CATECISMO ORTODOXO
Parte II
Deus Manifestado no Mundo
4 - Queda do homem no pecado
h - A
misericórdia de Deus para com o homem decaído
Depois da queda do homem no pecado, Deus não
rejeitou o homem pecador. Ele não tomou dele nem a sua imagem, que o distinguia
do reino animal; nem o seu livre-arbítrio; nem a sua
razão pela qual o homem era capaz de entender os princípios espirituais; nem as
suas outra capacidades. Deus agiu para com ele como um médico e educador: Ele
cobriu a sua nudez com roupas, moderou a sua auto-estima e orgulho, os seus
desejos carnais e as suas paixões, por meio de medidas curativas - trabalhos e doenças - dando a isso um significado
educacional. Nós mesmos podemos ver o efeito educacional no trabalho, e o
efeito de limpeza da doença na alma. Deus sujeitou o homem à morte física não
para conduzi-lo para a morte espiritual final mas para que o princípio
pecaminoso nele não se desenvolve-se ao extremo, para que ele não pudesse
tornar-se como Satanás.
No entanto, esse freio natural de sofrimento e morte não elimina a verdadeira fonte do mal. Ele só restringe o desenvolvimento do mal. Quase deveria ser necessário para a humanidade ter um poder e auxílio sobrenaturais que conseguiriam desenvolver uma reversão interna no homem e dar a ele a possibilidade de mudar de uma gradual diminuição da vitória sob o pecado para uma gradual ascensão para Deus. A Providência de Deus previu a futura queda da vontade livre do homem que não tinha se tornado forte. Prevendo a queda, Ele preparou um levantar. A queda de Adão no pecado não foi uma perdição absoluta para a humanidade. O poder que daria o renascimento, de acordo com a determinação pré-eterna de Deus, seria a descida à terra do Filho de Deus.
Por pecado original, entenda-se o pecado de Adão,
que foi transmitido para seus descendentes e pesa sobre eles. A doutrina do
pecado original tem grande significado na visão do mundo Cristão, porque sobre
ele repousa uma série de outros dogmas.
A Palavra de Deus ensina-nos que por Adão
"todos pecaram": "...por um homem entrou o pecado no mundo, e
pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que
todos pecaram" (Rom. 5, 12). "Quem
do imundo tirará o puro? Ninguém, se ele tiver vivido ainda que um só dia na
terra" (Job 14, 4-5 - septuaginta). "Eis que em iniquidade fui
formado, e em pecado me concebeu a minha mãe" (Sal. 51, 6); "a
semente da corrupção está em mim" (Orações Vespertinas).
A fé comum da antiga Igreja Cristã na existência do
pecado original pode ser vista no antigo costume de baptizar as crianças. O
Concílio Local de Cartago, em 252, composto de 66 Bispos sob a presidência de São
Cipriano, decretou o seguinte contra os heréticos: "não proibir (o Baptismo)
de uma criança, ainda que recém-nascida, pois ela não pecou em nada à parte
dela proceder da carne de Adão. Ela recebeu o contágio da antiga morte pelo seu
nascimento, e ela é então mais fácil de receber a remissão dos pecados porque
não são os seus, mas os pecados de outros que são remidos" (a mesma coisa
é estabelecida no Cánon 110 do "Código
Africano", aprovado por 217 Bispos em Cartago, em 419 e ratificado pelo
Concílio de Trullo em 692 e pelo Sétimo Concílio
(787). O Cánon 110 termina: "por conta dessa
regra de fé mesmo crianças, que não tenham cometido pecados por elas próprias,
são baptizadas pela remissão dos pecados, de maneira que o que há nelas pelo
resultado de geração seja limpo através da regeneração", «The Seven Ecumenical Councils», Eerdmans, p. 497).
Este é o modo pelo qual a "Encíclica dos
Patriarcas Orientais" define o resultado da queda no pecado: "caído
pela transgressão, o homem tornou-se como as criaturas irracionais. Isso é,
ele tornou-se escurecido e foi privado de perfeição e de paixão. Mas ele não
foi privado da natureza e do poder que ele recebeu do boníssimo Deus. Pois se
ele fosse privado assim, ele teria se tornado irracional, e não mais um homem.
Mas ele preservou aquela natureza, de modo a, de acordo com a natureza, poder
escolher e fazer o bem e fugir e afastar-se do mal" (Encíclica dos Patriarcas
Orientais, parágrafo 14).
Na história da antiga Igreja Cristã, Pelágio e os seus seguidores negaram a herança do pecado (a
heresia do Pelagianismo). Pelágio
afirmava que todo homem só repete o pecado de Adão, executando de novo a sua
própria queda pessoal. No pecado, e seguindo o exemplo de Adão por causa de sua
própria fraca vontade. No entanto, na sua natureza permanece a mesma de quando
foi criado, inocente e pura, a mesma do primeiro-criado
Adão. Além disso, doença e morte são características de sua natureza desde sua
criação, e não são as consequências do pecado original.
