CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte I

 

Deus em Si próprio 

 

2. O dogma da Santíssima Trindade

g - Sobre a Processão do Espírito Santo

O antigo ensinamento Ortodoxo dos atributos do Pai, do Filho e do Espírito Santo foi distorcido na Igreja Latina (Católica Romana) pela criação do ensinamento da processão, fora do tempo e por toda a eternidade do Espírito Santo, do Pai e do Filho - o Filioque. A ideia que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho originou-se em certas expressões do Bem-aventurado Santo Agostinho. Tornou-se obrigatório no Ocidente no século nono, e quando os missionários latinos chegaram à Bulgária em meados do século nono, o Filioque não estava no seu Símbolo da Fé.

Tornando-se as diferenças entre o Papado Romano e a Ortodoxia Oriental mais agudas, o dogma latino tornou-se crescentemente reforçado no Ocidente; finalmente ele foi reconhecido no Ocidente como dogma universal obrigatório! O Protestantismo herdou esse ensinamento da Igreja Católica Apostólica Romana.

O dogma latino do Filioque é um desvio substancial e importante da verdade Ortodoxa. Esse dogma foi sujeito a um exame detalhado e acusado, especialmente pelos Patriarcas Photius (século nove) e Michael Cerularius (século onze), e também por São Marcos de Éfeso, que tomou parte no Concílio de Florença (1439). Adam Zernikav (século dezoito), que se converteu do Catolicismo para a Ortodoxia, cita cerca de mil testemunhos dos escritos dos Santos Padres da Igreja em favor do ensinamento Ortodoxo sobre o Espírito Santo em seu trabalho, «Concerning the Procession of the Holy Spirit».

Em tempos recentes, a Igreja Católica Romana, com objectivos "missionários" tem dissimulado a importância da diferença entre ensinamento Ortodoxo e o ensinamento Romano sobre o Espírito Santo. Com isso em mente, os Papas mantiveram o antigo texto Ortodoxo do Símbolo da Fé, sem as palavras "e do Filho" para as Igrejas Uniatas do "Rito Oriental". No entanto, isso não pode ser olhado como um tipo de meia rejeição por Roma do seu próprio dogma. No máximo, é só uma dissimulação para a visão romana que o Oriente Ortodoxo voltou a estar em desenvolvimento dogmático, e que é preciso ser condescendente com essa volta, e que o dogma expresso no Ocidente numa forma desenvolvida (Explícita, de acordo com a teoria Romana do "desenvolvimento de dogmas") está oculto no dogma Ortodoxo numa forma ainda não desenvolvida (implícita). No entanto, em trabalhos dogmáticos latinos, destinados a uso interno, encontramos um tratamento bem definido do dogma Ortodoxo na processão do Espírito Santo como uma "heresia". No trabalho dogmático latino do doutor em teologia, A. Sanda, nós lemos: "Oponentes (do actual ensinamento Romano) são os gregos cismáticos, que ensinam que o Espírito procede só do Pai. Já no ano de 808, monges gregos protestaram contra a introdução pelos latinos da palavra Filioque no Credo... quem foi o originador dessa heresia, não se sabe, é desconhecido" Sinopsis Theologiae Dogmaticae Specialis», por Dr. A. Sanda ., vol I, pg. 100; Herder Edition, 1916)

Porém o dogma latino não concorda nem com as Sagradas Escrituras nem com a Sagrada Tradição Universal da Igreja; e ele não concorda sequer com as mais antigas tradições da Igreja Local de Roma.

Em sua defesa, os teólogos romanos, citam uma série de passagens na Sagrada Escritura onde o Espírito Santo é chamado de "de Cristo", onde é dito que Ele é dado pelo Filho de Deus; daí eles concluem que ele procede também do Filho. As passagens mais importantes citadas pelos teólogos romanos são: as palavras do Salvador para seus discípulos a respeito do Espírito Santo, o Consolador: "Ele há-de receber do que é meu, e vos anunciará..." (Jo. 16, 15); as palavras do Apóstolo Paulo, "Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho..." (Gal. 4, 6); as palavras do mesmo Apóstolo: "Mas se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é Dele" (Rom. 8, 9); e no Evangelho de João, "assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo" (Jo. 20, 22).

Da mesma forma, os teólogos romanos acham nos trabalhos dos Santos Padres da Igreja passagens onde frequentemente é mencionado o envio do Espírito Santo "através do Filho" e às vezes até uma "processão através do Filho".

No entanto nenhum arrazoado de qualquer tipo pode obscurecer as perfeitamente precisas palavras do Salvador: "O Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar,... e imediatamente depois, ...que procede do Pai" (Jo. 15, 26). Os Santos Padres da Igreja não poderiam possivelmente colocar as palavras "através do Filho" se elas não estivessem contidas na Sagrada Escritura.

