SOBRE A VIDA DE MOISÉS

(aprox. 330 - 395)
Primeira
Parte:
HISTÓRIA DE MOISÉS:
PREFÁCIO
Os aficionados pelas corridas de cavalos, embora
aqueles a quem apoiam nos esforços das corridas não se descuidem um instante em
suas tentativas de ser velozes, nas arquibancadas e envolvendo com os olhos
todo o certame, gritam no desejo de os ver triunfar, e com os gritos incitam ao
cocheiro e aos cavalos – ao menos assim o crêem - a um
impulso mais forte; dobram os joelhos ao mesmo tempo que os cavalos e estendem
as mãos para a frente, agitando-as como um chicote. Não actuam assim porque
estas coisas causem a vitória, mas pelo interesse que sentem pelos
participantes, que os leva a mostrar sua preferência com a palavra e com o gesto.
Algo semelhante me parece acontecer contigo, o mais estimado dos amigos e
irmãos: enquanto no estádio das virtudes empenhas-te valentemente na competição
divina e avanças com passos ágeis e rápidos para a recompensa do chamado que
vem de cima, te animo com minhas palavras, e apresso-te, e exorto-te a aumentar
o esforço para ser mais veloz. Actuo assim não como quem se deixa levar por um
impulso irreflectido, mas como quem proporciona a um filho querido tudo o que
lhe é grato. Como na carta que me enviaste recentemente me pedes um conselho
para a vida perfeita, pareceu-me conveniente propor-te com as minhas palavras
algo que talvez só te será útil se se converter para
ti num exemplo eficaz de obediência. Com efeito, se eu, que estou colocado no
lugar de pai para tantas almas, considero conveniente a meus cabelos brancos
aceder ao pedido de tua juventude virtuosa, tanto mais conveniente será que se
reforce em ti a disposição à docilidade, agora que a tua juventude tem sido
instruída por mim a uma obediência voluntária. E já basta deste tema. Iniciemos
já o assunto proposto, tomando a Deus como guia de nosso discurso. Pediste-me,
meu querido, que te trace um esboço de qual é a vida perfeita, com a intenção
evidente de aplicar a tua própria vida – se o que procuras se encontra em minha
resposta – a graça indicada por minhas palavras. Sinto-me igualmente incapaz
destas coisas: confesso que se encontra acima de minhas forças tanto o definir
com palavras em que consiste a perfeição, como o mostrar em minha vida o que o
espírito entende dela. Talvez não só eu, mas também muitos dos grandes e
avançados na virtude confessarão que uma coisa assim também não é alcançável
para eles. Explicarei com a maior clareza o que estou tentando dizer, para não
parecer, dizendo-o com as palavras do Salmo, que tenho temor onde não deve
haver temor (Sal. 13, 5). Em todas as coisas pertencentes à ordem sensível, a
perfeição está circunscrita por alguns limites, como sucede com a quantidade
contínua ou descontínua. Com efeito, tudo aquilo que se pode medir
quantitativamente se encontra em limites bem definidos, e alguém que considere
um pedaço ou o número dez sabe bem que, para essas coisas, a perfeição consiste
em ter um começo e um fim. Por outro lado, com relação à virtude, aprendemos com
o Apóstolo que o único limite de perfeição consiste em não ter limite. Aquele
divino Apóstolo, grande e elevado de pensamento, correndo sempre pelo caminho
da virtude, jamais cessou de se lançar para a frente, pois lhe parecia perigoso
deter-se na corrida. Porquê? Porque todo o bem, pela própria natureza, carece
de limites, e só é limitado pela presença de seu contrário, como a vida é
limitada pela morte e a luz pelas trevas; em geral, tudo aquilo que é bem tem
seu fim naquilo que é considerado o oposto do bem. Assim como o fim da vida é o
começo da morte, assim também o deter-se na corrida pela virtude é o princípio
da corrida ao vício.
Por este motivo, não nos enganava o nosso raciocínio
ao dizer que, no que diz respeito à virtude, é impossível uma definição da
perfeição, já que demonstramos que tudo que se encontra demarcado por alguns
limites não é virtude. E como eu disse que para aqueles que vão atrás da
virtude é impossível alcançar a perfeição, esclarecerei meu pensamento com
relação a esta questão. O Bem em sentido primeiro e próprio, aquele cuja
essência é a Bondade, esse mesmo é a Divindade. Esta é chamada com propriedade
– e é realmente – tudo aquilo que implica sua essência. Como já foi demonstrado
que a virtude não tem mais limite alem do vício, e foi demonstrado também que
na Divindade não cabe o que é contrário, conclui-se consequentemente que a
natureza divina é infinita e ilimitada. Portanto, quem busca a verdadeira
virtude não busca outra coisa senão Deus, já que Ele é a virtude perfeita. Com
efeito, a participação do Bem por natureza é completamente desejável para quem
o conhece, e, alem disso, o Bem é ilimitado; segue-se, pois, necessariamente
que o desejo de quem busca participar dele é co-extensivo com aquilo que é
ilimitado, e não se detém jamais. Portanto, é impossível alcançar a perfeição,
pois, como já dissemos, a perfeição não está circunscrita por nenhum limite; o
único limite da virtude é o ilimitado. E como poderá alguém chegar ao limite
prefixado, se este limite não existe? Porem o fato de havermos demonstrado que
o que buscamos é totalmente inatingível, não justifica que se possa descuidar
do preceito do Senhor, que diz: Sede perfeitos, como é
perfeito vosso Pai celeste. Com efeito, aqueles que têm bom senso julgam grande
ganância não carecer de uma parte dos bens verdadeiros, ainda que seja
impossível alcançá-los de forma completa. Deve-se portanto, por todo ardor em
não estar privado da perfeição possível e, em consequência, em alcançar dela
tanto quanto sejamos capazes de receber em nosso interior. Talvez a perfeição
da natureza humana consista em estar sempre dispostos a conseguir um maior bem.
Parece-me oportuno tomar a Escritura como guia nesta questão. De facto, a voz
de Deus diz por meio da profecia de Isaías: Lançai os olhos para Abraão vosso
pai, e para Sara que vos deu à luz (Is. 51, 2). A
palavra divina faz esta exortação àqueles que erram longe da virtude, para que
assim como os navegantes que se desviaram de sua rota para o porto corrigem-se
de seu erro graças a um sinal que se lhes faz visível – vendo um sinal de fogo
posto no alto ou em cima de um monte – assim também aqueles que erram no mar da
vida levados por uma mente sem timoneiro, se dirijam novamente ao porto da
vontade divina seguindo o exemplo de Abraão e Sara. A natureza humana se divide
em feminino e masculino, e a escolha entre virtude e vicio se apresenta
igualmente ante ambos os sexos. Por esta razão, a palavra divina oferece o
exemplo de virtude correspondente a cada uma das partes, para que, olhando cada
uma para o que lhe é afim – os homens para Abraão e a outra parte para Sara –
as duas se encaminhem para a vida virtuosa com exemplos que lhe sejam próximos.
Também será suficiente para nós a lembrança de um destes personagens ilustres
por sua vida, para fazê-lo desempenhar o papel de guia, e mostrar assim como é
possível que a alma chegue ao porto seguro da virtude, onde já não estará
exposta de nenhuma forma às tempestades da vida, e onde não correrá o risco de
cair no abismo do vicio por causa dos sucessivos embates das ondas das paixões.
Talvez a história destes homens ilustres tenha sido
escrita detalhadamente para isto: para que a vida dos que vêm depois dirija-se
para o bem imitando as coisas que foram feitas precedentemente com rectidão.
Talvez alguém diga: se eu não sou caldeu como sabemos que foi Abraão, nem fui
criado pela filha do Egípcio como conta a história de Moisés, nem tenho nada em
comum na forma de viver com nenhum destes homens de outros tempos, como
conformarei minha vida com a de um deles, se não tenho como imitar a alguém que
me é tão afastado em sua forma de viver? Respondemos que não pensamos que ser
caldeu seja vicio ou virtude, nem que ninguém se
encontre afastado da vida virtuosa por viver no Egipto ou habitar na Babilónia.
Pelo contrário, nem Deus se faz conhecer somente na Judeia daqueles que são
dignos, nem Sião, entendido em sentido literal, é a casa de Deus (Sal. 75,
2-3). Portanto, teremos necessidade de uma interpretação mais subtil e de um
olhar mais agudo para discernir sempre, a partir da história, de que caldeus ou
egípcios havemos de nos distanciar e de que cativeiro da Babilónia devemos
escapar para conseguir a vida bem-aventurada. Daqui para a frente, em nosso
discurso, tomamos Moisés como modelo de vida. Em primeiro lugar, recorreremos
rapidamente sua vida, conforme a conhecemos pela Divina Escritura; depois
buscaremos o significado espiritual correspondente à história, para receber um
ensinamento sobre a virtude. Assim conheceremos em que consiste para os homens
a vida perfeita.
CAPÍTULO
1
Diz-se que Moisés viu a luz quando a lei do tirano
proibia manter vivos os varões que nascessem (Ex. 1, 16) e que com sua graça
pressagiava já toda a graça que com o tempo haveria de reunir. Parecia tão belo
já em fraldas (Ex. 2, 2), que seus pais resistiram a destruí-lo com a morte.
Depois, quando a ameaça do tirano se fez mais forte, não o atiraram sem mais à
corrente do Nilo, mas o colocaram em uma cesta cujas junções haviam sido
calafetadas com breu e piche, e desta forma o entregaram à corrente. Assim o
explicam aqueles que refizeram cuidadosamente a história que a ele se refere.
Guiada por uma força divina, a cesta arribou a uma encosta transversal, levada
a este lugar pelo próprio movimento das águas. A filha do rei veio à região da
praia onde se encontrava a cesta e, sendo alertada pelos vagidos que vinham da
caixa, converteu-o em achado da rainha. Imediatamente, a princesa, vendo a
beleza que resplandecia dele, encheu-se de benevolência e o adoptou como filho.
E posto que ele rechaçasse instintivamente um peito estranho, foi alimentado
com o peito materno graças a um ardil de parentes (Ex. 2, 1-9). Durante sua
educação de príncipe, instruído nas ciências estrangeiras, ao sair da infância
não escolheu as coisas que eram tidas em grande apreço pelos estrangeiros, nem
deixou ver que confessava como mãe àquela mãe inventada que o havia feito filho
adoptivo, mas retornou à sua mãe natural e misturou-se com os que eram da sua
estirpe. Tendo-se originado uma briga entre um hebreu e um egípcio, tomou o
partido do compatriota e matou o egípcio (Ex. 2, 11–13).
Pouco depois, quando brigavam dois hebreus, tentou acalmar a querela fazendo-os
notar que, entre irmãos, é bom tomar como árbitro das divergências a natureza e
não a ira (Ex. 2, 13–15). Rechaçado por aquele que se inclinava à injustiça
(Ex. 2, 16-21) (Act. 7, 23-28), fez desta afronta o
ponto de partida para uma filosofia mais alta: depois disto, tendo se afastado
da convivência com a multidão (Ex. 2, 15), passa a vida na solidão e contrai
parentesco com um estrangeiro sagaz para discernir o melhor e acostumado a
julgar os costumes e a vida dos homens. Bastou a este uma única acção –
refiro-me ao ataque dos pastores – para descobrir a virtude do jovem: como
havia lutado pela justiça sem pensar em seu próprio proveito, mas por achar que
o justo é valioso por sua própria natureza, e como castigara a injustiça dos
pastores, que não haviam feito nenhum dano a ele. Tendo admirado o jovem por
estas coisas, e estimando que, apesar de sua manifesta pobreza, sua virtude era
mais valiosa que uma grande riqueza, entrega-lhe sua filha por esposa, e
permite-lhe levar uma vida segundo seus desejos.
CAPÍTULO
2
Ele escolheu conduzir nos montes uma vida solitária,
afastada do tumulto das praças e dedicada a guardar os rebanhos no deserto. A
história nos conta (Ex. 3, 1-6) que, passado algum tempo nesta vida, Moisés
recebeu uma surpreendente aparição de Deus: em um tranquilo meio-dia, reluziu
ante seus olhos uma luz mais forte que a luz do sol; estranhando o inusitado do
espectáculo, levantou os olhos para o monte e viu um arbusto do qual saia um
resplendor como de fogo. Como os ramos da planta estavam verdes como se as
chamas fossem orvalho, disse a si mesmo estas palavras: vamos e vejamos este
grande espectáculo. Isto nos diz que o prodígio da luz não somente se mostrou a
seus olhos mas, o que é mais impressionante de tudo, seus ouvidos foram
iluminados com os resplendores da luz. Com efeito, a graça da luz foi
distribuída a ambos os sentidos: os olhos foram iluminados com os resplendores
da luz, e os ouvidos foram levados à luz com instruções puríssimas. Isto é, a
voz que saía daquela luz proibiu Moisés de aproximar-se do monte com calçados
feitos de peles mortas; quando ele livrou seus pés dos calçados, tocou assim
aquela terra que estava iluminada com a luz divina. Depois dessas coisas, não
julgo oportuno que o discurso se entretenha muito na história deste homem, para
ater-nos mais a nosso propósito, fortalecido com a teofania que vira, recebeu a
missão de livrar o seu povo da escravidão dos egípcios. E para que melhor se
convencesse da força que recebia do alto, ele, por disposição de Deus, faz a
experiência com o que tem nas mãos. Esta foi a experiência: o bastão que sua
mão deixou cair se animou, e quando foi retomado por suas mãos, voltou a ser o
que era antes de transformar-se em animal. Depois o aspecto de sua mão quando a
tira do seio se transforma em um branco como de neve, e re-introduzida ao seio
recobra seu aspecto natural (Ex. 4, 2-7). Quando Moisés descia do Egipto
levando consigo sua esposa, que era estrangeira, e os filhos que tinha tido com
ela, conta-se que um anjo saiu-lhe ao encontro causando-lhe um medo de morte, e
que a mulher o aplacou com o sangue da circuncisão do menino. Foi então que
ocorreu o encontro com Aarão que fora impelido por Deus para este encontro (Ex.
4, 24-28). Ambos convocam então o povo para uma assembleia-geral e anunciam aos
que estavam oprimidos pelo padecimento dos trabalhos, a libertação da
escravidão. Sobre este tema ele teve uma conversa com o tirano. Por causa
dessas coisas, aumentou a cólera do tirano contra os que dirigiam os trabalhos
e contra os israelitas: aumentou então o tributo de ladrilhos, e enviou uma
ordem mais pesada, de forma que os israelitas não só padeciam pelo barro, mas
também eram sobrecarregados por causa da palha e das canas (Ex. 5, 1-23).
Depois o Faraó, este era o nome do tirano egípcio, tentou fazer frente, com os
encantamentos dos feiticeiros, aos prodígios que eles faziam pela vontade de
Deus. Quando Moisés tornou a converter seu bastão em animal ante os olhos dos
egípcios, a magia pareceu realizar o mesmo prodígio nos bastões dos magos.
Porém o engano foi desmascarado, pois a serpente surgida da transformação do
bastão de Moisés, ao comer os troncos dos magos, isto é, as serpentes,
demonstrou assim que os bastões dos magos não tinham nenhuma força para se
defender e nem para viver, mas apenas a aparência de um truque mágico para
verem os olhos daqueles que eram fáceis de enganar (Ex. 7, 8-12). Quando Moisés
viu que todos os súbditos estavam de acordo com o príncipe da maldade, fez vir
uma praga geral sobre todo o povo egípcio, sem que ninguém escapasse da
experiência dos males. E para infligir este castigo aos egípcios, cooperaram com
ele os mesmos elementos que vemos no universo: a terra, a água, o ar, o fogo,
que trocaram suas forças conforme a vontade dos homens.
CAPÍTULO
3
Com efeito, quem estava livre de culpa permanecia
incólume, enquanto que com a mesma força, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, era
castigado o culpado. Ao comando de Moisés todo tipo de água se converteu em
sangue para o Egipto, ao ponto de que também os peixes morressem por causa da
densidade carnosa em que se havia transformado a água; o sangue, por outro lado,
voltava a converter-se em água para os hebreus, quando a tomavam. Aqui os magos
reaparecem para simular, na água que tinham os hebreus, a aparência de sangue
(Ex. 7, 20-22). Sucedeu o mesmo com as rãs que invadiram o Egipto: sua aparição
até uma proliferação de tal magnitude não pode ser avaliada como uma
consequência da natureza, mas que o comando dado à espécie das rãs modificou a
natureza conhecida destes animais. Todo o Egipto foi atormentado por estes
animais que invadiram inclusive as casas, enquanto a vida dos hebreus se
mantinha limpa dessas coisas repugnantes (Ex. 7, 25-29). Da mesma forma, a
atmosfera não permitia aos egípcios nenhuma distinção entre a noite e o dia;
permaneciam em um obscuridade uniforme, enquanto para os hebreus, nas mesmas circunstâncias,
nada havia mudado em relação ao habitual. E do mesmo modo com relação a todas
as demais coisas: o granizo, o fogo, os mosquitos, as pústulas, as moscas, a
nuvem de gafanhotos. Cada uma, segundo sua própria natureza, feriu os egípcios;
os hebreus, ao contrário, sabiam do sofrimento de seus vizinhos por rumores e
relatos, pois não experimentaram em si mesmos o ataque dessas calamidades.
Depois, a morte dos primogénitos fez mais clara a diferença entre o povo hebreu
e o egípcio: uns se desfaziam em lamentações pela perda dos seres mais queridos
(Ex. 12, 29); os outros permaneciam em total tranquilidade e segurança, porque
tinham a salvação confirmada pela aspersão do sangue e por haverem marcado as
portas com sangue, como senha, em cada um dos lados das ombreiras e no montante
que as unia (Ex. 10, 21-23). Depois disso, enquanto os egípcios estavam
abatidos pelo desastre dos primogénitos e choravam sua desgraça, solitários ou
todos juntos, Moisés começou a dirigir o êxodo dos israelitas, após haver advertido
que levassem consigo, como empréstimo, a riqueza dos egípcios. Quando já se
passavam três dias de caminho fora do Egipto – conta-nos a história – pareceu
insuportável ao Egípcio que Israel não permanecesse na escravidão e, havendo
mobilizado todos os seus súbditos para a guerra, correu atrás do povo com sua
cavalaria. Este, quando viu o arrancar da cavalaria e da infantaria, sendo
inexperiente nas artes da guerra e estando pouco acostumado a estes espectáculos,
deixou-se levar imediatamente pelo medo e rebelou-se contra Moisés. A história
conta também este feito paradoxal de Moisés: que sua actividade foi dupla. Com
efeito, com a voz e a palavra dava ânimo aos israelitas e os exortava a ter
boas esperanças, e ao mesmo tempo apresentava a Deus suas súplicas em seu
coração em favor daqueles que se encontravam em tal apuro, e era instruído por
meio do conselho divino sobre como poderia fugir de tal perigo (Ex. 12, 31-14,
5). Pois Deus mesmo, como conta a história, escutava sua voz silenciosa. Uma
nuvem guiava o povo por virtude divina, não por sua própria natureza. Sua
substância, com efeito, não era formada por alguns vapores ou exalações como
resultado de que o ar se houvesse feito mais denso por causa de substância húmida
e de sua compressão pelos ventos, mas era algo muito maior e que excedia a
compreensão humana. Como atesta a Escritura, aquela nuvem era um prodígio tal
que, quando os raios do sol brilhavam abrasadores, se convertia em uma protecção
para o povo, fazendo sombra para os que estavam em baixo e humedecendo o calor
excessivo do ar com uma água fina; durante a noite se transformava em fogo,
iluminando os israelitas com o resplendor de sua própria luz desde o entardecer
até o nascimento do dia (Ex. 13, 21-23).
CAPÍTULO
4
Moisés olhava para a nuvem e ensinava o povo a
seguir este fenómeno. Então chegaram ao mar Vermelho. Ali, enquanto a nuvem
dirigia a marcha, as tropas dos egípcios cercaram completamente o povo por
traz, sem lhe deixar possibilidade de escapar por nenhuma parte, encurralado
entre seus terríveis inimigos e o mar. Foi então que Moisés, reconfortado com a
força divina, fez o mais incrível de tudo. Tendo se aproximado da margem,
golpeou o mar com seu bastão. O mar se fendeu com o golpe. E, como costuma
acontecer com o vidro que começando a rachar-se numa parte a fenda chega
directamente até o outro extremo, assim, fendido todo aquele mar em uma
extremidade pelo bastão, a fenda das ondas se estendeu até a margem oposta.
