunirá. Esta libertação se dá pelo
conhecimento (gnose), que consiste essencialmente em conhecer-se, melhor, se
reduz à necessidade de reconhecer o elemento divino que constitui o verdadeiro
«eu». Liberta-se assim de todos os «poderes» que o retêm no «profano» e no
erro.
Ao mesmo tempo que tais correntes angariavam
adeptos, no interior da Igreja se assistia ao surgimento de doutrinas
anti-trinitárias. Incapazes de admitir a diversidade de Pessoas na unidade de
uma e mesma Natureza divina, negavam alguns a divindade do Cristo reduzindo-o a
um simples homem dotado de extraordinários poderes e virtudes (dinamistas), ou
explicavam sua personalidade como mera modalidade da de Deus Pai (modalistas,
patripassianos). Em relação ao Filho, temos Noeto e Práxeas; em relação ao
Espírito Santo, temos Sabélio.
Daí à doutrina sustentada por Ário, sacerdote da
Igreja de Alexandria, seria um passo. Logo após a vitória sobre Licínio,
Constantino, único imperador, escreve a Alexandre, bispo de Alexandria, para
que ele se ponha de acordo com Ário. Alexandre se escandalizara com as posições
cristológicas de seu sacerdote Ário, que, de mil maneiras, mesmo através de
cânticos populares, ensinava que o Cristo não é verdadeiramente Deus. Em uma
carta a Eusébio de Nicomedia, Ario expõe sua posição: «Ele (o Cristo) começou a
existir por um acto de vontade. Antes de ser gerado Ele não era». Tal discussão
culminará com o primeiro Concílio Ecuménico de Niceia, em 325, onde se
proclamará, contra o arianismo, a divindade do Filho e sua consubstancialidade
(homoousía) com o Pai. A luta ariana (318-381) coincide com a vida de São
Cirilo e caracteriza este período. Concílios e sínodos, fórmulas e mais
fórmulas de fé, mútuas condenações constituem a tecedura desta luta. Para
aumentar a confusão dos fiéis, surgiram, dentro das correntes heterodoxas,
outras com matizes diversos, uma mais extremada, a dos anomeus, outra mais
mitigada; a dos semi-arianos ou homoioúsios. A muitos faltavam serenidade e
magnanimidade, deixando-se envolver em intrigas e mesmo fraudes e violências.
Em meio a tal situação se destacam a ousadia e a
sobriedade, a profundidade e a mente esclarecida de um Basílio
Magno, Gregório Nazianzeno, Gregório
de Nissa, Cirilo
de Alexandria e outros. São Cirilo em suas catequeses alerta os fieis não só contra as afirmações anticristãs provindas do
meio gentílico ou judaico, mas também contra as asserções heréticas. Enumera os
vícios dos deuses adorados pelos pagãos, assim como de seus adoradores. Busca
no A.T. anúncios e prefigurações do N.T., em oposição aos judeus, e mostra a
unidade de ambos os Testamentos, o que era rejeitado pelos gnósticos.
Levanta-se contra os hereges, cujas obras ele diz ter lido: «Estas coisas, fala
Cirilo, estão nos livros dos maniqueus, eu as li,
porque não cria nos que me falavam delas; e as examinei cuidadosamente para
segurança vossa e ruína dos outros».
Muito se escreveu sobre o facto de Cirilo jamais
empregar o termo homooúsios: consubstancial. Todavia, a simples leitura de suas
catequeses nos mostra um Cirilo preocupado em ser o mais simples possível,
evitando sempre que possível o emprego de termos teológicos. Ele tem diante de
si pessoas pouco versadas em doutrina cristã, às quais deseja transmitir de
modo acessível e com proveito suas instruções. Daí o facto de ele expor a
doutrina em uma terminologia fundamentalmente bíblica. Ademais, o termo
homooúsios foi compreendido por alguns em um sentido sabeliano, que Cirilo
tantas vezes combate.
Particularidades
da Igreja de Jerusalém
Através das próprias catequeses de São Cirilo
podemos ter uma ideia da Igreja de Jerusalém. O costume da catequese era
cuidadosamente observado em Jerusalém. Se em outras Igrejas a exposição do
Credo se resumia a duas, três ou mais apresentações, em Jerusalém se lhe
dedicava todo o tempo da Quaresma. Compreende-se o motivo pelo qual o conjunto
das catequeses nos oferece todo um sistema doutrinário. Na Catequese Preliminar
ele nos faz ver a importância conferida a esta acção catequética: «Aprende o
que ouves e guarda-o para sempre. Não creias serem estas homilias habituais.
Também elas são boas e dignas de fé».
Cirilo pronuncia as catequeses na Igreja da
Ressurreição e na Capela do Santo Sepulcro. Para que alguém fosse admitido ao
catecumenato exigia-se, segundo menciona Eusébio, a imposição das mãos e a
oração. O primeiro Concílio de Constantinopla (381) fala-nos dos exorcismos e
da insuflação, feitos em três dias consecutivos. No primeiro dia, diz o
Concílio, fazemo-los cristãos; no segundo catecúmenos; no terceiro os
exorcizamos, soprando por três vezes o rosto e os ouvidos e assim os
catequizamos. São Cirilo se refere expressamente aos exorcismos, os quais são
recebidos com a face coberta com um véu: «O teu rosto foi coberto com um
véu, a fim de que todo o teu pensamento não estivesse disperso, e o olhar,
divagando, não fizesse vagar também o coração».
Após o primeiro grau de Catecumenato passa-se ao dos
Competentes com todo um período de preparação e que antecedia em algumas
semanas à Páscoa. O bispo dirigia-lhes uma exortação, seguida da inscrição nos
registros da Igreja. Esta se fazia, em Jerusalém, no princípio da Quaresma e
num mesmo dia. Recebiam então o nome de fiéis. «Vê que, sendo chamado fiel, tua
intenção não seja de um infiel».
Findo o que se seguia à preparação imediata para o
baptismo que compreendia duas partes principais:
a) Preparação ascética: que Cirilo descreve na
Catequese Preliminar, na primeira e na segunda Catequese. Três obras a
caracterizam: o jejum, a penitência e a confissão
dos pecados.
Jejum:
o jejum se estendia, na comunidade jerosolimitana, pelo espaço de 40 dias,
inclusive os sábados e domingos, e abarcava também a abstinência de vinho e
carnes. Além deste jejum quaresmal existia o jejum pascal, muito mais rigoroso.
Penitência: acentua-se não só a penitência externa,
mas também a interna como meio imprescindível para uma digna recepção do
baptismo. Diz Cirilo: «Prepara teu coração para receberes as doutrinas, para
participares dos sagrados mistérios». É o convite à renúncia a todo mau
hábito e à purificação dos pecados. «Deixa desde já toda obra má; que tua
língua não fale palavras inconvenientes; que teu olhar já não peque mais e que
teu espírito não se ocupe com coisas vãs.” Este espírito de penitência é
fruto da graça de Deus implorada na oração. Por isso Cirilo insiste que seus
ouvintes sejam assíduos à oração: “Reza com insistência a fim de que Deus te
faça digno dos celestes e imortais mistérios. Não cesses nem de dia nem de
noite”. Quarenta dias, no entanto, é pouco tempo de preparação para os que
viveram entregue às vaidades. Daí a necessidade de receber com toda devoção os
exorcismos, assistir às catequeses com pureza de intenção.