No caso presente, os teólogos católicos romanos estão ou confundindo dois dogmas - isto é, o dogma da existência pessoal das hipóstases e o dogma da unicidade da essência que está imediatamente ligado com ele, ainda que seja um dogma separado - ou então eles estão confundindo as relações internas das hipóstases da Santíssima Trindade com as acções e manifestações providenciais do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que são dirigidas ao mundo e à raça humana. Que o Espírito Santo é Um em Essência com o Pai e o Filho, e que portanto Ele é o Espírito do Pai e do Filho, é uma verdade inquestionável do Cristianismo, pois Deus é uma Trindade Una em Essência e Indivisível.

Essa ideia é claramente expressada pelo Bem-aventurado Teodoreto: "A respeito do Espírito Santo, é dito não que Ele tenha existência do Filho ou através do Filho, mas sim que Ele procede do Pai e tem a mesma natureza que o Filho, é de facto o Espírito do Filho sendo Um em Essência com Ele" (B. A. Theodoret, «On the Third Ecumenical Council»).

Nos Divinos Ofícios também, com frequência ouvimos essas palavras endereçadas ao Senhor Jesus Cristo: "Pelo Teu Espírito Santo, iluminai-nos, instrui-nos e preserva-nos". A expressão "o Espírito do Pai e do Filho", é igualmente em si própria inteiramente Ortodoxa. Mas essas expressões referem-se aos dogmas da Unicidade da Essência, e é absolutamente essencial distinguir este de outro dogma, o dogma da geração e processão, no qual, como os Santos Padres expressam, é mostrada a causa da existência do Filho e do Espírito Santo. Assim, quando certos Padres da Igreja usam a expressão "através do Filho" eles estão, precisamente por meio dessa expressão preservando o dogma da processão do Pai e a inviolabilidade da formula dogmática, "procede do Pai". Os Padres falam em relação ao Filho "através" para defender a expressão "do Pai", onde só se refere ao Pai.

A isso dever-se-ia juntar a expressão "através do Filho", que é encontrada em certos Padres da Igreja, na maioria dos casos referem-se definitivamente às manifestações do Espírito Santo no mundo, isto é, às acções providenciais da Santíssima Trindade, e não à vida de Deus em Si próprio. Quando a Igreja Oriental notou uma distorção do dogma do Espírito Santo no Ocidente e começou a recriminar os teólogos ocidentais por suas inovações, São Máximo, o Confessor (no século sete), desejando defender os ocidentais, justificou-os precisamente dizendo que pelas palavras "do Filho" eles pretendiam indicar que o Espírito Santo é dado para as criaturas através do Filho, que Ele é enviado - mas não que o Espírito Santo tem Sua existência do Filho. São Máximo, o Confessor, manteve estritamente o ensinamento da Igreja Oriental a respeito da processão do Espírito Santo do Pai e escreveu um tratado especial sobre esse dogma.

O envio providencial do Espírito pelo Filho de Deus é referido nas palavras, "que Eu da parte do pai vos hei de enviar". Também nós rezamos: "Senhor, Tu que, à terceira hora, fizeste nascer o Espírito Santo sobre os teus Apóstolos, pela Tua misericórdia não O afastaste de nós, mas renova-nos a nós que humildemente te apresentamos as nossas súplicas" (Tropário da Terceira Hora da Grande Quaresma também dito pelo Padre antes da Consagração na Sagrada Liturgia). Confundindo os textos da Sagrada Escritura que falam de "processão" com outros que falam do "envio" do Espírito Santo, os teólogos romanos transferiram o conceito das relações providenciais para a própria existência da divindade, para as relações lá entre as pessoas da Santíssima Trindade.

À parte do lado dogmático, ao introduzir um novo dogma a Igreja Romana violou o Decreto do Terceiro e dos subsequentes Concílios Ecuménicos (do 4º ao 7º), que proibiram a introdução de qualquer tipo de mudança no Símbolo da Fé de Nicéia, depois que deu o Segundo Concílio Ecuménico deu a sua forma final. Assim a Igreja Romana cometeu uma séria violação canónica.

Mas quando os teólogos romanos tentam dizer que a completa diferença entre o Catolicismo Romano e a Ortodoxia no ensinamento do Espírito Santo é que eles ensinam a processão "também do Filho" enquanto nós ensinamos a processão "através do Filho", e que nessa afirmação existe escondido lá no fundo um mal entendido (ainda que às vezes alguns escritores de nossa Igreja seguem os Católicos Romanos e permitem-se repetir essa ideia), deve-se antepôr que a expressão "através do Filho" em hipótese alguma constitui-se num dogma da Igreja Ortodoxa, mas é só um modo explanatório de certos Padres em seu ensinamento da Santíssima Trindade, e que portanto o verdadeiro significado do ensinamento da Igreja Ortodoxa é em essência completamente diferente do ensinamento do Catolicismo Romano.

 

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

Principal

Catecismo da Igreja Ortodoxa

 

 

Última actualização deste Link em 03 de Abril de 2009

 

 

 

 

Hosted by www.Geocities.ws

1