CATECISMO ORTODOXO
Parte II
Deus Manifestado no Mundo
1 - Deus e a Criação
m - Homem - A
Coroa da Criação
Na escada da criação terrena, o homem é colocado no degrau mais alto, e
em relação a todos os seres terrestres ele ocupa a posição reinante. Sendo
terreno, de acordo com seus dons ele se aproxima dos seres celestes, pois ele é
"pouco menor que os anjos" (Sal. 8, 5). E o Profeta Moisés
descreve a origem do homem desse modo: "Depois que todas as criaturas
da terra foram criadas, e Deus disse, Façamos o homem à Nossa imagem, conforme
nossa semelhança, e que ele tenha domínio sobre os peixes do mar sobre as aves
dos céus... e sobre toda a terra... E criou Deus o homem à Sua imagem; à imagem
de Deus o criou" (Gén. 1, 26-27).
1 - O conselho de Deus, que não é indicado na
criação das outras criaturas da terra, fala por si próprio claramente do facto
que o homem era para ser uma criação especial, distinta das outras, a mais
alta, a mais perfeita na terra, tendo também um propósito mais elevado no
mundo.
2 - O conceito do alto propósito do homem e seu
especial significado é enfatizado ainda mais pelo facto de que o conselho de
Deus ordenou que o homem fosse criado "à imagem e semelhança de
Deus" e que de facto ele foi criado á imagem de Deus. Toda a imagem
necessariamente pressupõe uma similaridade com seu arquetipo; consequentemente,
a presença da imagem de Deus no homem testemunha sobre a reflexão dos atributos
de Deus na natureza espiritual do homem.
3 - Finalmente, certos detalhes da criação do homem
que são dados no segundo capítulo da Génesis enfatizam mais uma vez a
proeminência especial da natureza humana. Para ser preciso é dito ali: "E
formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego
da vida. E o homem foi feito alma vivente" (Gén.
2, 7). Duas acções, ou dois aspectos das acções, são distinguidos aqui, e elas
devem ser entendidas como simultâneas: a formação do corpo, e a doacção de vida
para ele. São
João Damasceno nota: "O corpo e a alma foram formados ao mesmo tempo,
não um antes e o outro depois, como os delírios de Orígenes consideravam"
(Exact Exposition, livro 2,
cap. 12 "On man"). De acordo com a descrição do livro da Génesis,
Deus criou o corpo do homem de já existentes elementos terrestres, e Ele
criou-o de um modo muito especial: não por seu comando ou palavra somente, como
foi feito na criação de outras criaturas, mas por sua acção directa. Isso
mostra que o homem, mesmo em sua organização corporal, é um ser que ultrapassa
todas as outras criaturas desde o começo de sua existência. Além disso, é dito
que Deus soprou em sua face o sopro da vida e que o homem tornou-se alma
vivente. Como alguém que recebeu o sopro da vida, nessa expressão figurativa,
da boca do próprio Deus, o homem é então uma união viva e orgânica do terreno
com o celeste, do material com o espiritual.
4 - Daí recorre a visão exaltada do corpo humano
como é mostrada geralmente na Sagrada Escritura. O corpo deve servir como
companheiro, órgão e mesmo companheiro trabalhador da alma. Depende da alma
rebaixar-se tanto que se transforme numa escrava do corpo, ou, sendo guiada por
um espírito iluminado, tornar o corpo seu obediente executor e companheiro
trabalhador. Dependendo da alma, o corpo pode ser um vaso de impureza
pecaminosa e loucura ou transformar-se num templo de Deus, participando com a
alma na glorificação de Deus. Isso é ensinado na Sagrada Escritura (Rom. 13,
14; Gal. 3, 3; 1 Cor. 9, 27; Gal.
5, 24; Jo. 7, 9; 1 Cor. 3, 16-17; 1 Cor. 6, 20).
Mesmo com a morte do corpo, a ligação da alma com o corpo não é cortada para
sempre. Virá o tempo quando os corpos dos homens se levantarão numa forma
renovada e serão unidos de novo com suas almas, agora para sempre, para tomar
parte em eterna bênção ou tormento, correspondendo às boas ou más obras
realizadas pelos homens com a participação do corpo no curso da vida terrena (2
Cor. 5, 10).
