CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte II

 

Deus Manifestado no Mundo

 

 

5 - Deus e a Salvação do Homem

b - A preparação para receber o Salvador

"Mas vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para reunir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adopção de filhos" (Gál. 4, 45).

No que consiste essa "plenitude dos tempos" que foi ordenada, para o trabalho da redenção? Nos versículos que precedem as citadas palavras do Apóstolo Paulo na Epístola aos Gálatas, o Apóstolo fala do tempo antes da vinda do Salvador como sendo "quando éramos meninos" (Gál. 4, 3). Assim, ele chama o período do Velho Testamento de "infância", o tempo do desenvolvimento, a condução das crianças sob a Lei de Moisés, enquanto que a vinda do Salvador é o fim da "infância".

Nós podemos entender o significado desse período preparatório se nós formos guiados pela parábola do Filho Pródigo. O pai entristecido pela partida de sua casa de seu amado filho. No entanto, sem violar a dignidade e a liberdade de seu filho, ele esperou até que o filho, tendo experimentado o amargor do mar e tendo lembrado da bondade da vida na casa do pai, ele próprio ficou saudoso da casa do pai e abriu a sua alma para o amor do pai. Assim foi com a raça humana também. "Minha alma tem sede de ti, como terra sedenta" (Sal. 143, 6), poderia ter sido dito pela melhor parte da humanidade; ela tornou-se uma "terra sedenta", tendo experimentado até os restos, o amargor do afastamento de Deus.

O Senhor não abandonou os homens, não os mandou completamente embora, mas do momento da queda no pecado conduziu-os para a futura salvação.

1 - Tendo cortado a criminalidade da humanidade original pelo Dilúvio, o Senhor, em primeiro lugar escolheu dos descendentes de Noé, que foram salvos do Dilúvio, uma raça para a preservação da piedade e da fé, e também da fé na vinda do Salvador. Essa foi a raça de Abraão, Isaac e Jacob, e então de todo o povo hebreu. Em seu cuidado com seu povo escolhido, Deus conduziu-os para fora da escravidão, preveniu-os, castigou-os pedagogicamente, e de novo teve misericórdia, conduzindo-os para fora do cativeiro babilónico, e finalmente, do meio deles preparou a escolhida, que veio a ser a Mãe do Filho de Deus.

A escolha do povo hebreu foi confirmada pelo Senhor Jesus Cristo quando Ele disse: "...a salvação vem dos judeus" (Jo. 4, 22). Os escritos dos Apóstolos testificam abundantemente a mesma coisa: o discurso do primeiro mártir Estêvão e o Apóstolo Pedro no Livro dos Actos, as Epístolas do Apóstolo Paulo aos Romanos e aos Gálatas, e outros lugares na Sagrada Escritura.

 

2 - Além disso, a preparação para a recepçãoo do Salvador, consistia em: a) as promessas confortadoras de Deus, e b) as profecias dos profetas a respeito de Sua vinda.

a - As promessas de Deus começaram no Paraíso. As palavras do Senhor para a serpente concernentes "a semente da mulher" possuem um significado místico: "E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar" (Gén. 3, 15). A promessa feita aqui a respeito da semente da mulher tornou-se ainda mais clara para os escolhidos da fé com o crescimento das profecias acerca do Salvador que ele próprio suportaria sofrimentos da violência do diabo (Sal. 21, 11), e o derrubaria: "e foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás que enganava todo mundo. Ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele" (Apc. 12, 9).

Além disso existia a promessa para Abraão: "E em tua semente serão benditas toda as nações da terra" (Gén. 22, 18) - Uma promessa repetida para Isaac e Jacob (Gén. 26, 4; 28, 14). O seu autêntico significado foi também gradualmente revelado aos judeus, durante o período de seu cativeiro e outros infortúnios, como sendo a promessa do Salvador do mundo.

b - Profecias: a bênção de Judá e do Patriarca Jacob, abençoando um de seus filhos logo antes de sua morte, proferiu uma profecia ainda mais definida sobre o Salvador: "O ceptro não se arredará de Judá, nem o legislador dentre seus pés, até que venha Siló, e a ele se congregarão os povos" (Em hebreu Siló significa Reconciliador). Em outras palavras, a autoridade da tribo de Judá não cessará até que o Reconciliador, a esperança das nações, venha, e consequentemente, a terminação da autoridade da tribo de Judá será um claro sinal da vinda do Salvador. Os antigos professores viam no Reconciliador o esperado Messias, a quem eles aplicaram o nome Siló.