O abençoado Santo
Agostinho colocou-se contra Pelágio com grande
poder de prova. Ele citou:
(a) testemunhos da Divina Revelação a respeito do
pecado original,
(b) o ensinamento dos antigos pastores da Igreja,
(c) o antigo costume de baptizar crianças,
(d) os sofrimentos e infortúnios dos homens,
inclusive crianças, que são as consequências da universal e herdada
pecaminosidade do homem.
No entanto, Santo Agostinho, não escapou do extremo
oposto, lançando a ideia de que no homem decaído qualquer liberdade
independente para fazer o bem tinha sido completamente aniquilada, a menos que
a graça viesse em seu auxilio.
Dessa disputa no ocidente foram formadas
subsequentemente duas tendências, uma das quais foi seguida pelo Catolicismo
Romano, e a outra pelo Protestantismo. Teólogos católicos-romanos consideram
que a consequência da queda foi a remoção dos homens de um dom sobrenatural da
graça de Deus, após o que o homem ficou em condição "natural", a sua
natureza não foi prejudicada mas só levada para a desordem porque a carne, o
lado corporal, veio a dominar o lado espiritual. O pecado original, sob esse
ponto de vista, consiste no facto que a culpa de Adão e Eva perante a Deus
passou para todos os homens.
A outra tendência no ocidente vê no pecado original
a completa perversão da natureza humana e a sua corrupção a um nível muito
profundo, até as suas próprias bases (a visão aceite por Martinho Lutero e João
Calvino). Mas as novas “seitas” do Protestantismo, reagindo por sua vez contra
os extremos de Martinho Lutero, foram tão longe que chegaram à completa negação
do herdado pecado original.
Entre os pastores da Igreja Oriental não há dúvida
sobre o ensinamento seja do pecado ancestral herdado em geral, ou sobre as
consequências desse pecado para a natureza humana em particular.
A teologia Ortodoxa não aceita os pontos extremos de
ensinamento de Santo Agostinho; mas igualmente não aceita o ponto de vista Católico-Romano (posterior) que tem um carácter muito
legalista e formal. A base do ensinamento católico-romano
está em:
a - um entendimento do pecado
de Adão como uma ofensa infinitamente grande contra Deus;
b - depois dessa ofensa
seguiu-se a ira de Deus;
c - a ira de Deus
manifestou-se pela remoção dos dons sobrenaturais da graça de Deus;
d - a remoção da graça trouxe
após si a submissão do princípio espiritual ao princípio carnal, e uma queda
mais profunda no pecado e na morte.
Disso vem a visão particular da redenção executada
pelo Filho de Deus; para restaurar a ordem que havia sido violada, seria
necessário antes de tudo dar satisfação da ofensa feita a Deus, e com isso
remover a culpa da humanidade e a punição que pesava sobre ela.
As consequências do pecado ancestral são aceites
pela Teologia Ortodoxa diferentemente.
Após a sua primeira queda, o próprio homem
afastou-se em alma de Deus e tornou-se menos receptivo à graça de Deus que
estava aberta para ele. Ele cessou de prestar atenção à voz divina a ele
endereçada, e isso conduziu-o ao posterior aprofundamento do pecado.
No entanto, Deus nunca privou a humanidade da sua
misericórdia, auxílio, graça, especialmente o seu povo escolhido; e desse povo
vieram grandes homens justos como Moisés,
Elias, Eliseu, e os profetas posteriores. O Apóstolo
Paulo, na Epístola aos Hebreus, lista uma ampla lista dos justos do Velho
Testamento, dizendo que eles são: "dos quais o mundo não era
digno" (Heb. 11, 38). Todos eles eram
aperfeiçoados não sem um dom do alto, não sem a graça de Deus. O Livro dos
Actos cita as palavras do primeiro mártir, Estêvão,
onde ele diz a respeito de David que ele "achou graça diante de Deus, e
pediu que pudesse achar tabernáculo para Deus de Jacob" (Act. 7, 6); isto é, para construir um Templo para ele. O
maior dos profetas, São João, o Precursor, esteve "cheio do Espírito
Santo, já desde o ventre de sua mãe" (Lc. 1,
15). Mais os justos do Velho Testamento não poderiam escapar do grupo geral dos
homens caídos após a morte, permanecendo nas trevas do inferno, até a fundação
da Igreja Celeste; isto é, até a Ressurreição e Ascensão
de Cristo. O Senhor Jesus Cristo destruiu os portões do inferno e abriu o
caminho para o Reino do Céu.
