CATECISMO ORTODOXO
Parte II
Deus Manifestado no Mundo
1 - Deus e a Criação
p - A
imortalidade da alma
A fé na imortalidade da alma é inseparável da
religião em geral, e ainda mais, compreende um dos
objectos fundamentais da Fé Cristã.
Essa ideia também não é estranha ao Velho Testamento. Ela é expressa nas palavras do Livro do Eclesiastes: "E o pó volte à terra, como era e o espírito volte a Deus, que O deu" (Ecles. 12, 7). O relato completo nos segundos e terceiros capítulos do Génesis - das palavras de alerta de Deus: "Mas da árvore da ciência do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás" (Gén. 2, 17) - e a resposta para a questão da aparência de morte no mundo, e assim mesmo é em si uma expressão da ideia de imortalidade. A ideia de que o homem foi pré-ordenado à imortalidade, que imortalidade é possível, é contida nas palavras de Eva: "Do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais" (Gén. 3, 3). O mesmo pensamento é expresso pelo Salmista nas Palavras do Senhor: "Eu disse: Vós sois deuses, e vós outros sois todos filhos do Altíssimo. Todavia, como homens morrereis e caireis como qualquer dos príncipes" (Sal. 81, 67).
Deve-se enfatizar o facto de que a ideia de
imortalidade está presente sem nenhuma dúvida no Velho Testamento, porque
existe uma opinião de que os Judeus não tinham fé na imortalidade da alma! Nos
relatos de Moisés
existem indicações de Fé na imortalidade da alma. A respeito de Enoch, Moisés remarca que "não se viu mais;
porquanto Deus para si o tomou" - isto é, ele
foi para Deus sem passar pela morte (Gén 5, 24). Das
expressões bíblicas referentes às mortes de Abraão (Gén.
25, 8), Aarão e Moisés (Dt. 32, 50), "e se
recolheu a seus povos", não é lógico entender-se que isso significa
que eles foram postos no mesmo túmulo ou lugar, ou ainda na mesma terra onde
estava seu povo, porque cada um desses justos do Velho Testamento morreu não na
terra dos seus ancestrais mas em novos territórios de seus reassentamentos
(Abraão) ou de suas viagens (Aarão e Moisés). O Patriarca Jacob, tendo recebido
notícias que o seu filho tinha sido feito em pedaços por bestas feras, diz: "...
Com choro hei de descer ao meu filho até a sepultura..." (Gén. 37, 35 - septuaginta). "Sepultura" significa
aqui claramente não o túmulo mas o lugar onde as almas moram. Essa condição da
alma após a morte foi expressa no Velho Testamento como uma descida ao mundo
inferior; isto é, uma condição triste onde até a oração do Senhor não é ouvida.
Isso é expresso em numerosas passagens no livro de Job e nos Salmos.
Mas já no Velho Testamento, especialmente quando a chegada
do Salvador se aproxima, e ouvindo a esperança de que as almas dos homens
justos venham a escapar dessa condição triste. Por exemplo, na Sabedoria de
Salomão nós encontramos: "As almas dos justos estão na mão de Deus, e
nenhum tormento neles tocará... Os justos vivem para sempre, e sua recompensa é
com o Senhor" (3, 2; 5, 15). A esperança da futura libertação do Hades, das almas dos justos é expressa nas palavras do
Salmista: "... a minha carne repousará segura.
Pois não deixarás minha alma no inferno, nem permitirás que Teu santo veja
corrupção" (Sal. 16, 9-10; Sal. 49, 15).
O Senhor Jesus Cristo com frequência aponta para a
imortalidade da alma como a base de uma vida piedosa, e ele acusa os Saduceus,
que negavam a imortalidade. Em sua conversa de despedida com os seus discípulos
o Senhor conta a eles que ele estava indo preparar um local para eles para que
eles pudessem estar onde ele próprio estaria (Jo. 14,
2-3). E para o bom ladrão lhe disse: "Em verdade te digo que hoje
estarás comigo no Paraíso" (Lc. 23, 43).
No Novo Testamento, falando-se genericamente, a
verdade da imortalidade da alma é o objecto de uma completa revelação,
constituindo-se numa das partes fundamentais da Fé Cristã. Essa verdade inspira
um Cristão, enchendo sua alma com a jubilosa esperança de vida eterna no Reino
do Filho de Deus. São Paulo
escreve: "...para mim o morrer é ganho... tendo o desejo de partir, e
estar com Cristo..." (Filip. 1, 21.23). “Porque
sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de
Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. E por isso
também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu”
(2 Cor. 5, 1-2).
Nem é necessário dizer que os Santos
Padres e professores da Igreja pregaram unânimes a imortalidade da alma
somente com a seguinte distinção: alguns reconheciam ser a alma imortal por
natureza, enquanto outros - a maioria - diziam ser a
alma imortal por graça de Deus. "Deus quer que a alma viva" (São Justino,
o Mártir); "a alma é imortal pela graça de Deus que a fez imortal" (São
Cirilo de Jerusalém e outros). Os Santos Padres enfatizam assim a diferença
entre a imortalidade do homem e a imortalidade de Deus, que é imortal pela
Essência de sua natureza sendo por isso "Aquele que tem Ele só a
imortalidade" de acordo com as Sagradas Escrituras (1 Tim.
6, 16).
A observação mostra que a fé na imortalidade da alma
sempre foi intrinsecamente ligada na fé em Deus, em tal extensão que o grau da
primeira é determinado pelo grau da última. Mais viva, a fé em Deus, mais firme
e sem dúvidas é a fé na imortalidade da alma. E, ao contrário mais fraca e sem
em vida a fé em Deus, maiores são as ondas de dúvidas que se levantam contra a
verdade da imortalidade da alma. Alguém que perdeu ou abafou completamente a fé
em Deus usualmente cessa de acreditar na imortalidade da alma ou na vida
futura. Isso é facilmente compreendido. Um homem recebe o poder da fé da
própria fonte de vida, e se ele conta sua ligação com essa fonte, ele perde
esse fluxo de poder vivo, Ai nenhuma prova racional ou persuasão será capaz de
enfiar o poder da fé nele.
Pode-se também concluir o oposto. Nas confissões e
visões do mundo - ainda que sejam Cristãs - onde o poder
da fé na existência activa da alma além do túmulo ficou ofuscada, onde não há
orações em lembrança dos mortos, a própria fé Cristã está em condição de
declínio. Alguém que acredita em Deus e reconhece o amor de Deus não pode
permitir-se o pensamento que o seu Pai celestial queria cortar completamente
sua vida e privá-lo da ligação com ele, como uma criança que ama a sua mãe e é
amada por ela, por sua vez, não acredita que a mãe não queira que ela, a
criança, tenha vida.
Pode-se certamente dizer que na Igreja Ortodoxa a
aceitação da imortalidade da alma ocupa um lugar central no sistema de
ensinamento e na vida da Igreja. O espírito do «Typicon»
da Igreja, o livro que contem os Ofícios Divinos e as orações separadas suporta
inteiramente e anima nos fiéis essa consciência, essa crença na vida
além-túmulo para as almas de nossos próximos que morreram, assim como na nossa
imortalidade pessoal. Essa crença espalha um raio de luz no trabalho na vida
inteira de um Cristão Ortodoxo.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)