Tratado de São
Jerónimo contra Helvídio
Este tratado surgiu por volta do ano 383 d.c., quando Jerónimo e Helvídio encontravam-se em Roma, no
tempo do Papa Dâmaso. As únicas informações contemporâneas que se conservam de
Helvídio são estas, fornecidas por Jerónimo.
A questão que trouxe este tratado à luz foi: teria a
Mãe de Nosso Senhor permanecido virgem após o nascimento de seu Filho? Helvídio
afirmava que os Evangelhos mencionando os "irmãos" e
"irmãs" do Senhor provavam que Maria teria tido outros filhos,
baseando sua opinião nos escritos de Tertuliano e Vitorino.
A conclusão deste ponto de vista é que a virgindade
se situa numa posição inferior ao casamento. Jerónimo defende o outro lado,
mantendo três proposições contra Helvídio:
José era o suposto marido de Maria, mas não o era de
facto;
Os "irmãos"
do Senhor
eram seus primos (parentes), não irmãos de verdade; e a virgindade é superior
ao estado de casado.
A primeira proposição ocupa os capítulos
A segunda, gira em torno da
expressão: "filho primogénito" (caps.
9-10), que Jerónimo afirma ser aplicável não apenas ao primeiro de uma série de
vários filhos, mas também ao filho único. Quanto à menção dos irmãos e irmãs de
Jesus, Jerónimo garante serem filhos de outra Maria, esposa de Cléofas ou Clopas (caps. 11-16); para
fundamentar sua posição, cita diversos escritores da Igreja (cap. 17).
Na terceira e última parte, para sustentar a
preferência da virgindade sobre o casamento, Jerónimo afirma que não apenas
Maria mas também José mantiveram seu estado virginal (cap.
19); diz, também, que embora o casamento possa ser um estado santo, apresenta
grandes obstáculos para a oração (cap. 20) e que o
ensinamento da Escritura declara que o estado de virgindade e continência estão
mais de acordo com o desejo de Deus do que o casamento (caps.
21-22).
CAPÍTULO I
Há algum tempo, recebi o pedido de alguns irmãos
para responder a um panfleto escrito por um tal Helvídio. Demorei para fazê-lo,
não porque fosse tarefa difícil defender a verdade e refutar um ignorante sem
cultura, que dificilmente tomou contacto com os primeiros graus do saber, mas
porque fiquei preocupado em oferecer uma resposta digna, que desmoronasse os
seus argumentos.
Havia ainda a preocupação de que um discípulo
confuso (o único sujeito do mundo que se considera clérigo e leigo; único
também, como se diz, que pensa que a eloquência consiste na tagarelice, e que
falar mal de alguém torna o testemunho de boa fé) poderia passar a blasfemar
ainda mais, caso lhe fosse dada outra oportunidade para discutir. Ele, então,
como se estivesse sobre um pedestal, passaria a espalhar suas opiniões em todos
os lugares.
Também temia que, quando caísse na realidade,
passasse a atacar seus adversários de forma ainda mais ofensiva.
Mas, mesmo que eu achasse justos todos esses motivos
para guardar silêncio, muito mais justamente deixaram de me influenciar a
partir do instante em que um escândalo foi instaurado entre os irmãos, que
passaram a acreditar nesse falatório. O machado do Evangelho deve agora cortar
pela raiz essa árvore estéril, e tanto ela quanto suas folhagens sem frutos
devem ser atiradas no fogo, de tal maneira que Helvídio -
que jamais aprendeu a falar - possa aprender, finalmente, a controlar a sua
língua.
CAPÍTULO II
Invoco o Espírito Santo para que Ele possa se
expressar através da minha boca e, assim, defenda a virgindade da
bem-aventurada Maria. Invoco o Senhor Jesus para que proteja o santíssimo
ventre no qual permaneceu por aproximadamente dez meses, sem quaisquer
suspeitas de colaboração de natureza sexual. Rogo também a Deus Pai para que
demonstre que a mãe de Seu Filho - que se tornou mãe
antes de se casar - permaneceu Virgem ainda após o nascimento de seu Filho.
Não desejamos entrar no campo da eloquência, nem
usar de armadilhas lógicas ou dos subterfúgios de Aristóteles. Usaremos as
reais palavras da Escritura; [Helvídio] será refutado pelas mesmas provas que
empregou contra nós, para que possa ver que lhe foi possível ler conforme está
escrito, e, ainda assim, foi incapaz de perceber a conclusão de uma fé sólida
CAPÍTULO III
Sua primeira declaração é Mateus que diz: "O
nascimento de Jesus Cristo foi assim: quando sua mãe Maria estava prometida a
José, antes de coabitarem, encontrou-se grávida pelo Espírito Santo. E José,
seu marido, sendo um homem justo e não desejando denunciá-la publicamente,
pensou em repudiá-la
CAPÍTULO IV
Consideremos cada um desses pontos, pois seguindo o
caminho dessa impiedade mostraremos que ele [Helvídio] está se contradizendo.
Admite que [Maria] estava "prometida" e que o próximo passo seria se
tornar esposa daquele homem a quem estava prometida. Novamente, ele a chama de
"esposa" e diz que a única razão para estar prometida seria pelo
facto de casar-se um dia. E, temendo que não o compreendêssemos suficientemente
bem, ainda diz: "a palavra usada é 'prometida' e
não 'confiada', isto é, ela ainda não se tornara
esposa, nem mesmo havia sido unida pelo contrato de casamento".
Mas quando ele continua: "o Evangelista jamais
usaria tais palavras se eles não viessem a se juntar futuramente, já que não se
usa a frase 'antes de jantar'
se certa pessoa não for jantar", sinceramente não sei se devo lamentar ou
rir. Deveria acusá-lo de ignorância ou de imprudência? Como se isto, supondo
que uma pessoa dissesse: "Antes de jantar no porto, naveguei para a
África", significasse que tais palavras obrigatoriamente demonstrassem que
essa pessoa alguma vez já jantou no porto. Se eu preferisse dizer: "o
apóstolo Paulo, antes de ir para a Espanha, foi preso em Roma", ou (como
também acho provável) "Helvídio, antes de se arrepender, morreu";
acaso teria Paulo obrigatoriamente estado na Espanha [após a prisão], ou
Helvídio se arrependeria após a morte, ainda que a Escritura diga: "No Sheol quem vos dará graças?"
Não podemos entender a preposição "antes" - ainda que muitas vezes signifique ordem no tempo - como
também ordem de pensamento? Portanto, não há necessidade que nossos pensamentos
se concretizem, se alguma causa suficiente vier a evitá-los (sua
concretização). Logo, quando o Evangelista diz "antes que
coabitassem", indica apenas o tempo imediatamente precedente ao
casamento, e mostra que estava em estado bem adiantado, pois ela já estava
prometida, a ponto de estar próximo o momento de se tornar esposa. Conforme diz
[o Evangelista], antes de se beijarem e se abraçarem, antes da consumação do casamento,
ela encontrou-se grávida. E ela foi determinada para pertencer a ninguém mais a
não ser José, que guardou com zelo o ventre cada vez maior de sua prometida,
com olhar inquieto mas que, a esta altura, quase que com o privilégio de um
marido.
