CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte II

 

Deus Manifestado no Mundo

 

 

5 - Deus e a Salvação do Homem

g - As duas naturezas em Jesus Cristo

Em três Concílios Ecuménicos - o Terceiro (de Éfeso, contra Nestório), o Quarto (da Calcedónia, contra Eutiques), e o Sexto (o terceiro de Constantinopla, contra os Monotelistas) - a Igreja revelou o dogma da hipóstase do Senhor Jesus Cristo em duas naturezas, divina e humana, e com duas vontades, a vontade Divina e a vontade humana, que estava inteiramente em sujeição à primeira.

O Terceiro Concílio Ecuménico, o de Éfeso em 431, aprovou a exposição de Fé de São Cirilo de Alexandria, a respeito do facto que "a Divindade e Humanidade compuseram uma única Hipóstase do Senhor Jesus Cristo, por meio de uma indizível e inexplicável união dessas duas distintas naturezas numa".

O Quarto Concílio Ecuménico, o de Calcedónia em 451, pondo fim ao Monofisismo, formulou precisamente a maneira da união das duas naturezas na única pessoa do Senhor Jesus Cristo, reconhecendo ser a essência dessa união mística e inexplicável. A definição do Concílio de Calcedónia, é lido assim: "Seguindo os Santos Padres nós ensinamos em uma voz que o Filho e Nosso Senhor Jesus Cristo é para ser confessado com uma e a mesma Pessoa, que Ele é perfeito em divindade e perfeito em humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, com razoável alma e corpo (humanos), um em Essência com o Pai no tocante à Sua Divindade, e um em essência connosco no tocante à sua humanidade; feito em todas as coisas como nós, excepção feita só ao pecado, gerado de Seus Pais antes do mundo segundo Sua Divindade, mas nos últimos dias por nós homens e para nossa salvação nascido da Virgem Maria a «Theotokos», de acordo com a Sua humanidade. Esse um e o mesmo Jesus Cristo, o Filho Unigénito, deve ser confessado em duas naturezas, sem confusão, imutavelmente, indivisivelmente, inseparavelmente,... não separado e dividido em duas pessoas, mas um e o mesmo Filho e unigénito Deus o Verbo, Nosso Senhor Jesus Cristo, como os profetas dos tempos antigos falaram a respeito dele, e como o Senhor Jesus Cristo nos ensinou, e como o Credo dos Padres nos entregou" (Eerddmans, Seven Ecumenical Councils, p. 264-285).

A maneira dessa união das naturezas é expressa na definição de Calcedónia nas palavras: "sem confusão e imutavelmente". As pessoas divina e humana em Cristo não se misturam e não são convertidas uma na outra.

"Indivisivelmente, inseparavelmente". As duas naturezas estão unidas para sempre, não formando duas pessoas que estão só moralmente unidas, como Nestório pensou. Elas são inseparáveis desde o momento da concepção (isto é, o homem não foi formado primeiro, e então Deus foi unido a ele; mas Deus o Verbo, descendo no ventre da Virgem Maria formou uma carne humana viva para si próprio). Essas naturezas também eram inseparáveis na hora dos sofrimentos do Salvador na cruz, no momento da morte, na Ressurreição e depois da Ascensão, e pelos séculos dos séculos. Em sua carne deificada o Senhor Jesus Cristo virá também na sua segunda Vinda.

Finalmente, o Sexto Concílio Ecuménico, no ano 681 (o terceiro em Constantinopla), decretou que devem ser confessadas duas naturezas em Cristo e duas operações: "Duas vontades naturais não contrária uma à outra... Mas a Sua vontade humana seguirá sem que seja resistindo e relutante mas ao invés sujeita à Sua Divina e omnipotente vontade" (Da "Definition of Faith do Sexto Concílio Ecuménico", Eerdermans, Seven Ecumenical Councils, p 345).

A natureza humana - ou, na terminologia dos Santos Padres, a "carne do Senhor" - unida com a divindade, foi enriquecida pelos poderes divinos sem perder nada dos seus atributos próprios, e tornou-se participante da dignidade divina mas não da natureza divina. A carne, sendo deificada, não foi destruída, "mas continuou em seu próprio estado e natureza", como o Sexto Concílio Ecuménico expressou (obra citada acima).

Correspondendo a isso, a vontade humana em Cristo não foi mudada para a vontade divina e não foi destruída mas permaneceu completa e operativa. O Senhor sujeitou-a completamente à vontade divina, que nele é uma com a vontade do Pai: "Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" (Jo. 6, 38).

Em sua «Exact Exposition of the Ortodox Faith», São João Damasceno fala-nos da união das duas naturezas na pessoa do Senhor Jesus Cristo: "Assim como nós confessamos que a encarnação foi feita sem transformação ou mudança, assim também nós mantemos que a deificação da carne foi feita. Pois o Verbo nem ultrapassou os limites de sua própria Divindade nem as divinas prerrogativas a ela pertencentes porque ele foi feito carne, e quando a carne foi feita Divina ela certamente não mudou sua própria natureza ou suas propriedades naturais. Mesmo depois da união das naturezas, permaneceram não misturadas e suas propriedades intactas. Mais ainda, por razão de sua não misturada união com o Verbo, isto é, sua união hipostática, a carne do Senhor foi enriquecida com operações divinas mas de modo algum sofreu qualquer enfraquecimento de suas propriedades naturais. Porque não é por suas próprias operações que a carne faz obras divinas, mas pelo Verbo unido a ela e através dela o Verbo mostra suas próprias operações. Assim, o aço que foi aquecido queima, não porque naturalmente adquiriu poder de queimar, mas porque ele adquiriu esse poder de sua união com o fogo" (Extract Exposition, 3, 17; tradução inglesa, p. 316-317).

A respeito da maneira da união das duas naturezas em Cristo, deve-se sem dúvida ter em mente que os Concílios e os Padres da Igreja tinham somente um objectivo: defender a fé dos erros dos heréticos. Eles não tentaram revelar inteiramente a verdadeira essência dessa união, isto é, a mística transformação da natureza humana em Cristo, a respeito da qual nós confessamos que em sua carne humana, Cristo senta-se à direita de Deus Pai, que em carne ele virá em glória para julgar o mundo, e o seu reino não terá fim, e que fiéis recebem comunhão de seus vivificantes Carne e Sangue em todo tempo através do mundo todo.

 

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

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Última actualização deste Link em 03 de Abril de 2009

 

 

 

 

 

 

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