A BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA E A BUSCA DA UNIDADE
Uma visão da Reforma Protestante
1. INTRODUÇÃO
Com temor e tremor aceitei o convite para fazer
algumas colocações sobre dificuldades e perspectivas no diálogo entre católicos
e protestantes sobre Maria. Encorajou-me o facto de já estar sendo possível
sair da contraposição áspera e dura para uma reflexão franca e aberta sobre Maria.
Em muitos países esta reflexão ainda não encontrou o
devido espaço no mundo ecuménico. Outros temas têm merecido prioridade. A nível
internacional já se tem feito alguns avanços. Menciono os congressos
mariológicos; os diálogos bilaterais católico-luterano e católico-anglicano.
Procuro abarcar as posições principais da Reforma
quanto à veneração de Maria e considerar a apropriação das mesmas pelas Igrejas
herdeiras. Mesmo procurando abrangência confessional, minha abordagem do tema
necessariamente terá um acento luterano.
Por fim me resta dizer que o texto que aqui
apresento quer ser entendido como um primeiro ensaio.
2. MARIA NO NOVO TESTAMENTO
O Novo Testamento é um vigoroso e polifónico
testemunho acerca do agir libertador de Deus em e através de Jesus Cristo, seu
Filho. Trata-se do agir gracioso de Deus. Ele vem ao encontro ao ser humano sem
que este o mereça. Deus torna-se bem próximo aos que dele se haviam
distanciado.
Esta opção radical e irrevogável de Deus pela
salvação do mundo é parte essencial na vida e proclamação de Jesus. Para Ele o
reino de Deus é caracterizado pelo poder do amor. Por isso Jesus anuncia o amor
como pertencente a essência de Deus e ele próprio se deixa determinar por este
amor, até à morte. Assim se dá a vitória da Vida. Jesus é o lugar onde Deus se
dá a conhecer. Ele próprio diz, conforme o evangelista João quem me viu, viu o
Pai (Jo. 14, 9). E Jesus é um dado concreto na história que pode ser datado e
localizado. É neste sentido que tradição bem antiga, anterior aos evangelhos,
insiste na indicação concreta quanto à humanidade de Jesus e coloca de maneira
lapidar: nascido de mulher (Gl. 4, 4).
Ao mesmo tempo essa é a primeira menção do Novo
Testamento sobre Maria. Não se destaca, porém, nenhum papel especial de Maria.
O acento é cristológico. Na pessoa de Jesus de Nazaré -
Deus veio ao mundo, ou como o expressa o evangelista João: o verbo se fez carne
e habitou entre nós e nós vimos a sua glória; glória essa que, Filho único
cheio de graça e de verdade, ele tem da parte do Pai (Jo. 1, 14). É neste
contexto da história da salvação que as afirmações feitas a respeito de Maria, recebem seu mais profundo significado.
No início deste maravilhoso caminho da encarnação do
verbo está à disposição de Maria de ser serva do Senhor! Faça-se em mim segundo
a tua palavra (Lc. 1, 38). Conforme os evangelhos de
Mateus, Marcos e Lucas a mãe de Jesus é Maria. Ela estava casada com um
carpinteiro de nome José (Mt. 13, 55; Jo. 6, 42). O evangelista Marcos (Mc. 6, 3) menciona quatro irmãos de Jesus que o pai da
Igreja, São Jerónimo passa a entender como primos. Os evangelhos nos contam que
a proclamação de Jesus, inicialmente, causava alguma dificuldade para a sua
mãe. (Mc. 3, 31-35, Mt. 12, 46-50, Lc. 8, 19-21).
Nas célebres narrativas do nascimento de Jesus, Mateus
e Lucas destacam a concepção através do Espírito Santo. O anjo anuncia: O
Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua
sombra; e por isso aquele que vai nascer será santo e será chamado Filho de
Deus. (Lc. 1, 35). A este anúncio, Maria submete-se
em obediência de fé. Esta fé é então exaltada por Isabel com as palavras:
Bendita aquela que creu o que lhe foi dito da parte do Senhor se cumprirá. (Lc. 1, 45)
Com tudo isso, ela não se vangloria. Não se exalta a
si mesma. Em vez disso ela exalta o Senhor. Ela não tem nada do que se gloriar.