Onde o mar se havia dividido, Moisés desceu até o fundo; junto com todo o povo,
estava nas profundezas, com o corpo enxuto e iluminado pelo sol. No fundo seco
do mar, atravessou a pé os abismos, sem temer aquela muralha de ondas que se
haviam formado de um lado e de outro: uma fortificação recta, feita dos lados
deles, da solidificação do mar (Ex. 14, 19-22). Porém, quando o Faraó entrou
com os egípcios no mar pelo caminho aberto recentemente entre as ondas, as
águas se uniram novamente com as águas; o mar fechando-se sobre si mesmo
segundo sua forma primitiva, mostrou a superfície da água novamente unida,
enquanto os israelitas, na margem oposta, se refaziam do grande esforço de sua
marcha através do mar. Então cantaram a Deus um canto de vitória por haver
erguido para eles um troféu sem derramamento de sangue, posto que os egípcios
haviam sido aniquilados sob as águas com todo seu exército, seus cavalos, seus
carros e suas armas (Ex. 14, 26-15, 21). Depois disto, Moisés continuou
avançando e, após haver percorrido durante três dias um caminho sem água,
encontrou-se em grandes dificuldades ao não ter como saciar a sede do exército.
Havia uma lagoa de água salobra, mais amarga que a água do mar, ao redor da
qual acamparam. Estavam ali sentados em torno da água, devorados pela ânsia de
água. Moisés, impelido por uma inspiração divina, tendo encontrado um pedaço de
pau naquele lugar, atirou-o na água que, imediatamente, se converteu em potável
pela própria força daquele lenho, que transformou a natureza da água de salobra
em doce (Ex. 15, 22-25). Posto que a nuvem empreendesse novamente a marcha para
adiante, eles se puseram também em marcha seguindo o movimento de seu guia.
Faziam sempre o mesmo, parando onde a detenção da nuvem lhes dava o sinal de
descanso, e empreendendo a marcha precisamente quando a nuvem recomeçava a
guia-los. Seguindo este guia, chegaram a um lugar regado por água potável,
banhado generosamente por doze fontes e que recebia a sombra de um bosque de
palmeiras. As palmeiras eram setenta. Apesar de número tão pequeno, bastavam
para produzir grande admiração a quem as olhava porque eram de excepcional
beleza e altura (Ex. 15, 27). Tendo o guia se posto novamente em movimento,
isto é, a nuvem conduz o exército dali para outro lugar. Este era um deserto de
areia seca que queimava, sem uma única gota de água que humedecesse aquele
lugar. Aqui o povo foi atormentado novamente pela sede. Uma pedra situada a uma
certa altura, golpeada com a vara por Moisés, deu água doce e potável mais que
suficiente para a necessidade do exército (Ex. 17, 1-6). Ali mesmo se acabou a
provisão de alimentos que haviam trazido do Egipto para o caminho. O povo foi
acossado pela fome e teve lugar o milagre maior de todos: o alimento não lhes
brotava da terra como seria natural, mas vinha gotejado de cima, do céu, em
forma de orvalho. Pois ao amanhecer do dia caía para eles um orvalho. Este
orvalho se convertia em alimento para os que o recolhiam. O que caía não eram
gotas líquidas de água, como ocorre normalmente com o orvalho, mas em lugar de
gotas de água caíam grãos parecidos com gelo; sua forma era redonda como
semente de coentro, e seu sabor parecia a doçura do mel (Ex. 16, 14).
CAPÍTULO
5
Junto com este prodígio observava-se outro. Todos os
que haviam saído para a colecta eram evidentemente diferentes em idades e
forças. Não obstante, não obtinha um mais e o outro menos conforme a diferença
de forças existente entre eles, mas o que era recolhido era proporcional à
necessidade de cada um, de forma que nem o mais forte conseguia mais, nem o
mais fraco tinha menos do que a medida justa. Alem deste prodígio, a história
narra outro: cada um recolhia para o dia e não guardava nada para depois, e se
alguém, por economia, reservava algo do alimento do dia para o amanhã, o
reservado se tornava inútil para a alimentação, pois se tornava infectado de
bichos (Ex. 16, 16 –24). Na história desse alimento deu-se também este outro
prodígio. Uma vez que um dia da semana era celebrado com o descanso conforme
uma disposição antiga, no dia anterior, embora caísse o mesmo alimento dos dias
precedentes e o esforço de quem o recolhia fosse também o mesmo, resultava que
a quantidade era o dobro da habitual, de forma que não tinham nenhum pretexto
para não cumprir a lei do descanso. O poder divino mostrou-se ainda mais
plenamente nisto; enquanto as sobras se tornavam inúteis nos outros dias, só o
armazenado no dia anterior ao Sábado, assim se chamava o dia de descanso,
mantinha-se sem corrupção, de modo que em nada parecia mais estragado em
relação à véspera (Ex. 16, 25- 30). Houve uma guerra deles contra um povo
estrangeiro. A narração chama amalecitas aos que se uniram então contra eles.
Foi naquela ocasião que os israelitas se organizaram pela primeira vez no
sentido de batalha: não foram lançados à luta todos em um exército completo,
mas foram seleccionados por seu valor, e os escolhidos foram designados para a
peleja. Nesta peleja Moisés mostrou uma nova forma de luta: enquanto Josué, que
era quem guiava o povo depois de Moisés, comandava a batalha aos amalecitas,
Moisés, fora da luta, a partir de uma colina, olhava para o céu enquanto, de um
lado e de outro, o assistiam dois de seus familiares (Ex. 17, 8-10). Sabemos
pela história que, entre as coisas que então aconteceram, teve lugar este
prodígio: Se Moisés mantinha as mãos elevadas ao céu, seu exército cobrava
forças contra os inimigos: porem, se os abaixava, também o exército cedia ao
assalto dos estrangeiros. Ao perceberem isto, os que assistiam a Moisés,
colocando-se de um lado e de outro, sustentavam-lhe as mãos quando por alguma
causa desconhecida elas se tornavam pesadas e difíceis de se mover. E como eles
eram fracos para mantê-lo em posição erecta, escoraram sua posição com uma
pedra, e conseguiram que Moisés mantivesse as mãos levantadas ao céu com este
apoio. Feito isto, os estrangeiros foram dominados pelas forças dos israelitas
(Ex. 17, 11-13). A nuvem que guiava o caminhar do povo permanecia no mesmo
lugar; era preciso que também não se movesse o povo, já que não havia guia para
seu caminhar. Desta forma tinham abundância para viver sem esforço: acima o ar
fazia chover sobre eles um pão preparado; e abaixo a pedra lhes proporcionava
água; a nuvem aliviava os inconvenientes do ar livre, pois durante o dia
convertia-se em anteparo contra o calor do sol e durante a noite dissipava a
escuridão iluminando com seu fogo. Por esta razão não lhes era penoso deter-se
naquele deserto ao pé do monte em que se havia instalado o acampamento.
CAPÍTULO
6
Neste tempo, Moisés foi para eles guia de uma
iniciação mais misteriosa: foi propriamente a força divina que, por meio de
prodígios que superam todos os discursos, iniciou no mistério todo o povo e seu
guia. A iniciação no mistério realizou-se desta maneira: pediu-se ao povo que
permanecesse livre de todas as manchas que podem ocorrer no corpo e na alma, e que
se abstivesse de relações conjugais durante o número estabelecido de três dias,
de forma que, purificados de toda disposição passional e corporal, se
aproximassem da montanha, livres de paixões para serem iniciados. O nome desta
montanha era Sinai. Só se permitia o acesso aos seres racionais, e só àqueles
que estavam purificados de toda mancha. Havia completa vigilância e precaução
para que nenhum dos seres irracionais subisse à montanha, e para que fosse
apedrejado pelo povo todo ser irracional que desejasse vir à montanha (Ex. 19,
1-15).
CAPÍTULO
7
O espectáculo não só produzia espanto na alma
através dos olhos, mas também infundia terror através dos ouvidos, pois um
ruído estrondoso se difundia do alto para todos os que estavam abaixo. Sua
primeira escuta já era penosa e insuportável para todo ouvido, pois parecia o
troar das trombetas, porem superava toda comparação pela intensidade e pelo
terrível ruído; ao aproximar-se tornava-se ainda mais espantoso a aumentar
sempre seu ruído. Tratava-se de um ruído articulado: o ar, pelo poder divino
articulava a palavra sem órgãos vocais. Esta palavra não era pronunciada sem
substância, mas promulgava mandatos divinos. A palavra crescia em intensidade
na medida em que alguém avançava, e a trombeta ultrapassava a si mesma,
superando sempre os sons já emitidos com os que se seguiam (Ex. 19, 19). Todo o
povo era incapaz de suportar o que via e ouvia. Por esta razão apresentaram
todos uma súplica a Moisés: que fosse mediador da lei, pois o povo não se
negaria a crer que era mandato divino tudo o que ele lhes mandasse conforme a
instrução recebida do alto. Havendo todos descido novamente ao pé da montanha,
Moisés foi deixado só e mostrou em si mesmo o contrário do que poderia parecer
natural. De facto, enquanto os demais suportam melhor as situações temíveis se
estão todos juntos, este se fez mais animado quando se afastou dos que o
acompanhavam, manifestando assim que o medo que experimentara no início não era
próprio dele, mas que o havia padecido por padecer juntamente com aqueles que
estavam assustados. Moisés, livre da covardia do povo como de uma carga, fica
só consigo mesmo. È então que enfrenta as trevas e penetra dentro das
realidades invisíveis, desaparecendo da vista dos que olhavam. Com efeito,
havendo entrado no santuário do mistério divino, ali, sem ser visto, entra em contacto
com o invisível, penso que ensinando com isto que quem quiser se aproximar de
Deus deve afastar-se de todo o visível e como quem está sobre um monte,
levantando sua mente para o invisível e incompreensível, crer que a divindade
está ali onde a inteligência não alcança. Chegando ali, recebe os mandamentos
divinos (Ex. 20, 1-17). Estes consistiam em um ensinamento sobre a virtude,
cujo ponto principal é a piedade e ter uma concepção acertada sobre a natureza
divina, isto é, que esta transcende todo o conceito e toda a representação, sem
que possa ser comparada com nenhuma das coisas conhecidas. De facto, ele recebe
a ordem de não considerar em sua reflexão sobre a Divindade nenhuma das coisas
compreensíveis, e de não comparar a natureza que a tudo transcende a nenhuma
das coisas conhecidas por meio de conceitos, mas apenas crer que existe e
deixar sem investigar, como algo inacessível, como é, quão grande seja, onde
está, qual é sua origem. A palavra divina acrescenta a isto as orientações que
concernem aos costumes, finalizando seus ensinamentos com preceitos gerais e
particulares. È geral a lei que proíbe toda a injustiça quando diz que é
necessário comportar-se em relação ao próximo com amor, pois, ao observá-la,
resultará como consequência que ninguém causará nenhum mal a seu próximo. Entre
as leis particulares, está prescrito o honrar os progenitores, e se encontra
enumerado o catálogo das faltas condenadas (Ex. 21-23). Como se a sua inteligência
tivesse sido purificada com estes preceitos, Moisés avança a uma mistagogia ao
lhe mostrar o poder divino, o conjunto de uma tenda de campanha. Esta tenda era
um santuário cuja beleza era de uma variedade impossível de explicar: os
vestíbulos, as colunas, os tapetes, a mesa, as lâmpadas, o altar dos perfumes,
o altar dos holocaustos e o propiciatório; e, no interior do Santo, o
impenetrável e inacessível. Para que a beleza e a disposição de todas estas
coisas não fugissem de sua memória, e para que esta maravilha fosse mostrada
também aos que estavam no pé do monte, ele recebe a ordem de não confiá-lo à
simples escritura, mas de imitar em uma construção material aquela obra
imaterial, utilizando nela os materiais mais preciosos e esplêndidos que se
encontram sobre a terra.
CAPÍTULO
8
Entre estes, o ouro, o mais abundante, revestia todo
o perímetro das colunas; a prata era utilizada junto com o ouro paras adornar
os capitéis e as bases das colunas com a finalidade – isto é o que penso – de
que com a diferença de cor em cada lado, o ouro brilhasse mais ao ser
contemplado. Havia também lugares em que se julgou útil o material de bronze
para que servisse de capitel e de base para a parte de prata das colunas (Ex.
25, 1-22). Os véus, os tapetes, os arredores do templo e o toldo estendido
sobre as colunas, todas estas coisas estavam realizadas convenientemente, cada
uma tecida com a sabedoria da arte do tecelão e feita da matéria apropriada.
Algumas telas tinham a cor de jacinto e púrpura, o flamejar do rubro vermelhão,
o esplendor do algodão em sua forma natural e sem artifício: outras eram feitas
de linho, e outras de crinas, segundo o uso dos tecidos. Em alguns lugares
haviam sido colocadas, para adorno das tendas, peles cuidadosamente tingidas de
vermelho (Ex. 26, 1 – 4). Após sua descida do monte, Moisés fez com que alguns
artesãos construíssem estas coisas conforme o modelo da construção que lhe
tinha sido mostrado. Também quando se encontrava naquele templo não feito por
mão de homem, lhe foi prescrito com que ornamentos era necessário que o
sacerdote estivesse ataviado ao entrar no santuário; a palavra lhe deu
instruções no que concerne tanto à vestimenta interior como à exterior. As
peças destes ornamentos começam pelo que é mais exterior, não pelo que está
oculto. O peitoral era bordado de diversas cores, o mesmo para o véu, porem
tinha ainda um fio de ouro com broches de ambos os lados que prendiam o
peitoral e nos quais haviam esmeraldas engastadas em circulo por meio do ouro.
A beleza destas pedras provinha do esplendor próprio de sua natureza – que
reluzia com raios verde-mar que emanavam dela – e do prodígio da arte com que
haviam sido talhadas. Não se tratava dessa arte que executa um talhado para
reproduzir a imagem de alguns ídolos, mas a beleza provinha dos nomes dos
patriarcas gravados nas pedras, seis em cada uma (Ex. 28, 6-12). Haviam
pendurado pequenos escudos na parte da frente; as correntes se desdobravam
entrelaçadas entre si com certa alternância como um cordão, e desciam de cada
lado desde cima, desde os broches, com o fim – assim penso – de que
resplandecesse mais a beleza do trançado, realçado pelas coisas que se
encontravam abaixo (Ex. 28, 13-14). Depois aquele ornamento tecido de ouro era
colocado diante do peito, no qual havia pedras de diversas classes em número
igual ao dos patriarcas, ordenadas em quatro filas, com três pedras incrustadas
em cada uma, que levavam escritos os nomes das tribos. A túnica que havia em
baixo do peitoral descia do colo até as pontas dos pés, adornada nobremente com
franjas pendentes. A borda inferior não só era trabalhada formosamente com
variedade de tecido, como também com adornos de ouro. Estes consistiam em
campainhas de ouro e romãs colocadas alternadamente ao longo da fímbria (Ex.
28, 15-35). Logo a mitra da cabeça era toda violeta; a lâmina da frente, de
ouro puro, gravada com um sinal inefável. E, alem disso, o cíngulo, que cingia
as pregas da túnica, e a finura das vestes íntimas, e tudo o que por meio da
beleza dos vestidos se ensinava simbolicamente sobre a virtude sacerdotal (Ex.
28, 36-40). Moisés, depois de envolvido por aquelas trevas que o faziam
invisível, foi instruído em relação a estas coisas e a outras parecidas por
inefável ensinamento de Deus, chegando, pela aquisição de doutrinas secretas, a
ser maior que ele mesmo; então sai novamente das trevas e desce até sua gente
para fazê-los participes das maravilhas que lhe haviam sido mostradas na
teofania, estabelecer as leis e instituir para o povo o templo e o sacerdócio
conforme o modelo que lhe havia sido mostrado no monte. Levava também em suas
mãos as tábuas sagradas, que eram iniciativa e presente divino, cuja fabricação
não tivera ajuda humana, pois a matéria e o que havia escrito nelas eram
igualmente obra de Deus. O que estava escrito era a Lei. Porem o povo resistiu
à graça e se extraviou na idolatria antes que o Legislador voltasse (Ex. 32,
15-16).
CAPÍTULO
9
Naquela divina mistagogia, Moisés havia passado em
conversação com Deus um tempo não pequeno e, sob as trevas, havia participado
daquela vida eterna durante quarenta dias com suas noites (Ex. 24, 18), e havia
estado fora de sua própria natureza. Durante aquele tempo, com efeito, não
necessitou de alimento para seu corpo. Então, como um menino que se encontra
longe da vista de seu professor, o povo se deixou levar pela desordem de seus
impulsos desenfreados e, reunindo-se em torno de Aarão, o forçaram a ele, que
era o sacerdote, a que os conduzisse à idolatria (Ex. 32, 1-9). Tendo feito um
ídolo de ouro, o ídolo era um bezerro, se entregaram à impiedade. Quando Moisés
volta a eles, quebra as tábuas que traz em nome de Deus, para que eles,
privados da graça que Deus lhes havia preparado, recebam um castigo digno de
seu pecado (Ex. 32, 19). Faz então com que seja expiado o sacrilégio diante dos
levitas com o sangue do povo. Havendo aplacado a divindade com seu zelo contra
os estrangeiros e tendo destruído o ídolo, depois de outro período de quarenta
dias, traz novamente as tábuas, escritas pelo poder divino, porem cuja matéria havia
sido preparada pelas mãos de Moisés (Ex. 32, 25-29). Ele as traz, depois de
haver saído outra vez dos limites da natureza pelo mesmo número de dias,
levando um modo de vida diferente daquele que nos é conhecido, já que não dava
a seu próprio corpo nada do que necessitava a natureza para sustentar-se por
meio de alimento (Ex. 34, 1-28).
CAPÍTULO
10
Assim lhes construiu a tenda e lhes transmitiu as
leis, estabelecendo o sacerdócio conforme o que lhe havia sido ensinado por
Deus. Depois fez que se realizassem os trabalhos materiais conforme a instrução
divina: a tenda, os vestíbulos, todas as coisas interiores, o altar de incenso,
o altar dos holocaustos, o lampadário, os tapetes, as cortinas, o propiciatório
no interior do santuário, os ornamentos sacerdotais, os perfumes, os diversos
sacrifícios, as purificações, os ritos de acção de graças, de impetração contra
os males, de expiação dos pecados; tendo ordenado todas estas coisas da maneira
devida, suscita contra si a inveja de seus íntimos, essa enfermidade tão
familiar à natureza dos homens. De facto, tanto Aarão, honrado com a dignidade
do sacerdócio, como também sua irmã Maria, movida por uma inveja
especificamente feminina contra a honra que Deus havia dado a ele, disseram
coisas que moveram Deus a castigar este pecado. Nesta ocasião, Moisés se
mostrou digno de admiração por sua mansidão, pois enquanto Deus queria castigar
a ilógica inveja, ele antepunha a natureza à cólera e intercedia perante Deus
por sua irmã (Nm. 12, 1-13). A plebe entregou-se novamente à desordem. O começo
do pecado foi a desmedida nos prazeres do ventre. Não lhes bastava viver
saudável e agradavelmente do alimento que lhes vinha de cima, mas o desejo de
iguarias e a ânsia de comer carne os fizeram preferir a perpétua escravidão do
Egipto aos bens que já tinham. Moisés falou com Deus a respeito da paixão que
se havia abatido sobre eles, e este, ao lhes conceder alcançar precisamente
aquilo que desejavam, os ensinou que não era conveniente se comportar assim. De
facto, de improviso fez cair no acampamento uma multidão de pássaros que voavam
em grande número a rés do solo, com o que facilmente caçados saciaram o desejo
dos que ansiavam por carne fresca (Nm. 11, 4-6.31-32). Para uma grande parte
deles, o excesso de comida transformou o equilíbrio dos humores de seus corpos
em vómitos corrompidos, e a saciedade converteu-se em enfermidade e morte. Seu
exemplo foi suficiente para levar a temperança a eles mesmos e aos que os
assistiam (Nm. 11, 33-34). Então Moisés enviou exploradores àquela região que,
segundo a promessa divina, esperavam habitar. Como nem todos contaram a
verdade, mas alguns deram notícias falsas e más, o povo se encheu de ira contra
Moisés mais uma vez. Aqueles que desconfiaram da ajuda divina, Deus castigou
não lhes deixando ver a terra que lhes havia prometido (Nm. 13, 1-14.38). Ao
prosseguir a sua marcha através do deserto, faltou novamente a água e,
juntamente com ela, lhes faltou a lembrança do poder de Deus. Na verdade, o
prodígio da rocha que já havia tido lugar, não lhes foi suficiente para crer
que nada do necessário lhes faltaria agora, mas, afastando-se das mais
saudáveis esperanças, propalaram ultrajes contra Deus e contra Moisés até o
ponto em que mesmo Moisés pareceu se deixar levar pela desconfiança do povo.