Confissão: São Cirilo desenvolve de modo todo
especial o inciso sobre a confissão dos pecados. No início da primeira
Catequese ele exclama: «Vós que estais cobertos com o manto das
transgressões e estais ligados com as cadeias dos vossos pecados, escutai a voz
profética que diz: Lavai-vos, purificai-vos».
A segunda Catequese é praticamente uma grande
exortação à confissão apresentada não como mero relato de pecados, mas
expressando uma situação existencial e consequente vontade de mudar de vida. Os
termos que ocorrem para designar a confissão são significativos: (confissão) e
(penitência).
b) Preparação catequética: Nota-se aqui a diferença da
Igreja de Jerusalém das demais Igrejas. Como já dissemos acima, em Jerusalém se
emprega toda a Quaresma para explicar o Credo, enquanto nas demais igrejas a
exposição do Credo se restringe a duas ou mais apresentações. Cirilo profere
vinte e três catequeses, o que por si só exprime a importância que é dada à
catequese na preparação baptismal. As dezoito primeiras se dirigem aos que se
preparam para o baptismo e comentam basicamente o Credo artigo por artigo. As
últimas cinco são pronunciadas para os recém-baptizados, durante a semana da
Páscoa, na capela do Santo Sepulcro. As cinco tratam da doutrina, dos ritos e
cerimónias dos sacramentos do Baptismo, da Confirmação e da Eucaristia.
Apresentação
geral de sua obra
Como já assinalamos Cirilo pronuncia vinte e três
catequeses que podem ser divididas em dois blocos distintos: As dezoito
primeiras pronunciadas em preparação para o baptismo e as cinco últimas aos já
baptizados. Quase todas foram proferidas na Igreja do Santo Sepulcro e, como
observa J. Quasten, «uma nota conservada em diversos manuscritos recorda que
elas foram copiadas em estenografia, ou, ainda; que elas representam a
transcrição de um de seus ouvintes, e não uma cópia «manu propria» do bispo».
Precede às dezoito primeiras uma alocução preliminar ou introdução geral, na
qual Cirilo prepara os ouvintes para receber, com maior proveito, as instruções
pré-baptismais. Após uma ardorosa recepção: «Já vos impregna, ó iluminandos,
o odor da bem-aventurança», o bispo acentua a necessidade da penitência e
purificação dos pecados, da prece e da disciplina pessoal e de uma intenção
livre de todo interesse mundano para se aproximar do sacramento de iniciação. O
mesmo é repetido nas duas primeiras catequeses, que versam sobre o pecado e a
penitência. Na terceira, ele trata do baptismo e de seus efeitos. A quarta é um
breve compêndio da doutrina sobre a fé. Aí ele expõe as verdades necessárias ao
homem para que ele se salve. Em primeiro lugar, alude ao Credo onde se professa
o Deus Criador, seu Filho Jesus Cristo e o Espírito Santo. Em seguida,
apresenta a doutrina cristã sobre o homem, sua natureza, sua vida moral e seu
fim último. Finalmente, discorre sobre o conhecimento de Deus e de nós mesmos,
fundado na Sagrada Escritura.
Da quinta à décima oitava Catequese Cirilo dá uma
explicação detalhada dos artigos do Credo, que se aproxima muito da fórmula do
Concílio de Constantinopla (381). Por exemplo, na quinta ele expõe a palavra
Credo. Segue-se o primeiro artigo: “Creio em um só Deus” e assim por
diante.
As Catequeses Mistagógicas (19-23) versam sobre os
sacramentos recebidos pelos neófitos na vigília pascal. Doutrina que
permanecera até então oculta. Daí o nome de catequeses mistagógicas. Nas duas
primeiras, o bispo busca explicar as cerimónias que precederam ao baptismo. Na
terceira fala da Confirmação; na quarta da Eucaristia e na quinta trata da
Divina liturgia.
A. Piédagnel apresenta, na edição francesa das
Catequeses Mistagógicas, uma visão histórica bastante ampla da questão da autoria
das catequeses, em geral, e das Mistagógicas, em particular.
A questão surgiu no século XVI com Josias Simler
que, fundado em um catálogo de manuscritos gregos da cidade de Augsburgo,
conclui que a totalidade das catequeses são erroneamente atribuídas a Cirilo.
Teriam sido proferidas por João II de Jerusalém, sucessor de Cirilo. Mais
tarde, o protestante Thomas Mille refere-se não mais ao catálogo, mas aos
títulos encontrados em tal manuscrito e que não indicam a autoria das
catequeses «ad illuminandos». As cinco mistagógicas têm, no entanto, a
João como autor. Mesmo assim Thomas as atribui a Cirilo. A edição de A.
Touttée, beneditino, algum tempo depois, busca provar a autoria de Cirilo para
as Mistagógicas.
No século XIX as edições de W. K. Reischl e J. Rupp,
embora assinalem que o Codex Monacencis 394 por duas vezes citava as
mistagógicas como sendo pronunciadas por João II, consideram não ser um
argumento válido para negar a autoria de Cirilo face a tantos outros
testemunhos em seu favor.
Quatro outros manuscritos, o Ottobonianus 86 (s.
X-XI), o Ottobonianus 446 (s. XV), o Vaticanus 602 (s. XVI) e o Monacensis 278
(s. XVI), atribuem as mistagógicas ora a Cirilo, ora a João. Por causa de tais
manuscritos, Th. Schermann, W. J. J. Swaans, M. Richard, W. Telfer, G.
Kretschmar e outros fazem remontar a redacção das mistagógicas para o final do
IV século, atribuindo-as a João II.
Apesar de tais objecções, diversos autores citam
outros manuscritos, como por ex. o Bodleianus Roe, o
Vindobonensis, etc..., que apresentam as catequeses mistagógicas sem nome do
autor, logo após a Catequese Preliminar e as dezoito Pré-batismais. Antecede à
Catequese Preliminar o nome de Cirilo. Existe também uma tradição literária,
embora tardia (séc. VIII-XI), na qual encontram-se citações das Catequeses
Mistagógicas com o nome de Cirilo. Ademais, fez-se toda uma análise das
diversas catequeses chegando-se a inúmeras provas que falam de um único e mesmo
autor, Cirilo. O estudo comparativo entre passagens de textos de cada grupo de
catequeses indica uma origem comum. «Touttée, escreve A. Piédagnel,
assinalava também o emprego do mesmo método de exposição nas duas séries de
catequeses: ele consiste em partir de uma citação da Escritura, em se referir
ao longo da Catequese a numerosos textos, do AT em particular, em intercalar aí
algumas paráfrases, em terminar por uma exortação de ordem moral e uma
doxologia idêntica».
Chegou-se assim a um consenso final de que não se
encontra na tradição manuscrita um respaldo suficiente para negar a autoria de
Cirilo não só em relação à Catequese Preliminar e às dezoito Pré-baptismais,
como também em relação às Catequeses Mistagógicas.
Conteúdo
doutrinário das catequeses
A doutrina exposta por S. Cirilo nas Catequeses se
resume basicamente ao Credo. Eis a profissão de fé da comunidade de Jerusalém:
1. Cremos
2. E
3. Que veio na carne e se fez homem (da Virgem e do
Espírito Santo).
4. Foi crucificado e sepultado.
5. Ressuscitou ao terceiro dia.
6. E subiu aos céus e está sentado à direita do Pai.
7. E virá na glória para julgar os vivos e os
mortos, cujo reino não terá fim.
8. E
9. E em um baptismo de penitência para remissão dos
pecados.