Ainda que possa parecer -
conforme o exemplo citado - que ele teve relações sexuais com Maria após o seu
parto, o seu desejo poderia ter desaparecido pelo facto dela já ter concebido
anteriormente. E, embora encontremos que foi dito a José em um sonho: "Não
temas
A seguinte evidência, retirada do Deuteronómio,
assim o indica: "Se um homem" - diz o
Escritor [sagrado] - "encontra uma mulher prometida no campo e a
violenta, deve ser morto porque humilhou a esposa do seu próximo"; e,
em outro lugar: "Se uma virgem é prometida a um marido, e um homem a
encontra na cidade e a violenta, então deveis trazê-los para fora do portão da
cidade e os apedrejareis até à morte; a mulher porque não gritou, estando na
cidade, e o homem porque humilhou a esposa do seu próximo. Fareis isto para
eliminar o mal do meio de vós"; e também, em outra parte: "Que
tipo de homem é este que possui uma esposa prometida e ainda não a recebeu? Que
volte para sua casa, para que não morra na batalha, e que outro homem a
despose".
Mas se alguém guarda dúvidas do porquê a Virgem concebeu após estar prometida [a José], uma vez que não estava prometida a mais ninguém, ou, para usar os termos da Escritura, estava sem marido, deixe-me explicar três razões:
1 - Pela genealogia de José, Maria possuía
parentesco com ele, e a origem de Maria também precisava ser demonstrada;
2 - Porque ela não poderia ser enquadrada na Lei de
Moisés para ser apedrejada como adúltera;
3 - Porque em sua fuga para o Egipto ela precisava
de segurança, o que poderia ser obtido com a ajuda de um guardião, de
preferência um marido.
Quem, naquele tempo, acreditaria na palavra da
Virgem, de que teria concebido pelo poder do Espírito Santo, e que o anjo
Gabriel lhe teria aparecido para anunciar o propósito de Deus? Todos não a
chamariam de adúltera, como fizeram com Susana? Ainda nos tempos presentes,
quando praticamente toda a terra abraçou a Fé, não vêm os judeus afirmar que as
palavras de Isaías: "Eis que a 'Virgem'
conceberá e dará à luz um filho" são equívocas porque o termo hebraico
«almah» que aparece na frase, significa mulher jovem,
enquanto que o termo «bethulah», que significa virgem
não é usado? Tal posição, abordaremos com mais
detalhes adiante.
Finalmente, com excepção de José, Isabel e da
própria Maria - e talvez de mais alguns poucos que
podemos supor ouviram a verdade da boca deles - todos supunham que Jesus era
filho de José. E de tal modo era essa a suposição que até mesmo os
Evangelistas, expressando a opinião corrente - que é a
regra correta para qualquer historiador - o chamavam
de pai do Salvador, como, por exemplo: "Movido pelo Espírito, ele (isto
é, Simeão) veio ao Templo. Então os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir
as prescrições da Lei a seu respeito"; e, em outro lugar: "E
seus pais iam todos os anos a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa";
e, mais adiante: "Tendo completado os dias, eles retornaram, mas o menino
Jesus permaneceu em Jerusalém, e seus pais não sabiam disso".
Note-se que a própria Maria respondeu ao anjo
Gabriel com as seguintes palavras: "Como se sucederá isso, se não
conheço varão?", dizendo isto a respeito de José; e, mais: "Filho,
por que fizeste isto conosco? Teu pai e eu estávamos
à tua procura". Não fazemos uso aqui, como muitos fazem, do discurso
dos judeus ou dos escarnecedores. Os Evangelistas chamam José de
"pai" e Maria confessa que ele era pai. Não -
como já disse antes - que José fosse realmente o pai do Salvador, mas,
preservando a reputação de Maria, todos o viam como sendo o pai de Jesus, pois
ouvira a advertência do anjo: "José, filho de David, não temas em tomar
para ti Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado provém do Espírito
Santo", pois pensava em repudiá-la em segredo; tudo isto bem
demonstrando que o filho não era dele.
Ao dizermos tudo isto, mais com o objectivo de
oferecer uma instrução imparcial do que responder a um oponente, mostramos o
porquê José era chamado de pai de Nosso Senhor e o porquê Maria era chamada de
esposa de José. Isto também responde ao porquê de certas pessoas serem chamadas
de "seus irmãos".
CAPÍTULO V
Entretanto, este último ponto encontrará seu lugar
apropriado mais adiante.
Vamos agora abordar outros tópicos. A passagem que
discutiremos agora é: "E José despertou de seu sono e fez conforme o
anjo lhe ordenara, tomando-a como sua esposa; e não a conheceu até que deu à
luz a um filho, e ele lhe colocou o nome de Jesus". Aqui, antes de
mais nada, é absolutamente inútil para o nosso oponente querer demonstrar, de
forma tão elaborada, que essas palavras se referem à cópula sexual,
especialmente na compreensão intelectual: qualquer um pode negar isso e toda
pessoa de bom senso pode imaginar a estupidez da refutação que Helvídio se
esforçou por sustentar. Ele quer nos ensinar que o advérbio "até que"
implica um tempo fixo e definitivo que, ao se completar, ocorre o evento que até
então não se realizara; como neste caso: "e não a conheceu até que deu
à luz um filho".
Segundo ele, é claro que ela
Maria foi conhecida depois, e que apenas aguardara o tempo necessário para o
nascimento de seu filho. Para defender sua posição, Helvídio amontoa textos e
mais textos sem qualquer critério, comportando-se como um gladiador cego que
fica movimentando sua espada a esmo, dizendo asneiras com sua língua barulhenta
e terminando sem ferir ninguém, a não ser a si próprio.
CAPÍTULO VI
Nossa resposta é brevemente esta: as palavras
"conhecer" e "até que", na linguagem da Sagrada Escritura,
possuem duplo significado. Do primeiro [quanto a "conhecer"], ele
mesmo [Helvídio] ofereceu-nos uma dissertação para mostrar que pode se referir
a relação sexual, como também ninguém duvida que pode ser usada para significar
percepção (entendimento, saber), como, por exemplo: "o menino Jesus
permaneceu em Jerusalém e seus pais não tinham conhecimento disso".
Já que provamos que ele seguiu o uso da Escritura
neste caso, com relação à expressão "até que" será completamente
refutado pela autoridade da mesma Escritura Sagrada, pois várias vezes
significa um certo tempo sem limitação, como quando Deus diz a certas pessoas
pela boca do profeta: "Até à vossa velhice Eu sou o mesmo"; acaso Ele
deixará de ser Deus após essas pessoas envelhecerem? E, no Evangelho, o
Salvador diz aos Apóstolos: "Estarei convosco até a consumação do
mundo"; será que quando chegar o fim dos tempos o Senhor abandonará Seus
discípulos e estes, quando estiverem sentados sobre os doze tronos para julgar
as doze tribos de Israel, estarão privados da companhia de seu Senhor?
Também Paulo,
ao escrever aos Coríntios, declara: "[Cada um,
porém, na sua ordem:] Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo, na sua
vinda. Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver
destruído todo domínio e toda autoridade e todo poder. Pois é necessário que
Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés".
Certos de que a passagem relata a natureza humana de Nosso Senhor, não temos
como negar que as palavras são Daquele que sofreu [morte] na cruz e que mais
tarde se sentou à direita [de Deus]. O que Ele quer demonstrar ao dizer que "é
necessário que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus
pés"? O Senhor reinará apenas até colocar todos os seus inimigos sob
os seus pés e, depois disso, deixará de reinar? É óbvio que seu reino estará
começando quando seus inimigos estiverem sob os seus pés.
Também David, na Quarta Canção da Ascensão, fala
assim: "Olhai: assim como os olhos dos servos olham para a mão de seu
mestre; assim como os olhos da moça olham para a mão de sua senhora; assim
também os nossos olhos olham para o Senhor, nosso Deus, até que tenha
misericórdia de nós". Será então que o profeta, olhando para Deus com
o intuito de obter misericórdia, irá desviar seu olhar para o chão assim que
obtiver misericórdia? [Certamente que não,] ainda que ele, em algum lugar,
diga: "Meus olhos quedam pela tua salvação e pela palavra da tua
justiça".