Não obstante, novamente realiza o milagre transformando em água aquela rocha
bruta (Nm. 20, 2-11). Mais uma vez, o prazer vulgar da comida despertou neles o
desejo de fartar-se e, embora ainda não lhes faltasse nenhuma das coisas
necessárias para a vida, sonharam com a saciedade do Egipto. Os jovens rebeldes
foram corrigidos com castigos mais severos, ao lhes inocular veneno as
serpentes mordendo-os em um ataque mortal (Nm. 21, 4-6). Posto que um após
outro sucumbiam à serpente, o Legislador, movido pelo conselho divino, fez uma
figura de serpente em bronze e mandou colocá-la no alto para que estivesse à
vista de todo o acampamento. E assim deteve o dano que estes animais faziam ao
povo, e pôs fim á sua destruição. Com efeito, quem olhava para a imagem da
serpente feita de bronze não tinha porque temer nenhuma mordida da serpente
verdadeira, porque o olhar debilitava o veneno com uma misteriosa resistência
(Ex. 21, 7-9).
CAPÍTULO
11
Como mais uma vez se originasse no povo uma rebelião
para conseguir o poder, e alguns tentassem pela força que fosse transferido
para eles o sacerdócio, ele suplicou uma vez mais a Deus pelos que pecavam,
porem o rigor do juízo divino foi mais forte que a compaixão de Moisés por sua
gente. A terra, que por vontade divina se abrira como uma boca, fechou-se
novamente sobre si mesma, tragando totalmente todos os que se opunham a
autoridade de Moisés; aqueles que se haviam envolvido em intrigas para alcançar
o sacerdócio, devorados pelo fogo em número próximo de duzentos e cinquenta,
com sua desgraça ensinaram sensatez ao povo (Nm. 16, 1-35). Para que os homens
se persuadissem mais de que a graça do sacerdócio é concedida por Deus aos que
são dignos, Moisés fez com que os homens principais de cada tribo trouxessem
bastões, marcados cada um com o sinal de seu dono. Entre estes encontrava-se o
do sacerdote Aarão. Tendo colocado os bastões diante do santuário, neles
mostrou ao povo o desígnio de Deus no que diz respeito ao sacerdócio: dentre
todos, somente o báculo de Aarão floresceu e produziu fruto do lenho, - o fruto era uma noz -, e o levou ao amadurecimento (Nm.
17, 16-24). Mesmo para os que não criam pareceu um enorme prodígio que o que
estava seco, sem casca e sem raiz, se tornasse fértil de repente, e que
realizasse o que realizam as plantas com raízes, fazendo, o poder divino, para
o lenho as vezes da terra, córtex, humidade, raiz e tempo. Depois disto Moisés,
guiando o exército entre povos estrangeiros que se opunham à sua passagem,
promete com juramento que o povo não atravessaria suas lavouras nem seus
vinhedos, mas que seguiria o caminho real, sem desviar-se nem para a direita
nem para a esquerda. Como nem assim se aquietassem os inimigos, vencendo seu
adversário em combate, faz-se dono do caminho (Nm. 20, 17). Então certo Balac,
que dominava sobre o povo mais importante, -
madianitas era o nome desse povo -, compadecido da sorte dos vencidos e
imaginando que padeceria as mesmas coisas por parte dos israelitas, não leva em
sua ajuda nenhum contingente de armas ou de pessoas, mas a arte da magia
através de certo Balaam, o qual tinha fama de ser versado nestas coisas e,
segundo a convicção daqueles que o haviam procurado, tinha certo poder nesta
actividade. Sua arte era a da adivinhação, porem com a ajuda dos demónios
era temível, fazendo cair males incuráveis sobre os homens com poder mágico
(Nm. 22, 2-8). Este, enquanto segue aos que o conduzem ao rei do povo, conhece
pela voz da jumenta que o caminho não lhe seria favorável. Depois conhecendo
por uma visão o que devia fazer, descobriu que sua magia era demasiado débil
para causar dano àqueles que estavam acompanhados por Deus na luta. Balaam
possuído pela inspiração divina em lugar da energia dos demónios, disse
palavras tais que claramente são uma profecia das melhores coisas que lhes
sucederia mais adiante aos israelitas. Ao ser impedido de utilizar sua arte
para o mal, tomando então consciência do poder divino, afastou-se da
adivinhação e se fez intérprete da vontade divina (Nm. 22, 22-24). Depois
disto, os estrangeiros foram exterminados pelo povo em um combate contra eles;
este por sua vez resultou vencido pela paixão da incontinência pelas cativas.
Finéias atravessou com uma só lança aos que estavam entrelaçados na ignomínia;
então teve descanso a cólera de Deus contra aqueles que se haviam deixado
arrastar às uniões ilícitas (Nm. 25, 1-9). Finalmente, o Legislador, subindo a
um monte e contemplando de longe a terra que estava preparada para Israel
segundo a promessa feita por Deus aos pais, abandonou a vida humana sem haver
deixado sobre a terra nenhum sinal, nem uma recordação de seu trânsito com
algum monumento funerário. O tempo não havia maltratado sua formosura, nem
havia obscurecido o fulgor de seus olhos, nem havia debilitado a graça
resplandecente de seu rosto (Dt. 34, 1-7), mas
permaneceu sempre idêntico a si mesmo e, desta forma, conservou, mesmo na
maturidade, a imutabilidade na beleza. Expus para ti em grandes traços quanto
aprendemos sobre a história do homem em seu sentido literal, ainda que também
tenhamos alargado necessariamente o discurso naquelas coisas em que de algum
modo havia razão para isso. Talvez já seja tempo de aplicar a vida que acabamos
de recordar ao objectivo a que nos propusemos em nosso discurso com o fim de
obter alguma utilidade para a vida virtuosa. Retomemos pois o começo do relato
desta vida.
Segunda
Parte A:
CAPÍTULO
1
Moisés nasceu precisamente quando o tirano havia ordenado
matar os varões (Ex. 1, 16). Como o imitaremos com nossa livre escolha as
circunstâncias do nascimento deste homem? Não está em nosso poder – dirá
seguramente alguém – comparar aquele ilustre nascimento com nosso nascimento.
Não obstante, não é difícil começar a imitação por aquilo que parece mis
inacessível. Pois quem desconhece que todo o ser que está sujeito à mudança
nunca permanece idêntico a si mesmo, mas que continuamente passa de um estado a
outro, pois a mudança sempre se opera para melhor ou para pior? Apliquemos isto
ao nosso assunto. O feminino da vida, aquele que o tirano quer que sobreviva, é
a índole material e passional a que é conduzida, ao escorregar, a natureza
humana; por outro lado, o renovo varonil é o impetuoso e forte da virtude, que
é hostil ao tirano e que a este resulta suspeito de rebelião contra seu poder.
É necessário que aquele que é submetido a mudança seja de algum modo gerado
constantemente, pois na natureza mutável não há nada que permaneça totalmente
idêntico a si mesmo. Alem disso, ser gerado deste modo não provem de um impulso
exterior, à semelhança dos que geram corporalmente o que não prevêem, senão que
este nascimento tem lugar por nossa livre escolha. Somos, de certa forma,
nossos pais: geramos a nós mesmos de acordo com o que queremos ser. Mediante a
livre escolha, nos adaptamos ao modelo que escolhemos: varão ou fêmea, virtude
ou vicio. Por esta razão, apesar da hostilidade e do desgosto do tirano, nos é
possível chegar à luz com um nascimento mais nobre, e ser contemplados com
agrado pelos pais deste parto formoso, estes pais da virtude seriam os
pensamentos, e permanecer na vida mesmo que isto seja contrário à intenção do
tirano. Se partindo da história colocássemos mais em evidência seu sentido
íntimo, o discurso ensinaria isto: que no começo da vida virtuosa se encontra o
nascer que provoca tristeza ao inimigo, referindo-me a esta forma de nascimento
em que o livre arbítrio faz o papel de parteira. Pois ninguém causa tristeza ao
inimigo se não mostra já, em si mesmo, sinais que dão testemunho de sua vitória
sobre ele. Pertence exclusivamente ao livre arbítrio dar a luz a este rebento
varonil e virtuoso e mantê-lo com alimentos convenientes, assim como também
prover a que se salve incólume da água. Aqueles que entregam seus filhos ao
tirano, os expõem nus e sem protecção à corrente. Chamo corrente à vida agitada
com sucessivas paixões; o que cai nesta corrente, afundando, submerge nela e se
afoga. Os sábios e providentes pensamentos, que são os pais deste filho varão,
quando a necessidade da vida os obriga a depositar seu bem descendente nas
ondas da vida, protegem aquele que põem na corrente em uma cesta para que não
se afunde. Essa cesta, tecida com fibras diversas, é a educação, tecida por sua
vez com diversas disciplinas; sobre as ondas da vida, ela manterá flutuando
aquele que leva (Ex. 2, 3). Graças a ela, este não vagueará muito na agitação
das águas, levado de um lado para outro pelo movimento das ondas, mas tendo
chegado à estabilidade da terra firme, isto é, tendo saído da agitação da vida,
será empurrado para o estável pelo impulso mesmo das águas. A experiência
também nos ensina isto: que a instabilidade e mudança constante dos negócios
deixam longe de si aqueles que não estão imersos nos enganos humanos,
considerando uma carga inútil os que lhes são nocivos por sua virtude. Quem
conseguir permanecer fora destas coisas, que imite Moisés e não evite lágrimas,
embora se encontre protegido em uma arca. As lágrimas, com efeito, são
protecção segura para os que se salvam através da virtude. E se a mulher sem
filhos e estéril, que é filha do rei, penso que ela representa propriamente a
sabedoria pagã, fazendo passar por seu o recém-nascido, tenta ser chamada mãe
deste, a palavra aceita que não se recuse o parentesco desta pretendida mãe
contanto que se considere nela o imperfeito da idade. Porem quem corre para
cima, para o alto – como sabemos de Moisés – experimenta a vergonha de ser
chamado filho de quem é estéril por natureza. A cultura pagã é verdadeiramente
estéril, sempre grávida, porem sem jamais dar a luz em um parto. Pois após seus
grandes períodos de gravidez, que fruto pode mostrar a filosofia que seja digno
de tais e tantos esforços? Acaso não são todos vazios e imaturos, abortados
antes de chegar à luz do conhecimento de Deus, podendo haver chegado talvez a
homens se não tivessem estado completamente fechados no sentido de uma
sabedoria estéril?
CAPÍTULO 2
Portanto, quando alguém tiver convivido com a rainha
dos egípcios, embora não pareça excluído de suas magnificências, deve correr
àquela que é a mãe por natureza, da qual Moisés não se separou no tempo de sua
infância junto da rainha, uma vez que foi amamentado, como conta a história,
com o leite materno. Isto ensina, a meu ver, que se no tempo de nossa educação
convivermos estreitamente com os pensamentos pagãos, devemos não nos separar do
leite da Igreja que nos alimenta. O leite são os preceitos e costumes da
Igreja, com os quais a alma se alimenta e se fortifica, tomando daqui o ponto
de partida para subir ao alto. É verdade que o pensamento de quem presta
atenção aos ensinamentos pagãos e aos ensinamentos pátrios se encontrará entre
dois inimigos (Ex 11, 12). O pensamento religioso
estrangeiro resiste à palavra hebreia, disputando continuamente para aparecer
mais forte que a de Israel. E assim pareceu a muitos dos mais superficiais, os
quais, abandonando a fé paterna, se misturaram com os inimigos, convertidos em
transgressores dos ensinamentos de seus pais. Porem quem é grande e nobre,
seguindo o exemplo de Moisés, mostra com seu golpe de lança que é alma morta a
doutrina que se levanta contra o discurso da verdade. Interpretando esta
passagem de forma diversa, talvez alguém encontre esta luta dentro de nós. O
homem se encontra, como o troféu de um certame, no meio daqueles competidores
que o pretendem; faz vencedor do certame àquele a quem se inclina. Assim ocorre
com a idolatria e o culto verdadeiro a Deus, a intemperança e a moderação, a
justiça e a injustiça, a soberba e a humildade, e todas as coisas que se
subentendem contrapostas na luta aberta de egípcio contra hebreu. Moisés nos
ensina aqui com seu exemplo, a ajudar a virtude como a alguém da própria
estirpe, e a repelir o adversário que a ataca. De fato, o triunfo da piedade é,
ao mesmo tempo, morte e aniquilação da idolatria. Da mesma forma, a injustiça é
destruída com a justiça, e mata-se a soberba com a humildade. A contenda entre
os dois compatriotas tem lugar também entre nós (Ex. 2, 13). Com efeito, não
existiriam as invenções doutrinais das perversas heresias se não lutassem, em
blocos contrapostos, as argumentações erradas contra as verdadeiras. E se somos
demasiado débeis para dar por nós mesmos o triunfo ao que é justo, e o mal
prevalece com seus argumentos e repele o primado da verdade, temos que fugir
disto o mais rapidamente possível, partindo do exemplo da história de Moisés
(Ex. 2, 15) até um ensinamento melhor e mais sublime dos mistérios. E se for
necessário viver de novo no estrangeiro, isto é, se houver uma necessidade que
nos force a tratar com a filosofia pagã, façamo-lo depois de haver afastado os
perversos pastores do uso injusto dos poços (Ex. 2, 17), isto é, depois de
haver refutado os mestres da maldade pelo mau uso da educação. Deste modo
viveremos a sós com nós mesmos, sem chegar às mãos dos adversários ou nos
colocar no meio deles, mas viveremos na companhia dos que estão apascentados
por nós, iguais no sentir e no pensar: de todos os movimentos da alma que
existe em nós, como ovelhas apascentadas pelo querer da razão que é a que
dirige. E quando estivermos dedicados a esta paz e a este pacífico repouso,
então brilhará a verdade, enchendo de luz com seus próprios fulgores os olhos
da alma. Deus mesmo é a verdade que se manifestou então a Moisés através
daquela inefável iluminação.
CAPÍTULO 3
Nem sequer o facto de que o resplendor que ilumina a
alma do profeta se ascende de um arbusto de espinhos (Ex. 3, 1-6) é inútil em
nossa busca. De facto, se Deus é a verdade (Jo. 14,
6; 8, 12), e a verdade é luz, e a palavra do Evangelho utiliza estes nomes
sublimes e divinos para o Deus que se nos manifestou através da carne,
conclui-se que este caminho da virtude nos conduz ao conhecimento daquela luz,
que desceu até a natureza humana, que não brilha com a luz que se encontra nos
astros para que não se pense que seu resplendor provem da alguma matéria que
ali está oculta, mas sim com a luz de uma sarça da terra, que com seus
resplendores ilumina mais que todos os astros do céu. Esta passagem ensina-nos
o mistério da Virgem:
a luz da divindade, que graças a seu parto, ilumina a vida humana, guardou
incorrupta a sarça que ardia sem que a flor da virgindade se secasse no parto.
Com esta luz aprendemos o que devemos fazer para permanecer dentro dos
resplendores da luz verdadeira: que não é possível correr com os pés calçados
até aquela altura da qual se contempla a luz da verdade, mas que é necessário
despojar os pés da alma de seu invólucro de peles, morto e terreno, com o qual
foi revestia a natureza no princípio, quando fomos despidos por causa da
desobediência à vontade divina (Gn. 3, 21). Se
fizermos isto, seguir-se-á o conhecimento da verdade, pois ela manifestará a si mesma, já que o conhecimento do
que é, se converte em purificação da opinião em relação ao que não é. A meu
ver, esta é a definição da verdade: não errar no conhecimento do ser. O erro é
uma ilusão que se produz no pensamento a respeito do que não é, como se o que
não existe tivesse consistência, enquanto a verdade é um conhecimento firme do
que verdadeiramente existe. E desta forma alguém, depois de ter passado muito
tempo em solidão embebido em altas meditações, conhecerá com esforço o que é
verdadeiramente existente – aquilo que tem ser por sua própria natureza -, e o que é o não existente, isto é aquilo que tem ser só
em aparência, ao ter uma natureza que não subsiste por si mesma (Ex. 3, 14).
Julgo que o grande Moisés, instruído pela teofania, compreendeu então que fora
da causa suprema de tudo, na qual tudo tem consistência, nenhuma das coisas que
são captadas com os sentidos e que se conhece com o pensamento tem consistência
no ser. De facto, ainda que a mente considere diversos aspectos nos seres, o
pensamento não vê nenhum deles com tal suficiência que não necessite em nada de
outro, isto é, com tal suficiência que lhe seja possível existir sem participar
do ser. O que sempre é de igual forma, aquele que nem cresce e nem diminui,
aquele que não se move a nenhuma mudança, nem para melhor ou para pior, este é,
na verdade, alheio ao pior e não há nada melhor que ele; aquele que é
participado por todos e que não fica diminuído com esta participação: este é o
que verdadeiramente existe e cuja contemplação é o conhecimento da verdade.
CAPÍTULO 4
Moisés chegou então a isto, e agora chega também
todo aquele que, seguindo seu exemplo, despoja a si mesmo de sua envoltura
terrena e olha para a luz que sai da sarça, isto é, o raio de luz que nos
ilumina através da carne cheia de espinhos, que é, como diz o Evangelho, a luz
verdadeira (Jo. 1, 19) e a verdade (Jo. 14, 6). Então este chega a ser capaz de prestar ajuda
aos demais no sentido da salvação, de destruir a tirania daquele que domina com
artes más, e de encaminhar à liberdade os que estão debaixo da tirania de
perversa escravidão. A transformação da mão direita e a mudança do bastão em
serpente (Ex. 4, 3-7) são o começo dos prodígios. Parece-me que nestes
prodígios se dá a entender simbolicamente o mistério da manifestação da
Divindade aos homens através da carne do Senhor, graças à qual tem lugar a
destruição do tirano e a libertação dos que estão oprimidos por ele. Leva-me a
esta interpretação o testemunho profético e evangélico. Pois o profeta diz:
Esta é a mudança da destra do Altíssimo (Sal. 76, 11), como se a Divindade,
considerada imutável, se houvesse mudado conforme o nosso aspecto e figura por
condescendência para com a debilidade da natureza humana. A mão do Legislador
tomou uma cor distinta da que lhe é natural ao ser tirada do peito; voltando
novamente ao peito, tornou à beleza que lhe era própria e natural. O Deus
Unigénito, o que está no seio do Pai (Jo. 1, 18), é a
direita do Altíssimo (Sal. 76, 11). Quando se manifestou a nós saindo do seio,
transformou-se conforme a nossa forma de ser; depois de haver curado nossa
enfermidade, novamente recolheu ao próprio seio, o seio da direita do Pai, a
mão que havia estado entre nós e que havia tomado nossa cor. Então não tornou
passível o que era de natureza impassível, mas por sua comunicação com o que
era impassível transformou em impassibilidade aquilo que era mutável e
passível. A transformação do bastão em serpente não há de perturbar os amigos
de Cristo como se tivéssemos que harmonizar a palavra do mistério com um animal
que lhe é oposto (Ex. 4, 3; 7, 10; Nm. 21, 9). A verdade mesma não afasta esta
imagem quando diz com a voz do Evangelho: Como Moisés levantou a serpente no
deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho do homem (Jo. 3, 14). O sentido é claro. Se o pai do pecado foi
chamado serpente pela Sagrada Escritura (Gn. 3, 1), e
o que nasce da serpente é verdadeiramente serpente, segue-se que o pecado tem o
mesmo nome daquele que o gerou. Pois bem, a palavra do Apóstolo dá testemunho
de que o Senhor se fez pecado por nós (2 Cor. 5, 21), ao revestir-se de nossa
natureza pecadora. O símbolo se acomoda ao Senhor como foi dito. De facto, se a
serpente é pecado e o Senhor fez-se pecado, a consequência que se segue será
evidente a todos: que quem se fez pecado, fez-se serpente, a qual não é outra
coisa senão pecado. Fez-se serpente por nós para comer e destruir as serpentes
dos egípcios produzidas pelos magos. Uma vez feito isto, a serpente
transforma-se novamente em bastão (Ex. 7, 12) com o qual são castigados os que
pecam, e são aliviados os que sobem o caminho escarpado da virtude, apoiando-se
no bastão da fé por meio das boas esperanças. A fé é, na verdade, a substância
das coisas que se esperam (Hb. 11, 1). Quem chegou ao entendimento destas coisas
é como um deus em relação àqueles que, seduzidos pela ilusão material e sem
substância, opõem-se à verdade e julgam coisa vã escutar falar a respeito do
ser. Pois disse o Faraó: Quem é ele para que eu escute a sua voz? Não conheço o
Senhor (Ex. 5, 2). O Faraó só julga digno
aquilo que é material e carnal, as coisas que caem sob as sensações
irracionais. Ao contrário, se alguém tiver sido fortalecido pela iluminação da
luz, e tiver recebido tanta força e tanto poder contra os adversários, então,
como um atleta convenientemente preparado por seu treinador nos varonis
exercícios do esporte, dispõe-se, confiante e audaz, para o ataque dos
inimigos, tendo na mão aquele bastão, isto é, o ensinamento da fé, com o que há
de triunfar sobre as serpentes egípcias. A mulher de Moisés, saída de um povo
estrangeiro (Ex. 4, 20), o acompanhará. Há algo nada desprezível da cultura
pagã para nossa união com ela com a finalidade de gerar a virtude. Com efeito,
a filosofia moral e a filosofia da natureza podem chegar a ser esposa, amiga e
companheira para uma vida mais elevada, com a condição de que os frutos que
procedem delas não conservem nada da imundície estrangeira. Pois se esta
sujeira não tiver sido circuncidada e cortada ao meio até o ponto em que todo o
daninho e impuro haja sido arrancado fora, o anjo que lhes sai ao encontro
causar-lhes-á um terror de morte. A mulher o aplaca mostrando-lhe seu filho
purificado pela ablação do sinal pelo qual se reconhece o estrangeiro (Ex. 4,
24-26). Julgo que a quem esteja iniciado na interpretação da história será
patente, por tudo que se disse, a continuidade do progresso na virtude que
mostra o discurso seguindo, passo a passo, a conexão dos acontecimentos
simbólicos da história.