Não se deve ver a essência do pecado - incluindo o pecado original - só na dominância da carne
sobre o espírito como a teologia católica-romana
ensina. Muitas inclinações pecaminosas, algumas muito sérias, têm a ver com
qualidades de ordem espiritual, tais como orgulho, que, de acordo com as
palavras do Apóstolo, é a fonte, junto com a concupiscência do estado geral do
pecado do mundo (1 Jo. 2, 15-16). O pecado está
também presente em espíritos malignos que não têm nenhuma carne. Na Sagrada
Escritura a palavra "carne" significa uma condição de não ter
renascido, uma condição oposta a ser renascido em Cristo "O que é
nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito" (Jo. 3, 6). É claro, que isso não é para negar uma série
completa de paixões e inclinações pecaminosas originadas na natureza corpórea,
que a Sagrada Escritura também mostra (Rom. 7).
Assim, o pecado original é compreendido pela
teologia ortodoxa como uma inclinação pecaminosa que entrou na humanidade e
tornou-se uma doença espiritual.
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Nota: Talvez nenhuma doutrina da
Igreja Ortodoxa tenha causado discussões e desentendimento tão acalorados em
nossos dias como a doutrina do pecado original ou ancestral. Os
desenvolvimentos usualmente ocorrem ou pelo desejo de definir a doutrina muito
precisamente, ou pela reacção exagerada a essa excessiva precisão. As
expressões dos primeiros padres em geral (exceptuando Santo Agostinho no
ocidente) não entram no "como" dessa matéria mais simplesmente
colocada: "Quando Adão transgrediu, seu pecado atingiu todos os
homens" (Santo
Atanásio, o Grande, «Four Discourses
Against thr Arians», 1 51, Eerdmans tradução
inglesa, p. 336).
Alguns Cristãos
Ortodoxos erradamente defenderam a noção Agostiniana da "culpa
original" - isto é, que todos os homens herdaram
a culpa do pecado de Adão - e outros, indo para o extremo oposto, negaram
completamente a herança do estado pecaminoso de Adão. O Padre Michael correctamente aponta em sua equilibrada
apresentação de que, de Adão nós herdamos de facto a nossa tendência ao pecado,
junto com a morte e corrupção que são agora parte da nossa natureza, mas nós
não herdamos a culpa do pecado pessoal de Adão.
O
termo "pecado original" vem do tratado de Santo Agostinho «De Peccato Originale», e algumas pessoas imaginam que
meramente usar esse termo implica na aceitação dos exageros agostinianos nessa
doutrina. Isso, lógico, não é um caso obrigatório.
Em grego (e russo) existem dois termos usados para
expressar esse conceito, usualmente traduzidos por "pecado original"
e "pecado ancestral". Um professor Ortodoxo da Igreja
Grega Velho Calendarista descreve os termos assim:
"Existem dois termos usados em grego para
"pecado original". O primeiro, «progoniki amartia» é usado frequentemente pelos pPadres
(São Simão o Novo Teólogo, São Máximo o
Confessor). Sempre vi esse termo traduzido por "pecado original",
apesar dos teólogos gregos serem cautelosos quando usam o termo para
distingui-lo do termo que é usado para traduzir Santo Agostinho. A segunda
expressão que se vê é «to propatorikon amartima», que é literalmente "pecado ancestral".
John Karmiria, o Teólogo
grego sugere em seus volumes dogmáticos que o último termo, usado nas últimas
confissões, não sugere algo tão forte quanto o "pecado original"
agostiniano, mas certamente sugere que "todo mundo é concebido no
pecado".
Existem algumas reacções extremas contra e a favor
do pecado original. Como teólogos gregos recentes têm apontado, o pecado
original na Ortodoxia é tão ligado à noção de divinização «theosis»
e à parte não maculada do homem (e assim à Cristologia)
que a colocação agostiniana exagerada (da natureza decaída do homem) causa
algum desconforto. Na expressão "pecado original" o ocidente
frequentemente inclui culpa original, que assim obscurece o potencial divino no
homem e torna o termo incomodo, Não há por certo,
nenhuma noção de culpa original na
Ortodoxia. A noção ocidental compromete o objectivo espiritual do homem, a sua
«theosis» e fala dele, homem, de uma maneira muito
baixa. No entanto, rejeitar o conceito por conta desse desentendimento, pode
tender a elevar demasiadamente o homem - coisa
perigosa em tempos tão arrogantes quantos os nossos. A visão Ortodoxa
equilibrada é que o homem recebeu a morte e a corrupção através de Adão (pecado
original); apesar de não participar da culpa de Adão. Muitos Ortodoxos, no
entanto, aceitaram uma tradução impossível de Romanos 5, 12 que não diz que
todos nós pecamos em Adão mas que, como Adão, todos pecamos e encontramos a
morte" (Arquimandrita Crisóstomos, Mosteiro São
Gregório Palamas, Hayesville,
Ohio)
A versão do King James
traduz correctamente Rom. 5, 12 como: "assim
passou a morte a todos os homens, por isso que todos pecaram". A tradução
latina do último trecho, "em quem todos pecaram" exagera a doutrina e
implica em dizer que todos os homens são culpados do pecado de Adão.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)