CATECISMO ORTODOXO
Parte II
Deus Manifestado no Mundo
1 - Deus e a Criação
o - A origem das
almas
Como
a alma de cada homem se origina não é completamente revelada na Palavra de
Deus; é "um mistério conhecido só por Deus" (São
Cirilo de Alexandria), e a Igreja não nos dá um ensinamento estritamente
definido sobre esse assunto. Ela decididamente rejeita a visão de Orígenes, que
foi herdada da filosofia de Platão, a respeito da pré-existência das almas e
segundo tal teoria as almas vêm para a terra de um mundo mais elevado. Esse
ensinamento de Orígenes e os Origenistas foram
condenados pelo Quinto Concílio
Ecuménico.
No entanto, esse decreto conciliar não estabelece se
a alma é criada das almas dos pais de um homem e só nesse sentido geral
constitui uma nova criação de Deus, ou se cada alma é criada imediatamente e
separada por Deus, sendo junta num momento definido ao corpo que está sendo ou
já foi formado. Na visão de certos Padres
da Igreja (Clemente de Alexandria, João
Crisóstomo, Efrém o
Sírio, Teodoreto), cada alma é criada
separadamente por Deus, e algumas vezes referem-se à união delas com o corpo
como ocorrendo no quadragésimo dia da formação deste (a teologia católica-romana é decididamente inclinada à visão de que
cada alma é criada separadamente; essa visão tem sido apresentada
dogmaticamente em várias bulas papais, e o Papa Alexandre VII ligou com essa
visão da Imaculada Concepção da Santíssima
Virgem Maria).
Na visão de outros professores e Padres da Igreja (Tertuliano, Gregório o Teólogo, Gregório
de Nissa, Macarius o Grande, Anastácio o
Presbítero), alma e corpo recebem o seu início simultaneamente e amadurecem
juntos; a alma procede das almas dos pais assim como o corpo procede dos corpos
dos pais. Dessa forma a "criação" é entendida aqui num sentido amplo
como a participação do poder criativo de Deus que está presente e é essencial
em todo lugar, para todo tipo de vida. A base dessa visão é o facto que na
pessoa do nosso antepassado Adão, Deus criou a raça humana: "E de um só
fez toda a geração dos homens" (Act. 17,
28). Disso segue que em Adão a alma e o corpo de cada homem foram dados
potencialmente. Mas o decreto de Deus é trazido à realidade de modo tal que
Deus segura toda as coisas em Sua mão: "... pois
Ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas"
(Act. 17, 25). Deus, tendo criado, "continua a
criar".
São Gregório, o Teólogo diz: "Assim como o
corpo, que foi originalmente formado em nós do pó, tornou-se subsequentemente a
corrente dos corpos humanos e não foi cortado da raiz primeiro-formada,
em um homem incluindo outros - assim também a alma
tendo sido soprada por Deus, desde aquele tempo vem junto na composição formada
pelo homem, nascido há pouco, e o da semente original (São Gregório
evidentemente se refere aqui à semente espiritual) sendo atribuída a muitos e
sempre preservando uma forma constante em membros mortais... Assim como o sopro
em uma flauta musical produz sons dependendo da largura da flauta, assim a
alma, aparecendo sem força em um corpo enfermo, torna-se manifesta conforme o
corpo ganha forças e reveza então toda a sua inteligência" (Homilia 7,
"On the Soul"). São Gregório de Nissa tinha a mesma visão.
Em seu diário, São João de Kronstadt
tem essa observação: "O que são as almas humanas? Elas são uma e a mesma
alma, um e o mesmo sopro de Deus, que Deus soprou em Adão, que de Adão até
agora está disseminado em toda raça humana. Por isso todos os homens são o
mesmo como só um homem, ou como uma árvore da humanidade. Disso decorre o mais
natural mandamento baseado na unidade de nossa natureza: "Amarás o
Senhor teu Deus (Teu protótipo, Teu Pai) de todo coração, e de toda a
tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu
próximo (pois quem é mais próximo a mim do que um homem que é como eu e do
mesmo sangue que eu?) como a ti mesmo" (Lc.
10, 27). Há uma necessidade natural de cumprir esse mandamento.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)