CAPÍTULO 5
De facto, há algo carnal e incircunciso nos
ensinamentos gerados pela filosofia; quando isto é cortado, o que fica é de
pura razão judia. Por exemplo, a filosofia pagã disse que a alma era imortal.
Este é um fruto conforme à piedade. Porem ela ensina também que transmigra de
uns corpos a outros, e que passa da natureza racional para a irracional: isto é
uma incircuncisão carnal e estrangeira. E assim muitas outras coisas. Diz que
existe Deus, porém pensa que é material. Confessa que existe o demiurgo, porem que necessita de uma matéria prévia para fazer o
mundo. Concede que é bom e poderoso, porem que obedece
em muitas coisas à necessidade do destino. E se alguém se detivesse em cada
questão, poderia ver como, na filosofia pagã, os formosos ensinamentos se
encontram maculados com acréscimos absurdos que, se fossem cortados ao meio, o
anjo de Deus lhes seria propício, alegrando-se do fruto legítimo destes
ensinamentos. Mas temos que voltar à sequência do texto, de forma que também a
nós, que estamos perto da luta com os egípcios, nos saia ao encontro a ajuda
fraterna. Recordamos, com efeito, que desde o princípio da vida virtuosa tem
lugar para Moisés um encontro hostil e guerreiro: o do egípcio que oprimia o
hebreu e o do hebreu que lutava contra seu compatriota (Ex. 2, 11-15).
CAPÍTULO 6
Por outro lado, uma vez que por seu grande esforço e
pela iluminação que recebeu no cume se elevou à maior das acções da alma, tem
lugar um encontro amigável e pacífico, pois Deus moveu seu irmão para que
saísse a seu encontro (Ex. 4, 27). Se o que acontece na história for
interpretado em sentido alegórico, talvez não se encontre nada que seja alheio
a nosso propósito. A quem se dedica ao progresso na virtude, assiste uma ajuda
dada por Deus a nossa natureza, que é anterior a nós quanto a sua origem, mas
que se mostra e se dá a conhecer quando nos dispomos a combates mais fortes,
depois de havermos nos familiarizado suficientemente, com cuidado e diligência,
com a vida mais elevada. Para não explicar alguns enigmas por meio de outro
enigma, exporei mais claramente o sentido desta passagem. Existe uma doutrina
que merece credibilidade por pertencer à Tradição
dos Pais. Diz que, depois da queda de nossa natureza no pecado,
Deus não contemplou nossa desgraça indiferentemente, mas que colocou perto,
como ajuda para a vida de cada um, um anjo que recebeu uma natureza incorpórea
(Mt. 18, 10- 11); e que em oposição, o corruptor da
natureza maquinou algo parecido, danificando a vida do homem mediante um
demónio perverso e malvado. Como consequência, o homem encontra-se entre esses
dois que o acompanham com propósitos contrários, e pode por si mesmo fazer
triunfar um ou outro. O bom mostra ao pensamento os bens da virtude como são
contemplados em esperança por aqueles que agem rectamente; o outro mostra os
sujos prazeres nos que não existe nenhuma esperança de bem, pois inclusive o
prazer imediato, o que se apreende e se pega, escraviza os sentidos dos tontos.
Porém se alguém se afasta dos que induzem ao mal, dirige os seus pensamentos ao
melhor e volta as costas - por assim dizer - ao vício,
põe sua própria alma - que é como um espelho -, frente à esperança dos bens, e
assim imprime na pureza da própria alma as imagens e reflexos da virtude que lhe
é mostrada por Deus. É então que a companhia do irmão lhe sai ao encontro e o
assiste (Ex. 4, 27). Pela racionalidade e intelectualidade da alma humana,
pode-se, de certo modo, chamar irmão ao anjo. Este, como já dissemos, aparece e
socorre quando nos aproximamos do Faraó. Que ninguém pense que a narração da
história corresponde tão absolutamente com a ilação desta consideração
espiritual, que se encontrar algo do escrito que não concorda com esta
interpretação, por este algo que não concorda rechace o todo. Que tenha sempre
presente a finalidade de nossas palavras, a qual temos presente ao expor estas
coisas. Já adiantamos no prefácio a afirmação de que as vidas dos grandes
homens são colocadas como exemplos de virtude para a posteridade.
CAPÍTULO 7
Não é possível que aqueles que desejam imitá-los
passem pela mesma materialidade dos feitos. Como, de facto, poder-se-ia
encontrar novamente o povo que se multiplicou depois de sua emigração do
Egipto, e como se poder-se-ia encontrar também o tirano que o escravizou
comportando-se malvadamente com a descendência masculina e permitindo à
descendência mais branda e fraca aumentar até se converter em multidão, e assim
todas as outras coisas que aparecem na narração? Uma vez que podemos ver que,
na materialidade mesma dos feitos, não é possível imitar os gestos maravilhosos
destes bem aventurados, só havemos de transferir de seu acontecer material o
ensinamento moral daqueles acontecimentos que assim o admitam, dos que
oferecem, para quem se esforça por conseguir a virtude, algum estímulo até este
género de vida. E se, por força, algum dos factos que contêm a história sai da
ordem e da coerência com a interpretação que propusemos, passaremos por alto
como algo inútil e sem proveito para nossa finalidade. Desta forma
conseguiremos não interromper a exegese relativa à virtude. Digo isto pela
interpretação em relação a Aarão, prevendo uma objecção ao que segue. Com
efeito, alguém dirá que não repele o facto de que o anjo tenha semelhança com a
alma quanto à incorporalidade e à capacidade de entender; que não nega o facto
de que sua criação tenha tido lugar antes da nossa, nem que assista aos que
lutam contra os adversários; porem que não parece bem entender como imagem sua
a Aarão, que conduz os israelitas à idolatria. Antecipando a ordem do relato,
responderemos a isto com o que já dissemos: que um episódio estranho não
desvirtua a coerência dos demais factos, e que, se o mesmo nome designa o papel
do anjo e do irmão, se acomoda também a cada um segundo significados contrários.
Com efeito, não só se diz anjo de Deus, mas também de Satanás (2 Cor. 12, 7), e
chamamos irmão não só ao bom, mas também ao mau. A Escritura fala dos bons
quando diz: Os irmãos serão úteis na necessidade (Pr. 17, 17). E dos perversos
quando diz: Todo irmão prepara armadilha (Jr. 9, 3).
Após dizer isto a margem da ordem do discurso e deixando para seu lugar
adequado uma consideração mais profunda destas questões, voltemos aos temas que
nos propusemos. Moisés, fortalecido com a luz que o iluminou e tendo recebido
seu irmão como companheiro de luta e como ajuda, fala ao povo valentemente
sobre a liberdade, recordando-lhes a grandeza pátria, e lhes dá a conhecer como
poderão se livrar da fadiga do barro dos ladrilhos (Ex. 4, 29-31). Que nos
ensina a história com estas coisas? Que não se deve atrever a falar ao povo
aquele que não tiver cultivado sua forma de dizer com uma educação adequada
para dirigir-se a muitos. Não vês, de facto, como Moisés, quando ainda era
jovem, antes de crescer em capacidade, não foi aceite como digno conselheiro de
paz por aqueles dois homens que estavam lutando e agora, ao contrário, fala ao
mesmo tempo a milhares de pessoas? Podemos dizer que a história grita que não
te atrevas a propôr um ensinamento ou um conselho aos
ouvintes, se antes não tiveres adquirido autoridade nisto mesmo através de
muito estudo. Depois de pronunciar Moisés as mais valentes palavras e mostrar o
caminho da liberdade excitando nos ouvintes o desejo dela, o inimigo se irrita
e aumenta os sofrimentos dos que dão ouvido a estas palavras (Ex. 5, 6-14).
Tampouco isto é alheio ao que nos interessa agora.
CAPÍTULO 8
Muitos dos que acolheram a palavra que liberta da
tirania e se aproximaram da pregação são maltratados agora pelo inimigo com os
assaltos das tentações. Muitos destes se fazem mais provados e firmes na fé,
temperados pelo ataque dos que os combatem; ao contrário, alguns mais débeis
dobram o joelhos diante destes ataques dizendo
abertamente que é preferível para eles permanecer surdos à chamada da liberdade
que padecer tais dificuldades por causa dela. Isto mesmo ocorreu então devido à
pusilanimidade dos israelitas, que acusaram os que os aconselhava o meio de
escapar da escravidão. Porem não por isso cessará a palavra de atrair para o
bem, ainda que o imaturo, infantil e imperfeito de entendimento, por sua
inexperiência, se assuste ante as tentações. Isto é o que o demónio tenta
contra os homens: busca ferir e corromper. Que quem está sujeito a ele não olhe
para o céu, mas que incline-se para a terra e faça ladrilhos com lama dentro de
si mesmo. De facto, é patente a todo mundo como o que pertence ao prazer
material deriva da terra e da água, quer se olhe para os desejos do ventre e da
gula ou quanto se refere à riqueza. A mistura destes elementos é - e se chama justamente - barro. Quantos avidamente se
enchem dos prazeres do barro, não conseguem manter cheia sua ampla capacidade
para receber prazeres, pois uma vez cheia, de novo se torna vazia para aquilo
que flúi para dentro. Quem faz ladrilhos coloca sempre de novo outro barro no
molde que ficou vazio; parece-me que quem considera o apetite concupiscente da
alma, compreenderá facilmente este exemplo. De facto, quem dá satisfação á sua
paixão em qualquer das coisas pelas quais lutou, novamente se encontrará vazio
com relação àquilo mesmo, se é lançado pela paixão a alguma outra coisa. E ao
sentir-se satisfeito por esta coisa, encontrar-se-á de novo vazio e com
capacidade de desejar alguma outra coisa. E isto não cessará em absoluto de actuar
em nós, até que nos subtraiamos da vida material. A
cana e a palha que provem dela e que quem está submetido às ordens do tirano é
obrigado a misturar ao ladrilho, interpretamos conforme o Evangelho de Deus e
às palavras profundas do Apóstolo: ambos significam igualmente, a palha e a
cana, matéria para o fogo (Mt. 3, 12; 1 Cor. 3,
12-13). Quando algum dos que progridem na virtude quer atrair para uma vida
livre e plena de sabedoria aqueles que estão escravizados pelo engano, aquele
que, como diz o Apóstolo, seduz com ciladas variadas nossas almas (Ef. 6, 12), sabe opor os sofismas do engano à lei de Deus.
Tendo presente a Escritura, digo isto referindo-me às serpentes do Egipto, isto
é, às diversas maldades do engano, cuja aniquilação realiza a vara de Moisés
(Ex. 7, 10-12). Porém isto já está suficientemente considerado. Assim pois,
quem possui esta invencível vara da virtude que destrói as varas enganosas,
avança por um caminho contínuo até maiores prodígios. A realização dos
prodígios não tem lugar com a finalidade de ser admirada pelos que os vêem, mas
está dirigida ao aproveitamento dos que se salvam (2 Tim.
3, 16). Com estes prodígios da virtude, se afasta o que é inimigo e se
reconforta o que é da mesma estirpe. Conheçamos, em primeiro lugar, o
significado geral destes prodígios; depois talvez nos seja possível adaptar
analogicamente este conhecimento a cada um deles em particular.
CAPÍTULO 9
O ensinamento da verdade é acolhido segundo as
disposições dos que recebem a palavra. De facto, a palavra mostra a todos o que
é bom e o que é mau. Pois bem, quem é dócil àquilo que lhe é mostrado tem a
mente na luz, enquanto que quem tem a disposição contrária e não aceita que a
alma olhe para a luz da verdade permanece na obscuridade da ignorância. Se a
interpretação que demos ao conjunto da passagem não estiver errada, então a
interpretação dada a cada um dos detalhes não lhe será totalmente oposta, pois
a exegese de cada um deles está compreendida no conjunto. Portanto, não há nada
de estranho em que o hebreu permanecesse incólume diante das pragas dos
egípcios, embora estivesse vivendo no meio desses estrangeiros, posto que
também agora é possível ver que sucede a mesma coisa. De facto, estando
divididos os homens nas grandes cidades entre doutrinas contrárias, para uns a
água do manancial da fé é potável e límpida, e a conseguem mediante o
ensinamento divino, enquanto a água se torna sangue corrompido para aqueles que
se converteram em egípcios por causa de suas perversas opiniões (Ex. 7, 20).
Muitas vezes os sofistas do erro rondam também a água dos hebreus para
convertê-la em sangue com a contaminação da mentira, isto é, para mostrar-nos
que nossa doutrina não é como é, porém não conseguem corromper totalmente a
água, embora a superfície fique avermelhada por causa do erro. Ainda que esteja
caluniada pelos inimigos, o hebreu bebe água verdadeira, sem prestar atenção à
aparência de erro. O mesmo cabe dizer da espécie de rãs (Ex. 8, 1-6), ruidosa e
maléfica, que se introduz sub-repticiamente nas casas, habitações e dispensas
dos egípcios, sem chegar a tocar a vida dos hebreus: sua vida é anfíbia, seu
salto rasteiro; é repugnante não só por seu aspecto como também pelo fedor de
sua pele. Os desastrosos frutos da maldade que surgem do coração sujo dos
homens como gerados no pântano, são certamente como
uma espécie de rãs. Estas rãs habitam as casas de quem se fez egípcio por
escolha de seu estilo de vida; se deixam ver às mesas, não abandonam os leitos
e se introduzem nas dispensas onde se guardam as coisas. Considera a vida suja
e desavergonhada, nascida de um verdadeiro limo pantanoso, que, ao imitá-lo, se
assemelha à natureza irracional. Falando com rigor, em seu estilo de vida, não
pertence a nenhuma das duas naturezas, pois é homem segundo sua natureza, porem
se transformou em besta por sua paixão. Por esta razão mostra em si mesma aquele modo de vida anfíbio e ambíguo. E assim
encontrarás nessa vida os sinais desta praga, não só nos leitos, mas também nas
mesas, nas dispensas e em toda a casa. Um homem assim deixa, por onde quer que
vá, o rastro de sua vida dissoluta, de forma que todos podem distinguir
facilmente a vida do homem licencioso da vida do homem puro, inclusive na
decoração da casa. De facto, na casa do impuro, sobre o reboco das paredes,
encontra-se pinturas feitas com habilidade, que, ao trazer à memória as formas
da debilidade, excitam ao prazer sensual e introduzem as paixões na alma
através da contemplação de coisas vergonhosas, enquanto que na casa do sábio,
pelo contrário, há todo o cuidado e cautela para manter a vista livre de
espectáculos obscenos. Do mesmo modo a mesa do sábio se encontra limpa,
enquanto que a do que se espoja em uma vida lodosa está suja como as rãs, e
transbordante de comidas. E assim se entrasses nas dispensas, isto é, nas
coisas ocultas e reservadas de sua vida, encontrarias ali, nas intemperanças,
um montão ainda maior de rãs. A história diz que o bastão da virtude fez estas
coisas contra os egípcios. Não nos desconcertemos por esta forma de falar.
Também diz a história que o tirano foi endurecido por Deus (Ex. 9, 12; Rm. 9,
17- 18). Como seria digno de condenação aquele que tivesse sido feito duro e refractário por uma
força irresistível vinda do alto? O divino Apóstolo diz a mesma coisa: Posto
que não tivessem por bem guardar o verdadeiro conhecimento de Deus, Deus os
entregou às paixões vergonhosas (Rm. 1, 28 e 26), falando dos pederastas e de
quantos se envilecem com as diversas formas vergonhosas e inconfessáveis da
vida dissoluta. Porém, embora seja verdade que a Divina Escritura expressa-se
dizendo que Deus entregou às paixões vergonhosas aqueles que se entregaram a
elas, nem o Faraó se endureceu por querer divino, nem a vida sórdida, própria
das rãs, é causada pela virtude. De facto, se a Divindade tivesse querido isto,
tal querer teria tido absolutamente a mesma força sobre todos, de forma que
jamais se poderia estabelecer diferença alguma entre virtude e vício. Ao
contrário, uns e outros, os que são dirigidos pela virtude e os que caem no
vício, vivem de formas diferentes, e ninguém poderá, racionalmente, atribuir a
uma fatalidade estabelecida pelo querer divino estas diferenças no modo de
viver, que surgem exclusivamente da livre escolha de cada um.
CAPÍTULO 10
Vejamos claramente pelo Apóstolo quem é o entregue à
"paixão vergonhosa": quem não quis guardar o verdadeiro conhecimento
de Deus (Rm. 1, 28). Não significa que Deus o entrega à paixão para castigá-lo
por não ter querido conhecê-lo, mas que o não falar reconhecido a Deus se
converte para ele em motivo de cair em uma vida sensual e vergonhosa. É como se
alguém dissesse que o sol fez cair uma pessoa no buraco porque não o viu. Nós
não pensaríamos que o astro, cheio de ira, tenha lançado no buraco quem não o
tenha querido ver, senão que esta expressão deve ser entendida correctamente no
sentido de que a privação de luz tenha sido a causa da queda no buraco daquele
que não o viu. Talvez seja esta a forma correcta de entender as palavras do
Apóstolo: que os que não tinham o conhecimento de Deus foram entregues às
paixões vergonhosas e que o tirano egípcio foi endurecido por Deus, não como se
a dureza tivesse sido introduzida no coração do Faraó pelo querer divino, mas
sim no sentido de que por livre escolha, por sua inclinação para o mal, não
acolheu a palavra que abranda a dureza. Também é assim com o bastão da virtude
ao mostrar-se ante os egípcios, faz o hebreu livre da vida das rãs e, ao
contrário, mostra o egípcio cheio desta praga. Chega então um momento
CAPÍTULO 11
Aqui fundamenta-se especialmente a lógica da
interpretação que demos: que não é uma irresistível força do alto que leva um a
estar nas trevas e outro na luz, senão que nós homens temos dentro de nós, na
nossa natureza e em nossa livre escolha, as causas da luz e da escuridão,
convertendo-nos naquilo que queremos. Segundo a história, os olhos dos egípcios
não se encontravam nas trevas porque estivesse interposta uma montanha ou uma
muralha que obscurecesse a vista ou os raios do sol, mas porque enquanto o sol
iluminava todas as coisas com seus raios, os hebreus gozavam da luz, e os
egípcios eram insensíveis a este dom. Assim, embora a vida luminosa se
apresente igualmente acessível a todos, os que caminham nas trevas são
empurrados à obscuridade do mal por suas práticas perversas, enquanto os outros
são iluminados pela luz da virtude. Depois de terem sofrido três dias nas
trevas, os egípcios também recebem parte na luz. Talvez alguém, apoiando-se
nisto, dirija sua interpretação à restauração que, depois destas coisas,
esperam o reino dos céus os que estão condenados ao inferno. De facto, estas
trevas que se pode apalpar (Ex. 10, 21) como diz a história, tem grande
afinidade na palavra e no sentido com as trevas exteriores (Mt.
