CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte II

 

Deus Manifestado no Mundo

 

 

2 - A Providência de Deus

b - A Providência de Deus sobre o homem antes da queda

Tendo sido criado o homem, o Criador não deixou os primeiros criados sem a sua Providência. A graça de Deus habitou constantemente em nossos primeiros ancestrais e, na expressão dos Santos Padres, serviu como uma espécie de roupa para eles. Eles tinham um perfeito sentimento de proximidade de Deus, o próprio Deus era seu primeiro Instrutor e Professor e concedeu-lhes revelações imediatas. Aparecendo para eles, ele conversou com eles e revelou-lhes a sua vontade.

Os capítulos dois e três do Livro do Génesis mostra-nos a vida desse primeiro povo. Deus colocou Adão e Eva no Paraíso, no Jardim do Éden, o "Paraíso de Delícias", onde crescia toda árvore que era agradável à vista e boa para comer, comandando-lhes para que o mantivessem. O Jardim do Éden era um lugar tão esplêndido que as primeiras pessoas devem ter sido involuntariamente elevadas para um sentimento de júbilo e suas mentes dirigidas para o mais perfeito artista do mundo. O próprio trabalho deve ter facilitado o desenvolvimento tanto do poder físico quanto do poder espiritual.

Como o escritor do Génesis informa-nos, Deus trouxe todas as características vivas para o homem para que este lhes desse nome. É claro que de um lado isso deu ao homem a oportunidade de tomar conhecimento da saúde e variedade do reino animal, e do outro lado, facilitar o desenvolvimento das suas capacidades mentais dando-lhe um mais completo conhecimento próprio por comparação com o mundo que pairava diante dos seus olhos, e uma consciência de sua real superioridade sobre toda as outras criaturas da terra.

Compreensivelmente, a condição original das primeiras pessoas era de uma infantilidade e simplicidade espiritual, juntadas à pureza moral. Mas essa condição continha a oportunidade de um desenvolvimento rápido e harmonioso e crescimento de todos os poderes do homem, dirigido para uma semelhança com Deus e a mais íntima união com Ele!

A mente do homem era pura, brilhante e sadia. Mas ao mesmo tempo era uma mente limitada e não testada pela experiência da vida, como foi revelado na hora da queda no pecado. A mente do homem ainda tinha que ser desenvolvida e aperfeiçoada.

Moralmente, o primeiro homem era puro e inocente. As palavras: "E ambos estavam nus, o homem e sua mulher; e não se envergonhavam" (Gen. 2, 25). Interpretadas por São João Damasceno como "o pináculo da despaixão". No entanto, pode compreender-se essa pureza nas primeiras pessoas como que, desde o inicio elas já possuíssem todas as virtudes e não estando necessitadas de aperfeiçoamento. Não, Adão e Eva, apesar de terem vindo das mãos do Criador puros e inocentes, ainda tinham que ser confirmados no bem, como expressa Santo Irineu, "tendo recebido a existência, tinha que crescer e amadurecer tornando-se então forte, e, atingindo a maturidade plena seria glorificado e, sendo glorificado, ser-lhe-ia concedido ver Deus".

O homem veio das mãos do Criador sem faltas também no corpo. Seu corpo, tão notável em sua organização, sem duvida não recebeu nenhum erro ou defeito interno ou externo do Criador. Ele possuía faculdades que elas eram frescas e não corrompidas. Ele não tinha em si a menor desordem e estava apto a estar livre de doenças e sofrimentos. Na verdade, as doenças e sofrimentos são apresentados no Livro do Génesis como consequências da queda de nossos primeiros ancestrais e como castigo para o pecado. Adicionalmente, o Livro do Génesis dá uma indicação mística da Árvore da Vida cujo fruto estava acessível aos primeiros ancestrais antes da queda no pecado, fruto esse que os preservaria na morte física. A morte não era uma necessidade para o homem: "Deus criou o homem nem completamente mortal nem completamente imortal, mas capaz de ser ou um ou outro" (Teófilo de Antioquia; ver em Bispo Sylvester, «Essay in Orthodox Dogmatic Tehology», vol. 3, p. 379).

Mas não importa quão perfeito eram os poderes do homem, pois sendo uma criatura limitada ele requeria mesmo assim um constante reforço na fonte de toda vida, de Deus, assim como fazem todos os seres criados. Meios apropriados para o reforço do homem no caminho do bem eram necessários. Assim um meio elementar foi o comando para não comer do fruto da arvore do conhecimento do bem e do mal. Esse foi um comando de obediência. Obediência livre é o caminho para o avanço moral. Onde existe obediência voluntária existe (a) o corte do caminho para a auto-estima, (b) respeito e confiança para aqueles que estão acima de nós, e (c) continência. A obediência age beneficamente sobre a mente, humilhando o orgulho; sobre os sentimentos limitando o amor-próprio; e sobre a vontade, dirigindo a liberdade do homem para o bem. A graça de Deus coopera e reforça alguém nesse caminho. Esse era o caminho que estava diante das primeiras pessoas, nossos primeiros ancestrais.

"Deus fez o homem sem pecado e dotou-o de livre arbítrio. Por ser sem pecado eu não quero dizer incapaz de pecar, pois só a divindade é incapaz de pecar, mas tendo a tendência e tendo o poder de perseverar e progredir no bem com ajuda da graça divina, assim como tendo o poder de afastar-se na virtude e cair no vício" (São João Damasceno, «Exact Exposition», II, 12, tradução inglesa, p. 235).

Em geral, é difícil, se não impossível para o homem contemporâneo imaginar a verdadeira condição do homem no Paraíso, uma condição que punha junto pureza moral, claridade da mente, a perfeição da primeira natureza criada, proximidade de Deus, com uma infantilidade espiritual geral. Mas de qualquer maneira deve ser notado que as tradições de todos os povos falam precisamente de tal condição, que os poetas chamam de "idade de ouro" da humanidade (a tradição dos chineses, índios, persas, gregos e outros). As grandes mentes da antiguidade pagã expressaram a certeza que os antigos eram mais puros que os homens que vieram depois (Sócrates); que as mais antigas tradições religiosas e suas concepções eram mais perfeitas que as concepções posteriores, porque os primeiros homens estavam mais perto de Deus e o conheciam como seu Criador e Pai (Platão e Cícero).

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

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Última actualização deste Link em 03 de Abril de 2009

 

 

 

 

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