Outra profecia consiste nas palavras de Moisés para seu povo: "O Senhor teu Deus despertará um profeta do meio de ti, de teus irmãos como eu; a ele ouvireis" (Deut. 18, 15). Depois de Moisés existiram muitos grandes profetas entre os hebreus mas a nenhum deles as palavras de Moisés se referiam: "E nunca mais se levantou em Israel profeta algum igual a Moisés" (Deut. 34, 10). O próprio Senhor Jesus Cristo referiu-se às palavras de Moisés sobre Si: "Porque, se vós acreditásseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele" (Jo. 5, 46).

Vieram então numerosas profecias na forma de prefiguração nos Salmos, dos quais o mais expressivo é o Salmo 22 que os antigos rabinos reconheciam como um hino ao Messias. Ele inclui uma descrição dos severos e atormentadores sofrimentos que o Salvador suportou na Cruz: "Deus, Deus meu, porque me desamparaste? Todos os que vêem zombam de mim, estendem os beiços e meneiam a cabeça dizendo: confio no Senhor, que o livre... Como água me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntaram... Repartem entre si os meus vestidos, e lançam sorte sobre a minha túnica...." Próximo do fim do Salmo estão estas palavras que concernem ao triunfo da Igreja: "O meu louvor virá de ti na grande Congregação (Igreja): pagarei os meus votos ... Os mansos comerão e se fartarão... o vosso coração viverá eternamente".

Numerosos outros Salmos contem tais profecias e prefigurações. Alguns deles proclamam os sofrimentos do Salvador (Sal. 40, 69, 109, 41, 16, 8), enquanto outros proclamam a sua glória (Sal. 2, 110, 45, 68, 118, 97, 95).

Finalmente, perto do fim do período do Velho Testamento, numerosas profecias apareceram nos livros dos assim chamados maiores e menores profetas, e esses ainda mais claramente revelaram a eminente vinda do Filho de Deus. Eles falaram do precursor do Senhor, do tempo, lugar e condições do nascimento do Salvador de Sua imagem espiritual-corporal (sua docilidade, humildade e outras características), dos eventos que precederiam a traição do Senhor, de seus sofrimentos e Ressurreição, na descida no Espírito Santo, do carácter do Novo Testamento, e de outros aspectos da vinda do Senhor.

Entre essas profecias um lugar especial pertence ao capítulo cinquenta e três do profeta Isaias, que dá uma imagem do sofrimento do Salvador na Cruz. Eis como Isaías prefigura os sofrimentos redentores do Messias, Cristo: "Quem deu crédito a nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do Senhor? Porque foi subindo como renovo perante Ele, e como raiz de uma terra seca, não tinha parecer nem formosura; e olhando nós para Ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais indigno entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos: e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si e nós o reputamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades: o castigo que nos trás a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras formos sarados. Todos nós andamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez criar sobre Ele a iniquidade de nós todos. Ele foi oprimido, mas não abriu a sua boca: como um cordeiro foi conduzido ao matadouro, e, como a ovelha muda perante os tosquiadores, ele não abriu a sua boca. Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo de sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes: pela transgressão do meu povo ele foi atingido... e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e pelos transgressores intercede" (Isaías 53, 1-8.12).

No profeta Daniel nós lemos a revelação dada a ele pelo Arcanjo Gabriel a respeito das setentas semanas - o período de tempo da restauração de Jerusalém antes de Cristo, até Sua morte e a cessação do Velho Testamento, isso é, a cessação dos sacrifícios no Templo de Jerusalém (Daniel 9, 24-27).

Essas promessas e profecias, antes de tudo, deram suporte ao povo escolhido, especialmente durante os períodos difíceis de suas vidas; elas deram suporte para sua firmeza, fé e esperança. Segundo, elas preparam o povo de modo que eles fossem capazes de reconhecer por essas profecias que o tempo da promessa estava perto, e que eles viessem a reconhecer o Salvador na forma dada a ele pelos profetas.