8, 12). Dissipam-se uma e outra quando Moisés, como explicamos anteriormente,
estende as mãos sobre os que estão nas trevas. Da mesma forma, aquela cinza de
forno que, segundo a palavra produzia dolorosas pústulas nos egípcios, poderia
ser interpretada, dado o simbolismo do termo forno, como o castigo do fogo do
inferno com que se ameaça e que só fere os que vivem à maneira dos egípcios
(Ex. 9, 8; Mt 13, 42). Porém se alguém é
verdadeiramente israelita e filho de Abraão, e assemelha-se a ele em seu estilo
de vida a ponto de mostrar por sua opção pertencer à família dos eleitos, este
conserva-se livre daquela dolorosa cinza. O estender das mãos de Moisés,
segundo a interpretação que demos, converter-se-ia, inclusive para os outros,
em cura da enfermidade e em afastamento do castigo. E quanto àqueles leves
mosquitos que atormentam os egípcios com invisíveis picadas, aos insetos tavões que se cravam dolorosamente nos corpos com
suas mordidas, às lavouras destruídas pelos gafanhotos, às tempestades que se
precipitam do céu com pedras de granizo, talvez ninguém, se seguiu as
explicações das pragas precedentes, encontre dificuldade para ajustar a
interpretação correspondente a cada uma destas pragas. Todas estas coisas são
causadas primeiramente pela livre decisão egípcia e são executadas pela justiça
imparcial de Deus que se acomoda ao que merecem as diversas opções.
CAPÍTULO 12
Assim pois, não pensemos, por nos atarmos à letra da
narração, que Deus é a causa dos sofrimentos dos que os mereceram, mas que cada
um é autor de suas próprias desditas, ao preparar para si, com uma escolha
adequada um cúmulo de dores, como diz o Apóstolo a um homem desta classe: Pela
dureza e impenitência de teu coração vais entesourando contra ti ira para o dia
da ira e da revelação do justo juízo de Deus, o qual dará a cada um segundo
suas obras (Rm. 2, 5-6). De facto, se por um excesso na comida gera-se nos
intestinos um humor bilioso e daninho, e o médico o expulsa provocando o vómito
com sua técnica, não se atribui a ele - senão à
desordem na comida - a causa de introduzir o humor nocivo nos corpos: a ciência
médica só o fez visível. Da mesma forma, quando se diz que provem de Deus a
dolorosa retribuição aos que usaram perversamente sua liberdade, é bom
reconhecer que estes padecimentos têm sua origem e sua causa
CAPÍTULO 13
Avancemos com a continuação do texto, tendo bem presente o que já explicamos: que o mesmo Moisés
ou aquele que a sua imitação se eleva na virtude, depois de haver fortalecido
sua alma com uma prolongada vida elevada e recta, e com a iluminação recebida
do alto, considera como uma injustiça de sua parte não guiar seus compatriotas
a uma vida livre. Moisés saindo a seu encontro infunde-lhes um desejo mais
forte de liberdade pondo diante deles a gravidade dos padecimentos. A quando
está perto de libertar seu povo do mal, traz a morte a todo primogénito egípcio
(Ex. 12, 29), indicando-nos deste modo que é necessário destruir o mal em seu
primeiro broto, pois do contrário é impossível escapar da vida egípcia. Parece-me
importante não deixar passar este pensamento sem reflectir sobre ele. Pois se
alguém considerar só o sentido literal, como poderá manter uma interpretação
digna de Deus nos acontecimentos narrados? É injusto o egípcio e em seu lugar é
castigado seu filho recém-nascido que por sua tenra idade não pode distinguir
entre o bem e o mal. Sua vida é alheia à paixão malvada, pois a infância não dá
lugar à paixão, nem estabelece diferença entre a direita e a esquerda;
unicamente ergue os olhos ao peito de sua nutris, para expressar sua dor só
dispões de suas lágrimas e, se consegue o que deseja sua natureza, mostra sua
alegria com um sorriso. Onde está a justiça, se este cumpre o castigo pela
maldade paterna? Onde a piedade? Onde Ezequiel clamando que a alma que peca,
esta morrerá e não será responsável o filho, mas o pai (Ez.
18, 20)?
CAPÍTULO 14
Como pode a história estabelecer uma lei contrária à
razão? Considerando a interpretação espiritual, não será mais razoável crer que
isto sucede como figura e que, através do que foi dito, o Legislador quis
propor um ensinamento? O ensinamento é este: que quem se empenha na luta da
virtude contra o vício deve fazê-lo desaparecer em seus primeiros brotos. De
facto, com a destruição dos primeiros brotos, se destrói também o que lhes
segue em continuação, como nos ensina o Senhor no Evangelho, ordenando quase
com as mesmas palavras destruir os primogénitos dos vícios egípcios; exorta-nos
assim a cortar a concupiscência e a ira (Mt. 5,
22.28), e a não ter medo nem da sujidade do adultério, nem da mancha do
homicídio, pois nenhum destes males tem consistência por si mesmo, mas que é a
cólera que leva a cabo o homicídio e o desejo é que conduz ao adultério.
Precisamente porque aquele que engendra o mal, antes do adultério produziu o
desejo e antes do crime produziu a cólera, quem destrói o primogénito destrói
totalmente a descendência que segue o primogénito, do mesmo modo que quem
golpeou a cabeça da serpente matou com o mesmo golpe o corpo que rasteja atrás.
Porem isto não poderia acontecer se previamente não tivessem sido borrifadas as
ombreiras das portas com aquele sangue que afugenta o Exterminador (Ex. 12,
23). E se queremos captar com maior exactidão o sentido de quanto se diz, a
história no-lo insinua através destas coisas: através da morte do primogénito e
através da protecção da entrada com o sangue. Ali, com efeito, se destrói o
primeiro movimento do mal e aqui mesmo, pelo verdadeiro cordeiro, se afasta a
primeira entrada do mal
CAPÍTULO 15
Assim é que Moisés tira o povo do Egipto. Do mesmo
modo, todo o que segue as pegadas de Moisés livra da tirania egípcia a todos
aqueles a quem chega a palavra. Penso que os que seguem a quem os conduz à
virtude não devem ser privados da riqueza egípcia, nem carecer dos tesouros
estrangeiros, mas devem levar consigo todas as coisas que pertencem a seus
adversários por empréstimo. Isto é o que Moisés manda o povo fazer (Ex. 12,
35-36). Que ninguém, tomando isto ao pé da letra, entenda o propósito do
Legislador como se ele mandasse despojar os ricos e se convertesse assim em
condutor da injustiça. Ninguém que considere atentamente as leis que seguem em
continuação proibindo a injustiça contra os que estão perto, tanto aos que
estão acima como aos que estão abaixo, diria na verdade que o Legislador
tivesse ordenado isto, ainda que a alguns pareça ser justo que, com este
subterfúgio os israelitas paguem a si mesmos os salários pelos trabalhos
prestados aos egípcios. Com efeito, uma ordem assim não estaria livre da
acusação de não estar limpa de mentira e engano. De facto, quem toma uma coisa
emprestada, e sendo alheia não a devolve a seu dono, comete injustiça por
privá-lo dela; e se esta coisa é sua, ao menos é chamado mentiroso por enganar
a quem a tinha com a esperança de tirar proveito. Por esta razão, mais
apropriada que a interpretação literal, é a interpretação espiritual que exorta
aqueles que buscam uma vida livre através da virtude a abastecer-se com a
riqueza estrangeira na qual se glorificam os que são alheios à fé. Assim ocorre
com a ética, a física, a geometria, a astronomia, a dialéctica e todas as
demais ciências que são cultivadas por quem não pertence à Igreja. O guia da
virtude exorta a tomá-las de quem, no Egipto, as possui em abundância, e a
usá-las quando forem necessárias a seu tempo, quando seja necessário embelezar
o divino templo do mistério com as riquezas da inteligência. Na verdade,
aqueles que haviam entesourado para si esta riqueza a apresentaram a Moisés
quando trabalhava na construção da tenda do testemunho, prestando cada um sua
contribuição para a preparação das coisas santas. Podemos ver que isto também
ocorre hoje. Muitos apresentam à Igreja de Deus, como um dom, a cultura pagã.
Assim fez o grande Basílio que adquiriu formosamente a riqueza egípcia no tempo
de sua juventude, a dedicou a Deus, e embelezou com esta riqueza o verdadeiro
tabernáculo da Igreja.
CAPÍTULO 16
Voltemos ao ponto em que estávamos. Aqueles que já
avistam a virtude e seguem o Legislador em seu estilo de vida, quando abandonam
os limites do domínio dos egípcios, são perseguidos pelos ataques das tentações
que provocam ansiedades, medos e perigos em relação ao êxito final. Assustada
por estas coisas, a alma dos principiantes na fé cai em completa desesperança
em conseguir os bens. Porém, se Moisés ou alguém como ele se encontra à
liderança do povo, ao medo se oporá o conselho, reconfortando a alma em seu
desfalecimento com a esperança da ajuda divina. Mas isto não ocorrerá se o
coração de quem está na liderança não fala com Deus. De facto, a muitos que
estão colocados nesta posição só preocupa a maneira como se encontra organizado
o que se vê, enquanto que as coisas que estão ocultas, que só são vistas por
Deus, lhes produzem um cuidado pequeno. Não foi assim com Moisés. Quando
exortava os israelitas a terem confiança, mesmo não pronunciando exteriormente
nenhuma palavra dirigida a Deus, o próprio Deus testemunha que gritou (Ex. 14,
13-15), ensinando-nos a Escritura - penso - que a voz
que é sonora e sobe aos ouvidos divinos não é o clamor que tem lugar com vozes,
mas o pensamento interior que sobe de uma consciência pura. A quem se encontra
nesta situação, parece pequeno o irmão como ajuda para as maiores batalhas,
refiro-me àquele irmão que saiu ao encontro de Moisés quando, conforme o
mandado de Deus, se dirigia aos egípcios, e a quem nosso discurso apresentou em
seu ministério de anjo (Ex. 4, 27). Agora tem lugar a manifestação do Ser
transcendente, que se mostra de modo que possa ser captado por quem o recebe.
Conhecemos pela história que isto aconteceu então e sabemos pela interpretação
espiritual que isto ocorre sempre. De facto, cada vez que alguém foge do
egípcio e, ao chegar fora de seus territórios, se assusta ante os ataques das
tentações, e quando o inimigo rodeando com suas forças o perseguido só lhe
deixa disponível o mar, o guia, isto é, a nuvem, lhe mostra a salvação
imprevista que vem de cima. Até ali, ao mar, o conduz o guia, quer dizer, a
nuvem (Ex. 13, 21). Os que nos precederam interpretaram este nome dado ao guia
como a graça do Espírito Santo que conduz ao bem os que são dignos. O que a
segue atravessa a água, enquanto o guia lhe abre nela uma passagem estreita
através da qual se realiza um caminhar seguro até a liberdade, onde desaparece
debaixo da água aquele que o perseguia para escravizar. Quem ouve isto, talvez
reconheça o mistério da água a que alguém desce junto com todo o exército do
inimigo e da qual emerge só, depois de se afogar na água o exército inimigo
(Ex. 14, 26-30). Pois quem desconhece que o exército egípcio significa as
diversas paixões da alma às quais se escraviza o homem? Isto são os cavalos,
isto são os carros e os que estão montados neles; isto são os arqueiros, e os
infantes e o resto do exército dos inimigos (Ex. 14, 9). De facto, em que se
diria que os movimentos de cólera ou os impulsos ao prazer, à tristeza e à
avareza diferem do exército que acabamos de mencionar? A afronta é pedra
lançada pela funda, e o ataque de cólera é lança que agita sua ponta, enquanto
que os cavalos que puxam os carros com impulso irrefreável podem ser entendidos
como o afã de prazeres. Nos três homens montados no carro -
a quem a história chama tristates (Ex. 14, 7) -, e que são levados por ele,
reconhecerás, instruído pelo simbolismo do montante e das ombreiras das portas,
a tríplice divisão da alma, pensando no racional, no concupiscível e no
irascível.
CAPÍTULO 17
Todas estas coisas e quantas lhes são afins,
precipitam-se na água perseguindo os israelitas junto com o promotor do
perverso ataque. Porém a água, posto que o bastão da fé e a nuvem luminosa usam
como guia, se converte em fonte de vida para os que se refugiam nela e em
destruição dos perseguidores. A história nos ensina através disto, como convém
que sejam os que atravessam a água. Quando alguém emerge da água não deve
conservar consigo nada do exército inimigo. Se o inimigo emergisse juntamente
com ele, este permaneceria em escravidão ainda depois da água, ao haver feito
emergir vivo consigo o tirano, ao que não afogou no abismo. Isto quer dizer, se
explicarmos abertamente o simbolismo aproximando-o de um significado mais
claro, que é necessário que quantos, no baptismo,
passam através da água sacramental, façam morrer na água todo o exército do
vício: a avareza, o desejo impuro, o espírito de rapina, a tendência à soberba
e à prepotência, o impulso à violência, a ira, o rancor, a inveja, os ciúmes e
todas essas coisas. Posto que, de alguma forma, as paixões seguem a natureza
humana, devemos afogar na água inclusive os maus movimentos da alma e suas
sequelas. No mistério da Páscoa, este é o nome da vítima cujo sangue preserva
da morte quem se vale dela, sucede o mesmo. Recomenda-se que coma pão ázimo na
Páscoa. Ázimo é o que não está misturado com o fermento do dia anterior (Ex.
13, 6; 1 Cor. 5, 7-8). Através disto a Lei dá-nos a entender que não se deve
misturar nenhum resíduo de maldade com a vida nova, mas que comecemos a vida
nova com um começo novo, rompendo a cadeia dos pecados com a conversão ao bem.
Por esta razão quer que afoguemos no baptismo salvador -
como no baptismo do mar - toda pessoa egípcia, isto é, toda forma de maldade, e
que devemos emergir sós, sem arrastar connosco em nossa vida nenhum
estrangeiro. Isto é o que aprendemos com a história quando diz que na mesma
água se distingue o inimigo e o amigo com a morte e com a vida: o inimigo é
destruído, o amigo é vivificado (Ex. 14, 27-30). Muitos dos que receberam o
sacramento do baptismo, por desconhecimento dos preceitos da lei, misturaram a
levedura do vício, já abandonada, à vida nova, e, depois de ter atravessado a
água, em sua forma de viver levam consigo, vivo, o exército egípcio. Com
efeito, quem antes do dom do baptismo se havia enriquecido com a injustiça ou a
rapina, ou adquiriu alguma terra com perjúrio, ou coabitava com uma mulher em
adultério, ou qualquer das demais coisas proibidas, pensa que mesmo que depois
do baptismo continue a gozar das coisas que adquiriu perversamente, permanece
livre da escravidão dos pecados, sem perceber que se encontra escravizado por perversos
senhores. Pois a luxúria é um dano cruel e furioso, que atormenta a alma
submetida a sua escravidão com os prazeres como se fossem látegos. Um tirano
semelhante é a avareza, que não permite nenhum descanso a seu escravo, senão
que por muito que trabalhe obedecendo as ordens de seu dono e ganhando para ele
o que ambiciona, sempre o incita a mais. E todas as outras coisas que se fazem
impulsionados pela maldade constituem uma serie de
tiranos e donos. Se alguém lhes obedece, ainda que haja passado através da
água, apesar disso - é meu parecer -, não tocou na
água sacramental cuja obra é a destruição dos perversos tiranos.
CAPÍTULO 18
Voltemos à continuação do relato. Quem atravessou o
mar que já nos é conhecido, e viu em si mesmo perecer o egípcio, não só olha
para Moisés como guia da virtude, como, sobre tudo, crê em Deus como diz o
texto da história (Ex. 14, 17). Confia também em Moisés, seu servidor. Vemos
que também hoje sucede isto com quem verdadeiramente atravessou a água: estes
se entregaram a Deus e, como diz o Apóstolo, confiam nos que em razão do
sacerdócio cuidam das coisas divinas, e lhes obedecem (Hb. 13, 17). Depois da
passagem do mar, segue-se uma marcha de três jornadas (Ex. 15, 22) durante a
qual, acampados em um lugar, acharam água que, a principio, não parecia potável
por causa de seu amargor; porem o bastão, sendo arrojado na água, converteu o
líquido em potável para os que estavam sedentos (Ex. 15, 23- 25). A narração
está conforme com o que agora também sucede. A princípio, a vida afastada dos
prazeres parece desagradável e insossa a quem abandonou os prazeres egípcios
que o escravizavam antes de atravessar o mar. Porém se o madeiro, isto é, o
mistério da ressurreição, que teve começo por meio do madeiro, é arrojado à
água, - ao ouvir madeiro entenderás evidentemente a
cruz -, então a vida virtuosa, adoçada com a esperança dos bens futuros,
converte-se em mais doce e agradável que toda doçura que acaricia os sentidos
com o prazer. A etapa seguinte da marcha, amenizada com palmeiras e fontes,
repara o cansaço dos caminhantes. São doze as fontes de água, de corrente limpa
e gratifica; setenta as palmeiras, grandes e frondosas, pois o tempo havia
feito crescer as árvores (Ex. 15, 27). Que encontramos nestas coisas, ao seguir
o fio da narração? Que o mistério do madeiro, pelo qual a água da virtude se
torna potável para os que têm sede, nos atrai com doze fontes e setenta
palmeiras, isto é, com o ensinamento do Evangelho. Nele, as fontes são os doze
Apóstolos que o Senhor escolheu para esta graça, fazendo brotar a palavra
através deles como fontes, de forma que um dos profetas anunciou assim a graça
que mana deles: Bendizei a Deus, o Senhor, nas assembleias, os das fontes de
Israel (Sal. 67, 27). As setenta palmeiras poderiam ser os apóstolos que, alem
dos doze discípulos, receberam a imposição das mãos por toda terra e que
numericamente são tantos como a história diz que eram as palmeiras.
CAPÍTULO 19
Penso que seja conveniente apressar a marcha do
discurso, pois com as poucas coisas que já consideramos facilitamos aos amantes
do esforço a reflexão sobre as etapas restantes. Estas etapas podem significar
as virtudes; quem avança ordenadamente seguindo a coluna de nuvem, acampa e
descansa nelas. Passando por alto as etapas intermediárias, recordarei em meu
discurso o prodígio da rocha, cuja natureza dura e sólida se converteu em
bebida para os que tinham sede, dissolvendo-se sua dureza na brandura da água
(Ex. 17, 6; Sal. 77, 15; 1 Cor. 10, 4). Não há nenhuma dificuldade em adaptar a
continuação do relato à consideração espiritual. Aquele que abandonou na água o
egípcio morto, e foi adoçado com o lenho, e gozou das fontes apostólicas
repousando à sombra das palmeiras, esse também já se fez capaz de receber a
Deus. Pois a pedra, como diz o Apóstolo, é Cristo, seca e resistente para os
que não crêem; porem se alguém aproxima o bastão da fé, converte-se em bebida
para os sedentos e flúi dentro de quem a recebe. Pois diz: Eu e meu Pai viremos
e faremos nele morada (Jo. 14, 23). Tampouco devemos
deixar de considerar isto: depois de atravessar o mar e ter sido adoçada a água
para os caminhantes da virtude; depois daquele delicioso acampamento junto às
fontes e às palmeiras, e depois de beber da pedra se ter esgotado totalmente as
provisões trazidas do Egipto, caiu do alto sobre eles
um alimento simples e ao mesmo tempo variado. De facto, seu aspecto era
simples, porém a sua qualidade era variada, acomodando-se convenientemente a
cada um segundo a natureza de seu desejo (Ex. 16, 2-16). Que aprendemos com
isto? Aprendemos com que purificação convém que cada um se limpe da vida
egípcia e estrangeira até o ponto de esvaziar totalmente o odre da própria alma
de todo o alimento impuro preparado pelos egípcios, e receber assim, com alma
limpa, em um só, o alimento que vem do alto: um alimento que não se fez brotar
para nós de uma semente mediante seu cultivo, senão que é um pão preparado, sem
semente e sem cultivo, que, descendo do céu, aparece sobre a terra. Pelo
simbolismo da narração sabes perfeitamente qual é este alimento verdadeiro. O
pão que desce do céu (Jo. 6, 51; 6, 31) não é uma
coisa sem corpo. Pois como poderia uma coisa incorpórea converter-se em
alimento para o corpo? O que não é incorpóreo, evidentemente, é corpóreo. Pois
bem, o corpo deste pão não foi produzido pela terra, nem pela semente, mas a
terra, permanecendo tal qual é, encontra-se cheia deste divino alimento que
recebem os que têm fome, havendo conhecido previamente o mistério da Virgem
através deste prodígio. Este pão, não produzido pelo cultivo da terra, é também
a palavra que, graças à diversidade de suas qualidades, adapta sua força às
capacidades dos que comem (Sb. 15, 21).