E aí estamos diante de uma das mais belas paginas do Novo Testamento, o
Magnificat (Lc. 1, 46-55), Minha alma exalta o Senhor
e meu espírito se encheu de júbilo por causa de Deus, meu Salvador, porque ele
pôs os olhos sobre a sua humilde serva... Ela, essa humilde serva, é bem
aventurada.
De facto tem razão: quem vê nela o exemplo daqueles
que serão chamados de bem aventurados pelo próprio Jesus (Mt. 5, 3). E ainda
nos vem a memória as proféticas palavras que confessam Deus como Senhor da
história. Ele interveio com toda a força do seu braço; dispersou os homens de
pensamento orgulhoso; precipitou os poderosos de seus tronos e exaltou os
humildes; aos famintos ele cobriu de bens e os ricos, despediu-os de mãos
vazias. (Lc. 1, 51-53)
Maria é o próprio exemplo para esse agir de Deus.
Ele inverte os valores. Exalta o que nada é. Esse é o seu jeito: ouvir o grito
dos excluídos e colocar-se em defesa daqueles que nada tem a oferecer. A eles
manifesta o poder do amor. Os que norteiam sua vida pelo amor ao poder, Ele
despede vazios! É necessário mencionar ainda que as narrativas bíblicas do
nascimento são marcadas pela pobreza da manjedoura.
Já temos aqui uma indicação de que o caminho de
Jesus haveria de levá-lo à cruz. E lá estará Maria, ao pé da cruz. O
evangelista João descreve a cena: Vendo assim a sua mãe, e perto dela o
discípulo que ele amava, Jesus disse à sua mãe: Mulher, eis ai
o teu filho. A seguir, disse ao discípulo: Eis ai tua mãe. E desde aquela hora
o discípulo a recebeu em sua casa. (Jo. 19, 26-27)
E, por fim, temos ainda a concepção bíblica que
permite a comparação de Maria com a Igreja. Conforme o Apocalipse de João,
capitulo 12, um grande sinal aparece no céu, é uma mulher vestida de sol, que
gera o salvador do mundo. Nem o grande dragão, vermelho-afogueado pode impedir
da vitória da salvação!
As Igrejas da Reforma sempre insistiram na
centralidade da Sagrada Escritura. Assim elas assumem todo esse rico testemunho
a respeito de Maria. Temos que reafirmar a partir daí: Maria não é só católica,
ela é também evangélica, anglicana e ortodoxa.
3. CONFISSÕES
DA FÉ COMUM
A
fé cristã vivenciada em distintas culturas e contextos necessita formulação
comum. A fé no único Senhor encontrou forma em credos que uniam os cristãos não
obstante as diferenças de cultura, classe e raça.
Surgiram formulações como o Credo
Apostólico e o Credo Niceno Constantinopolitano. Ambos gozam de
ampla aceitação entre as Igrejas. O Credo de Nicéia e de Constantinopla (381) - até hoje - é percebido como expressão apropriada dos
fundamentos da fé apostólica. Sua acolhida foi mais universal do que a de
qualquer outra confissão formulada. Pois bem, esses credos são aceitos por
praticamente todas as igrejas. São herança comum.
3.1. Nascido
da Virgem Maria
Também
os cristãos evangélicos confessam concebido do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria.
E com o Niceno Constantinopolitano afirmam: Cremos em um só Senhor Jesus
Cristo, o Filho Unigénito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos,
(Deus de Deus), Luz de Luz, Verdadeiro Deus de Verdadeiro Deus, gerado e não
feito, da mesma substância que o Pai, por meio do qual todas as coisas vieram a
ser; o qual, por nós, os homens, e pela nossa salvação, desceu dos céus e se
encarnou do Espírito Santo e da Virgem Maria e se fez homem e foi por nós
crucificado sob Pôncio Pilatos e padeceu e foi sepultado e ressuscitou ao
terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu aos céus e está sentado a direita
do Pai e virá de novo, com glória a julgar vivos e mortos; e o seu reino não
haverá fim.