Eu poderia acrescentar inúmeras passagens como estas
que, atestam esse uso, e cobriria com uma nuvem de provas a verbosidade do
nosso contundente. Porém, acrescentarei mais algumas passagens e deixarei que o
leitor descubra outras semelhantes por si mesmo.
CAPÍTULO VII
A Palavra de Deus diz em Génesis: "Entregaram
a Jacob todos os deuses estranhos que tinham em suas mãos, e as argolas que
penduravam em suas orelhas; e Jacob escondeu-os debaixo do carvalho que está
junto a Siquém, e continuam perdidos até o dia de
hoje". Igualmente lemos no final do Deuteronómio: "Assim,
Moisés, servo do Senhor, morreu ali na terra de Moab,
conforme a palavra do Senhor. E foi sepultado no vale, na terra de Moab, defronte de Beth-Peor; até
o dia de hoje ninguém sabe o lugar da sua sepultura".
Certamente devemos identificar a expressão "até
o dia de hoje" com o tempo da composição da história, podendo vocês
preferirem o ponto de vista que afirma que Moisés foi o autor do Pentateuco ou que Esdras o
reeditou. Não faço qualquer objecção em ambos os casos. A questão agora é saber
se as palavras "até o dia de hoje" se referem à época da publicação
ou composição desses livros e, caso o sejam, por que [Helvídio] não mostra - agora que muitos e muitos anos se passaram desde aquele
dia - que os ídolos escondidos sob o carvalho ou a sepultura de Moisés foram
descobertos, já que ele sustenta, com demasiada teimosia, que certa coisa não
pode ocorrer dentro de um espaço de tempo delimitado pela expressão "até
que" mas, para que venha a ocorrer, é necessário que atinja aquele ponto
delimitado por "até que"?
Ele faria bem se prestasse atenção ao idioma da
Sagrada Escritura e compreendesse como nós - já que se
encontra mergulhado na lama; certas coisas parecem ambíguas quando não
claramente declaradas, emboras outras coisas sejam
deixadas assim para exercitar o nosso intelecto. Ora, se ainda quando o evento
permanecia fresco na memória daqueles homens que viram e conviveram com Moisés
já se desconhecia o local da sepultura, quanto mais agora depois que tantos
anos se passaram!
E da mesma forma devemos interpretar o que se conta
a respeito de José. O Evangelista apontou uma circunstância que poderia causar
escândalo, ou seja, que Maria não foi conhecida por seu marido até dar à luz, e
ele (o Evangelista) agiu assim para que tivéssemos a certeza de que ela - de quem José se absteve enquanto havia lugar para dúvidas
sobre a importância da visão - não foi conhecida depois de seu parto.
CAPÍTULO VIII
Em resumo: o que eu gostaria de saber é por que José
teria se privado [de Maria] até o dia de ter ela dado à luz? Helvídio
certamente responderia: "Porque ele ouviu o que o anjo disse: 'pois o que nela foi gerado provém do Espírito Santo'". Nós, então, responderíamos a seguir que
[José] certamente ouviu o que o [anjo] disse: "José, filho de Davi, não temas em tomar para ti Maria como tua
esposa". A razão pela qual ele estava proibido de repudiar sua esposa
era porque não achava que ela fosse adúltera. Seria então verdade que o [anjo]
ordenara que não tivesse relações sexuais com sua esposa? Não está
suficientemente claro que a advertência feita foi para que não se separasse
dela? E poderia o homem justo pensar em se aproximar dela tendo ouvido que o
Filho de Deus estava em seu ventre? Óptimo! Vamos então acreditar que o mesmo
homem que deu tanto crédito a um sonho, não se atreveu a tocar em sua esposa,
mesmo depois, quando ele ouviu dos pastores que o anjo do Senhor desceu dos
céus e lhes disse: "Não temais! Eis que vos anuncio uma grande alegria,
que o será também para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, o
Cristo Senhor"; e após, quando a multidão celeste se juntou ao anjo e
entoaram: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa
vontade"; e ainda quando o justo Simeão abraçou a criancinha e
exclamou: "Podeis levar agora para ti este teu Servo, Senhor, pois os
meus olhos viram a tua salvação, conforme a tua palavra"; e também
quando [José] viu a profetisa Ana, os Magos, a Estrela [de Belém], Herodes, os
anjos...
Eu diria então: quer Helvídio nos fazer acreditar
que José, muito bem inteirado de tamanhas maravilhas, ousaria tocar o templo de
Deus, a morada do Espírito Santo, a mãe do seu Senhor? Maria mantinha todos
esses eventos "guardados em seu coração". Vocês não podem cair na
vergonha de dizer que José desconhecia tudo isso, pois Lucas nos diz: "Seu
pai e sua mãe ficavam maravilhados das coisas que diziam a Seu respeito".
E vocês ainda afirmam, arrogantemente, que a leitura
dos manuscritos gregos é corrupta, embora seja exactamente isso que todos os
escritores gregos fizeram constar em seus livros, e não apenas eles, mas também
muitos escritores latinos interpretaram as palavras da mesma forma... E nem
precisaremos considerar as variações existentes nas cópias, pois todos os
registros existentes, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, se encontram
assim desde que foram traduzidos para o Latim; portanto, devemos crer que a
água da fonte brota mais pura que a [água] do rio.
Parte III: Os "irmãos" do Senhor
eram primos (parentes); não irmãos de facto.
CAPÍTULO IX
Helvídio poderá responder: "O que você diz é,
na minha opinião, insignificante. Seus argumentos foram perdidos no tempo e
esta discussão demonstra mais astúcia do que verdade. Por que a Escritura não
diria como diz de Tamar e Judá: 'E ele a tomou como sua esposa e jamais a conheceu'? Porque
Mateus não usou estas palavras se quisesse mesmo expressar esse significado?
Ele diz claramente: 'e não a conheceu até que deu à
luz a um filho'. Logo, após o parto, certamente a
conheceu, pois se privou dela até o momento do parto".
CAPÍTULO X
Se vocês são tão contenciosos, deveriam com suas
próprias ideias testar o vosso mestre. Vocês não devem permitir que se faça uma
separação entre o parto e o intercurso (sexual). Não devem dizer: "Se uma
mulher conceber e tiver um menino, será imunda sete dias; assim como nos dias
da impureza de suas regras, será imunda. No oitavo dia, circundar-se-á o
prepúcio do menino e, durante trinta e três dias, ela ficará ainda
purificando-se do seu sangue e não tocará em qualquer coisa sagrada" e
outras coisas semelhantes. Devem recordar que se José se aproximasse dela,
estaria sujeito à reprovação de Jeremias: "São como cavalos de
lançamento bem nutridos, que andam relinchando cada um à mulher do seu
próximo".
De outra maneira, como se explicariam as palavras
"e não a conheceu até que deu à luz a um filho", se ele ainda deveria
aguardar o término do tempo de purificação, pois senão o seu desejo acabaria
por sofrer com um período ainda mais longo, de 40 dias? A mãe precisava se
purificar da mácula de seu filho recém-nascido de modo que este ficava sob os
cuidados da parteira, enquanto o marido apoiava sua esposa enfraquecida.
Portanto, é certo que [José e Maria] se casaram, já que o Evangelista não pode
ser acusado de ter mentido. Mas Deus nos livre de pensarmos tais coisas a
respeito da mãe do Salvador e de um homem justo! Nenhuma parteira assistiu ao
nascimento de Jesus; nenhuma mulher se intrometeu ali. Com suas próprias mãos
[Maria] envolveu o Menino em pedaços de pano; ela mesma foi mãe e parteira, e,
como nos é relatado, "O colocou numa manjedoura, pois não havia nenhum
quarto para eles na pousada"; eis a declaração canónica que refuta as
estórias apócrifas, pois foi Maria mesma que o envolveu em pedaços de pano e o
que se sucederia a partir daí torna impossível a maliciosa ideia de Helvídio,
uma vez que não havia um local adequado para o acto sexual naquela pousada.