Graças a essas profecias, quando o tempo da vinda do Salvador aproximava-se, a expectativa sobre ele esteve intensa e vigilante entre os pios judeus. Vemos isso nos Evangelhos. Isso é revelado na expectativa de Simeão, o Receptor de Deus, para quem foi declarado que ele não veria a morte até que ele tivesse contemplado Cristo, o Senhor (Lc. 2, 26). Também é revelado na resposta da mulher samaritana ao Salvador: "Eu sei que o Messias vem; quando ele vier nos anunciará tudo" (Jo. 4, 25). É revelado nas perguntas dos Judeus que vieram para João Baptista: "És Tu o Cristo?" (Jo. 1, 20-25); nas palavras endereçadas por André, o primeiro chamado Apóstolo, depois dos seus encontros com Cristo, a seu irmão Simão: "Achamos o Messias" (Jo. 4, 41), e igualmente nas palavras similares de Filipe para Natanael no relato do evangelista sobre seu chamado ao apostolado (Jo. 1, 44-45). Outro testemunho foi a atitude do povo no tempo da entrada do Senhor em Jerusalém.

 

3. Ao que foi dito acima deve ser acrescentado o facto que não foram só os judeus que estavam sendo preparados para a recepção do Salvador, mas também o mundo inteiro, apesar de ser um grau menor.

Mesmo no mundo pagão estavam preservados - ainda que numa forma distorcida - tradições relativas à origem e a originalmente abençoada condição da humanidade (a era de ouro), concernentes à queda de nossos primeiros ancestrais no Paraíso, a respeito do Dilúvio como consequência da corrupção do homem e mais importante de tudo, - a tradição vinda de um Redentor da raça humana e a expectativa de sua vinda, como pode ser visto nas palavras de Platão, Plutarco, Virgílio, Ovídio, Strabo e igualmente na história das religiões do mundo antigo (por exemplo as predições das sibilas [As sibilas eram videntes pagãs cujos oráculos e predições eram altamente consideradas na Roma pagã. Esses oráculos referiam-se em sua maioria ao destino dos povos, reinos e dirigentes, e alguns deles tocaram na vinda de Cristo] das quais nós lemos em Cícero e Virgílio).

Os pagãos tiveram contacto com o povo escolhido por meio de mútuas visitas, viagens marítimas, guerras, cativeiro de judeus (especialmente os cativeiros assírio e babilónico), e comércios, e graças a dispersão dos judeus nas várias nações das três partes do mundo antigo até o fim do período do Velho Testamento. Sob essas condições, a luz da fé num Deus único e a esperança em um Redentor, pôde ser espalhada para outros povos também.

Mais de dois séculos antes da natividade de Cristo, uma tradução dos livros sagrados foi feita para o grego, e muitos estudiosos pagãos, escritores e povo educado em geral fez uso dela; há vários testemunhos disso, particularmente entre os antigos escritores Cristãos.

Sabemos da Sagrada Escritura que fora o povo escolhido existiram também outros povos que preservaram a fé no Deus único e estavam no caminho de aceitar a piedade. Nós aprendemos isso no relato de Melquisedec no Livro do Génesis (Gen. 14, 18). Na história de Job, no relato do sogro de Moisés, Jetro de Midian (Ex. 18), no relato de Balaam, que profetizou a respeito do Messias: "Vê-lo-ei mas não agora; contemplá-lo-ei mas não de perto" (Num. 24, 17), e no arrependimento dos Ninivitas após a pregação de Jonas. O estar pronto de muitas das melhores pessoas do mundo pagão para a recepção das boas novas do Salvador também é atestado pelo fato que pela pregação dos Apóstolos, da Igreja de Cristo foi rapidamente implantada em todo povo do mundo pagão, e que às vezes o próprio Cristo encontrou em pagãos uma fé que Ele não encontrou nos próprios judeus.

"Mas, vindo à plenitude dos tempos" (Gal. 4, 4), ou, em outras palavras: Quando a raça humana, seguindo após Adão, experimentou completamente, espiritualmente falando, da árvore do conhecimento do bem e do mal, e chegou a conhecer em experiência a doçura de fazer o bem e o amargor de fazer o mal; quando a maioria da humanidade atingiu um grau externo de impiedade e corrupção; quando a melhor, ainda que menor parte da humanidade estivesse com uma especialmente grande sede, esperando e desejando ver o prometido Redentor, Reconciliador, Salvador, Messias; quando, finalmente pela vontade de Deus, as condições políticas já estavam prontas porque o todo da parte civilizada tinha sido unida sob autoridade de Roma - algo que favoreceu fortemente o espalhamento da fé e da Igreja de Cristo. Então o prometido e esperado Filho de Deus veio para a terra.

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

Principal

Catecismo da Igreja Ortodoxa

 

 

Última actualização deste Link em 29 de Abril de 2009

 

 

 

 

 

Hosted by www.Geocities.ws

1