10. E em uma santa católica Igreja.
11. E na ressurreição da carne.
12. E na vida eterna.
O símbolo não se encontra escrito integralmente nas
Catequeses. Isso por causa da disciplina do arcano. Cirilo insiste sobre o
segredo que os candidatos devem conservar não divulgando o que lhes fora
ensinado. «Oferecemo-vos em poucos versículos o dogma inteiro da fé. Quero
que o fixeis com as próprias palavras e o repitais convosco mesmos com todo
cuidado, não o escrevendo em papel, mas gravando-o na memória de vosso
coração».
O texto acima apresentado foi restabelecido por Touttée
a partir do que se podia colher cá e lá nos títulos e ao longo das Catequeses.
Todavia, a reconstrução, embora nos sugira qual seja o Credo de Cirilo, não é
autêntica em todas as suas partes. Nas Catequeses 9,4 e 10,3 temos citações de
Cirilo e que foram certamente transcritas de modo fiel pelos taquígrafos.
Quanto aos títulos não se dá o mesmo. Parecem ser mais apresentações do redactor
que do próprio Cirilo. O redactor procura resumir em poucas palavras o assunto
a ser tratado nas Catequeses. Apesar destas dificuldades o texto exprime
substancialmente o símbolo de Cirilo.
As Catequeses falam da fé e de suas fontes: a
Sagrada Escritura e a Tradição,
unidade e trindade de Deus, divindade e consubstancialidade das três Pessoas,
mistério da Redenção, anjos, origem divina do homem, espiritualidade e
imortalidade da alma, livre arbítrio, pecado, novíssimos, Igreja, Sacramentos.
Sobre o Cristo Cirilo rejeita o arianismo e apresenta sua posição que concorda
com a fé de Niceia. Cristo é verdadeiramente Deus. Ele é um com o Pai. «São
um pela dignidade da divindade (...) Um são eles, porque não há entre eles
discórdia ou separação, pois não são umas as obras criadas por Cristo, outras
as criadas pelo Pai». O Espírito Santo é professado como uma personalidade
distinta do Pai e do Filho, gozando igualmente da mesma divindade. Ele proclama
sua fé trinitária: «Indivisa a fé, inseparável a piedade. Não fazemos
separação na Santíssima Trindade, como alguns; nem confusão, como Sabélio».
Estes temas não são tratados de modo igual, pois o
objectivo de Cirilo é explicar o Símbolo e não apresentar um tratado sobre cada
um dos temas. As Catequeses Mistagógicas, no entanto, falarão extensamente do
Baptismo, da Confirmação e da Eucaristia. Cirilo apresenta uma visão geral do
baptismo, explicitando o significado da unção e da imersão, e aponta seus
efeitos, eficácia, necessidade, autor, sujeito e ministro.
Pelo baptismo o cristão participa da vida mesma de
Cristo. Cristo assumiu toda a realidade humana para que pudéssemos participar
da salvação. «Baptizados em Cristo e dele revestidos vos tornastes conformes
ao Filho de Deus». Esta semelhança ao Filho é significada especificamente
na Crisma, quando, «ungidos com o óleo, fostes feitos participes e
companheiros de Cristo». Este processo de assemelhação ao Filho se realiza
no e pelo próprio Filho, que se torna alimento espiritual. «Em forma de pão
te é dado o corpo, e em forma de vinho o sangue, para que te tornes, tomando o
corpo e o sangue de Cristo, con-corpóreo e consanguíneo com Cristo». Ele é
bastante explícito ao declarar que o pão e o vinho não são simples elementos,
mas «são, conforme a afirmação do Mestre, corpo e sangue». A coroa ou o «edifício
espiritual» de toda instrução é a celebração eucarística, que o bispo de
Jerusalém descreve minuciosamente interpretando a liturgia eucarística em seu
desenrolar.
Vê-se pois a importância e o sentido das Catequeses
de S. Cirilo não só para a Catequese e para a Liturgia, como também para a
Teologia, que tem nelas o testemunho da Tradição cristã sobre as principais
verdades de fé.
Método e estilo
Em suas obras, Cirilo não nos deixa perceber que
tenha observado um método com regras precisas. Com isso não se quer dizer que
não haja certa ordem ao longo da exposição. Por vezes ele começa apresentando o
erro dos hereges e mostra o ponto fraco da doutrina deles, para então expor a
verdadeira doutrina e os argumentos que a apoiam. Outras vezes segue
exactamente o caminho oposto. E quando a doutrina é puramente moral, como na
Catequese Preliminar; ele não observa nenhuma ordem. Ele apresenta suas
considerações assim como elas lhe vêem à mente. Penitência, aversão ao pecado,
oração, leitura da Bíblia, rejeição da heresia, distanciamento de espectáculos
e jogos maus ou perigosos, são recomendações que voltam sempre que é possível.
Quanto ao estilo, ele é bastante popular e simples.
Diante de um auditório, que era de iniciantes na fé, sua linguagem assume uma
feição muito familiar. É em tom de conversação que ele desenvolve as
instruções. Muitas vezes ele deixa o tratamento «vós», que é empregado
quando ele se dirige aos seus ouvintes de modo geral, e fala em «tu»
como se estivesse se dirigindo pessoalmente a alguém. Reflectem as Catequeses
comunicação e clareza de linguagem. Algumas vezes porém ele deixa perceber uma
eloquência muito viva. Lemos na sexta Catequese: «Lembrai-vos do que foi
dito: Que consórcio há entre a justiça e a iniquidade? Que comunidade entre a
luz e as trevas? (...) Aqui há ordem, aqui há disciplina, aqui há seriedade,
aqui há castidade, aqui é considerado pecado olhar alguma mulher com olhos
concupiscentes. Aqui o matrimónio é mantido em santidade (...). Associa-te às
ovelhas. Foge dos lobos. Não te afastes da Igreja...».
Primeira Catequese Mistagógica aos recém-iluminados e leitura da
primeira epístola católica de São Pedro
desde: «Estai
alerta e vigia» até o final da epístola 1, do mesmo Cirilo e do bispo João.
Finalidade
destas catequeses
1. Desde há muito tempo desejava falar-vos, filhos
legítimos e muito amados da Igreja, sobre estes espirituais e celestes
mistérios. Mas como sei bem que a vista é mais fiel que o ouvido, esperei a
ocasião presente, para encontrar-vos, depois desta grande noite, mais
preparados para compreender o que se vos fala e levar-vos pelas mãos ao prado
luminoso e fragrante deste paraíso. Além disso, já estais melhor preparados
para apreender os mistérios todos divinos que se referem ao divino e
vivificante baptismo. Uma vez, pois, que vos proporemos uma mesa com doutrinas
de iniciação perfeita, é necessário ensinar-vos com precisão, para penetrardes
o sentido do que se passou convosco nesta noite baptismal.
2. Entrastes primeiro no adro do baptistério. Depois
vos voltastes para o Ocidente e atentos escutastes. Recebestes então a ordem de
estender a mão, e renunciastes a satanás como se estivesse ali presente. É
preciso que saibais que na história antiga há uma figura deste gesto. Quando o
faraó, o mais inumano e cruel tirano, oprimia o povo livre e nobre dos hebreus,
Deus enviou Moisés a tirá-los desta penosa escravidão dos egípcios. Com sangue
de cordeiro eram ungidas as ombreiras das portas, a fim de que o exterminador
passasse pelas casas que ostentassem o sinal do sangue. Assim, o povo dos
hebreus foi admiravelmente libertado. Quando, depois da libertação, faraó os
perseguiu e viu o mar abrir-se maravilhosamente diante deles, avançou mesmo
assim ao encalço deles e, submerso instantaneamente, foi engolido pelo Mar
Vermelho.