CAPÍTULO XI
Darei agora uma resposta mais ampla a respeito das
palavras "antes que coabitassem" e "não a conheceu até que deu à
luz a um filho". Mas devo observar primeiro que a minha resposta segue a
ordem do argumento dele até o terceiro ponto, pois ele dirá que Maria teve
outros filhos quando cita a passagem: "E José se dirigiu até a cidade
de David, para se inscrever com Maria, sua noiva, que estava grávida. Enquanto
lá estavam, completaram-se os dias para o parto e ela deu à luz ao seu filho
primogénito". Esforça-se, assim, para provar que o termo
"primogénito" só pode ser aplicado a uma pessoa que teve outros
irmãos e que, no caso, seriam filhos de seus pais.
CAPÍTULO XII
Nossa posição é esta: todo filho único é primogénito
mas nem todo primogénito é filho único. Por primogénito entendemos não apenas
aquele que pode ser sucedido por outros, mas aquele que não teve predecessor.
Assim diz o Senhor a Abraão: "Todo aquele que abrir o útero, de toda a
carne, será oferecido ao Senhor; tanto de homens como de animais, será teu.
Contudo, os primogénitos dos homens deverão ser resgatados; também os primogénitos dos animais impuros resgatarás".
A palavra de Deus define "primogénito" como todo aquele que abriu o útero. Ora, se o título pertence apenas àqueles que têm irmãos mais jovens, então os sacerdotes não poderiam reivindicar o primogénito até que outros sucessores nascessem, pois, caso contrário, isto é, se não houvesse outros partos, seria necessário provar o estado de primogénito e não simplesmente o de filho único.
"E aqueles que devem ser resgatados com um mês
de idade, devem ser resgatados , de acordo com tua
estimativa por cinco siclos [de moedas], além do siclo do santuário. Mas o primogénito de um boi ou de uma
ovelha ou de uma cabra, não deverás resgatar; eles são
sagrados".
A palavra de Deus me compele a dedicar a Deus o que quer que abra o útero se
for o primogénito de animais puros; se de animais impuros, devo resgatá-lo,
dando o valor devido ao sacerdote.
Poderia replicar: Por que me sujeitais ao curto
espaço de um mês? Por que falais do primogénito, quando não posso dizer que há
irmãos que irão nascer? Esperai até que nasça o segundo filho.
Não explico nada ao sacerdote, como se apenas o
nascimento do segundo desse ao primeiro que tive a condição de primogénito. Não
deveria, ao pé da letra, chamar-me e convencer-me de louco, se em vez de
declarar que primogénito é um título devido àquele que rompe o útero,
pretendesse restringir essa condição àqueles que após terão irmãos? Então,
tomando o caso de João: estamos de acordo que ele foi filho único; eu
precisaria saber se ele não foi também filho primogénito, e se não foi
absolutamente sujeito à lei. Não há dúvidas quanto a isso.
À toda hora a Sagrada Escritura fala assim do
Salvador: "E quando chegou o dia de sua purificação, de acordo com a
lei de Moisés, eles o levaram a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor [como
está prescrito na lei do Senhor, todo macho que abre o útero deve ser
consagrado ao Senhor] e para oferecer em sacrifício de acordo com o que é
prescrito na lei do Senhor, um par de rolinhas ou
duas pombas novas". Se esta lei se refere somente aos primogénitos, e
esses deveriam ser os primogénitos com irmãos sucessores, ninguém seria
obrigado pela lei se não pudesse afirmar que houve sucessores. Mas visto que,
como aquele que não tem irmãos mais novos, é sujeito à lei do primogénito,
deduzimos que é chamado primogénito aquele que abre o útero da mãe e que não
foi precedido por ninguém, e não aquele cujo nascimento foi seguido por outro
de irmão mais novo.
Moisés escreve no Êxodo: "E acontecerá ao
passar da meia-noite que o Senhor ferirá todos os primogénitos das terras do
Egipto, desde o primogénito do Faraó que reina em seu trono até os primogénitos
dos cativos que estiverem nas prisões; e todos os primogénitos do
acampamento". Diga-me: eram os que pereceram pelas mãos do
Exterminador somente seus primogénitos, ou alguém mais, ou seja, os filhos únicos? Se somente aqueles que
tinham irmãos eram chamados primogénitos, somente os filhos únicos escaparam da
morte. E se, de facto, os filhos únicos foram trucidados, isso se opõe à
sentença pronunciada, porque nascidos para morrer eram somente os primogénitos.
Você deverá ou livrar os filhos únicos da pena, e nesse caso, se tornará
ridículo; ou, se concorda que eles foram mortos, ganhamos a questão, embora não
tenhamos de lhe agradecer isso, porque os filhos únicos eram também
primogénitos.
CAPÍTULO XIII
A última proposição de Helvídio era esta, e era o
que ele queria demonstrar quando tratou dos primogénitos, afirmando que são
citados nos Evangelhos os irmãos de Jesus. Por exemplo: "Ora, sua mãe e
seus irmãos permaneciam procurando falar com Ele". E em outro lugar: "Depois
disso Ele foi para Cafarnaum, com sua mãe e seus irmãos". E de novo: "Seus
irmãos então lhe disseram: 'Parte daqui e vai para a
Judeia, porque teus discípulos podem também testemunhar as obras que fazes.
Porque ninguém faz nada em segredo, mas procura ser conhecido abertamente. Se
realizas tais coisas, manifesta-te ao mundo". E João acrescenta: "Porque
mesmo seus irmãos não acreditavam nele".
Também Marcos e Mateus: "E indo à sua
própria terra, ensinava em suas sinagogas, tanto que [sua gente] ficava atónita
e dizia: 'De onde tirou este homem tal sabedoria e
miraculosas obras? Não é o filho do carpinteiro. Não é sua mãe chamada Maria e
seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não moram connosco".
Lucas, também, nos Actos dos Apóstolos relata: "Todos aqueles com um só
propósito continuaram firmes na oração, com as mulheres e Maria, a mãe de
Jesus, e com seus irmãos".
Paulo, o Apóstolo, também uma vez esteve com eles, e
testemunha sua precisão histórica: "E cresci pela revelação, mas não vi
os outros apóstolos, a não ser Pedro e Tiago, o irmão do Senhor". E de
novo, em outro lugar: "Não temos o direito de comer e beber? Não temos
o direito de trabalhar com as viúvas, assim como o resto dos Apóstolos, os
irmãos do Senhor e Pedro?"
E, por medo, ninguém aceitou o testemunho dos judeus,
pois foi de sua boca que ouvimos o nome de Seus irmãos, mas mantivemos que seus
conterrâneos ficaram decepcionados com esse mesmo erro a respeito dos irmãos
pelo qual [os judeus] passaram a acreditar sobre o pai, Helvídio profere uma
dura observação de advertência e grita: "Os mesmos nomes estão
repetidos pelos Evangelistas em outro lugar e as mesmas pessoas são ali irmãos
do Senhor e filhos de Maria".
Mateus diz: "E muitas mulheres estavam ali
(sem dúvida ao pé da cruz do Senhor), observando de alguma distância, e elas
tinham seguido Jesus desde a Galileia, ajudando-o, entre as quais estava Maria
Madalena, Maria a mãe de Tiago menor e de José, e Salomé"; e no mesmo
lugar, logo depois: "E muitas outras mulheres que subiram com Ele a
Jerusalém".