CAPÍTULO 20
Na verdade, não só tem sabor de pão, como se
converte também em leite e em carne e em legumes e em tudo aquilo que se adapte
e seja apetecível para quem o recebe, como ensina o divino apóstolo Paulo, que
preparou aos seus uma mesa assim, convertendo a palavra em comida sólida e de
carne para os mais perfeitos, em legumes para os mais frágeis, e em leite para
as crianças (Rm. 14, 2; 1 Cor. 3, 2; Hb. 5, 12). As maravilhas que nos mostra a
história em torno daquele alimento são ensinamentos para a vida virtuosa. Pois
diz que a todos se oferecia uma participação igual no alimento, e que a
diferença de forças em quem o recolhia não implicava em excesso ou em falta do
necessário. Isto, a meu ver, é um conselho oferecido a todos: que quem procura
as coisas materiais necessárias para viver não ultrapasse os limites da
necessidade, mas que saiba bem que, para todos, a medida natural do alimento é
a satisfação da necessidade diária. Ainda que se preparem muito mais coisas que
o necessário, o estômago não tem uma natureza capaz de ultrapassar suas
próprias medidas, nem de se dilatar conforme a abundância do preparado, mas
que, como diz a história, nem o que colhia mais tinha de sobra, não tinha, de
facto, onde guardar a sobra, nem o que colhia pouco estava desprovido, pois a
necessidade reduzia-se acomodando-se ao encontrado. Enquanto para os que
guardavam o supérfluo, o excesso convertia-se em viveiro de vermes. Com isto a
Escritura indica de algum modo aos avarentos que todo o supérfluo amontoado
pela paixão da avareza, no dia seguinte, isto é, na vida futura, converter-se-á
em vermes para quem o reuniu. Ao ouvir isto, sabes perfeitamente que com este
verme se designa o verme que não tem fim, gerado pela avareza. O facto de que o
guardado só conserve-se livre da corrupção no sábado introduz um conselho: que
existe um tempo em que convém utilizar o trabalho de possuir aquelas coisas
que, entesouradas, não se corrompem; elas nos serão proveitosas quando, havendo
concluído esta vida de preparação, depois da morte, nos encontremos no
descanso. Não é por acaso que o dia anterior ao sábado é chamado - e é realmente - parasceve, dia de preparação para o
sábado.
CAPÍTULO 21
Este dia é esta vida na qual nos preparamos as
coisas da vida futura. Nela, nenhum dos trabalhos que realizamos agora é
factível: nem a agricultura, nem o comércio, nem a milícia, nem nenhum outro trabalho
no qual agora nos afanamos, senão que vivendo em um total repouso destes
trabalhos, recolheremos os frutos das sementes que tivermos semeado durante
esta vida. Frutos incorruptíveis, se eram boas as
sementes desta vida; corruptíveis e funestos, se assim no-las houver produzido
a lavoura da vida. O que semeia para o espírito - diz
- do espírito recolherá vida eterna; o quee semeia para a carne, da carne
recolherá corrupção (Ga. 6, 8). Por esta razão, a Lei
chama parasceve com propriedade e só considera como tal a preparação para
melhor, desde que o que ela entesoura é incorrupção; seu oposto não é parasceve
e nem recebe este nome. Com efeito, ninguém chamaria com propriedade preparação
à privação do bem, senão falta de preparação. Por esta razão, a história
prescreve aos homens só a preparação endereçada ao melhor, dando a entender com
seu silêncio aos discretos, em que consiste o contrário. Da mesma forma que nos
alistamentos militares, o chefe da expedição entrega primeiro as provisões e
depois dá o sinal de guerra, assim também os soldados da virtude, depois de
haverem recebido a provisão mística, marcham para a guerra contra os
estrangeiros, dirigindo a batalha Josué, sucessor de Moisés. Vês com que
coerência prossegue a narração? Enquanto o homem está muito debilitado,
maltratado pela perversa tirania, não afasta por si mesmo o inimigo. Tampouco
pode. Outro é que se faz companheiro de combate dos fracos, o que fere o
inimigo com sucessivos golpes. Porem, uma vez que tenha sido libertado da
escravidão dos opressores, e tenha sido adoçado com o lenho, e tenha descansado
da fadiga no acampamento das palmeiras, e tenha reconhecido o mistério da
pedra, e tenha participado do alimento do céu, então não afasta o inimigo pelas
mãos de outro, mas como quem abandonou o tempo da infância e alcançou a altura
da juventude, ele mesmo luta corpo a corpo contra os adversários, sem ter já
como general Moisés, o servo de Deus, mas o próprio Deus do qual é servo Moisés
(Dt. 34, 5; Ex. 14, 31). Com efeito, a Lei, dada como
sombra e figura dos bens que estavam por vir (Hb. 8, 5), é inadequada para as
verdadeiras batalhas. Aquele que é a plenitude da Lei e sucessor de Moisés, que
foi prenunciado na igualdade de nome de quem então mandava, esse dirige agora a
batalha. O povo, quando vê levantadas as mãos do Legislador, avantaja-se sobre
o inimigo no combate; se as vê caídas, cede (Ex. 8, 5). Ter Moisés as mãos
elevadas significa a contemplação da Lei através do sentido espiritual; o
deixá-las cair para a terra, a pobre exegese presa ao solo, e a observação da
Lei segundo a letra. O sacerdote sustenta as mãos de Moisés que se tornaram
pesadas, ajudado neste trabalho por um membro da família. Nem mesmo isto é
alheio à coerência das coisas que estamos contemplando. De facto, o sacerdote
verdadeiro, graças à palavra de Deus que está unida a ele, conduz novamente
para o alto as energias da Lei, caídas à terra pelo peso da interpretação
judia, e apoia na pedra - como em um fundamento -, a
Lei que cai, de forma que esta, como sugere a figura formada pelas mãos
estendidas, mostra a quem as vê qual é seu sentido. Efectivamente, para aqueles
que sabem ver, o mistério da cruz aparece constantemente na Lei. Por esta razão
diz o Evangelho em algum lugar que não passará um jota
ou um til da lei (Mt. 5, 18), significando com isto o
traço horizontal e o acento perpendicular com que se desenha a figura da cruz.
Essa mesma cruz, mostrada então em Moisés - que é
figura da Lei -, se erguia como bandeira e causa de vitória para os que a
olhavam.
CAPÍTULO 22
A narração conduz nossa consideração, uma vez mais,
ao mais alto da virtude em uma contínua subida. Aquele que foi fortalecido pelo
alimento, e mostrou sua força na luta corpo a corpo com os inimigos, e venceu
seus oponentes, é levado agora àquele inefável conhecimento de Deus, àquela
teognosia. A narração nos ensina com isto, quais e quantas coisas é necessário
ter chegado a bom termo na vida para nos atrevermos a aproximar-nos, com o
pensamento, da montanha da teognosia, suportar o fragor das trombetas, penetrar
nas trevas onde está Deus, gravar nas tábuas os divinos mandamentos e se, por
causa do pecado, se quebrarem aquelas tábuas, apresentar de novo a Deus as
tábuas polidas a mão, para que os caracteres que foram destruídos nas primeiras
sejam desenhados novamente pelo dedo divino. Talvez seja melhor adaptar nosso
conhecimento à interpretação espiritual, seguindo passo a passo a ordem da
narração. Quem segue Moisés e a nuvem, pois ambos servem de guia aos que
avançam na virtude, Moisés representaria aqui os preceitos da Lei, e a nuvem a
interpretação espiritual da Lei que nos serve de guia, quem com mente
purificada na passagem da água depois de haver matado e apartado de si o que
era estrangeiro experimentou a água de Mara, isto é, a água da vida afastada
dos prazeres, a qual primeiro parece amarga e sem sabor aos que a experimentam,
porem regala com uma sensação doce a quem aceitou o lenho; quem depois disto se
deleitou com a beleza das palmeiras e das fontes evangélicas e da água viva (Jo. 4, 11) que é a pedra; quem foi saciado recebendo em si
mesmo o pão do céu (Jo. 6, 32) e lutou valentemente
contra os estrangeiros, cuja vitória foi causada pelas mãos levantadas do
Legislador que prefiguram o mistério da cruz, este é levado à contemplação da
natureza que tudo transcende. O caminho que o conduz a este conhecimento é a
limpeza, não só do corpo, purificado com algumas aspersões, mas também a das
vestes, lavadas de toda mancha com água. Isto significa que é necessário que
quem está a ponto de ascender à contemplação dos seres esteja completamente
limpo, de forma que seja puro e sem mancha na alma e no corpo, havendo lavado
as manchas igualmente de uma e de outro. Assim apareceremos puros a quem vê o
secreto (Mt. 6, 4) e o decoro exterior estará de acordo
com a disposição interna da alma. Por ordem de Deus, as vestes são lavadas
antes de subir a montanha (Ex. 19, 10), indicando-nos com o simbolismo das
vestimentas o decoro exterior da vida. Com efeito, ninguém diria que uma mancha
exterior do vestido se converte em obstáculo para a subida de quem se aproxima
de Deus, a menos que com vestido se aluda convenientemente -
penso - ao exterior das ocupações desta vida. Feito isto, e havendo afastado da
montanha o mais possível o rebanho dos irracionais, Moisés empreende a ascensão
aos mais altos conhecimentos (Ex. 19, 13). O não ter permitido a nenhum ser
irracional aparecer na montanha significa, a meu ver, que na contemplação das
realidades espirituais se transcende o conhecimento que provem da sensibilidade.
De facto, é próprio dos seres irracionais deixar-se guiar pelos sentidos sem reflectir.
O sentido da visão é o guia dos sentidos; muitas vezes o ouvido desperta o
impulso para alguma coisa. Todas as coisas através das quais se activa a
sensibilidade, têm um amplo espaço nos irracionais. Ao contrário, a
contemplação de Deus não tem lugar nem no âmbito do que se vê, nem no âmbito do
que se ouve. Não se prende e nenhum dos conceitos habituais. Nem o olho viu,
nem o ouvido ouviu. Não consiste em nenhuma das coisas que ordinariamente sobem
até o coração do homem (1 Cor. 2, 9). Quem tenta ascender ao conhecimento das
coisas do alto, deve limpar previamente seus costumes de todo impulso sensível
e irracional, purificar qualquer opinião proveniente de um preconceito anterior
ao pensamento, e afastar-se da relação ordinária com a própria companheira,
isto é, com a sensibilidade que, de certa forma, está unida a nossa natureza
como esposa e companheira. E purificado dela, enfrentar assim a montanha.
CAPÍTULO 23
A montanha verdadeiramente escarpada e de difícil
acesso designa o conhecimento de Deus: a teologia. A turba apenas alcança
chegar trabalhosamente até sua base. Porém, se se trata de algum Moisés, talvez
suba um grande trecho, suportando no ouvido o fragor das trombetas que, como
diz o texto da narração, se faz mais forte quanto mais se avança (Ex. 19, 19).
Efectivamente, a pregação em torno da natureza divina é trombeta que golpeia o
ouvido; parece já forte no começo, se faz maior e mais forte para o ouvido nas
etapas finais. A Lei e os profetas proclamaram o mistério divino da Encarnação,
porem as primeiras vozes eram muito débeis para alcançar os ouvidos dos indóceis.
Por esta razão, a dureza de ouvidos dos judeus não percebeu o som das
trombetas. Ao avançar, as trombetas, como diz o relato, se fazem mais fortes.
Os últimos sons, emitidos através das pregações evangélicas, golpeiam os
ouvidos pois, através destes instrumentos, o Espírito ressoou com maior clareza
para aqueles que vieram depois, e produziram um ruído mais vigoroso. Os
instrumentos que clamam no Espírito são os profetas e os apóstolos. Como diz a
salmodia, seu clamor chegou a toda a terra e suas palavras aos confins do mundo
(Sal. 18, 5). Que a multidão não tenha podido suportar a voz que vinha do alto
e tenha encarregado Moisés de conhecer por si mesmo os mistérios ocultos e
comunicar ao povo a doutrina que houvesse aprendido através do ensinamento divino
(Ex. 19, 23-24), também isto está entre as coisas praticadas na Igreja: nem
todos se lançam à compreensão dos mistérios mas elegem entre eles quem possa
perceber as coisas divinas, prestam-lhe ouvidos confiantemente e tomam como
digno de fé tudo quanto ouçam aqueles que tiverem sido iniciados nos mistérios
divinos. Não todos - diz - são apóstolos, nem todos
profetas (1 Cor. 12, 29). Isto não está sendo observado muito hoje nas igrejas.
Muitos que têm necessidade de se purificar de acções passadas, sem lavar-se e
ainda com manchas em torno de suas vidas, colocando ante si mesmos a
irracionalidade do sensível, cometem a ousadia de tentar a divina ascensão. Daí
serem apedrejados por seus próprios raciocínios. Com efeito, as opiniões
heréticas são realmente pedras que matam o próprio inventor de doutrinas
perversas. Que significa o facto de Moisés penetrar as trevas e nelas ver Deus?
O que se narra aqui parece contrário à primeira teofania (Ex. 20, 21). Pois
então a divindade foi vista na luz; agora, nas trevas. Não pensemos que isto
destoa quanto à coerência com o que consideramos em nossa interpretação
espiritual. Através disto, o texto nos ensina que o conhecimento da piedade, no
começo, se faz luz em quem o recebe. De facto, concebemos como trevas o contrário
da piedade, e o afastamento das trevas é produzido pela participação na luz.
Mas a seguir a mente, avançando na compreensão do conhecimento dos seres
mediante uma atenção sempre maior e mais perfeita, quanto mais avança na
contemplação, tanto mais percebe que a natureza divina é invisível. Em
consequência, abandonando tudo o que é visível, não só tudo o que está no campo
da sensibilidade, mas também tudo quanto a inteligência parece ver, marcha
sempre para o que está mais oculto, até penetrar, com o trabalho intenso da
inteligência, no invisível e incompreensível, e ali vê Deus. Nisto consiste o
verdadeiro conhecimento do que buscamos, em ver no não ver, pois o que buscamos
transcende todo o conhecimento, totalmente circundado pela incompreensibilidade
como por trevas. Por esta razão disse o elevado João que esteve nas trevas
luminosas: A Deus nunca ninguém viu (Jo. 1, 18),
definindo com esta negação que o conhecimento da essência divina é inacessível
não só aos homens, senão também a toda natureza intelectual.
CAPÍTULO 24
Assim pois, quando Moisés cresce em conhecimento,
confessa que vê Deus nas trevas, isto é, que agora sabe que a Divindade, por
sua própria natureza, é algo que supera todo conhecimento e toda compreensão.
Moisés - disse - entrou nas trevas, onde estava Deus
(Ex. 20, 21). Que Deus? Aquele que fez das trevas seu esconderijo (Sal. 17,
12), como disse David, o qual foi iniciado nos mistérios secretos no mesmo
santuário. Chegando ali, Moisés recebe de novo por meio da palavra os
mandamentos que recebeu por meio das trevas, para que -
assim creio -, nos confirmasse os ensinamentos sobre estas coisas com o
testemunho da palavra divina. Pois em primeiro lugar, a palavra divina proíbe
que os homens comparem a Divindade com alguma das coisas conhecidas, porque
todo conceito, elaborado pelo entendimento com uma imagem sensível para
conhecer e alcançar a natureza divina, dá uma imagem falsa de Deus, e não dá a
conhecer o próprio Deus. A virtude da piedade tem dois aspectos: o que concerne
a Deus e o que concerne à rectidão dos costumes, pois a pureza de vida é uma
parte da piedade. Moisés, ao aprender em primeiro lugar o que é necessário
saber a respeito de Deus, que conhecê-lo consiste em não formar nenhuma ideia dele
a partir das coisas conhecidas segundo a forma humana de conhecer, entende
também a outra face da virtude, ao aprender com que modo de viver se conduz rectamente
a vida virtuosa. Depois disto Moisés chega à tenda não feita por mão de homem.
Quem o seguirá em seu caminhar através destas realidades e em seu elevar-se a
tal altura com a mente, a ele, que subindo mais e mais, se eleva constantemente
acima de si mesmo em ascensão às coisas mais altas? Primeiro abandonou a base
da montanha, separando-se daqueles que careciam de forças para a ascensão.
Depois, tendo chegado ao alto da subida, aguenta nos ouvidos o fragor das
trombetas. Depois destas coisas, penetra no santuário secreto da teognose.
Porém tampouco aqui permanece quieto, mas ascende até a tenda não feita por mão
de homem (Hb. 9, 11). Pois quem se elevou com tais ascensões encontra aqui o
término. Parece-me que a trombeta celeste, interpretada de outra forma,
converte-se, para quem a ouve, em guia do caminhar até o que não está feito por
mão de homem. Pois a harmonia das maravilhas existentes no céu grita a
sabedoria divina que resplandece no universo e proclama por meio das coisas
visíveis a grande glória de Deus, conforme o que foi dito: os céus proclamam a
glória de Deus (Sal. 18, 2). Esta, com a claridade e sonoridade de seu ensinamento,
converte-se em trombeta de grande voz, como disse um dos profetas: o céu fez
soar a trombeta no alto (Eclo. 45, 20). Quem purificou o ouvido do coração e o
tornou sensível, depois de acolher este som -
refiro-me ao que se origina da contemplação dos seres e que leva ao
conhecimento do poder divino -, é guiado por ele até penetrar com o pensamento
ali onde está Deus. Isto é chamado trevas pela Escritura, para indicar, como
dissemos, o incognoscível e o invisível; tendo chegado ali vê aquela tenda não feita
por mão de homem e mediante uma imitação material a dá a conhecer aos que estão
abaixo.
CAPÍTULO 25
Como era, pois, aquela tenda não feita por mão de
homem, que foi mostrada a Moisés no alto da montanha, recebendo ordem de
tomá-la como modelo para dar a conhecer, através de uma obra feita a mão, a
maravilha não feita por mão de homem? Olha - disse -
farás todas as coisas conforme o modelo que te foi mostrado na montanha (Ex.
25, 40). Colunas de ouro apoiadas em bases de prata e adornadas também com capitéis
de prata. Depois outras colunas cujos capitéis e cujas bases eram de bronze e o
corpo do meio de prata. Todas tinham um suporte de madeira incorruptível e em
toda sua volta se espalhava o resplendor próprio destes materiais de
construção. Havia também uma arca de ouro puríssimo, que resplandecia do mesmo
modo; o apoio do revestimento de ouro era também de madeira incorruptível. Além
disso um candelabro: único em sua base, mas dividido no alto em sete braços e
sustentando em seus braços igual número de lâmpadas. Ouro era a matéria do
candelabro, e seu interior não era oco, nem estava chapeado na madeira. Alem
destas coisas, o altar, o expiatório e os querubins cujas asas davam sombra à
arca (Hb. 9, 5). Todas estas coisas eram de ouro; o ouro não só dava o brilho
de ouro à superfície, mas era ouro maciço que estava inclusive no interior dos
objectos. Havia ainda tapetes de diversas cores, tecidos com arte, com flores
diversas abrindo-se entrelaçadas entre si como adorno do tecido. Com estes
tapetes separava-se o que, na tenda, era visível e acessível para alguns
ministros sagrados, e o que estava vedado e era inacessível. O nome da parte
anterior era o Santo, e o da parte secreta Santo dos Santos (Ex. 26, 33). Enfim
havia pias, incensários, a cobertura exterior das tendas, e tecidos de crinas e
peles tingidas de vermelho; e todas as outras coisas que Moisés expôs com
palavras (Ex. 30, 18). Quem poderia compreendê-las com exactidão? Que
realidades não feitas por mão de homem estas coisas imitam? Que proveito
recebem os que vêem a imitação material daquelas coisas que foram contempladas
ali por Moisés? Parece-me oportuno deixar a interpretação exata destas coisas a
quem tem o poder de investigar as profundezas de Deus por meio do Espírito (1
Cor. 2, 10), se há alguém que possa manifestar os mistérios no Espírito, como
diz o Apóstolo (1 Cor. 14, 2). De nossa parte, propomos hipoteticamente nossa
interpretação destes assuntos, e a submetemos ao bom sentido de quem a ouça,
deixando sua aceitação ou seu repúdio ao parecer de quem a examine.
Segunda
Parte B:
INTERPRETAÇÃO MÍSTICA DA VIDA DE MOISÉS
CAPÍTULO 26
Posto que Paulo nos revela em parte o mistério
contido nestas coisas, tomando quanto já se disse como simples ponto de
partida, dizemos agora que Moisés foi instruído profeticamente, em figuras,
sobre o mistério da tenda que abrange o universo. Esta tenda é Cristo, força de
Deus e sabedoria de Deus (1 Cor. 1, 24), cuja própria natureza não é feita por
mão de homem, mas que permitiu ser feito, quando foi conveniente que este
tabernáculo fosse construído entre nós. Assim esta tenda é de certa forma
incriada e criada: incriada em sua preexistência; vem a ser criada ao receber
esta existência material.
