CATECISMO ORTODOXO
Parte I
Deus em Si próprio
2. O dogma da Santíssima Trindade
e - Os atributos
pessoais das Pessoas Divinas
Os atributos pessoais, ou hipostáticos da Santíssima
Trindade são designados assim: O Pai é não-gerado; o Filho é gerado
pré-eternamente; o Espírito Santo procede do Pai.
"Apesar de termos sido ensinados que existe uma
distinção entre geração e progressão, em que consiste essa distinção, e o que é
a geração do Filho e a processão do Espírito Santo do Pai — isso nós não
sabemos" (São
João Damasceno).
Nenhum tipo de cálculo lógico a respeito do que
geração e processão significam é capaz de revelar o mistério interior da vida
divina. Concepções arbitrárias podem até mesmo conduzir a distorções do
ensinamento Cristão. As expressões que o Filho é "gerado pelo Pai" e
que o Espírito "procede do Pai" são simples e precisas transmissões
das palavras da Sagrada
Escritura. Do Filho é dito que ele é "O unigénito do Pai (único
gerado)" (Jo. 1, 14; 3, 16); da mesma forma "O
Senhor disse-me: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei" (Sal. 2, 7; as
palavras deste Salmo são também citadas na Epístola aos Hebreus, 1, 5; 5, 5). O
dogma da processão do Espírito Santo repousa sobre a directa e precisa
expressão do Salvador: "Mas quando vier o Consolador, que eu da parte
do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade que procede do Pai, ele
testificará de mim" (Jo. 15, 26). Na base
das expressões citadas acima, as do Filho são usualmente ditas no verbo
passado, isto é que Ele é "gerado" e as do Espírito Santo no
presente, isto é que Ele "procede". No entanto, essas validações de
forma gramatical não indicam qualquer relação com o tempo de maneira alguma.
Ambas "geração" e "processão" são "desde toda
eternidade", "fora do tempo".
O
dogma da geração do Filho pelo Pai e a processão do Espírito Santo do Pai
mostram as místicas relações interiores das pessoas em Deus e a vida de Deus
nele mesmo. Deve-se claramente distinguir essas relações que são pré-eternas de
toda eternidade, e fora do tempo, nas manifestações da Santíssima Trindade no
mundo criado, das actividades e manifestações da providência de Deus no mundo
como elas foram expressas em tais eventos como a criação do mundo, a vinda do
Filho de Deus para a terra, a sua Encarnação, e o envio do Espírito Santo.
Essas manifestações e actividades providenciais foram realizadas no tempo. No
tempo histórico o Filho de Deus nasceu da Virgem
Maria pela descida sobre Ela do Espírito Santo: "Descerá sobre ti o
Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo cobrir-te-á com a sua sombra, pelo que
também o Santo, que de ti há-de nascer, será chamado de Filho de Deus"
(Lc. 1, 35). No tempo histórico, o Espírito Santo
desceu sobre Jesus Cristo no tempo do seu Baptismo
por João. No tempo histórico o Espírito Santo foi enviado para cá pelo Filho,
vindo do Pai, aparecendo na forma de línguas de fogo. O Filho veio para a terra
através do Espírito Santo. O Espírito é enviado para cá pelo Filho de acordo
com a promessa "o Consolador... que da parte do Pai, vos hei-de
enviar" (Jo. 15, 26).
A respeito da pré-eterna "geração" do
Filho de Deus e da "Processão" do Espírito, pode-se perguntar:
"Quando foram essas, geração e processão?" São
Gregório, o teólogo responde: "Elas foram antes delas mesmo. Vós
ouvistes sobre a geração; não fiquem curiosos para conhecer de que forma essa
geração foi. Vós ouvistes que o Espírito Santo procede do Pai; Não fiquem
curiosos para saber como Ele procede".
Apesar do significado das palavras
"geração" e "Processão" estarem além de nós, isso não
diminui a importância dessas concepções do ensinamento Cristão a respeito de
Deus. Elas indicam a totalidade de divindade da Segunda e Terceira Pessoa. A
existência do Filho e do Espírito é colocada em oposição a qualquer tipo de
criatura, a qualquer coisa que foi criada e foi chamada pela vontade de Deus só
pode ser divina e eterna; por isso a Palavra de Deus diz do Filho que veio para
a terra: "O Filho unigénito, que está no seio do Pai" (Jo. 1, 18); a respeito do Espírito Santo: "Que eu
vos hei-de enviar... que procede do Pai..." (Jo.
15, 26; aqui o presente gramatical significa eternidade).
Aquele que é gerado é sempre da mesma essência que o
que gera. Mas o que é criado e feito é de outra e inferior essência, e é externo
em relação ao Criador.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)