Lucas também diz: "Ali estavam Maria
Madalena e Joana, e Maria, a mãe de Tiago, e as outras mulheres com elas".
CAPÍTULO XIV
Minha razão para repetir sempre a mesma coisa é para
adverti-lo para não fazer uma falsa afirmação, divulgando que eu deixei de lado
tais passagens, como propícias a você, e que essa interpretação foi desfigurada
e desfeita não pela evidência da Escritura, mas por argumentos evasivos.
"Observe:" - diz ele -
"Tiago e José são filhos de Maria, e são as mesmas pessoas que são
chamadas irmãos pelos judeus. Note que Maria é a mãe de Tiago o menor e de
José. E Tiago é chamado o menor para distingui-lo de Tiago o maior que era
filho de Zebedeu, como Marcos afirma em outro lugar;
E Maria Madalena e Maria a mãe de José estavam onde ele (=Jesus) fora colocado.
E quando passou o Sábado, elas compraram essências para irem ungi-lo". E,
como era de se esperar, ele diz: "Quão pobre e ímpia visão temos de Maria,
se afirmamos que quando outras mulheres estavam ocupadas com o sepultamento de
Jesus, ela, Sua mãe, estava ausente; ou se inventamos alguma outra Maria; e
tudo o mais porque o Evangelho de São João testemunha que ela estava ali
presente, quando o Senhor, do alto da cruz a recomendou como Sua mãe, agora uma
viúva, aos cuidados de João. Ou deveríamos supor que o Evangelista caiu em
tamanho erro e nos induziu a tamanho erro, chamando Maria a mãe daqueles que
eram conhecidos dos judeus como irmãos de Jesus?"
CAPÍTULO XV
Que cegueira, que raivosa loucura o leva à sua
própria destruição! Você (Helvídio) diz que a mãe do Senhor estava presente ao
pé da cruz; diz que ela foi confiada ao discípulo João por causa de sua viuvez
e condição de soledade, como se no ponto de vista de sua própria afirmação, ela
não tivesse quatro filhos e numerosas irmãs, com o conforto dos quais ela
poderia se apoiar? Você também lhe dá o nome de viúva, que não se encontra na
Sagrada Escritura. E embora cite, a cada momento, o Evangelho, somente as
palavras de João lhe desagradam. Você diz, de passagem, que ela estava presente
ao pé da cruz porque parece que você não a omitiu de propósito, e contudo [não
diz] nenhuma palavra sobre as mulheres que estavam com ela. Poderia perdoá-lo
se fosse ignorante, mas vejo que você tem uma razão para suas omissões.
Deixe-me destacar então o que João disse: "Mas
estavam de pé junto à cruz de Jesus sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, a esposa
de Cléofas, e Maria Madalena".
Não há nenhuma dúvida que existiam dois apóstolos
chamados pelos nomes de Tiago: Tiago, o filho de Zebedeu,
e Tiago, o filho de Alfeu. Por acaso você tem em
vista que o comparativamente desconhecido Tiago o menor, que é chamado nas Escrituras filho de Maria, não
contudo de Maria a mãe do Nosso Senhor, era apóstolo ou não? Se era um
apóstolo, devia ser o filho de Alfeu e um crente em
Jesus, "porque nem seus irmãos acreditavam n'Ele".
Se não era um apóstolo mas um terceiro Tiago (que possa ser, não sei), como
poderia ser tido como o irmão do Senhor, e como, sendo um terceiro, poderia ser
chamado "menor" para ser destinguido do
"maior", porquanto maior e menor são usados para mostrar relação
existente não entre três, mas entre dois? Observe, ainda mais, que o irmão do
Senhor é um apóstolo, uma vez que Paulo diz: "Então depois de três dias
eu fui a Jerusalém para visitar Pedro e fiquei com ele quinze dias. Mas não vi
nenhum outro dos apóstolos, a não ser Tiago, irmão do Senhor". E na
mesma Epístola: "E quando eles perceberam a graça que me foi concedida,
Tiago, Pedro e João que eram considerados os pilares", etc.
E você não poderá supor que esse Tiago fosse o filho
de Zebedeu, bastando para isso ler os Actos dos
Apóstolos, onde você encontrará que esse último já tinha sido trucidado por
Herodes. A única conclusão é que a Maria que é descrita como a mãe de Tiago o
menor era a esposa de Alfeu e irmã de Maria, a mãe do
Senhor, aquela que é chamada por João Evangelista "Maria de Cléofas",
seja por filiação, seja por parentesco, seja por outra razão.
Mas se você julga que são duas pessoas porque em
outro lugar lemos: "Maria a mãe de Tiago menor" e aqui: "Maria
de Cléofas", você terá a aprender ainda que era costume na Escritura dar
diferentes nomes ao mesmo indivíduo. Raguel, sogro de
Moisés, é chamado também de Jetro. Gedeão, sem nenhuma outra razão aparente para a troca, de
repente se torna Jerubbaal. Ozias, rei de Judá, tem,
como nome alternativo, Azarias. O Monte Tabor é chamado Itabyrium.
Igualmente, o Hermon é chamado pelos fenícios Sanior, e pelos amorreus Sanir. O mesmo pedaço do país é conhecido por três nomes: Negebb, Teman e Darom,
CAPÍTULO XVI
Agora aqui temos a explicação do que eu me esforcei
por mostrar, como foi que os filhos de Maria, a irmã da mãe de Nosso Senhor,
que anteriormente eram tidos por não crentes, e que depois passaram a
acreditar, podem ser chamados irmãos do Senhor. Possivelmente, o caso foi que
um dos irmãos acreditou imediatamente enquanto os outros não acreditaram senão
muito depois, e que uma Maria era a mãe de Tiago e José, chamada "Maria de
Cléofas", que é a mesma dita esposa de Alfeu, e
a outra, a mãe Tiago o menor. De qualquer modo, se ela (esta última) fosse a
mãe do Senhor, São João teria lhe concedido seu sublime título, como em todos
os demais lugares, e não teria passado uma impressão errônea,
chamando-a mãe de outros filhos. Mas neste ponto não desejo arguir a favor ou
contra a suposição de que Maria, a esposa de Cléofas, e Maria, a mãe de Tiago e
José, eram mulheres diferentes, uma vez que está claramente entendido que
Maria, a mãe de Tiago e José não era a mesma pessoa que a mãe do Senhor.
Como, então - pergunta
Helvídio - explica você que eram chamados irmãos do Senhor aqueles que não eram
seus irmãos?
Mostrarei como.
Na Sagrada Escritura há quatro espécies de irmãos: pela natureza, pela raça, pelo parentesco e pelo amor.
Exemplos de irmãos pela natureza foram Esaú e Jacob, os doze patriarcas, André e Pedro,
Tiago e João.
Irmãos de raça, eram todos
os judeus que assim se chamavam um ao outro, como no Deuteronómio: "Se
teu irmão, um homem hebreu, ou uma mulher hebreia, te for vendida, ele servirá
por seis anos; então, no sétimo ano, deixarás que ele se vá livre". E
antes, no mesmo livro: "Deverás de qualquer maneira fazê-lo teu rei
aquele que o Senhor teu Deus escolher: um dentre teus irmãos deverá ser feito
teu rei; não porás um estrangeiro acima de ti, que não é teu irmão". E
de novo: "Não deverás ver o boi ou a ovelha de teu irmão se extraviar e
ficares omisso; deverás com segurança levá-los de novo para teu irmão. E se teu
irmão não morar perto de ti, ou se não o conheces, então deves trazê-los para
tua casa, e ficarão contigo até que teu irmão venha procurá-los, e tu deves
devolvê-los a ele de volta". E o Apóstolo Paulo diz: "Desejaria
eu mesmo ser reprovado por Cristo pela salvação de meus irmãos, meus próximos
pela carne, que são os israelitas".