3. Passai agora comigo das coisas antigas às novas,
da figura à realidade. Lá Moisés
foi enviado por Deus ao Egipto; aqui Cristo, do seio do Pai, foi enviado ao
mundo. Aquele para tirar o povo oprimido do Egipto; Cristo para livrar os que
no mundo são acabrunhados pelo pecado. Lá o sangue do cordeiro afastou o anjo
exterminador; aqui o sangue do Cordeiro Imaculado, Jesus Cristo, constitui um
refúgio contra os demónios. Aquele tirano perseguiu até o mar este povo antigo;
e a ti, o demónio atrevido, impudente e príncipe do mal, te segue até as fontes
mesmas da salvação. Aquele afogou-se no mar; este desaparece na água da
salvação.
Renúncia a satanás
4. Entretanto, ouves, com a mão estendida, dizer
como a um presente: «Eu renuncio a ti, satanás». Quero também falar-vos
porque estais voltados para o Ocidente, pois é necessário. O Ocidente é o lugar
das trevas visíveis e como aquele [Satã] é trevas, tem o seu poder nas trevas.
Por essa razão, simbolicamente olhais para o Ocidente e renunciais a este
príncipe tenebroso e sombrio. O que então cada um de vós, de pé, dizia?
Renuncio a ti, satanás,
a ti mau e crudelíssimo tirano: já não temo, dizias, a tua força. Pois Cristo a
destruiu, fazendo-me participe de seu sangue e de sua carne, a fim de abolir a
morte pela morte e eu não estar eternamente sujeito à escravidão. Renuncio a
ti, serpente astuta e capaz de todo mal. Renuncio a ti, que armas insídias e,
simulando amizade, praticaste toda sorte de iniquidade e sugeriste a nossos
primeiros pais a apostasia. Renuncio a ti, satanás, artífice e cúmplice de todo
mal.
5. Em seguida, numa segunda fórmula, és ensinado a
dizer: «E a todas as tuas obras». Obras de satanás são todos os pecados,
aos quais é necessário renunciar, assim como quem foge de um tirano atira para
longe de si todas as armas dele. Todo o género de pecado está, pois, incluído
nas obras do diabo. Aliás, sabes que tudo quanto dizes naquela hora tremente
está inscrito nos livros invisíveis de Deus. Se, pois, fores surpreendido
fazendo algo contrário a estes, serás julgado como transgressor. Renuncias,
portanto, às obras de satanás, isto é, a todas as acções e pensamentos
contrários à promessa.
6. Depois dizes: «E a toda a sua pompa».
Pompa do diabo é a mania do teatro, das corridas de cavalo, da caça e de toda
vaidade desta espécie. Dela pede o santo ser livrado, dizendo a Deus: «Não
permitais que meus olhos vejam a vaidade». Não te entregues
desenfreadamente à mania do teatro, onde se encontram os espetáculos obscenos
dos actores, executados com insolências e com toda sorte de indecências, e com
danças furiosas de homens efeminados. Nem tampouco sejas daqueles que na caça
se expõem a si mesmos às feras, para contentar o infeliz ventre, os quais,
querendo regalar o estômago com petiscos, se tornam alimentos dos animais
selvagens. Exprimindo-me melhor, por causa deste seu deus, o ventre, arriscam
sua vida em combate singular. Foge também das corridas de cavalos, espectáculo
insano que leva as almas à perdição. Porque tudo isto é pompa do diabo.
7. Mas ainda tudo o que é exposto nos templos dos
ídolos e nas suas festas, quer sejam carnes ou pães ou coisas semelhantes,
inquinados pela invocação dos demónios infames, são contados como pompa do
diabo. Pois, assim como o pão e o vinho da eucaristia, antes da santa epíclese
da adorável Trindade, eram simplesmente pão e vinho, mas depois da epíclese o
pão se torna corpo de Cristo e o vinho sangue de Cristo, da mesma maneira estes
alimentos que pertencem à pompa de satanás, por sua própria natureza simples, tornam-se,
pela invocação dos demónios, impuros.
8. Depois disto tu dizes: «E a teu culto».
Culto do diabo é a prece feita nos templos dos ídolos, tudo que se faz em honra
dos simulacros inanimados: acender luzes ou queimar incenso perto de fontes e
rios, como fazem alguns que, enganados por sonhos e demónios, chegam a isso,
crendo que encontram a cura de doenças corporais. Não vás atrás destas coisas.
Augúrios, adivinhação, agouros, amuletos, inscrições em lâminas, magias ou
outras artes más são culto do diabo. Foge, portanto, de tudo isto. Se a eles
sucumbes, depois de teres renunciado a satanás e aderido a Cristo,
experimentarás um tirano mais cruel. Aquele que antes te tratou talvez como
familiar e te libertou da dura escravidão, agora está fortemente irritado
contra ti. De Cristo serás privado e experimentarás àquele [satanás]. Não
ouviste o que a antiga história nos conta de Lot e suas filhas? Não se salvou
ele com as filhas, tendo alcançado a montanha, enquanto sua mulher se
transformou em estátua de sal para sempre, constituindo uma recordação de sua
má vontade e de seu olhar curioso para trás? Cuida, pois, de ti mesmo e não te
voltes novamente para trás, depois de teres posto a mão no arado, para a
prática amarga desta vida. Foge antes para a montanha para junto de Jesus
Cristo, a pedra talhada não por mãos e que encheu a terra.
Profissão de fé
9. Quando, então, renuncias a satanás, rompendo todo
pacto com ele, quebras as velhas alianças com o inferno. Abre-se para ti o
paraíso de Deus, que ele plantou para o lado do oriente, donde por sua
transgressão foi expulso nosso primeiro pai. Disto é símbolo o te voltares do
Ocidente para o Oriente, lugar da luz. Então te foi ordenado que dissesses: «Creio
no Pai e no Filho e no Espírito Santo e no único baptismo de penitência».
Disto vos falamos extensamente, nas catequeses anteriores, como no-lo permitiu
a graça de Deus.
10. Fortalecido por estas palavras, vigia. Pois
nosso adversário o diabo, como foi lido, anda ao redor, buscando a quem
devorar. Deveras, nos tempos anteriores a este, a morte devorava, poderosa.
Depois do baptismo sagrado da regeneração, Deus enxugou toda lágrima de todas
as faces. Com efeito, já não choras por teres te despido do velho homem, mas
estás em festa porque te revestiste com a vestimenta da salvação, Jesus Cristo.
11. Tudo isto se realizou no edifício exterior. Se
aprouver a Deus, quando nas Catequeses Mistagógicas seguintes entrarmos no
Santo dos Santos, conheceremos, então, os símbolos das coisas que lá se
realizam.
A Deus glória, poder e magnificência, com o Filho e
o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.
Segunda
Catequese Mistagógica sobre o Baptismo e leitura da epistola aos romanos:
«Ou ignorais que todos nós que fomos
baptizados para Cristo Jesus fomos baptizados
para [participar
da] sua morte?» até: «Pois que não estais sob a lei, mas sim sob a
graça».
Referências
bíblicas e notas
1. Úteis vos são as quotidianas mistagogias e os
novos ensinamentos que vos anunciam novas realidades, e isto tanto mais a vós
que fostes renovados da vetustez para a novidade. Por isso é necessário que vos
proponha o que se segue à instrução mistagógica de ontem, a fim de que
compreendais a significação simbólica do que foi realizado por vós no interior
do edifício.