Destaca-se a humanidade de Jesus. É ai que se rompe
a distância entre Deus e os seres humanos. Verdadeiro homem, mas também
verdadeiro Deus, pois concebido pelo Espírito Santo. Não se destaca, porém,
qualquer mérito próprio de Maria.
A referência à virgindade de Maria, muito longe de
estatuir um valor próprio à Maria, justamente o desfaz. Maria não tem mérito
algum, não pode fazer nada, mas foi simplesmente agraciada. Ela é simplesmente
recebedora. Como tal é condizente relembrá-la, mas sempre apenas como aquela que
foi escolhida por Deus para dar à luz seu filho. A referência à virgindade de
Maria, antes de ser a descrição de um facto biológico, é expressão da confissão
de que aquele Jesus, tão humano, nascido de Maria, é o enviado de Deus, sim: é
o próprio Deus.
Que Deus assumiu forma humana, que o Verbo se fez
carne é, no fundo, um mistério. Este mistério é expresso de maneira magistral
nas narrativas bíblicas do nascimento de Jesus e também nos credos que
mencionamos. Modificando uma expressão de Ulrich Wilckens eu diria: o singular nascimento é sinal para o
nascido singular.
3.2. Mãe de
Deus
O Terceiro Concilio
Ecuménico, realizado em Éfeso no ano de 431 afirma: Quem não
confessa que Emanuel é verdadeiramente Deus e a Santa Virgem, por isso, Mãe de
Deus (...) seja excomungado. É uma formulação cristológica, sem dúvida, muito
forte.
Ela é retomada, em 451, no Quarto Concilio
Ecuménico,
Se
em tudo que foi exposto acima identificamos herança comum, porque tanta
dificuldade quanto à veneração de Maria, nas Igrejas da Reforma? Parece-me que
a questão deve ser examinada no contexto mais amplo da invocação dos santos.
Na piedade medieval era prática corrente depositar
grande esperança no poder de intercessão dos santos. Havia os patronos da
região ou de determinada corporação. Havia santos especialistas em livrar de
perigos específicos. Entendia-se que estes santos, como intermediários,
estariam bem mais próximos dos seres humanos. Pedia-se, por isso, a sua
intervenção junto a Deus. O povo era, inclusive, encorajado neste sentido. Era
um verdadeiro florescimento dessa devoção aos santos como intercessores e
milagreiros.
Os Reformadores viam ai Deus relegado a um plano
secundário. Sabemos que Lutero, durante sua vida, estava sempre preocupado
Exclusivamente
Também
Zwínglio ocupa-se extensivamente com esse assunto. Julga importante que os fieis intercedam uns pelos outros, mas volta-se com
veemência contra a invocação dos santos. Cristo é único Mediador entre Deus e
os homens. De forma alguma há necessidade da mediação dos santos. Os méritos
dos santos não nos podem ajudar. Na concepção de Zwínglio seria ofensa a
Deus pensar que ele precisa ser influenciado para que nos venha a ser favorável.
Já não nos disse Ele que é nosso Pai? Podemos buscar inspiração na coragem e na
fé dos santos, isso sim, mas não nos dirigirmos a eles
Igualmente Calvino foi bastante explicito
quanto ao assunto da invocação dos santos. Para ele importa, manter-se nos
limites do que nos foi revelado. Volta-se contra todo tipo de especulação. Em
parte nenhuma a Sagrada Escritura diz algo sobre a invocação dos santos. Tudo
isso fica bem explicito na
Confissão Helvetica, cap. V: Ensinamos que somente o
verdadeiro Deus deve ser adorado e cultuado. Esta honra não
concedemos a nenhum outro, segundo o mandamento do Senhor: 'Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto' (Mt. 4, 10). Somente Deus deve ser invocado e
isso pela exclusiva mediação de Cristo. Em todas as crises e provações de nossa
vida invocamos somente a ele e isso pela mediação de Jesus Cristo, nosso único
mediador e intercessor. Eis o que nos é claramente ordenado: 'Invoca-me no dia da angústia: eu te livrarei, e
tu me glorificarás' (Sl. 50, 15). Temos uma
promessa generosíssima do Senhor, que disse: 'Se pedirdes alguma coisa ao
Pai, Ele vo-la concederá em meu nome' (Jo. 16, 23), e: 'Vinde a mim todos os que
estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei'
(Mt. 11, 28).