E ainda mais: são chamados irmãos por parentesco aqueles que são de uma
família, que é pátrio, que corresponde à palavra latina
"paternidade", porque de uma única raiz procede uma numerosa progênie. No Génese, lemos: "E Abraão disse a Lot: 'Que não haja luta, eu te
peço, entre mim e ti, e entre meus pastores e os teus, porque somos irmãos'". E de novo: "Assim Lot escolheu para si toda a planície do Jordão, e se
direccionou para leste. E eles se separaram, um irmão do outro".
Certamente Lot não era irmão de Abraão, mas o filho
do irmão Aram de Abraão. Porque Terah gerou Abraão, Nahor e Arão. E Arão gerou Lot. De novo, lemos: "E
Abraão tinha setenta e cinco anos quando partiu de Haram.
E Abraão levou Sarai sua esposa, e Lot, filho de seu
irmão".
Mas se você (Helvídio) ainda duvida que um sobrinho
possa ser chamado filho, permita-me dar-lhe um outro exemplo: "E quando
Abraão ouviu que seu irmão fora feito escravo, tomou seus experimentados
homens, nascidos em sua casa, trezentos e dezoito". E depois de
descrever o ataque e o massacre noturno ele
acrescenta: "E trouxe de volta todos os bens, assim como seu irmão Lot". Que isso seja suficiente como prova de minha
afirmação. Mas por medo, você pode levantar alguma objecção cavilosa,
e se contorcer em seu aperto como uma cobra; assim devo imobilizá-lo
rapidamente com as garantias de provas para fazê-lo parar de sibilar e
murmurar, porque sei que você gostaria de dizer que está baseado não tanto na
verdade da Escritura mas em complicados argumentos.
Jacob, o filho de Isaac e Rebeca, quando por medo da perfídia de seu irmão tinha ido para a Mesopotâmia, retirou-se para perto [de Labão], rolou a pedra da tampa do poço e bebeu da fonte de Labão, irmão de sua mãe. "E Jacob beijou Raquel, ergueu sua voz e chorou. E Jacob disse a Raquel que ele era irmão de seu pai, que era filho de Rebeca". Aqui está um exemplo da regra já referida, pela qual um sobrinho é chamado de irmão. E mais: "Labão disse a Jacob: 'Porque tu és meu irmão, poderias doravante trabalhar para mim sem pagamento? Diga-me qual o teu propósito'". E assim, quando ao fim de 12 anos, sem conhecimento de seu tio e acompanhado por suas esposas e filhos estava retornando para sua terra, quando Labão os alcançou na montanha de Gilead e não conseguiu encontrar os ídolos que Raquel escondera em sua bagagem, Jacob fez uma pergunta a Labão: "Qual é minha transgressão? Qual é meu pecado, para que tu me venhas tão irado e me persigas? Procuraste tudo em minhas bagagens! O que encontraste em todos meus utensílios? Digas aqui, irmãos perante irmãos, para que eles julguem a nós dois".
Diga-me [Helvídio] quem são esses irmãos de Jacob e
Labão que estão aqui presentes? Esaú, irmão de Jacob,
certamente não estava lá, e Labão, o filho de Bethuel,
não tinha irmãos, embora tivesse uma irmã, Rebeca.
CAPÍTULO XVII
Inumeráveis exemplos da mesma espécie podem ser
vistos nos Livros Sagrados.
Mas, para abreviar, volto à última das quatro
espécies de irmãos, aqueles, esclareço, que são irmãos por afeição, e estes
novamente são de duas espécies: aqueles por um relacionamento espiritual e
aqueles por um relacionamento geral. Digo espiritual porque todos nós cristãos somos chamados irmãos, como no verso: "Veja como é
bom e agradável para os irmãos viverem juntos na unidade". E
Eu disse - por relacionamento geral - porque nós somos todos filhos de um mesmo Pai, há como um penhor de irmandade entre nós todos. "Dizei àqueles que vos odiarem:" - diz o profeta - "vós sois nossos irmãos". E o Apóstolo escrevendo aos Coríntios: "Se algum homem que é chamado irmão for um fornicador, ou avarento, ou idólatra, ou caluniador, ou beberrão, ou autor de extorsões, com alguém assim, não se deve comer".
Agora eu pergunto à que classe você considera que devem pertencer os irmãos do Senhor, no Evangelho. Eles são irmãos por natureza, você responde. Mas a Escritura não diz isso. Não os chama nem filhos de Maria, nem de José. Poderíamos dizer que eles eram irmãos pela raça? No entanto, seria absurdo supor que uns poucos judeus fossem chamados irmãos quando todos os judeus daquele tempo poderiam, a esse título, reivindicar o nome. Eram eles irmãos pela virtude de intimidade estreita e de união de coração e pensamento? Se eram assim, quais eram exactamente seus irmãos mais do que os apóstolos que receberam sua instrução privada e eram chamados por Ele Sua mãe e Seus irmãos? Novamente, se todos os homens, como visto, eram seus irmãos, seria loucura dar uma mensagem especial: "Vede, seus irmãos o procuram" porque todos os homens semelhantemente mereceriam esse nome.
A única alternativa é adoptar a explicação anterior
e considerar que são chamados irmãos em virtude do vínculo de parentesco, não
de amor e simpatia, nem por prerrogativa de raça, nem pela natureza.
Exactamente como Lot foi chamado irmão de Abraão, e
Jacob, de Labão, exactamente como as filhas de Zelophehad
receberam um lote entre seus irmãos, exactamente como o próprio Abraão tinha a
esposa Sarai por sua irmã, porque ele diz: "Ela é de facto minha irmã,
por lado de pai, não pelo lado da mãe" o que quer dizer, ela era filha
de seu irmão e não de sua irmã. De outro modo, o que diremos de Abraão, um
homem justo, falando que a esposa era filha de seu próprio pai?
A Escritura, relatando a história dos homens nos
tempos primitivos, não ultraja nossos ouvidos falando da amplitude em termos
expressos, mas prefere deixá-la ser inferida pelo leitor. Deus mais tarde
aplicou a sanção de lei à proibição, estabelecendo: "Quem toma sua
irmã, filha de seu pai, ou de sua mãe, e mostra sua nudez, comete abominação,
deverá ser morto. Aquele que descobre a nudez de sua irmã, deverá pagar seu
pecado".
CAPÍTULO XVIII
Há coisa que, em sua extrema ignorância, você nunca
leu e, portanto, você negligenciou toda a imensidade da Escritura e usou sua
maldade para ultrajar a Virgem, como o homem da história que sendo desconhecido
de todo mundo e achando que poderia tramar um mau ato pelo qual ganhasse
renome, incendiou o templo de Diana; e quando ninguém revelou o acto sacrílego,
diz-se que ele próprio apareceu e se proclamou como aquele que nele pusera
fogo. Os administradores de Éfeso ficaram curiosos em saber o que o levara a agir
de tal modo, quando então ele respondeu que se não tinha fama por boas obras,
todos poderiam lhe dar crédito por uma má. A história grega relata o incidente.
Mas você fez pior. Você colocou fogo no templo do
corpo do Senhor, você aviltou o santuário do Espírito Santo, do qual se propôs
a fazer gerar um grupo de quatro irmãos e uma porção de irmãs. Numa palavra,
juntando-se ao coro dos judeus, você diz: "Não é este o filho do
carpinteiro Não é sua mãe chamada Maria? E seus irmãos Tiago, José, Simão e
Judas? E suas irmãs não moram todas connosco?". A palavra
"todas" não seria usada se não houvesse um grande número delas.