Despojamento dos
vestidos
2. Logo que entrastes, despistes a túnica. E isto
era imagem do despojamento do velho homem com suas obras. Despidos, estáveis
nus, imitando também nisso a Cristo nu sobre a cruz. Por sua nudez despojou os
principados e as potestades e no lenho triunfou corajosamente sobre eles. As
forças inimigas habitavam em vossos membros. Agora já não vos é permitido
trazer aquela velha túnica, digo, não esta túnica visível, mas o homem velho
corrompido pelas concupiscências falazes. Oxalá a alma, uma vez despojada dele,
jamais torne a vesti-la, mas possa dizer com a esposa de Cristo, no Cântico dos
Cânticos: «Tirei minha túnica, como irei revesti-la?». Ó maravilha,
estáveis nus à vista de todos e não vos envergonhastes. Em verdade éreis imagem
do primeiro homem Adão, que no paraíso andava nu e não se envergonhava.
Unção
3. Depois de despidos, fostes ungidos com óleo
exorcizado desde o alto da cabeça até os pés. Assim, vos tornastes
participantes da oliveira cultivada, Jesus Cristo. Cortados da oliveira bravia,
fostes enxertados na oliveira cultivada e vos tornastes participantes da
abundância da verdadeira oliveira. O óleo exorcizado era símbolo, pois, da
participação da riqueza de Cristo. Afugenta toda presença das forças adversas.
Como a insuflação dos santos e a invocação do nome de Deus, qual chama
impetuosa, queima e expele os demónios, assim este óleo exorcizado recebe, pela
invocação de Deus e pela prece, uma tal força que, queimando, não só apaga os
vestígios dos pecados, mas ainda põe em fuga as forças invisíveis do maligno.
Imersão
baptismal
4. Depois disto fostes conduzidos pela mão à santa
piscina do divino baptismo, como Cristo da cruz ao sepulcro que está à vossa
frente. E cada qual foi perguntado se cria no nome do Pai e do Filho e do Espírito
Santo. E fizestes a profissão salutar, e fostes imersos três vezes na água e em
seguida emergistes, significando também com isto, simbolicamente, o
sepultamento de três dias de Cristo. E assim como nosso Salvador passou três
dias e três noites no coração da terra, do mesmo modo vós, com a primeira
imersão, imitastes o primeiro dia de Cristo na terra, e com a imersão, a noite.
Como aquele que está na noite nada enxerga e ao contrário o que está no dia
tudo enxerga na luz, assim vós na imersão, como na noite, nada enxergastes; mas
na emersão, de novo vos encontrastes no dia. E no mesmo momento morrestes e
nascestes. Esta água salutar tanto foi vosso sepulcro como vossa mãe. E o que
Salomão disse em outras circunstâncias, sem dúvida, pode ser adaptado a vós: «Há
tempo para nascer, e tempo para morrer». Mas para vós foi o inverso: tempo
para morrer, e tempo para nascer. Um só tempo produziu ambos os efeitos e o
vosso nascimento ocorre com vossa morte.
Efeitos místicos
5. Oh! facto estranho e
paradoxal! Não morremos em verdade, não fomos sepultados em verdade, não fomos
crucificados e ressuscitados
6. Ninguém, pois, creia que o baptismo só obtém a
remissão dos pecados, como o baptismo de João só conferia o perdão dos pecados.
Também nos concede a graça da adopção de filhos. Mas nós sabemos, com precisão,
que como é purificação dos pecados e prodigalizador do dom do Espírito Santo, é
também figura da Paixão de Cristo. Por isso clama a propósito Paulo, dizendo: «Ou
ignorais que todos nós, que fomos baptizados para Cristo Jesus, fomos
baptizados para [participar da] sua morte? Com ele fomos sepultados pelo
baptismo». Talvez dissesse estas coisas por causa de alguns, dispostos a
ver o baptismo como prodigaizador da remissão dos pecados e da adopção, mas não
como participação, por imitação, dos verdadeiros sofrimentos de Cristo.
7. Para que aprendêssemos que tudo o que Cristo
tomou sobre si foi por nós e pela nossa salvação, tudo sofrendo em verdade e
não em aparência e para que nos tornássemos participantes dos seus sofrimentos,
exclamava veementemente Paulo: «Se fomos plantados com [Ele] pela semelhança
de sua morte, também o seremos pela semelhança de sua ressurreição». Boa é
a ex-pressão «plantados com Ele». Logo que foi plantada a verdadeira
vide, nós também pela participação do baptismo da sua morte «fomos
plantados». Fixa a mente com toda a atenção nas palavras do Apóstolo. Não
disse: Fomos plantados com Ele pela morte, mas, pela semelhança da morte.
Deveras, houve em Cristo uma morte real, pois a alma se separou do corpo. Houve
verdadeiramente sepultamento, pois seu corpo sagrado foi envolvido em lençol
limpo e foi verdadeiro tudo o que nele ocorreu. Para nós há a semelhança da
morte e dos sofrimentos. Quando se trata da salvação, porém, não é semelhança e
sim realidade.
8. Todas estas coisas foram ensinadas
suficientemente: retende tudo em vossa memória, rogo-vos, para que eu, ainda
que indigno, possa dizer-vos: «Amo-vos porque sempre vos lembrais de mim e
conservais as tradições que vos transmiti». Ademais, poderoso é Deus que de
mortos vos fez vivos, para conceder-vos que andeis em novidade de vida. A Ele a
glória e o poder, agora e pelos séculos. Amém.
Terceira
Catequese Mistagógica sobre a Crisma e leitura da primeira epístola de
São João,
a começar com: «Vós
tendes a unção de Deus e conheceis todas as coisas»,
até: «e por
Ele não sejamos confundidos na sua vinda».
Significação
espiritual
1. Baptizados em Cristo e dele revestidos, vos tornastes conformes ao Filho de Deus. Em verdade,
Deus, predestinando-nos à adopção de filhos, nos fez conformes ao corpo
glorioso de Cristo. Feitos, pois, participes de Cristo, não sem razão, sois
chamados cristos e é de vós que Deus disse: «Não toqueis os meus cristos».
Ora, vós vos tornastes cristos, recebendo o sinal do Espírito Santo, e tudo se
cumpriu em vós em imagem, pois sois imagens de Cristo.
Ele, quando banhado no rio Jordão e comunicando às
águas a força da Divindade, delas saiu e se produziu sobre ele a vinda
substancial do Espírito Santo, pousando igual sobre igual. Também a vós, ao
sairdes das águas sagradas da piscina, se concede a unção, figura daquela com
que Cristo foi ungido. Refiro-me ao Espírito Santo, do qual o bem-aventurado
Isaías, na profecia a respeito dele, disse, na pessoa do Senhor: «O Espírito
do Senhor [repousa] sobre mim, pelo que me ungiu; enviou-me para levar a
boa-nova aos pobres».
2. Na verdade, Cristo não foi ungido com óleo ou unguento
material por um homem. Mas foi o Pai que, estabelecendo-o com antecedência como
Salvador de todo o universo, o ungiu com o Espírito Santo, conforme diz Pedro: «Jesus
de Nazaré, a quem Deus ungiu com o Espírito Santo». E o profeta David
exclamou: «Teu trono, ó Deus, é para os séculos dos séculos; ceptro de rectidão,
o ceptro de tua realeza. Amaste a justiça e por isso te ungiu Deus, teu Deus,
com o óleo da alegria, mais que teus companheiros». E como Cristo foi
verdadeiramente crucificado e sepultado e ressuscitou, e vós, pelo baptismo,
fostes, por semelhança, tidos por dignos de com ele ser crucificados,
sepultados e ressuscitados, assim também na unção do crisma. Ele foi ungido com
o óleo espiritual da alegria, isto é, com o Espírito Santo, chamado óleo de
alegria, por ser causa da alegria espiritual. Vós fostes ungidos com o óleo,
feitos, participes e companheiros de Cristo.
