CATECISMO ORTODOXO
2. O dogma da Santíssima Trindade
i - A Unicidade da
Essência; a Igualdade da Divindade; e a Igualdade de Honra de Deus, o Filho,
com Deus o Pai
Nos primeiros tempos Cristãos, até que a fé da Igreja na Unicidade da Essência e na Igualdade das Pessoas da Santíssima Trindade tivesse sido precisamente formulada em terminologia estritamente definida, aconteceu que mesmo aqueles escritores da Igreja que eram cuidados em estar de acordo com a consciência universal da Igreja, e que não tinham nenhuma intenção de violá-la com nenhuma visão pessoal, ás vezes, junto com pensamentos claramente Ortodoxos, usaram expressões relativas à Divindade das Pessoas da Santíssima Trindade que não foram inteiramente precisas e que não afirmaram claramente a igualdade das Pessoas.
Isso pode ser explicado, na sua maior parte, pelo
facto que para o mesmo termo alguns pastores da Igreja colocavam um significado
e outros, outro significado. O conceito "essência" foi expresso na
língua grega pela palavra ousia, e essa palavra foi em geral entendida
por todo mundo da mesma forma. No entanto, uma falta de clareza foi introduzida
pelo uso de uma terceira palavra, "hipóstase". Alguns entenderam por
esse termo as "Pessoas" da Santíssima Trindade, e outros a
"Essência". Essa circunstância impediu mútuo entendimento.
Finalmente, seguindo o exemplo autorizador de São
Basílio, o Grande, tornou-se aceite entender-se pela palavra Hipóstase os
atributos Pessoais na Divindade Triúnica.
No entanto, além desses casos, existiram heréticos
no período Cristão antigo que conscientemente negaram ou diminuíram a Divindade
do Filho de Deus. Heresias nesse tipo foram numerosas e de tempos em tempos
causaram fortes perturbações na Igreja. Eis alguns exemplos desses heréticos:
1 - Na Época Apostólica -
os Ebionistas (do nome do herético Ebion). Os Santos
Padres testemunham que o Santo Evangelista João, o Teólogo escreveu o seu
Evangelho contra eles.
2 - No terceiro século, Paulo de Samosata foi acusado
por dois Concílios de Antioquia no mesmo século.
3 - O mais perigoso de todos os heréticos foi Ario,
o Presbítero de Alexandria, no quarto século. Ario ensinou que o Verbo, ou o
Filho de Deus, recebeu o começo de sua existência no tempo, apesar de ter sido
antes de qualquer outra coisa; que Ele foi criado por Deus, apesar de
subsequentemente Deus ter criado tudo através Dele; que Ele é chamado de Filho
de Deus só porque Ele é o mais perfeito de todos os espíritos criados, e tem
uma natureza que, sendo diferente da do Pai, não é divina.
Este ensinamento herético de Ario perturbou o mundo
Cristão todo, porque ele puxou atrás de si muita gente. Em 325 o Primeiro Concílio
Ecuménico foi chamado contra esse ensinamento, e nesse Concílio 318 dos
Hierarcas Chefes da Igreja unanimemente expressaram o antigo ensinamento da
Ortodoxia e condenaram o falso ensinamento de Ario. O Concílio triunfante
pronunciou um Anátema contra aquele que afirmam que o Filho de Deus existiu num
tempo em que o Filho de Deus não existiu, contra aqueles que afirmaram que Ele
foi criado, ou que Ele era de diferente essência que a de Deus Pai. O Concílio
compôs um Símbolo da Fé, que foi confirmado e completado mais tarde no Segundo
Concilio Ecuménico. A unidade e igualdade de honra do Filho de Deus com o Deus
Pai foi expressa por esse Concílio no Símbolo da Fé com as palavras: "de
Uma Essência com o Pai".