E mais adiante se reafirma com todo vigor que os santos não devem ser adorados, cultuados ou invocados. Por essa razão não adoramos, nem cultuamos nem invocamos os santos dos céus, nem outros
deuses, nem os reconhecemos como nossos intercessores ou mediadores perante o
Pai que está no céu. Deus e Cristo, o Mediador, são-nos suficientes. Nem
concedemos a outros a honra que é devida somente a Deus e ao seu Filho, porque
ele claramente disse: 'A minha glória, pois, não a darei a outrem' (Is. 42, 8). é porque São Pedro disse: 'Porque abaixo do céu não
existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos', a não ser o nome de Cristo (Act. 4, 12). Nele, os que dão seu assentimento pela fé não
buscam coisa alguma além de Cristo.
Os
reformadores são unânimes em se voltar contra a invocação dos santos. Mas, é
importante notar que, no fundo, há uma concepção positiva dos santos. Numa
lindíssima interpretação do Magnificat (1521) Lutero não se cansa de ressaltar
o quanto podemos aprender em termos de espiritualidade, da oração de Maria.
Aliás, a primeira edição dessa obra no Brasil foi promovida pela Igreja
Católica Apostólica Romana. É um sinal visível de ecumenismo.
A posição luterana conforme o artigo 21 da Confissão
de Ausburgo é de grande respeito aos santos: Do culto aos santos ensinam que se
pode lembrar a memória dos santos, a fim de lhes imitarmos a fé e as boas obras
- E ainda mais: o artigo que fala dos santos,
encontra-se na primeira parte da Confissão de Ausburgo, entre os artigos
principais da fé, e não na segunda parte que fala das divergências. E
expressamente se diz: Esta é, mais ou menos, a suma da doutrina entre nós.
Pode-se ver que nela nada existe que divirja das Escrituras, ou da Igreja
Romana, até onde nos é conhecida dos escritores. Assim sendo, julgam duramente
os que requerem sejam os nossos tidos por hereges. A dissensão toda diz
respeito a alguns poucos abusos, que se infiltraram nas Igrejas sem autoridade
certa. Temos ai, sem dúvida, indicadores que nos podem ajudar no caminho do
diálogo ecuménico.
5. DOIS NOVOS DOGMAS MARIANOS: IMACULADA CONCEIÇÃO E
ASSUNÇÃO AO CÉU.
Surgem novos dogmas marianos. Entende-se que todos
eles são desenvolvimento das afirmações contidas no Novo Testamento e nas
confissões da Igreja antiga a respeito da concepção pelo Espírito Santo e do
nascimento virginal. O nascimento virginal já havia sido ampliado no sentido de
Maria «semper virgo». Um passo além e então a afirmação da «Imaculada
Conceição». Em 1854 o Papa
Pio IX proclama: por singular privilégio da graça de Deus
Todo-Poderoso, com vistas aos méritos de Jesus Cristo, salvador do género
humano, desde o primeiro instante da sua conceição, foi preservada imune do
labéu do pecado original... Maria é totalmente sem pecado. Ela está livre de
qualquer mancha do pecado original. Isto para ouvidos protestantes soa como de
difícil conciliação com a Sagrada Escritura, pois são muito habituados com a
teologia paulina e, sobretudo, com a constatação em Rm.
3, 10: “Não há justo, nem sequer um. Não há distinção, pois todos pecaram e
carecem da glória de Deus” (v. 23). Tem-se a impressão que, no fundo, Maria
não fazia parte do género humano.