3. Vê, porém, que não imagines ser um simples unguento.
Pois, como o pão da Eucaristia, depois de epíclese do Espírito Santo, já não é
simples pão, mas o corpo de Cristo, assim também este santo unguento, com a
epíclese, já não é puro e simples unguento, mas é dom de Cristo e obra do
Espírito Santo, pela presença de sua divindade. Com ele se unge simbolicamente
tua fronte e os outros sentidos. Se, por um lado, o corpo é ungido com o unguento
sensível, por outro, a alma é santificada pelo santo e vivificado Espírito.
O rito da unção
4. E primeiro sois ungidos na fronte para serdes
libertados da vergonha que o primeiro homem transgressor levou por toda parte e
para que, de face descoberta, contempleis a glória do Senhor. Depois nos
ouvidos, para terdes ouvidos conforme disse Isaías: «E o Senhor me deu um
ouvido para ouvir» e o Senhor no Evangelho: «Quem tem ouvidos para ouvir
que ouça». Em seguida nas narinas, para que, ao receberdes este divino
unguento, possais dizer: «Somos para Deus, entre os que se salvam, o bom
odor de Cristo». Depois no peito, a fim de que, «tendo revestido a
couraça da justiça, resistais aos artifícios do diabo». Como na verdade o
Salvador, após seu baptismo e a descida do Espírito Santo, saiu a combater o
adversário, assim também vós, depois do santo baptismo e da mística unção, revestidos
da armadura do Espírito Santo, resistis à força inimiga e a venceis dizendo: «Tudo
posso naquele que me conforta, Cristo».
5. Feitos dignos desta santa unção, sois chamados
cristãos. Assim, pela regeneração, mostra ser de direito o nome [de cristãos].
Antes, pois, de serdes declarados dignos do baptismo e da graça do Espírito
Santo, não éreis dignos deste nome, mas estáveis a caminho de serdes cristãos.
Prefigurações
escriturísticas
6. É necessário que saibais que há ó símbolo desta
unção na Escritura Antiga. E na verdade, quando Moisés comunicou ao irmão a
ordem de Deus e o estabeleceu sumo-sacerdote, depois de lavar-se com água, o
ungiu e foi ele chamado Cristo, em virtude, evidentemente, da unção figurativa.
Do mesmo modo, o sumo-sacerdote, ao elevar Salomão à dignidade de rei, o ungiu,
depois de lavar-se no Gion. Mas essas coisas lhes aconteceram
7. Guardai imaculada esta unção: ensinar-vos-á todas
as coisas, se permanecer em vós, como ouvistes há pouco dizer o bem-aventurado
João, explicando muitas coisas sobre a unção. Esta unção é a salvaguarda
espiritual do corpo e a salvação da alma.
Foi isto que desde tempos antigos o santo Isaías
profetizou, dizendo: «E preparará o Senhor para todos os povos nesta
montanha». Por montanha ele designa a Igreja, como outras vezes quando diz:
«E nos últimos dias será visível a montanha do Senhor»; «Beberão
vinho, beberão a alegria, serão ungidos de unguento». E para que mais te
assegures, ouve o que diz sobre este unguento em sentido místico: «Transmite
tudo isso às nações, pois o desígnio do Senhor se estende sobre todos os povos».
Assim, pois, ungidos com este santo crisma,
guardai-o sem mancha e irrepreensível em vós, progredindo em boas obras e
tornando-vos agradáveis ao autor de nossa salvação, Cristo Jesus, a quem a
glória pelos séculos dos séculos. Amém.
Quarta Catequese
Mistagógica sobre o Corpo e Sangue de Cristo
e leitura da
primeira epistola aos Coríntios: «Porque eu recebi do Senhor o que vos
transmiti».
1. Este ensinamento do bem-aventurado Paulo foi
estabelecido como suficiente para vos assegurar acerca dos divinos mistérios,
dos quais tendo sido julgados dignos, vos tornastes con-corpóreos e
consanguíneos com Cristo. O próprio Paulo proclama precisamente: «Na noite
em que foi entregue, Nosso Senhor Jesus Cristo, tomando o pão e depois de ter
dado graças, partiu-o e o deu a seus discípulos, dizendo: Tomai, comei, isto é
o meu corpo. E tomando o cálice e tendo dado graças, disse: Tomai, bebei, isto
é o meu sangue». Se ele em pessoa declarou e disse do pão: «Isto é o meu
corpo», quem se atreveria a duvidar doravante? E quando ele afirma
categoricamente e diz: «Isto é o meu sangue», quem duvidaria dizendo não
ser seu sangue?
2. Outrora, em Caná da Galileia, por própria
autoridade, transformou a água
Presença real de
Cristo
3. Portanto, com toda certeza recebemo-los como
corpo e sangue de Cristo. Em forma de pão te é dado o corpo, e em forma de
vinho o sangue, para que te tornes, tomando o corpo e o sangue de Cristo,
con-corpóreo e consanguíneo com Cristo. Assim nos tornamos portadores de Cristo
(cristóforos), sendo nossos membros penetrados por seu corpo e sangue. Desse
modo, como diz o bem-aventurado Pedro, «tornamo-nos participes da natureza
divina». Falando, outrora, aos judeus Cristo dizia: «Se não comerdes
minha carne e não beberdes meu sangue, não tereis a vida em vós». Como não
entendessem espiritualmente o que era dito, escandalizados, se retiraram,
imaginando que o Salvador os incitava a comer carne humana.
5. Também no Antigo Testamento havia pães de
proposição. Mas esses pães, por pertencerem à antiga aliança, tiveram fim. Na
nova aliança o pão celeste e o cálice de salvação santificam a alma e o corpo.
Pois, como o pão se adequa ao corpo, assim o Verbo se harmoniza com a alma.
6. Não consideres, portanto, o pão e o vinho como
simples elementos. São, conforme a afirmação do Mestre, corpo e sangue. Se os
sentidos isto te sugerem, a fé te confirma. Não julgues o que se propõe segundo
o gosto, mas pela fé tem firme certeza de que foste julgado digno do corpo e
sangue de Cristo.
Prefigurações
escriturísticas
7. O bem-aventurado David anuncia-te a força [deste
mistério] dizendo: «Preparaste para mim a mesa à vista de meus inimigos».
Com isso ele quer dizer: Antes de tua vinda os demónios preparavam para os
homens uma mesa contaminada e manchada, cheia de poder diabólico. Mas depois de
tua vinda, ó Senhor, tu preparaste diante de mim uma mesa. Quando o homem diz a
Deus: «Tu preparaste diante de mim uma mesa», que outra coisa quer ele
insinuar, senão a mística e espiritual mesa, que Deus nos preparou em oposição
ao adversário, isto é, em oposição ao demónio? Sim, é isso mesmo. Pois a
primeira mesa tinha comunhão com os demónios, essa, ao contrário, comunhão com
Deus. «Ungiste de óleo minha cabeça». Com o óleo te ungiu a cabeça,
sobre a fronte, pelo sinal que tens de Deus, a fim de que te tornes assinalado
santo de Deus. «E teu cálice inebria-me como o melhor». Vês aqui
mencionado o cálice que Jesus tomou em suas mãos e sobre o qual rendeu graças
dizendo: «Este é o meu sangue, que é derramado por todos, em remissão dos
pecados».