Depois do Concílio, a heresia ariana dividiu-se em
três ramos e continuou a existir por algumas décadas. Ela foi sujeita a outras
refutações em seus detalhes em vários concílios locais e nas obras dos grandes
Padres da Igreja do século IV e parte do século V (Atanásio,
o Grande; Basílio, o Grande; Gregório, o Teólogo; João
Crisóstomo, Gregório
de Nissa; Epifânio; Ambrósio
de Milão; Cirilo
de Alexandria; e outros). No entanto, o espírito nessa heresia mesmo mais
tarde encontrou lugar para si em vários ensinamentos falsos tanto na idade
média quanto nos tempos modernos.
Ao responder às opiniões dos heréticos Arianos, os
Padres da Igreja não encontraram uma só passagem na Sagrada
Escritura que tivesse sido citada pelos heréticos em justificativa de sua ideia
de desigualdade do Filho com o Pai. A respeito de expressões na Sagrada
Escritura que parecem falar da desigualdade do Filho com o Pai, deve-se ter em
mente o seguinte:
a - que o Senhor Jesus Cristo não é só Deus, mas que
também se tornou homem, e tais expressões podem referir-se à sua humanidade;
b - que em adição, ele, como nosso Redentor, durante
os dias de Sua vida terrena estava em voluntária diminuição "...humilhou-se
a si mesmo, sendo obediente até na morte" (Filip. 2, 7-8).
Mantendo essas palavras do Apóstolo, os Padres da
Igreja expressam essa condição pelas palavras «ekkenosis», «kenosis» que
significam esvaziamento, diminuição, rebaixamento "antevendo teu divino
auto-esvaziamento na cruz, Hababuque clamou maravilhando-se" (Cánon das
Matinas do Grande Sábado). Mesmo quando o Senhor fala da sua própria Divindade,
ele, tendo sido enviado pelo Pai e tendo vindo para preencher na terra a
vontade do Pai, colocando-se em obediência ao pai, sendo Um em Essência e igual
em honra com Ele como Filho, nos dá um exemplo de obediência.
Esse é o significado preciso, por exemplo, das
palavras do Salvador no Evangelho de João: "Porque o Pai é maior que
eu" (Jo. 14, 28). Deve notar-se que essas palavras são ditas aos seus
discípulos na sua conversa de despedida depois das palavras que expressam a
complexidade da sua divindade e a Unidade do Filho com o Pai: "Se
alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para Ele,
e faremos nele morada" (Jo. 14, 23). Nestas palavras o salvador junta
o Pai e Ele próprio na única palavra "nós", e para igualmente em nome
de seu Pai e em Seu próprio nome; mas, como ele foi mandado pelo Pai para o
mundo (Jo. 14, 24), ele coloca-se numa relação de submissão ao Pai (Jo. 14,
28).
Um exame detalhado de passagens similares na Sagrada
Escritura (por exemplo, Marcos 13, 32; Mat. 26, 39; Mat. 27, 43; João 20, 17) é
encontrado
No entanto, se existem tais expressões pouco claras
na Sagrada Escritura sobre Jesus Cristo, existem muitas, pode-se até dizer
inumeráveis passagens que testemunham a Divindade do Senhor Jesus Cristo.
Primeiro, o Evangelho como um todo o testifica. Quanto às passagens separadas,
indicaremos só algumas das mais importantes. Algumas dessas passagens dizem que
o Filho de Deus é Deus verdadeiro; outras afirmam que Ele é igual ao Pai;
outras ainda dizem que ele é Um em Essência com o Pai.
É essencial ter em mente que chamar o Senhor Jesus
Cristo de Deus – «theos» - é em si falar da plenitude
da Divindade nele. Falando do Filho, o Apóstolo
Paulo diz que: "Nele habita corporalmente toda a plenitude da
divindade" (Col. 2, 9).
As passagens seguintes mostram que o Filho de Deus é
Deus verdadeiro:
a - Ele é directamente chamado de Deus na Sagrada
Escritura:
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com
Deus, e o verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas
foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez" (Jo. 1, 13).