Rogo-te: diga-me quem, antes de você surgir, tinha conhecimento desta
blasfémia? Quem imaginou essa teoria digna de dois centavos? Você obteve seu
propósito e se tornou notório por um crime. Pois eu mesmo que sou seu oponente,
embora vivamos na mesma cidade, eu não o conheço como o autor disso, não sei se
você é branco ou negro.
Omito as faltas de dicção que abundam em todos os
livros que escreveu. Não digo nada sobre sua introdução absurda. Bons céus! Eu
não procuro eloquência, embora você mesmo não a tenha; você contou para isso
com a ajuda de seu irmão, Cratério. Eu não procuro
graça e estilo, mas busco pureza de alma, porque entre cristãos é o maior dos
solecismos e dos vícios de estilo fundamentar algo na palavra ou acção. Chego à
conclusão de meu argumento. Concordarei com você em que eu não ganhei nada; e
você se encontrará num dilema.
É claro que os irmãos de Nosso Senhor usaram o nome
da mesma maneira como José era chamado seu pai: "Eu e teu pai te
procurávamos preocupados"; foi Sua mãe que disse isso, não os judeus. O
Evangelista relata que Seu pai e Sua mãe ficaram admirados com as coisas que se
falavam a Seu respeito, e há uma passagem semelhante, que já citamos, na qual
José e Maria são chamados Seus pais. Sabendo que você tem sido louco o bastante
para se persuadir que os manuscritos gregos estão corrompidos, agora você
talvez alegue a diversidade de interpretações.
Então procuro o Evangelho de João e ali está
claramente escrito: "Filipe encontrou Natanael,
e lhe disse, nós encontramos aquele de quem Moisés na lei, e os profetas
escreveram, Jesus de Nazaré, o filho de José". Você encontrará
certamente isso em seu manuscrito. Agora me diga: como Jesus é filho de José
quando está claro que Ele fora gerado pelo Espírito Santo? Era José seu
verdadeiro pai? Obtuso como você é, não se aventurará a dizer isso. Era seu
suposto pai? Se era, que a mesma regra que você aplica a José, seja aplicada
àqueles que eram chamados irmãos, assim como você chama José de pai.
Parte IV: O estado virginal é superior ao
estado matrimonial
CAPÍTULO XIX
Agora que ultrapassei as pedras e encolhos, devo
pôr-me ao largo e ir a toda velocidade para chegar ao destino. Você,
sentindo-se uma pessoa sem conhecimentos, usou Tertuliano como sua testemunha e
citou as palavras de Vitorino, bispo de Perávio. De Tertuliano não direi senão
que não pertenceu à Igreja. Mas com respeito a Vitorino, afirmo que já ficou provado
pelo Evangelho - que ele falou dos irmãos de Nosso
Senhor não como sendo filhos de Maria, mas irmãos no sentido que expliquei, ou
seja, irmãos sob o ponto de vista de parentesco, não de natureza.
Estamos, contudo, desperdiçando nosso percurso com
ninharias e deixando a fonte da verdade, estamos seguindo insignificantes
pontos de opinião. Não deveríamos arrolar contra você toda a série de
escritores antigos? Inácio, Policarpo, Irineu,
Justino Mártir e muitos outros homens apostólicos e eloquentes, que expuseram
as mesmas explicações contra Ebião, Theodoto de Bizâncio e Valentino,
escreveram volumes repletos de conhecimentos. Se você alguma vez lesse o que
eles escreveram, você se tornaria um homem sábio. Mas eu penso que é melhor
refutar brevemente cada ponto do que prolongar meu livro por uma extensão
indevida.
CAPÍTULO XX
Agora dirijo meu ataque contra a passagem na qual,
desejando mostrar seu talento você faz uma comparação entre virgindade e
casamento. Eu não poderia deixar de rir, e penso no provérbio: viu você alguma
vez uma dança cautelosa?
Você pergunta: "São as virgens melhores do que
Abraão, Isaac e Jacob, que foram casados? Não são as crianças diariamente
moldadas pelas mãos de Deus no útero de suas mães? E se assim é, somos
constrangidos a nos ruborizarmos pelo pensamento de Maria tendo um marido
depois do parto? Se julgam que há alguma desgraça nisto, não deviam
coerentemente acreditar que Deus nasceu da Virgem por parto normal. Porque de
acordo com esses, há mais desonra numa virgem dando à luz a Deus pelos órgãos
geradores, do que numa virgem que se juntou a seu próprio esposo depois que deu
à luz".
Acrescente, se quiser, Helvídio, as outras
humilhações da natureza, o útero de nove meses se tornando cada vez maior, a
doença, o parto, o sangue, os cueiros. Imagine você mesmo o menino envolto na
placenta. Imagine a dura manjedoura, o choro do menino, a circuncisão no oitavo
dia, o tempo de purificação, de modo que possa ficar comprovado que tudo era
impuro. Não enrubescemos, você não nos impõe silêncio. Maior humilhação Ele
sofreu por mim, a maior que o atingiu. E quando você tiver dado todos os
detalhes, não estará apto a apontar nada mais vergonhoso do que a cruz que
confessamos, na qual acreditamos e pela qual triunfamos sobre todos nossos
inimigos.
CAPÍTULO XXI
Mas como não negamos o que está escrito, assim
também rejeitamos o que não está escrito. Acreditamos que Deus nasceu de uma
Virgem, porque lemos assim. Não acreditamos que Maria teve união marital depois
que deu à luz porque não lemos isso. Nem afirmamos tal para condenar o
casamento, porque a virgindade é o fruto do casamento; mas porque quando
estamos tratando de santos não devemos julgar apressadamente. Pois se
adoptássemos a possibilidade como padrão de julgamento, poderíamos sustentar
que José teve várias esposas porque Abraão teve, e também Jacob, e que aqueles
que eram irmãos do Senhor nasceram daquelas esposas, uma criação imaginária que
alguns sustentam com uma temeridade que nasce da audácia e da piedade.
Você diz que Maria não continuou virgem. Eu brado
ainda mais que José, ele mesmo, aceitou que Maria era virgem, de modo que de um
casamento virgem nasceu um filho virgem. Porque se, como um homem santo, ele
não se apresentou com a acusação de fornicação, e está escrito que ele não teve
outra esposa, mas foi o guardião de Maria, aquela que foi tida por sua esposa
mas não ele por seu marido; a conclusão é que aquele que foi julgado digno de
ser chamado pai do Senhor, permaneceu casto.
CAPÍTULO XXII
E agora que vou fazer uma comparação entre
virgindade e casamento,
rogo a meus leitores para não suporem que louvando a virgindade, tenho em menor
grau o casamento, e discrimino os santos do Antigo Testamento com relação
àqueles do Novo, isto é, aqueles que tinham esposas daqueles que se mantiveram
livres dos laços de mulheres; antes, penso que de acordo com a diferença de
tempo e circunstâncias, uma regra foi aplicada aos primeiros, uma outra a nós,
sobre quem sobrevirá o fim do mundo.
Tanto que continua vigorando a lei: "Sede
férteis e multiplicai-vos e povoai a terra"; e: "Amaldiçoada é
a mulher estéril que não gerou semente em Israel"; elas todas que
casaram e foram dadas em matrimónio, deixaram pai e mãe, e se tornaram uma só carne.
Mas de repente com a força do trovão se fizeram
ouvir essas palavras: "O tempo está se acabando, em que doravante
aqueles que têm esposas sejam como se não tivessem"; aderindo ao
Senhor, nós somos feitos um espírito com Ele. E por quê?