CAPÍTULO 27
O que foi dito não parecerá obscuro a quem acolheu
com rectidão o mistério de nossa fé. Há certamente um só ser entre todos, que
existia antes dos séculos e que foi criado nos últimos tempos, embora não
tivesse necessidade de ser criado no tempo (Col. 1,
17). Com efeito, como teria tido necessidade de nascimento temporal Aquele que
existia antes dos tempos e dos séculos? Por nós, que por causa de nossa
inconsideração nos havíamos afastado do ser, aceitou ser criado como nós para
levar novamente a ser ao que se havia afastado do ser. Este é o Deus Unigénito,
que abarca em si mesmo o universo, e que plantou sua tenda de campanha entre
nós (Jo. 1, 14). Ao ouvir chamar tenda a um bem tão
elevado, não se turbe o amigo
de Cristo, como se com o significado desta expressão se diminuísse a grandeza
da natureza de Deus. Não existe nenhum outro nome digno para expressar esta
natureza, pois todos são igualmente incapazes de uma definição adequada, sejam
aqueles que valorizamos pouco, sejam aqueles com os quais cremos vislumbrar
algo da grandeza dos conceitos. Assim como todos os demais nomes, cada um com
significado parcial, são empregados piedosamente para indicar o poder de Deus - como médico, pastor, protector, pão, videira, caminho,
porta, mansão, água, pedra, fonte e todos os demais nomes que se usam para Ele
-, assim também agora, o chamamos tenda emm um sentido digno de Deus. De facto,
o poder que contem o universo inteiro, no qual habita toda a plenitude da
divindade (Col. 2, 9), a protecção comum de tudo, que
abrange o universo, é chamado tenda com todo o direito. Porem é necessário que
a visão esteja em harmonia com este nome, isto é, que cada uma das coisas
vistas nos leve à consideração de um conceito digno de Deus. E posto que o
grande Apóstolo diz que o véu da tenda inferior é a carne (Hb. 10, 20) por estar
tecida de fios diferentes que indicam - penso - a
substância dos quatro elementos, talvez também ele tenha tido a visão da tenda
nos santuários celestiais, quando por meio do Espírito lhe foram revelados os
mistérios do paraíso (2 Cor. 12, 4), será oportuno, partindo desta
interpretação de uma parte, harmonizar com ela a contemplação da toda a tenda.
O simbolismo da tenda pode ser esclarecido por meio das mesmas palavras do
Apóstolo. Pois em algum lugar diz do Unigénito, ao que conhecemos designado como
tenda: Tudo foi criado por Ele, as coisas visíveis e as invisíveis, os tronos,
as potestades, os principados, as dominações, as virtudes (Col.
1, 16).
CAPÍTULO 28
Por conseguinte, as colunas reluzentes de prata e
recamadas de ouro, os suportes e argolas e aqueles querubins que cobriam a arca
com suas asas e todas as outras coisas que contêm a descrição da tenda, se
alguém as considera tendo presentes as realidades do alto, são as forças supra
mundanas que estão na tenda e que, conforme a vontade de Deus, sustenta o
universo. Ali estão nossos verdadeiros suportes, que foram enviados para o
serviço, por causa dos que hão de herdar a salvação (Hb. 1, 14), os quais aderimos
a nossas almas como anéis, elevam acima da virtude os que estão afixados à
terra. O texto, que chama querubim ao que cobre com suas asas os objectos
secretos colocados na arca da aliança (Ex. 25, 18-20), confirma a interpretação
que fizemos da tenda. Sabemos que este é o nome das potências que estão em
torno da natureza divina, e que Isaías e Ezequiel puderam vislumbrar (Is. 6, 2; Ez. 10, 1-17). O facto
de que a arca da aliança esteja oculta pelas asas não deve produzir estranheza
a quem ouve. De facto, está escrito em Isaías simbolicamente o mesmo em relação
às asas. O que aqui se chama arca da aliança, ali é chamada face (Is. 6, 2). Em um lugar se oculta com as asas a arca, e em
outro a face, significando o mesmo, no meu entender, em ambos os lugares: que é
inacessível a contemplação das coisas inefáveis. E se ouvindo falar das
lâmpadas que surgem de um só pé e se dividem em muitos braços para que se
difunda por toda parte uma luz generosa e abundante, não errarás se entenderes
que nesta tenda brilham os variados fulgores do Espírito, como diz Isaías ao
dividir em sete as iluminações do Espírito (Is. 11,
2; Ap. 4, 5). Quanto ao propiciatório, penso que
sequer necessite de interpretação, uma vez que o Apóstolo já colocou a
descoberto seu sentido profundo quando disse: A quem Deus propôs como
propiciatório (Rm. 3, 25). Por altar e incensário, entendo a adoração das
criaturas celestes que se realiza continuamente naquela tenda. De facto, diz
que não só a língua dos que estão na terra e abaixo da terra (Flp. 2, 10), mas também a dos que estão nos céus dirige seu
louvor àquele que é Princípio de todas as coisas. Este é o sacrifício agradável
a Deus: o fruto dos lábios (Hb. 13, 15; Is. 57, 19),
como diz o Apóstolo, e o bom perfume das orações (Ap.
5, 8). E se entre estes objectos se considera a pele tingida de vermelho e as
crinas entrelaçadas, tampouco se cortará a coerência de nossa interpretação. Na
visão das coisas divinas, o olhar profético verá prefixada ali a paixão
salvadora, conforme simboliza cada uma das coisas enumeradas: na cor vermelha,
o sangue; nas crinas, a morte. No corpo, as crinas estão privadas de
sensibilidade; por esta razão se convertem em símbolo apropriado da morte.
CAPÍTULO 29
Quando o profeta considera o tabernáculo celestial,
o contempla através destes símbolos. Se depois considera a tenda inferior,
posto que muitas vezes a Igreja é chamada Cristo por Paulo, poderíamos
entender, com todo o direito, que estes nomes designam os servidores do divino
mistério, os que a palavra chama também colunas da Igreja, julgando que estes
nomes designam os apóstolos, os mestres e os profetas (Col.
1, 18; 1 Cor. 12, 12; Ef. 1, 23; Ga.
2, 9). Com efeito, não só são colunas da Igreja Pedro, João e Tiago, nem só
João Baptista foi lâmpada que ilumina, senão que todos os que com seu esforço
sustêm a Igreja e os que, por suas obras, se convertem em luminárias, são
chamados colunas e lâmpadas (Jo. 5, 35). Vós sois a
luz do mundo (Mt. 5, 14), disse o Senhor aos
Apóstolos. E o divino Apóstolo, dirigindo-se a outros, manda novamente que
sejam colunas, dizendo: Sede firmes e inquebrantáveis (1 Cor. 15, 58). E
edificou Timóteo como coluna formosa, fazendo-o, como disse com suas próprias
palavras, coluna e fundamento da verdade (1 Tm. 3,
15). Neste tabernáculo, vemos oferecidos perpetuamente, de manhã e à tarde, o
sacrifício de louvor e o incenso da oração (Hb. 13, 15). O grande David nos dá
a entender isto dirigindo a Deus o incenso da oração em perfume e suavidade, e
oferecendo o sacrifício com a elevação das mãos (Sal. 140, 2; Ef. 5, 2). Ao ouvir falar de peles, reconhecer-se-á
facilmente os que se purificam da mancha dos pecados na água sacramental.
Piscina era João, purificando no Jordão com o baptismo de penitência; piscina
era Pedro, que conduziu até a água três mil pessoas, e isto de uma só vez;
piscina de Candace foi Felipe, e todos os que causam a graça em quantos recebem
a participação do dom (At. 2, 41; At.
8, 27-40). Talvez não nos afastemos do conveniente se interpretarmos que os
tapetes, que unidos entre si rodeiam circularmente a tenda, significam a
unanimidade de amor e de paz entre os crentes, pois David o entende assim
quando diz: Fiz da paz teus limites (Sal. 147, 14). A pele tingida de vermelho
e as cobertas de crinas para completar o adorno da tenda, poderiam ser
entendidas respectivamente como a mortificação da carne de pecado (Rm. 8, 3) - da que é símbolo a pele tingida de vermelho -, e a
austeridade da vida em continência, coisas com as quais o tabernáculo da Igreja
se embeleza especialmente. As peles, com efeito, que não têm em si mesmas a
força vital que provem da natureza, torna-se colorida com a imersão na tinta
vermelha, a qual ensina que a graça que floresce por meio do Espírito não nasce
senão naqueles que deram morte ao pecado em si mesmos. E se com o tecido
vermelho se designa no relato o pudor casto, isto deixamos ao juízo de quem
queira pensar assim. O trançado de crinas, que proporciona um tecido áspero e
grosso, alude à áspera austeridade que debilita nossas paixões familiares. A
vida em virgindade, que mortifica a carne de quem assim vive, mostra em si
todos estes traços (1 Cor. 9, 27). O facto de que o interior da tenda, que se
chama Santo dos Santos, esteja vedado à maioria, não pensamos que destoe da
coerência de nossa interpretação. Pois na verdade é coisa santa, e coisa santa
entre as santas, intangível e inacessível à maioria, a verdade dos seres. Posto
que está colocada na parte mais íntima e secreta da tenda do mistério, nós não
devemos nos ocupar inoportunamente do conhecimento dos seres que estão alem de
nossa compreensão, crendo sim que o procurado existe, ainda que não seja
patente aos olhos de todos, mas que permanece inefável nas regiões secretas do
espírito.
CAPÍTULO 30
O olho da alma de Moisés, instruído nestas coisas e
em outras semelhantes, purificado pela visão do tabernáculo e elevado por tais
maravilhas, novamente ascende ao cume de outros conhecimentos, ao ser instruído
sobre as vestimenta sacerdotal. A ela pertencem a túnica, o efod,
aquele peitoral que brilhava com os múltiplos fulgores das pedras, o turbante
em torno da cabeça e a lâmina (Ex. 28, 36) que estava em cima; os calções, as
romãs, as campainhas. Depois, por cima de tudo, o oráculo com o juízo, e a
verdade que aparece em um e em outro (Ex. 28, 30); e, em fim, as correntinhas
que unem ambas as partes e nas quais estão inscritos os nomes dos patriarcas.
Os nomes mesmo das vestimentas fazem supérflua uma consideração total e
particularizada de cada detalhe. Com efeito, que vestes corporais têm como nome
juízo, oráculo ou verdade? Isto nos demonstra claramente que a palavra, por
meio destas coisas, não nos está descrevendo uma vestimenta perceptível com os
sentidos, mas um ornamento da alma tecido com a prática da virtude. Jacinto é a
tinta da túnica que cai até os pés. Alguns dos que nos precederam na
interpretação dizem que o relato, com esta tinta, designa o ar. De minha parte,
não seria capaz de decidir com exactidão se a plenitude desta cor tem algo em
comum com a cor do ar. Contudo, não repudio esta interpretação, pois o seu
sentido é coerente com uma aplicação à vida virtuosa, já que significa que quem
quer consagrar-se a Deus e oferecer seu próprio corpo para o sacrifício e
converter-se em vítima viva do sacrifício vivo e do culto espiritual (Rm. 12,
1), não deve danificar a sua alma com a vestimenta de uma vida dissipada e
carnal, mas fazer leves como uma teia de aranhas, pela natureza dos costumes,
todas as vestes da vida, e aproximar de si o que leva ao alto, o que é leve e
aéreo, para tecer de novo esta natureza corporal, de forma que, quando ouvirmos
a trombeta escatológica, nos encontremos sem carga e leves à voz de quem
convoca e, levantados ao ar, sejamos elevados juntamente com o Senhor (1 Ts. 4, 17), sem que nenhum peso nos arraste para a terra (1
Cor. 15, 42-44). Quem conforme a exortação do Salmista fez adelgaçar sua alma
como a aranha (Sal. 38, 12), revestiu-se daquela túnica arejada que vai da
cabeça aos pés. Com efeito, a Lei não quer que a virtude esteja mutilada. As
campainhas de ouro colocadas entre as romãs designam o esplendor das boas
obras. Com efeito, duas são as coisas com as quais se realiza a virtude: com a
fé em Deus e com uma vida segunda a consciência. O grande Paulo aplica estas
romãs e estas campainhas à vestidura de Timóteo ao dizer que deve ter fé e
consciência recta (1 Tm. 1, 19).
CAPÍTULO 31
Assim pois, que a fé ressoe com som puro e grande na
pregação da Santa
Trindade; que a vida imite a natureza do fruto da romã. Sua
aparência é de algo incomestível por estar recoberta com uma casca dura e
rugosa, porem seu interior é agradável de ver pela maneira variada e formosa da
localização do fruto. E é ainda mais agradável de saborear, por seu doce
paladar. O modo de vida sábio e austero não é agradável nem suave aos sentidos,
porem está cheio de boas esperanças e amadurecendo tempo oportuno. Quando nosso
jardineiro abrir a romã da vida no tempo oportuno e mostrar a beleza do que se
guarda nela, então a participação nos próprios frutos será doce para quem os
desfrute. Pois diz o divino Apóstolo que toda disciplina no presente não parece
trazer gozo, senão tristeza, essa é a primeira impressão de quem toca a romã,
porém depois dá um fruto de paz (Hb. 12, 11). Esta é a doçura do interior
comestível. No texto se ordena que a túnica esteja também com franjas (Ex. 28,
35). As franjas são pendentes esféricos colocados no vestido para adorno e não
por necessidade. Aprendemos com isto que é necessário medir a virtude não só
pelo preceito, mas que devemos buscar também o que está alem do exigido, de
forma que se acrescenta ao vestido algo de adorno. Assim se comportava Paulo,
que unia de sua parte franjas formosas aos preceitos. Ainda que a Lei prescreva
que todos os que servem o altar vivam do altar (1 Cor. 9, 13-14), e que todos
os que anunciam o Evangelho vivam disso, ele prega gratuitamente o Evangelho,
passando fome, sede e estando nu (2 Cor. 11, 7; 1 Cor. 4, 11). Estas são as
formosas franjas, acrescentadas por nós, que embelezam a túnica dos
mandamentos. Ainda mais, em cima da túnica, colocam-se as peças de tela que
caem dos ombros e que cobrem até o peito e a espádua, unidas entre si por dois
broches em cada lado dos ombros. Estes broches são de pedras que levam gravados
os nomes dos patriarcas, seis em cada um. O tecido destas peças de tela é de
diversas cores: o jacinto se entrelaça com a púrpura, e o vermelho carmim se
mescla com o linho fino; o fio de ouro está entremeado com todas estas cores a
ponto de fazer resplandecer uma única formosura em um tecido de tão diversas
cores. O que aprendemos com isto é o seguinte: a parte superior do vestido, que
se converte propriamente em adorno do coração, é feita da mescla de muitas
virtudes. O jacinto se entrelaça com a púrpura, pois a dignidade real se une à
pureza da vida. O escarlate se mescla com o linho, porque o resplandecente e
límpido da vida cresce juntando-se com o vermelho do pudor. O ouro que brilha
entre estas cores designa o tesouro escondido em uma vida assim.
CAPÍTULO 32
Os nomes dos patriarcas, gravados junto aos ombros,
contribuem não pouco a nosso ornamento, pois a vida dos homens se encontra
enriquecida com os exemplos de boas obras que eles nos deram. Sobre este
ornamento das peças de tela, ainda desce, desde cima, outro ornamento. Os
escudos de ouro fixados em cada lado dos ombros, sustentando entre eles um objecto
de ouro de forma quadrangular resplandecente com doze pedras colocadas em fila.
Quatro filas, cada uma com três pedras. Entre elas não havia nenhuma igual à
outra, mas cada uma brilhava com seus resplendores especiais. Esta era a forma
destes ornamentos. A interpretação dos escudos pendentes dos ombros designa as
duas partes da armadura contra o inimigo. Da mesma forma que a virtude está
dirigida, como dissemos a pouco, pela fé e pela boa consciência, uma parte e
outra é protegida com a defesa dos escudos, e faz-se invulnerável ante os
dardos do inimigo graças às armas da justiça a direita e a esquerda (2 Cor. 6,
7). O ornamento quadrado que pende dos escudos de uma e outra parte e no qual,
gravados em pedras, estão os patriarcas que dão nome às tribos, designa o véu
que protege o coração. O relato nos ensina através das vestes que aquele que
afastou o perverso arqueiro com estes escudos, adorna
a própria alma com todas as virtudes dos patriarcas, cada um resplandecendo de
forma diferente no tecido da virtude. A forma quadrada significa a estabilidade
no bem, pois um objecto com esta forma é difícil de desarticular, por estar
apoiado uniformemente nos ângulos pela rectidão dos lados. As correntinhas com
que estes ornamentos se aderem aos braços, parece-me que ensinam que, no que se
refere à vida superior, é necessário unir a filosofia prática à que se realiza
na contemplação, de forma que o coração se converte em símbolo da contemplação
e os braços das obras. A cabeça adornada por diadema significa a coroa
destinada aos que viveram rectamente. Ela é adornada com o nome que está
gravado na lâmina de ouro (Ex. 28, 36) com caracteres indizíveis. Quem está
revestido com tais ornamentos não leva calçado a fim de não estar
sobrecarregado na estrada, nem ser entorpecido com um revestimento de peles
mortas, conforme a interpretação que já fizemos na exegese do acontecimento da
montanha. Com efeito, como poderia o calçado ser ornamento dos pés, se já na
primeira iniciação do mistério foi afastado como estorvo para a subida? Aquele
que passou através das sucessivas ascensões que consideramos, leva nas mãos as
tábuas feitas por Deus e que contêm a Lei Divina. Estas se quebram ao chocar-se
com a dureza da resistência dos pecadores. A classe de pecado foi a idolatria.
Os idólatras haviam esculpido a imagem de um bezerro, que, uma vez destruída
por Moisés, foi dissolvida em água que se fez beber os que haviam pecado até
que desaparecesse totalmente a matéria que havia sido posta ao serviço da
impiedade dos homens (Ex. 32, 15- 20). O relato anunciou então, profeticamente,
coisas que principalmente aconteceram agora entre nós, em nosso tempo.
CAPÍTULO 33
Pois o erro da idolatria desapareceu completamente
da vida, absorvido pelas bocas piedosas dos que realizaram em si mesmos o
aniquilamento da matéria da impiedade por meio da confissão da fé. Os mistérios
antigamente bem estabelecidos entre os idólatras converteram-se em água que flúi
sem consistência, água que é bebida pelas mesmas bocas que em outro tempo eram
seguidoras dos deuses. Assim pois, quando vês que os que antes se ajoelhavam
ante esta vacuidade agora destroem e fazem desaparecer as coisas nas quais
haviam posto sua confiança, não te parece que o relato anuncia abertamente que
um dia todo ídolo será absorvido pelas bocas daqueles que se converteram do
erro à piedade? Moisés arma os levitas contra seus compatriotas. E percorrendo
o acampamento de um extremo ao outro, dão morte de forma indiscriminada aos que
encontram, deixando à ponta da espada a escolha de quem partir ao meio. Ao
causar a morte igualmente a todos os que encontra, o que decidia sobre a morte
dos que eram suprimidos não era o ser inimigo ou amigo, estrangeiro ou vizinho,
parente ou estranho; a mão acometia da mesma forma e actuava igual mente sobre
todos os que atacava. Talvez a útil lição que nos oferece este relato seja a de
que cai sobre eles um castigo indiscriminado porque todos foram cúmplices com o
povo inteiro no mal, e todo o acampamento se havia feito um só homem no sentir.
Da mesma forma, quem castiga com açoites alguém surpreendido em um delito
golpeia com o chicote a parte do corpo que se lhe põe diante sabendo que a dor
de uma parte se estende ao todo, assim também, posto que todo o corpo devia se
castigado igualmente por ter estado unido na alma, o chicote atingiu o todo actuando
sobre uma parte. Portanto, se a cólera de Deus, ao contemplar a mesma maldade
em muitos, não actuou contra todos senão só contra alguns, convém ter em conta que
a correcção foi feita por causa do amor ao homem; ainda que nem todos tenham
sido castigados, com os golpes de alguns todos foram corrigidos para que se
afastem do mal. Esta consideração está feita ainda ao fio da literalidade do
relato. O sentido espiritual talvez possamos aproveitar do seguinte modo. O
Legislador disse a todos em uma exortação pública: Quem estiver a favor do
Senhor, que venha a mim (Ex. 32, 26). É a voz da Lei convidando a todos: Se
alguém quer ser amigo de Deus, que se faça meu amigo, da Lei, pois
efectivamente, se alguém é amigo de Deus, se faz também amigo da Lei. A todos
os que se reuniram em torno dele por causa deste chamado, Moisés ordenou tomar
a espada contra o irmão, o amigo e o vizinho (Ex. 32, 27). Se tivermos presente
o contexto da consideração espiritual, entenderemos que todo aquele que presta
atenção a Deus e à Lei se purifica com a morte dos costumes que habitam
perversamente nele. Com efeito, as palavras irmão, amigo ou vizinho nem sempre
são usadas pela Escritura no bom sentido, mas há ocasiões em que o irmão é um
estrangeiro, o amigo um inimigo, o vizinho alguém que se levantou como
adversário. Entendemos por estes, nossos pensamentos íntimos, cuja vida causa
nossa morte, e cuja morte causa nossa vida.