"Grande é o mistério da piedade; Deus
manifestou-se em carne" (Tim. 3, 16).
"E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e
deu-nos entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro
estamos, isto é
"...e dos quais é Cristo segundo a carne, o
qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amén" (Rom. 9, 5).
"Meu Senhor e meu Deus" -
a exclamação do Apóstolo Tomé (Jo. 20, 28).
"Olhai pois por vós, e por todo o rebanho sobre
que o Espírito Santo vos constitui Bispos,
para apascentar a Igreja de Deus, que ele resgatou com o seu próprio
sangue"
(Act. 20, 28).
"vivamos... sóbria, e justa, e piamente.
Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus
e Nosso Senhor Jesus Cristo" (Tit. 2, 12-13) - Que o
título de "grande Deus pertence aqui a Jesus Cristo é tornado claro para
nós pela construção da sentença em grego, um artigo comum para as palavras
"Deus e Senhor". Assim como pelo contexto desse capitulo.
b. Ele é chamado de
"Unigénito":
"E o verbo se fez carne, e habitou entre nós, e
vimos a sua glória, como a glória do Unigénito do Pai" (Jo. 1, 14.18).
"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que
deu o Seu Filho Unigénito, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas
tenha a vida eterna" (Jo. 3, 16).
c. Ele é igual em honra ao
Pai:
"Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho
também"
(Jo. 5, 17).
"Porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz
igualmente" (Jo. 5, 19).
"Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos, e
os vivifica, assim também o Filho ter a vida em Si mesmo" (Jo. 5, 21).
"Para que todos honrem o Filho, como honram o
Pai"
(Jo. 5, 23).
d. Ele é Um em Essência com o
Pai:
"Eu e o pai somos Um" (Jo. 10, 30) - em grego, «em esmen», um em essência.
"Eu estou no Pai, e o Pai em Mim" (Jo. 14, 11; 10, 38).
"E todas as minhas coisas são tuas, e as tuas
coisas são minhas" (Jo. 17, 10).
e. A palavra de Deus da mesma
forma fala da eternidade do Filho de Deus:
"Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim,
diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir" (Apc. 1, 8).
"E agora glorifica-me Tu, ó Pai, junto de Ti
mesmo, com aquela Glória que tinha contigo antes que o mundo existisse" (Jo. 17, 5).
f. Sobre sua Omnipresença:
"Ora ninguém subiu ao céu, senão o que desceu
do céu, o Filho do homem, que está no céu" (Jo. 3, 13).
"Porque onde estiverem dois ou três reunidos em
Meu nome, ai estou Eu no meio deles" (Mt. 18, 20).
g. O Filho de Deus como o
Criador do mundo:
"Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem
Ele nada do que foi feito se fez" (Jo. 1, 3).
"Porque nele foram criadas todas as coisas que
há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis; sejam Tronos; sejam Dominações;
sejam Principados; sejam Potestades; todas as coisas foram criadas por Ele e
para Ele; e Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por
Ele"
(Col. 1, 16-17).
A palavra de Deus fala similarmente dos outros
atributos Divinos do Senhor Jesus Cristo.
Como a Sagrada Tradição, ela contém testemunhos
inteiramente claros da fé universal dos Cristãos dos primeiros séculos da
verdadeira Divindade do Senhor Jesus Cristo. Nós vemos a universalidade dessa
fé:
- Nos Símbolos da Fé que foram usados antes do
Concilio de Nicéia
- Os Símbolos
da Fé que foram compostos em Concílios ou em nome de concílios pelos
Pastores da Igreja antes do século IV.
- Os escritos dos Padres Apostólicos e professores
da Igreja durante os primeiros séculos.
- O testemunho de homens que não pertenciam ao
Cristianismo e relataram que os Cristãos adoravam "Cristo como Deus"
(por exemplo, a carta de Plínio, o Jovem, ao Imperador Trajano; o testemunho do
escritor Celsius, que era um inimigo dos Cristãos; e outros).
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)