8. Por isso também Salomão, aludindo a essa graça,
disse: «Vem, come teu pão na alegria», o pão espiritual. «Vem»
designa o apelo salutar e que faz bem-aventurado. «E bebe, de bom coração,
teu vinho», o vinho espiritual. «Derrama o óleo sobre tua cabeça
(vês aqui mais uma alusão à unção mística?) Traja sempre vestes brancas, já
que Deus sempre favorece as tuas obras». «Pois agora Deus se agradou de
tuas obras. Antes de te aproximares da graça eram tuas obras «vaidade das
vaidades».
Todavia agora, tendo despido as velhas vestes e
revestido espiritualmente a veste branca, é necessário estar sempre vestido de
branco. Não dizemos isso absolutamente porque é preciso estar trajado de
branco, mas porque deves, em realidade, revestir a veste branca, brilhante e
espiritual, a fim de dizeres com o bem-aventurado Isaías: «Com grande
alegria me rejubilei no Senhor, porque me fez revestir a vestimenta da salvação
e me cobriu com a túnica da alegria».
9. Tendo aprendido e estando seguro de que o que
parece pão não é pão, ainda que pareça pelo gosto, mas o corpo de Cristo, e o
que parece vinho não é vinho, mesmo que o gosto o queira, mas o sangue de
Cristo – e porque sobre isto dizia vibrando David: «O pão fortalece o
coração do homem, para que no óleo se regozije o semblante» – fortalece o
teu coração, tomando este pão como espiritual e regozije-se o semblante de tua
alma. Oxalá, tendo a face descoberta, em consciência pura, contempleis a glória
do Senhor, para ir de glória em glória,
Quinta Catequese
Mistagógica e leitura da epístola católica de São Pedro:
«Despojai-vos,
pois, de toda malícia e falsidade e maledicência», etc...
A celebração
eucarística
1. Pela benignidade de Deus, ouvistes de maneira
suficiente, nas reuniões precedentes, sobre o baptismo, a crisma e a
participação do corpo e sangue de Cristo. Mas agora é necessário ir adiante,
para coroar o edifício espiritual de vossa instrução.
2. Vistes o diácono oferecer água ao pontífice e aos
presbíteros que rodeiam o Altar de Deus para se lavarem. Não a deu,
absolutamente, por causa da sujeira corporal. Não é isso. Pois com o corpo sujo
nem sequer teríamos entrado na Igreja. Mas lavar as mãos é símbolo de que nos
devemos purificar de todos os pecados e de todas as faltas. Já que as mãos são
símbolo das obras, lavamo-las, indicando evidentemente a pureza e a
irrepreensibilidade das obras. Não ouviste como o bem-aventurado David te
introduziu neste mistério ao dizer: «Lavarei as mãos entre os inocentes e
andarei ao redor do teu altar, Senhor»? Então, lavar as mãos é estar limpo
de pecado.
3. Depois o diácono proclama: «Acolhei-vos
mutuamente e dai-vos o ósculo da paz». Não suponhas que este ósculo seja
como os que os amigos íntimos se dão na praça pública. Este ósculo não é assim.
Mas este ósculo une as almas entre si e é para elas penhor de esquecimento de
todos os ressentimentos. É sinal de que as almas se unem e afastam toda
lembrança de toda injúria. Por isso Cristo disse: «Quando fores apresentar
uma oferta perante o altar, e ali te lembrares de que teu irmão tem algo contra
ti, deixa ali a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com teu
irmão, depois volta para apresentar a tua oferta». Então, o ósculo é
reconciliação, e é por esta razão que é santo, como o bem-aventurado Paulo o
proclama algures: «Saudai-vos uns aos outros no ósculo santo». E Pedro: «Saudai-vos
uns aos outros no ósculo de caridade».
Introdução à
anáfora
4. Depois disso o sacerdote proclama: «Corações
ao alto!» Verdadeiramente, nesta hora mui
tremenda, é preciso ter o coração no alto, junto de Deus, e não embaixo, na
terra, nas coisas terrenas. Com autoridade, pois, o sacerdote ordena que nesta
hora se abandonem todas as preocupações da vida e os cuidados domésticos e que
se tenha o coração no céu, junto ao Deus benevolente. Vós então respondeis: «Já
os temos no Senhor!» assentindo à ordem por causa do que confessais.
Ninguém esteja presente dizendo apenas com a boca: «Nós os temos no Senhor»,
tendo a mente voltada para as preocupações da vida. Sempre devemos estar
lembrados de Deus. Se isso é impossível pela fraqueza humana, naquela hora isto
é o que mais deve ser procurado.
5. Depois diz o sacerdote: «Demos graças ao
Senhor». Deveras, devemos agradecer-lhe, porque sendo indignos chamou-nos a
tamanha graça que nos reconciliou, sendo seus inimigos, e nos fez dignos da adopção
do Espírito. E vós dizeis: «É digno e justo». Pois quando damos graças
nós fazemos algo digno e justo. Ele nos beneficiou não com a justiça, mas além
de toda justiça, fazendo-nos dignos de grandes bens.
Anáfora, prece
de louvor
6. Depois disso mencionamos o céu, a terra e o mar,
o sol e a lua, os astros, toda criatura racional e irracional, visível e
invisível, os anjos e arcanjos, as virtudes, dominações, principados,
potestades, tronos, os querubins de muitas faces e, com vigor, dizemos com
David: «Celebrai comigo o Senhor». Lembramo-nos ainda dos serafins, que
Isaías, no Espírito Santo, contemplava. Estavam colocados em círculo ao redor
do trono de Deus. Com duas asas cobriam o rosto, com outras duas os pés, e com
mais duas voavam e diziam: «Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos».
Por isso recitamos essa doxologia que nos foi transmitida pelos serafins, para
que neste canto nos associemos aos exércitos celestes.
Epíclese
7. Depois de santificados por esses hinos
espirituais, suplicamos ao Deus benigno que envie o Espírito Santo sobre os
dons colocados, para fazer do pão corpo de Cristo e do vinho sangue de Cristo.
Pois tudo o que o Espírito Santo toca é santificado e transformado.
Intercessões
8. Em seguida, realizado o sacrifício espiritual, o
culto incruento, em presença dessa vítima de propiciação, invocamos a Deus pela
paz comum das Igrejas, pelo bem-estar do mundo, pelos Imperadores, pelos
exércitos e aliados, pelos doentes, pelos aflitos e, em geral, todos nós
rezamos por todos aqueles que têm necessidade de socorro e oferecemos essa
vítima.
9. Depois fazemos menção dos que adormeceram,
primeiro dos Patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, para que Deus, por suas
preces e intercessão, aceite nossa súplica. Depois ainda rezamos pelos santos
padres, bispos adormecidos e, enfim, por todos os que nos precederam,
persuadidos de que será de máximo proveito para as almas, pelas quais a súplica
é elevada ante a santa e tremenda vítima.
10. E quero persuadir-vos com um exemplo. Sei que
muitos dizem: Que aproveita à alma que parte deste mundo com faltas ou sem
elas, se é mencionada na oferenda [eucarística]? Porventura, se um rei banisse
aos que se rebelaram contra ele, e se em seguida seus companheiros, trançando
uma coroa, a presenteiam ao rei em favor dos condenados, não lhes concederá a
remissão dos castigos? Do mesmo modo nós também, apresentando a Deus as
súplicas pelos adormecidos, embora tenham sido pecadores, nós não trançamos uma
coroa, mas apresentamos o Cristo imolado por nossos pecados, tornando propício
em favor deles e em nosso o Deus benigno.
