CATECISMO ORTODOXO
Parte II
Deus Manifestado no Mundo
1 - Deus e a Criação
b - O modo de
criação do mundo
O mundo foi criado do nada. Na verdade, melhor dizer
que ele foi trazido para o ser vindo do não-ser, como os Padres
da Igreja normalmente se expressam, porque se dizemos "do", nós
estamos evidentemente já pensando em algo material. Mas "nada" não é
material. No entanto, é condicionalmente aceitável e inteiramente permissível
usar essa expressão por sua simplicidade e brevidade.
Essa
criação é um trazer para o ser, vindo do completo não-ser e é mostrada em
muitas passagens na Palavra de Deus: por exemplo "Deus as fez (as
coisas) de coisas que não existem” (2 Macabeus 7, 28); "aquilo que
se vê não foi feito do que é aparente” (Heb. 11, 3); "e (Deus)
chama as coisas que não são como se já fossem" (Rom. 4, 17).
O próprio tempo recebeu o seu começo na criação do
mundo; até então existia somente eternidade. A Sagrada Escritura diz também: "por
Ele (Seu Filho) foram feitos os séculos".
A respeito dos dias da criação, o Bem-aventurado Santo
Agostinho, em seu trabalho, A Cidade de Deus, disse: "Que tipo de dias
foram eles, é extremamente difícil dizer ou talvez impossível para nós
conceber, e quanto mais explicar!" (Livro 11, cap.
6, Modern Library Editora, New York, 1950, pg. 350).
"Nós vemos, de facto, que os nossos dias comuns
só têm anoitecer pelo pôr-do-sol e só têm amanhecer pelo levantar do sol. Mas
nos três primeiros dias da criação não existiu sol, já que é relatado que ele
foi feito no quarto dia. E primeiro de tudo, a luz foi feita pela Palavra de
Deus, e Deus, nós lêmos, separou a luz das trevas, e chamou a luz de dia, e as
trevas de noite; mas que tipo de luz era, e por qual movimento periódico era
feito o anoitecer e o amanhecer está além do alcance dos nossos sensos; nem
podemos entender como era, e no entanto devemos acreditar sem hesitação
nisso" (City of God, livro 11, cap. 7, pg. 351).
Deus criou o mundo por Seu pensamento, por Sua vontade, por Sua palavra, ou comando. "... pois mandou e logo foram criados" (Sal. 148, 5). Pela "Palavra" de Deus, os Padres da Igreja notam que não devemos entender aqui nenhum tipo de som articulado ou palavra como as nossas. Não, essa palavra criadora significa somente o comando ou a expressão da toda poderosa vontade de Deus, que trouxer o universo para a existência do nada.
São
Damasceno escreve: "Agora, o bom e transcendental bom Deus não estava
satisfeito em contemplar a Si mesmo, mas por uma superabundância de bondade viu
ser bom que deveriam existir algumas coisas para se beneficiarem e participarem
na Sua bondade, então ele trouxe todas as coisas do nada para o ser e criou-as,
tanto visíveis quanto invisíveis, e também o homem que é feito de ambas. Por
pensar Ele criou, e com o Verbo preenchendo e o espírito aperfeiçoando, o
pensamento tornou-se acção" (Exact Exposition, Livro 2, cap. 2, «Fathers of The Church», tr. Pág.
205).
Assim, apesar do mundo ter sido criado no tempo,
Deus tinha o pensamento de Sua criação por toda a eternidade (Santo Agostinho, Against Heresies). No entanto,
nós evitamos a expressão "Ele criou o mundo de seu pensamento" para
não dar ocasião a que se pense que ele criou o mundo de Sua Essência. Se a
Palavra de Deus não nos dá o direito de falar do "ser pré-eterno" do
mundo inteiro, assim também, na mesma base deve-se reconhecer como inaceitável
a ideia da "existência pré-eterna da
humanidade", uma ideia que tem tentado penetrar na nossa teologia através
das correntes filosóficas-teológicas contemporâneas.
A Santa Igreja, sendo guiada pelas indicações da
Sagrada Escritura, confessa a participação de todas as pessoas da Santíssima
Trindade na criação. No Símbolo
da Fé nós lemos: "Creio em um só Deus, Pai Todo
Poderoso, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e
invisíveis; creio em um só Senhor Jesus Cristo, Filho Único de Deus... por Quem
todas as coisas foram feitas... creio no Espírito Santo, Senhor e Fonte de
Vida". São Irineu
de Lion escreve: "O Filho e o Espírito Santo
são, como se fossem as mãos do Pai" (Against Heresies, Livro 5, cap. 6). A
mesma ideia é encontrada
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)