Cem anos mais tarde, já no nosso século, surgiu o
quarto dogma mariano. Em 1950 o Papa Pio XII proclama a glorificação de Maria:
no fim de sua vida terrena, a imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem
Maria foi levada com corpo e alma para a celeste glória.
Para as Igrejas da Reforma essa doutrina é estranha
ao Santo Evangelho. Ela espelha uma indevida glorificação da natureza humana.
Maria é destacada da comunhão dos santos, é elevada para a celeste glória e
colocada junto ao Filho. Desta forma ela é co-redentora e mediadora de todas as
graças.
Estes dois novos dogmas são realmente problemáticos
e são um empecilho para o diálogo ecuménico sobre o papel de Maria na história
da salvação. Ulrich Wilckens,
renomado professor de teologia evangélica, diz: Ambos
os dogmas baseiam-se exclusivamente em uma tradição
constitutiva extra e pós-biblica. Isso ainda pode
passar como fundamentação de uma piedade mariana do alvitre de cada um. Porém,
ao elevá-los a dogma, o magistério eclesiástico pôs-se acima da Sagrada
Escritura e exerceu coacção sobre as consciências. Com isso, o magistério
impulsionou uma piedade mariana que (...) obscurece a visão sobre Cristo,
mediador único entre Deus e o homem.
Na concepção evangélica Maria é exemplo do agir
gracioso de Deus. Como tal ilumina a existência cristã, mas não a fundamenta.
Ela é ilustração, mas jamais norma da fé.
6. O LUGAR DE
MARIA NA ESPIRITUALIDADE DAS IGREJAS EVANGÉLICAS, HOJE.
É difícil pintar um quatro preciso. A mesma igreja,
em países e culturas diversas, assume atitudes e práticas diferentes quanto ao
cultivo da memória de Maria. Mesmo no Brasil, há diferentes ênfases nas
diversas Igrejas. De modo geral, porém, pode-se dizer que as Igrejas da Reforma
assumiram as críticas feitas pelos reformadores quanto a invocação dos santos.
Muitas
vezes, porém, assumiram somente as críticas e deixaram de perceber a
valorização do exemplo dos santos que também faz parte do pensamento da
Reforma. Não se recorda os santos que nos antecederam na fé, também são
esquecidos os exemplos de fé e os mártires de hoje. Mas o povo que ignora os
exemplos verdadeiros de seu passado, torna-se sem
raízes, sem identidade. Não se respeita o que se diz em Hebreus (13, 7):
Lembrai-vos dos vossos guias que vos pregaram a palavra de Deus, considerando
atentamente a sua maneira de viver e imitando a fé que tiveram. Em datas
especiais são lembradas unicamente as figuras dos próprios Reformadores.
Quanto a Maria, ela é mencionada quando se recita os
credos (Apostólico e Niceno) e na época de Natal. A Igreja Luterana tem belas
canções natalinas nas quais se destaca o nascimento
virginal de Jesus. Eis alguns exemplos: Menino lindo vos nasceu, Maria foi que
à luz o deu;... (HPD, 16) ou ainda: Louvado sejas, O Jesus! Resplandece o céu
O Livro de Oração Comum da Igreja Episcopal
Anglicana do Brasil, aprovado pelo Sínodo Geral em 1984, registra as seguintes
festas marianas: Anunciação (25 de Março); Visitação (31 de Maio);
Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo (15 de agosto) e Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria (8 de
Setembro). Todas as festas tem seus próprios ordinários para a Eucaristia. No Hinário Episcopal, há mesmo um hino mariano.
Mas,
Caetano esclarece: Embora o calendário e o leccionário incluam festas marianas,
não há culto mariano na Igreja Anglicana; o culto anglicano é exclusivamente
cristocêntrico e dirigido a Santíssima
Trindade. Maria não ocupa nenhum lugar de destaque na liturgia
anglicana, tampouco é invocada ou honrada nos altares. Maria é reverenciada e
reconhecida como Mãe de Deus e, como os demais Santos do calendário, como
testemunha do Cristo e referência para a vida dos cristãos. Os próprios para as
festas marianas estão centrados no Cristo, único Senhor, único Mediador e único
Intercessor diante do Pai. Não se dirigem orações nem louvores à Virgem, como
não se dirigem orações aos demais Santos. Isso é praticamente uma regra geral.