Porque "aquele que é solteiro está
preocupado com as coisas do Senhor, de modo que poderá agradar ao Senhor; mas
aquele que é casado está preocupado com as coisas do mundo, do modo como
agradará a sua esposa. E aqui está a diferença também entre a esposa e a
virgem. Aquela que é solteira está preocupada com as coisas do Senhor, porque
será santa tanto no corpo como no espírito; mas aquela que é casada, está
preocupada com as coisas do mundo, do modo como agradará a seu marido".
Por que você sofisma? Por que resiste? O vaso de
eleição disse isso. Disse-nos que há uma diferença entre a esposa e a virgem.
Observe qual deva ser a felicidade daquele estado no qual mesmo a distinção de
sexo desaparece. A virgem não é mais chamada mulher. "Aquela que é
solteira está preocupada com as coisas do Senhor, de modo que é santa no corpo
e no espírito".
A virgem é definida como aquela que é santa no corpo
e no espírito, porque não é bom ter uma carne virgem se a mulher se põe casada
no espírito. "Mas aquela que é casada está preocupada com as coisas do
mundo, do modo como agradará a seu marido". Julga você que não há
diferença entre uma que gasta seu tempo em oração e jejuns daquela que se sente
impelida, ao aproximar-se seu marido, a arranjar sua aparência, andar com
passos afetados, e demonstrar actos de carinho?
O objectivo da virgem é aparecer menos faceira; ela quer se guardar de modo a esconder suas atracções naturais. A mulher casada tem seu pincel preparado ante seu espelho, e em desacordo com seu Criador, esforça-se para adquirir algo mais do que sua beleza natural. Então lhe chegam as conversas de seus filhos, o barulho da casa, as crianças buscando sua palavra e pedindo seus beijos, a lista das despesas, o cuidado para acertar as despesas. De um lado você a vê na companhia dos cozidos, cercada de gritos e preparando o alimento; você ali ouve o barulho de uma multidão de fiandeiras. Enquanto isso, chega uma mensagem que o marido e seus amigos estão chegando. A esposa, como uma andorinha, voa por toda a casa. Ela deve cuidar de todas as coisas. Está o sofá arrumado? Está o piso varrido? Estão as flores nas jarras? E o jantar está pronto?
Diga-me, rogo-lhe, onde entre tudo isso há lugar
para pensar em Deus? São essas casas tranquilas? Onde há as batidas do tambor,
o barulho e a algazarra do órgão e do alaúde, o tinir dos címbalos, pode se
encontrar alguma preocupação com o temor de Deus? O parasita é repreendido e se
sente orgulhoso da honra. Entram depois as vítimas meio despreparadas para as
paixões, uma referência para todo olhar lúbrico. A infeliz esposa ou deve achar
prazer neles e perecer, ou ficar desgostosa e provocar seu marido. Disso surge
a discórdia, a semente conspiratória do divórcio.
Ou suponha que você encontre uma casa onde essas
coisas são desconhecidas, o que acontece em pequena proporção! Contudo, mesmo
ali, o desempenho do dono da casa, a educação das crianças, as necessidades do
marido, a correcção dos servos, não falham em afastar a mente do pensamento de
Deus. "Deixou de ficar com Sara como se fica com as mulheres" - assim diz a Escritura, e mais tarde Abraão recebeu a
ordem: "Presta atenção em tudo o que Sara te disser". [Porque]
ela não está tomada de ansiedades e dor de parto e, tendo passado pela mudança
de vida [sexual], deixou de exercer as funções de uma mulher, estando liberta
do esquecimento de Deus; não tem desejo por seu marido, mas, pelo contrário,
seu marido se torna sujeita a ela, e a voz do Senhor lhe ordena: "Presta
atenção em tudo o que Sara te disser". Então, começam a ter tempo para
rezar. Porque enquanto demorou a ser pago o dever do matrimónio, a determinação
de rezar foi negligenciada.
CAPÍTULO XXIII
Não nego que se encontram mulheres santas entre as
viúvas e aquelas que têm marido; mas tornam-se santas logo que deixam de ser
esposas, ou se no estrito dever do matrimónio imitam a castidade virginal. O
Apóstolo, como se Cristo falasse por sua boca, brevemente deu testemunha disso
quando disse: "Aquela que é solteira está preocupada com as coisas do
Senhor, como poderá agradar ao Senhor; mas aquela que é casada está preocupada
com as coisas do mundo, como poderá agradar a seu marido".
Ele nos deixa ao livre exercício de nossa razão a
esse respeito. Não determina obrigação a ninguém nem induz alguém em cilada;
somente persuade àquilo que é próprio quando deseja que todos os homens sejam
como ele mesmo. Não emitiu, é verdade, um mandamento do Senhor a favor da
virgindade, porque essa graça sobrepuja o poder do homem desassistido,
e seria usar um ar de imodéstia forçar os homens a se porem a voar em face de
sua natureza, e dizer em outras palavras: "Quero que você seja como são os
anjos do céu". É essa angélica pureza que assegura à virgindade a mais
alta recompensa, e o Apóstolo poderia parecer desprezar um sistema de vida que
não é culposo.
Não obstante, no contexto a seguir diz: "Mas
presto meu julgamento como alguém que obteve misericórdia do Senhor para ficar
fiel. Penso, portanto, que isso é bom em razão da actual aflição, ou seja, que
é bom para um homem ser como ele é". O que quer dizer com "a actual
aflição"?
"Haverá aflição para aqueles que tiverem
crianças e para aquelas que amamentarem naqueles dias!" A razão por que a madeira
cresce é que poderá ser cortada. O campo é semeado porque poderá ser segado. O
mundo está já repleto, e a população está demasiado grande para a terra. A cada
dia somos dizimados pela guerra, levados pelas doenças, tragados pelos
naufrágios, embora continuemos a levar alguém a juízo por causa dos muros de
nossa propriedade.
É somente uma adição à regra geral que é feita por aqueles que seguem o Cordeiro, e que não desvestiram seus ornamentos, que continuam em seu estado de virgindade. Preste atenção ao significado de desvestir. Eu não me aventuro a explicá-lo, por medo de que Helvídio possa se tornar abusivo.
Concordo com você, quando diz que algumas virgens não são senão mulheres de taverna; digo ainda mais, que mesmo o pecado do adultério pode ser encontrado entre elas, e você ficará sem dúvida mais surpreso de ouvir que alguns do clero são taberneiros e alguns monges não são castos. Quem não entende logo que uma mulher de taverna não persistirá virgem, nem adúltero um monge, nem taberneiro um clérigo? Exigiremos virgindade se a virgindade corrompida é um pecado?
De minha parte, me omitindo das outras pessoas, e
tratando dos castos, afirmo que aquela que trabalha como vendeira, embora sem
provas, poderá ser virgem no corpo, porém não mais será casta em espírito.
Parte V: Conclusão
CAPÍTULO XXIV
Eu me tornei retórico e agi um pouco como orador de
plataforma. A isso me levou você, Helvídio; porque, da forma lúcida como brilha
o Evangelho actualmente, você quer que se dê uma glória igual à virgindade e ao
estado matrimonial. E porque penso que, sentindo a verdade muito forte, você
virá aviltar minha vida e abusar de meu carácter (este é o modo das mulheres
fracas cochicharem nos cantos quando são repreendidas por seus senhores), vou
me antecipando a você:
- Asseguro que darei atenção às suas injúrias como a
uma elevada distinção, uma vez que os mesmos lábios que me atacam aviltaram Maria,
e eu - um servo do Senhor - sou favorecido com a mesma
brava eloquência de Sua mãe.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)