Uma visão ainda mais exaltada é instilada em nós
pela palavra de Deus com respeito à natureza da alma. Na criação da alma Deus
não tomou nada da terra, mas concedeu-a ao homem somente pelo seu próprio sopro
criativo. Isso mostra claramente que, na concepção da Palavra de Deus, a alma
humana é uma essência completamente separada do corpo e de todo material e
compostos de elementos, tendo uma natureza não terrena, mas acima do mundo,
celeste. A elevada proeminência da alma do homem, comparada com tudo que é
terreno foi expressa pelo Senhor Jesus Cristo nas palavras: "Pois que
aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o
homem em recompensa da sua alma?" (Mt. 16,
26). O Senhor instrui seus discípulos: "E não temais o que matam o
corpo, e não podem matar a alma" (Mt. 10,
28).
A respeito da exaltada dignidade da alma, São
Gregório, o Teólogo, expressa-se assim: "A alma é o sopro de Deus, e
sendo celeste, ela suporta ser misturada com aquilo que é do pó. É uma luz
fechada numa caverna, mas ainda é divina e inextinguível... O Verbo falou, e
tendo tomado uma parte da terra recém-criada, com Suas mãos imortais firmou
minha imagem e concedeu a ela a Sua vida; porque Ele mandou para ela o
espírito, que é um raio da invisível divindade" (Homilia 7, "On the Soul").
Apesar disso, não se pode tornar tais exaltadas
expressões figurativas dos Santos
Padres em base para ensinar que a alma é "divina" no sentido
completo da palavra, e que consequentemente, ela teve uma existência eterna
própria antes de sua encarnação num homem terreno em Adão! (essa visão é
encontrada nas correntes teológicas-filosóficas contemporâneas que seguem V. S.
Socoviev). O posicionamento correcto de que a alma é
de origem celeste não significa que ela é divina em essência. "Ele
soprou o fôlego da vida" (Gén. 2, 7) é uma
expressão antropomórfica, e não há base para entende-la como significando que
ele deu alguma coisa de Sua substância divina. Lembremo-nos que o respirar do
homem não é um "expirar" elementos da própria natureza humana, nem
mesmo de sua essência física. Da mesma forma da expressão Bíblica não se pode
tirar a conclusão de que a alma procede da Essência de Deus nem que é um
elemento da Divindade. Crisóstomo
escreve: "Certos insensatos, sendo levados por suas próprias concepções,
sem pensar em nada de um modo que se ajuste à maneira de Deus, e sem prestar
qualquer atenção à adaptação das expressões (das Escrituras), ousam dizer que a
alma procedeu da Essência de Deus. Ó frenesi! Ó loucura! Quantos caminhos de
perdição o demónio
abriu para aqueles que querem servi-lo! Para se entender isso, contemplem os
caminhos opostos pelos quais vão essas pessoas: algumas, centram na frase,
"Ele soprou", dizem que as almas procedem da Essência de Deus;
outros, ao contrário, afirmam que as almas são convertidas na Essência das mais
baixas criaturas irracionais. O que pode ser pior do que tal loucura?"
(comentário sobre o livro da Génesis).
Que São Gregório, o Teólogo, falou da divindade da
alma não no estrito senso da palavra é evidente
Nós
já falamos no capítulo sobre os Atributos de Deus (sobre Deus como espírito)
das questões sobre como se deve entender expressões antropomórficas acerca de
Deus. Citemos aqui só o argumento do Bem-aventurado Teodoreto: “Quando ouvimos
no relato de Moisés que Deus tomou pó da terra e formou o homem, e quando nós
procuramos o significado dessa frase, nós nela descobrimos uma especial boa
disposição de Deus para com a raça humana. O grande Profeta nota, em sua
descrição da criação, que Deus criou todas as outras criaturas por sua palavra,
enquanto o homem foi criado por suas próprias mãos. Mas assim como nós
entendemos pela "palavra" não um comando, mas só a vontade, assim
também na formação do corpo, (nós deveríamos entender) não a acção das mãos,
mas a grande atenção para com esse trabalho. Pois do mesmo modo que agora, por
sua vontade, o fruto é gerado num ventre materno, e a natureza segue as leis
que Ele lhe deu desde o início - assim também então,
por sua vontade foi formado o corpo humano da terra e pó virou carne.” Em outra
passagem o Bem-aventurado Teodoreto expressa de modo geral: "Nós não
dizemos que a divindade tem mãos ... mas nós afirmamos que cada uma nessas expressões indica um
muito maior cuidado da parte de Deus para com o homem, do que para as outras
criaturas" (citado
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)