O Pater
11. Depois disso, tu dizes aquela oração que o
Salvador transmitiu aos discípulos, atribuindo a Deus, com pura consciência, o
nome de Pai e dizes: «Pai nosso, que estás nos céus». Ó incomensurável benignidade
de Deus! Aos que o tinham abandonado e jaziam em extremos males, é concedido o
perdão dos males e a participação da graça, a ponto de ser invocado como Pai.
Pai nosso que estás nos céus. Os céus poderiam bem ser os que portam a imagem
do celestial, nos quais Deus habita e vive.
12. «Santificado seja teu nome». Santo é por
natureza o nome de Deus, quer o digamos ou não. Mas uma vez que naqueles que
pecam por vezes é profanado, segundo o que se diz: «Por vós meu nome é
continuamente blasfemado entre as nações», oramos que em nós o nome de Deus
seja santificado. Não que por não ser santo chegue a sê-lo, mas porque em nós
ele se torna santo quando nos santificamos e praticamos obras dignas de
santificação.
13. «Venha o teu reino». É próprio de uma
alma pura dizer com confiança: «Venha o teu reino». Quem ouviu Paulo
dizer: «Que o pecado não reine em vosso corpo mortal» e se purificar em
obra, pensamento e palavra, dirá a Deus: «Venha o teu reino».
14. «Seja feita a tua vontade, assim no céu como
na terra». Os divinos e bem-aventurados anjos de Deus fazem a vontade de
Deus, como David dizia no salmo: «Bendizei ao Senhor, todos os seus anjos,
heróis poderosos, que executais sua palavra». Rezando, pois, com vigor, diz
isto: como nos anjos se faz a tua vontade, Senhor, assim na terra se faça em
mim.
15. «Nosso pão substancial dá-nos hoje». O
pão comum não é substancial. Mas este pão é substancial, pois se ordena à
substância da alma. Este pão não vai ao ventre nem é lançado em lugar escuso
mas se distribui sobre todo o organismo, em proveito da alma e do corpo. O «hoje»
equivale a dizer de «cada dia» , como também dizia Paulo: «Enquanto perdura o
hoje».
16. «E perdoa-nos as nossas dívidas assim como
nós perdoamos aos nossos devedores». Temos muitos pecados. Caímos, pois, em
palavra e em pensamento e fazemos muitas coisas dignas de condenação. «E se
dissermos que não temos pecado, mentimos», como diz João. Fazemos com Deus
um pacto pedindo-lhe nos perdoe nossos pecados como também nós perdoamos ao próximo
suas dívidas. Tendo presente, portanto, o que recebemos em troca do que damos,
não sejamos negligentes, nem deixemos de perdoar uns aos outros. As ofensas que
se nos fazem são pequenas, simples, fáceis de reconciliar. As que nós fazemos a
Deus são enormes e temos necessidade só de sua benignidade. Cuida, então, que
por faltas pequenas e simples contra ti não te excluas do perdão, por parte de
Deus, dos pecados gravíssimos.
17. «E não nos induzas em tentação», Senhor.
Porventura com isto o Senhor nos ensina a pedir que de modo algum sejamos
tentados? Como se encontra em outro lugar: «Aquele que foi tentado não tem
experiência» e ainda: «Tende por suma alegria, meus irmãos, se cairdes
em diversas provações»? Mas jamais entrar em tentação é o mesmo que ser
submerso por ela. A tentação, pois, se assemelha a uma torrente difícil de
atravessar. Os que, então, não são submersos nas tentações,
atravessam, como bons nadadores, sem serem arrastados pela corrente. Os que não
são assim, uma vez que entram, são submersos. Assim, por exemplo, Judas,
entrando na tentação da avareza, não passou a nado, mas, submergindo, afogou-se
corporal e espiritualmente. Pedro entrou na tentação de negação, mas, tendo
entrado, não submergiu; antes, nadando com vigor, se salvou da tentação.
Escuta novamente, em outro lugar, o coro dos santos
todos rendendo graças por terem sido subtraídos à tentação: «Tu nos
provaste, ó Deus, acrisolaste-nos como se faz com a prata. Deixaste-nos cair no
laço; carga pesada puseste em nossas costas; submeteste-nos ao jugo dos
tiranos. Passamos pelo fogo e pela água, mas tu nos conduziste ao refrigério».
Tu os vês falar abertamente de sua travessia sem serem vencidos? «Tu nos
conduziste ao refrigério». Chegar ao refrigério é ser livrado da tentação.
18. «Mas livra-nos do Mal». Se a expressão «não
nos induzas em tentação» significasse não sermos de modo algum tentados,
não se diria: «Mas livra-nos do Mal». O Mal é o demónio, nosso
adversário, do qual pedimos ser libertos.
Depois, terminada a prece, dizes: «amém»,
selando com este amém – que significa «faça-se» – o que se contém na
oração ensinada por Deus.
Comunhão
19. Depois disso, diz o sacerdote: «As coisas
santas aos santos». As coisas são as oferendas aí colocadas, pois receberam
a vinda do Espírito Santo. Santos sois também vós, julgados dignos do Espírito
Santo. As coisas santas, então, convêm aos santos. Em seguida vós dizeis: «Um
é o santo, um o Senhor, Jesus Cristo». Verdadeiramente um é o santo, santo
por natureza. Nós, porém, se santos, o somos não pela natureza, mas pela
participação, ascese e prece.
20. Depois dessas coisas, ouvis o cantor que, com
uma melodia divina, vos convida à comunhão dos santos mistérios, dizendo: «Provai
e vede como o Senhor é bom». Não confieis o julgamento ao gosto corporal,
mas à fé inabalável. Pois provando não provais pão e vinho, mas o corpo e
sangue de Cristo que aqueles significam.
21. Ao te aproximares [da comunhão], não vás com as
palmas das mãos estendidas, nem com os dedos separados; mas faz com a mão esquerda
um trono para a direita como quem deve receber um Rei e no côncavo da mão
espalmada recebe o corpo de Cristo, dizendo: «Amém». Com segurança,
então, santificando teus olhos pelo contacto do corpo sagrado, toma-o e cuida
de nada se perder. Pois se algo perderes é como se tivesses perdido um dos
próprios membros. Diz-me, se alguém te oferecesse lâminas de ouro, não as
guardarias com toda segurança, cuidando que nada delas se perdesse e fosses
prejudicado? Não cuidarás, pois, com muito mais segurança de um objecto mais
precioso que ouro e pedras preciosas, para dele não perderes uma migalha
sequer?
22. Depois de teres comungado o corpo de Cristo,
aproxima-te também do cálice do seu sangue. Não estendas as mãos, mas
inclinando-te, e num gesto de adoração e respeito, diz «amém».
Santifica-te também tomando o sangue de Cristo. E enquanto teus lábios ainda
estão húmidos, roça-os de leve com tuas mãos e santifica teus olhos, tua fronte
e teus outros sentidos. Depois, ao esperares as orações [finais], rende graças
a Deus que te julgou digno de tamanhos mistérios.
23. Conservai inviolavelmente essas tradições e vós
mesmos guardai-vos sem ofensa. Não vos separeis da comunhão nem pela mancha do
pecado vos priveis desses santos e espirituais mistérios.
«O Deus da paz santifique-vos completamente.
Conserve-se inteiro o vosso espírito,
e a vossa alma e o vosso corpo sem mancha,
para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo»,
a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém.»
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)