Podemos concluir que na Igreja Anglicana a Virgem
Maria ocupa um lugar de destaque. Mas de modo algum é entendida como mediadora
da graça. e tida, como nas demais Igrejas, herdeiras
da Reforma como exemplo e modelo de fé, mas não como advogada ou co-operadora na graça.
7. PISTAS PARA O DIÁLOGO ECUMÉNICO
Parece-me que ainda há um longo caminho a percorrer
no que toca a compreensão do papel de Maria na história da salvação.
Todos concordamos que a Mãe de Jesus faz parte, de
maneira inalienável, da mensagem do nascimento do Filho de Deus. Em nenhuma
época a Igreja pode ignorar Maria, a mãe terrena do Salvador. Mesmo assim há
discrepâncias consideráveis de doutrina entre as Igrejas da Reforma e,
especialmente, entre elas e a Igreja Católica Apostólica Romana.
Mas os diálogos ecuménicos dos últimos anos tem
abrandado posições extremadas e criado um clima de respeito e confiança que
permite dialogar sobre temas ainda bastante controversos. A própria abertura
para o diálogo já é em si mesma, um gesto de amor. Para finalizar, algumas
indicações que poderão ajudar na aproximação das igrejas no tocante a
compreensão do papel de Maria:
a. As Igrejas Protestantes
devem conscientizar-se do seu crescente afastamento da linha original da
Reforma ao não darem o devido espaço para a veneração (não invocação!) dos
santos. Teríamos que começar já pelo Novo Testamento. Por que não chamar Paulo
de São Paulo
e Mateus de São Mateus?
b. Um
diálogo sobre a compreensão de comunhão dos santos certamente contribuiria para
situar Maria na nuvem das testemunhas. Nem a morte rompe a comunhão daqueles
que, em Cristo, estiveram fraternalmente unidos durante sua vida.
c. Certamente há elementos
não teológicos que dificultam a compreensão do papel de Maria na história da
salvação. Por isso, o estudo juntos e a história poderá se constituir em
importante contribuição para a aproximação.
d. Deve-se tomar a sério que,
desde o Concilio Vaticano II, a Igreja Católica oficialmente tem assumido uma
orientação de menor euforia mariana.
e. É importante também
observar que o Vaticano II admite uma hierarquia de verdades (hierarchia veritatum). Os dogmas
marianos de 1854 e 1950 poderiam, assim, receber menos destaque por amor aos
irmãos que tem grandes dificuldades na compreensão dos mesmos.
f.
Recomenda-se que a Igreja Católica Apostólica Romana busque entender as
dificuldades que as Igrejas da Reforma têm com certas expressões muito em voga
na espiritualidade mariana, como: a Cristo através de Maria (ad Christum per Mariam),
Rainha dos Céus, Advogada, Consoladora, Auxiliadora, Cooperadora na Graça e
Medianeira.
g. Para as Igrejas da
Reforma, por sua vez, é importante procurar compreender todo o vasto campo da
religiosidade popular. Religião age sobre os sentimentos. Estes, em seu curso,
fogem ao consenso doutrinário que buscamos.
h. Para o diálogo é decisivo
reconhecer o esforço que, de parte a parte, está sendo feito no sentido de uma
reconsideração da própria posição. A Igreja Católica, em boa medida, esta
tomando a sério o que diz o Vaticano II: Tanto nas palavras quanto nos fatos,
evitem diligentemente qualquer coisa que possa induzir a erro os irmãos
separados ou qualquer outra pessoa sobre a verdadeira doutrina da igreja.
i. De qualquer modo, também
nas afirmações sobre Maria não se deve pretender unanimidade, mas aceitar um
legítimo pluralismo teológico das diversas igrejas.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I da
Hispânea)