CAPÍTULO 34
Concorda esta interpretação com as coisas já ditas a
respeito de Aarão, quando, por ocasião de seu encontro com Moisés, o
reconhecemos como o que socorre e protege, o que realiza juntamente com ele os
prodígios contra os egípcios. O conhecemos justamente como superior, já que a
natureza angélica e incorpórea foi feita antes que a nossa; como irmão,
obviamente, pelo parentesco de sua natureza intelectual com nossa natureza
intelectual. Existe a objecção de como se pode tomar em seu sentido melhor o
encontro de Aarão, que se converteu para os israelitas em servidor da
idolatria? Porem, neste lugar, o texto explica claramente o equívoco da
"irmandade", pois o significado desta palavra não é o mesmo em todos
os lugares, já que toma este nome em sentidos opostos. Um é o irmão que abate o
tirano egípcio, e outro o que faz uma cópia do ídolo para os israelitas, ainda
que seja idêntico o nome de ambos. Contra irmãos desta classe impunha Moisés a
espada. O que ordena aos demais, sem dúvida o estabelece também para si mesmo.
A destruição de um irmão desta classe é a aniquilação do pecado. Com efeito,
todo o que faz desaparecer o mal metido dentro de si pela sedução do
adversário, este matou em si mesmo o que vivia pelo pecado. Nosso ensinamento
em torno disto se confirma ainda mais, se colocarmos a relação de alguns outros
elementos do relato com a interpretação espiritual. Dissemos, de facto, que foi
ordem daquele Aarão que eles se desprendessem de suas arrecadas. O
desprendimento destas converteu-se na matéria do ídolo (Ex. 32, 2-3). Que
diremos? Que Moisés havia adornado as orelhas dos israelitas com adorno de
arrecadas, que é a Lei, e que o falso irmão, pela desobediência, tira o adorno
colocado nas orelhas e faz com ele um ídolo. A primeira entrada do pecado foi o
tirar as arrecadas, isto é, a decisão de desobedecer ao preceito. Como julgar a
serpente como amiga e vizinha dos primeiros pais, a ela que sugeriu como coisa
útil e boa afastar-se do mandado de Deus? Isto é o livrar as orelhas das
arrecadas do preceito (Rm. 10, 17). Portanto, quem tiver matado tais irmãos,
amigos e vizinhos ouvirá da Lei aquela palavra que conta o relato que disse
Moisés aos que haviam matado a estes: Cada um de vós consagrou hoje as suas
mãos ao Senhor, matando seu filho, e seu irmão, para vos ser dada a bênção (Ex.
32, 29). Penso que a recordação daqueles que consentiram no pecado se
introduziu oportunamente no discurso. Aprendemos assim que as tábuas feitas por
Deus, nas quais havia sido gravada da lei divina, caíram na terra das mãos de Moisés
e, quebrando-se pela dureza do solo, Moisés as refaz, embora não sejam
inteiramente as mesmas, mas só o escrito nelas. Com efeito, tendo tomado as
tábuas da matéria daqui de baixo, as apresenta ao poder de quem grava nelas a
Lei, e assim atrai de novo a graça levando a Lei em tábuas verdadeiras, ao
haver gravado Deus sua palavra na pedra. Guiados por estas coisas, talvez seja
possível alcançar alguma inteligência da providência de Deus em nosso favor.
Com efeito, se o divino Apóstolo disse a verdade chamando tábuas os corações (2
Cor. 3, 3), isto é, a parte superior da alma - e sem
dúvida diz a verdade aquele que sonda pelo Espírito as profundezas de Deus (1
Cor. 2, 10) -, pode-se deduzir consequentemente que, no princípio, a natureza
humana estava sem fraturas e era imortal, moldada
pelas mãos divinas e embelezada com os caracteres não escritos da Lei, pois
fisicamente estava dentro de nós uma vontade conforme à Lei, no afastamento do
mal e no honrar à Divindade.
CAPÍTULO 35
Porém depois de aparecer o ruído do pecado, ao que o
começo da Escritura chama voz da serpente (Gn. 3, 4)
e o relato das tábuas chama voz dos que começam um canto na embriaguez (Ex. 32,
18), então, as tábuas se quebram ao cair na terra. E o verdadeiro Legislador,
aquele de quem Moisés era figura, novamente lavrou para si, de nossa terra, as
tábuas da natureza. Pois sua carne, que contêm Deus, não foi feita por obra do matrimónio,
mas ele mesmo é o escultor da própria carne gravada pelo dedo de Deus. Com
efeito, o Espírito Santo desceu sobre a Virgem
e a força do Altíssimo a cobriu com sua sombra (Lc.
1, 35). Depois deste acontecimento, a natureza foi feita de novo inquebrável,
feita imortal pelos caracteres gravados pelo dedo. Dedo é o nome dado muitas
vezes pela Escritura ao Espírito Santo (Ex. 8, 19; Dt.
9, 10; Lc. 11, 20). Desta forma acontece uma tal
transformação de Moisés, tão grande e de tanta glória, que os olhos daqui de
baixo não podiam suportar a manifestação daquela glória (2 Cor. 3, 12-4, 6).
Quem tiver sido bem instruído no divino mistério de nossa fé não desconhecerá
como a interpretação espiritual concorda com o relato. Com efeito, aquele que
restaurou nossa natureza destroçada - pelo já dito,
sabes bem quem é aquele que curou nossas roturas -, depois de haver elevado
novamente a tábua quebrada de nossa natureza a sua primitiva beleza, havendo
embelezado com o dedo de Deus, como dissemos, não é já suportável à vista dos
indignos, pois pela super abundância de sua glória é já inacessível a quem o
olha. Em verdade, quando vier em sua glória, como diz o Evangelho, e todos os
anjos com Ele (Mc. 8, 38), a duras penas os justos
poderão contemplar seu aspecto. Quanto ao que é injusto e ao que pertence à
seita judia, como diz Isaías, permanecerá incapaz desta visão. Que desapareça o
ímpio - diz - para que não veja a glória do Senhor (Is. 26, 11). Seguindo a concatenação das coisas que
examinamos, nos deixamos levar à formulação de uma hipótese de interpretação
espiritual desta passagem. Voltemos à questão que havíamos proposto: como
aquele que viu Deus claramente nestas teofanias, o atestam a palavra divina,
quando diz face a face, como quem fala a um amigo (Ex. 33, 11; 1 Cor. 13, 12),
ao chegar aqui, como se nunca tivesse alcançado o que cremos que alcançou pelo
testemunho da Escritura, pede a Deus que lhe apareça, como se nunca tivesse
visto Aquele que lhe tem aparecido continuamente. A voz do alto acede agora ao
desejo do que pede e não lhe recusa a entrega desta graça, porem novamente o leva à desesperança, ao deixar claro que o que ele busca é
inalcançável à natureza humana. Apesar disto, Deus diz que há um lugar junto a
ele, e nesse lugar uma pedra, e na pedra, uma fenda (Ex. 33, 21-23) na qual
manda que Moisés se coloque. Depois Deus põe a mão na boca daquela fenda e,
passando adiante, o chama. Ao ser chamado, Moisés sai fora da fenda, vê as costas
de quem o chamou, e assim parece que viu o procurado, pois se cumpre a promessa
da voz divina.
CAPÍTULO 36
Se nos apegarmos à letra, o sentido destas coisas
não só permanecerá obscuro a quem o examina, como nem sequer estará livre de
uma concepção inverosímil de Deus. Com efeito, parte anterior e parte posterior
existem só nas coisas que têm forma, e toda forma é limite de um corpo.
Portanto, quem imagina uma figura delimitando Deus, não pensará que Ele está
livre de uma natureza corporal. Pois bem, todo corpo é evidentemente composto.
O composto é constituído pela concorrência de elementos heterogéneos. Ninguém
diria que o composto é indissolúvel. O que se pode dissolver não pode ser
imortal. De facto, a corrupção é a dissolução do que é composto. Se tomarmos ao
pé da letra as costas de Deus, por via de consequência seremos levados
necessariamente a um absurdo. De facto, diante e atrás só se dão no que tem
forma, e a forma só se dá no que tem corpo. E este, por sua própria natureza,
pode ser dividido, posto que todo o composto pode dividir-se. O que pode ser
dividido não pode ser imortal. Portanto, quem é escravo da letra pensará como
consequência que a Divindade está submetida à corrupção. E sem dúvida, Deus é
imortal de incorruptível. Mas então, que interpretação alem do sentido literal
será coerente com a letra? Se uma parte nos obriga, no contexto do discurso, a
buscar outra interpretação das palavras escritas, sem dúvida será conveniente
fazer o mesmo com relação ao todo. O que entendemos de uma parte, isso mesmo
havemos de tomar necessariamente em relação ao todo, pois não existe um todo se
não está composto de partes. Portanto, o lugar perto de Deus, e a pedra neste
lugar, e nela o lugar que se chama fenda, e a entrada de Moisés ali, e o
estender da mão de Deus até a boca da fenda, e sua passagem, e a chamada, e
depois disto a contemplação das costas, tudo isto será considerado de forma
mais adequada se seguirmos a norma da interpretação espiritual. Qual é o
significado? Que da mesma forma que os corpos pesados, se algo recebe impulso
em um plano inclinado, ainda que nada o empurre depois deste primeiro
movimento, se não há nada que corte o impulso com um obstáculo, são empurrados
por si mesmos para baixo com força pela ladeira enquanto o plano permanecer
inclinado costa abaixo; assim de forma contrária, a alma que se liberta da
paixão terrena, se volta leve e veloz, começando a voar desde baixo até às
coisas de cima, até o alto. E como nada acima corta seu impulso, pois a
natureza do bem atrai a si a quem levanta os olhos para ela, a alma sempre se
eleva alem de si mesma, em tenção pelo desejo das coisas celestiais, como diz o
Apóstolo, até às coisas que estão adiante (Flp. 3,
13), e elevará seu voo cada vez mais alto. Com efeito, graças ao já conseguido,
deseja não renunciar ao que está acima e torna incessante seu impulso às coisas
de cima renovando sempre, com o já conseguido, a tenção para o voo. De facto, o
trabalhar da virtude alimenta sua força no cansaço, já que sua tenção não
diminui pelo esforço, mas aumenta. Por esta razão dizemos que o grande Moisés,
apesar de fazer-se cada dia maior, nunca se deteve no caminho para o alto, nem
impôs a si mesmo algum limite até o cume, mas que uma vez posto o pé na escada
em cujo cimo estava Deus (Gn. 28, 12), como diz
Jacob, subiu ininterruptamente ao nível superior, sem cessar nunca de subir,
porque sempre há um degrau mais alto do que aquele a que já se chegou.
CAPÍTULO 37
Moisés rechaça o parentesco aparente com a rainha
dos egípcios. Faz-se vingador do hebreu. Translada-se a uma vida solitária no
deserto, não turbada pelo contacto com os homens. Pastoreia ali em si mesmo o
rebanho de animais domados. Vê o esplendor da luz. Torna leve sua subida à luz
despojando-se do calçado. Conduz à liberdade seus parentes e compatriotas. Vê
afundar-se o inimigo, carregado pelas ondas. Permanece sob a nuvem. Sacia a
sede com a pedra. Recolhe pão do céu. Depois, com a elevação das mãos, vence o
estrangeiro. Ouve a trombeta. Entra nas trevas. Penetra nas estâncias inacessíveis
do tabernáculo não feito por mão de homem. Aprende as coisas inefáveis do
sacerdócio divino. Destrói o ídolo. Aplaca Deus. Restabelece a lei quebrada
pela maldade dos judeus. Resplandece pela glória e, alçado por estas elevações,
ainda arde em desejos, e não se sacia de ter mais; ainda tem sede daquele de
que foi completamente saciado, e pede obtê-lo como se nunca o tivesse obtido,
suplicando a Deus que se revele a ele, não na forma em que ele é capaz de
participar dela, mas tal qual Ele é. Este sentimento me parece próprio de uma
alma possuída pela paixão do amor à beleza essencial: a esperança não cessa de
atrair a partir da beleza que se viu até à que está mais alem,
acendendo sempre no que já conseguiu o desejo do que ainda está por conseguir.
De onde se conclui que o amante apaixonado da Beleza, recebendo sempre as
coisas visíveis como imagem do que deseja, aspira saciar-se com o modelo
original desta imagem. E isto é o que quer a súplica audaz que ultrapassa o
limite do desejo: gozar da beleza, não através de espelhos e reflexos, mas face
a face (1 Cor. 13, 12). A palavra divina admite a petição mesmo tempo que a
repudia, mostrando em poucas palavras um abismo incomensurável de conhecimento.
Com efeito, a magnanimidade de Deus concede a Moisés saciar o desejo, porem não
lhe promete nenhum repouso nem fartura desse desejo. Pois não se teria mostrado
a si mesmo a seu servo se a visão houvesse sido tal que detivesse o desejo do
que via, pois nisto consiste ver verdadeiramente a Deus: em que quem o vê não
se sacia jamais em seu desejo. Por isso diz: Não poderás ver meu rosto. Com
efeito, nenhum homem verá meu rosto e seguirá vivendo (Ex. 33, 20). O relato
diz isto não como se o mostrar-se convertesse Deus em causa de morte para quem
o visse. Como poderia a face da vida converter-se jamais em causa de morte para
quem se acercasse dela? A menos que, posto que Deus é por essência o que dá a
vida, e posto que um traço essencial do conhecimento da natureza divina é o de
estar acima de todo o conhecimento, quem pensar que Deus é alguma das coisas
agora conhecida, esse não tem vida, pois se desviou do ser dos seres a ponto
de, com uma fantasia fora da razão, se pensar que existe. Pois o que
verdadeiramente existe é a vida verdadeira. E isto é inacessível ao conhecimento.
Se pois a natureza que dá a vida transcende todo o conhecimento, aquilo que é
abarcado pelo conhecimento certamente não é a vida. O que não é a vida não tem
uma natureza apta para dar a vida. Por esta razão, se dá satisfação ao desejo
de Moisés precisamente naquilo que este desejo fica sem satisfação. Com efeito,
aprende do que já foi dito que a Divindade, pela própria natureza, é
inabarcável, pois não está circunscrita por nenhum limite. Pois se pensássemos
a Divindade com algum limite, seria necessário considerar juntamente com o
limite o que haveria mais além deste limite. Com efeito, o que está limitado
termina certamente em alguma coisa, como o ar é limite dos animais terrestres,
e a água é o limite dos aquáticos. E posto que o peixe é rodeado pela água em
todas as partes, e o pássaro pelo ar, e o meio da água no caso dos aquáticos e
o do ar no caso do pássaro é o marco do limite no ponto extremo que abarca o
pássaro ou o peixe ao qual delimitam a água e o ar, assim necessariamente, se
pensarmos a Divindade dentro de um limite, é necessário que esteja abarcada por
algo heterogéneo a sua natureza, e a lógica mostra que o continente é maior que
o contido.
CAPÍTULO 38
Afirma-se que a Divindade é o Bem essencial. Pois
bem, o que tem uma natureza distinta do bem é alheio ao bem, e o que é alheio
ao bem pertence à natureza do mal. Demonstra-se que o continente é maior que o
contido. Segue-se necessariamente que os que julgam que a Divindade está
contida em um limite, devem admitir também que está abarcada pelo mal. Sendo
evidentemente menor a natureza do contido que a do continente, segue-se a
superioridade do mais vasto. Portanto quem encerra a Divindade em um limite
estabelece que o bem está dominada por seu contrário. Porem isto é absurdo. Não
se pensará, pois, em nenhum limite da natureza infinita. O que não está
limitado não tem uma natureza que possa ser compreendida. Eis aqui porque todo
o desejo do bem, que atrai para aquela ascensão, cresce constantemente junto
com a trajectória de quem se apressa para o bem. Isto é ver realmente a Deus:
não encontrar jamais a saciedade do desejo. É totalmente inevitável que quem
vir se inflame em desejos de ver ainda mais, precisamente por causa daquelas
coisas que é possível ver. E desta forma nenhum limite interromperá o progresso
na ascensão a Deus, por não haver limite no bom, nem ser interrompido por
nenhuma fartura o aumento do desejo do bem. Qual é aquele lugar perto de Deus?
Que é a pedra? E qual é novamente a fenda na pedra? Que é a mão de Deus que tapa
a fenda da pedra? Que é a passagem de Deus? Que são suas costas, cuja visão
promete Deus a Moisés quando pedia para ver sua face? É necessário que cada um
destes dons seja verdadeiramente grande e digno da magnificência do doador, ao
ponto de julgar uma promessa mais esplêndida e elevada que todas as teofanias
outorgadas já ao grande servidor. Porém, como pode alguém deduzir destas
palavras acima com que Moisés pede subir depois de tantas ascensões, e a cuja
subida Aquele que faz cooperar todas as coisas para o bem de quem ama a Deus
(Rm. 8, 28) conduz dizendo: Eis aqui um lugar junto de mim (Ex. 33, 21)? Eis
aqui uma interpretação que se harmoniza facilmente com as coisas que já
consideramos. Ao falar do lugar, não delimita quantitativamente o que lhe mostra,
pois não existe medida do que carece de quantidade, mas conduz o ouvinte ao
infinito ilimitado por meio da consideração do limitado por uma medida. O
relato parece significar isto: Posto que o desejo te lança ao que está adiante
e não tens nenhuma fartura em tua corrida, e o bem não tem limite algum, mas o
desejo se orienta sempre àquilo que é ainda maior, há tanto lugar junto a mim,
que quem corre nele jamais poderá alcançar o final da corrida. Porem, de outro
ponto de vista, a corrida é quietude. Coloca-te - diz
- sobre a fenda (Ex 33, 21).
CAPÍTULO 39
Isto é o mais paradoxal de tudo: como a quietude é o
mesmo que o movimento. Com efeito, quem corre não está quieto, e quem está
quieto não marcha para cima; aqui, ao contrário, o permanecer estável se
origina do caminhar para cima. Isto quer dizer que quanto mais sólida e
firmemente alguém se mantém no bem, tanto mais consuma a corrida da virtude.
Quem é instável e vacilante quanto à base de suas convicções, por carecer de
uma segura estabilidade no bem, sacudido pelas ondas e levado de um lado a
outro, como diz o Apóstolo (Ef. 4, 14), ao estar
agitado e duvidoso em sua concepção dos seres, jamais alcançará a virtude. Os
que sobem uma costa de areia, ainda que dêem grandes passos, fadigam-se com
pouco resultado, pois seus pés se afundam sempre juntamente com a areia; se
esforçam no movimento, porem deste movimento não obtêm nenhum avanço. Porém se
alguém, como diz o salmo, tira seus pés do seio do abismo (Sal. 40, 3), e os
coloca sobre a pedra, - e a pedra é Cristo, virtude
perfeita (1 Cor. 10, 4) -, quanto mais firme e imóvel se faz no bem conforme o
conselho de São Paulo (1 Cor. 15, 58), tanto mais veloz corre sua corrida,
servindo-se da estabilidade como de asas: em sua marcha para cima, o coração, por
sua segurança no bem, serve-lhe de asas.
CAPÍTULO 40
Assim pois Deus, ao mostrar a Moisés o lugar, o
excita à corrida. Ao prometer-lhe estabilidade sobre a pedra, mostra-lhe a
forma de correr este certame divino. Quanto ao espaço que há na fenda, ao que o
relato chama buraco, formosamente o interpretou o divino Apóstolo com suas
próprias palavras, dizendo que uma morada celestial não feita por mão de homem
está preparada, na esperança, para aqueles cuja tenda terrena tenha sido
desfeita (2 Cor. 5, 1). Aquele que na verdade tiver consumado a corrida, como
diz o Apóstolo (2 Tm. 4, 7), naquele estádio amplo e
espaçoso a que a palavra divina chama lugar, e tiver guardado efectivamente a
fé, como diz o símbolo, este, tendo assentado seus pés sobre a fenda, será
recompensado com a coroa da justiça pelas mãos do presidente do certame. Este
prémio é chamado pela Escritura de diversas formas. O mesmo que é chamado aqui
cavidade da fenda, em outros lugares é chamado jardim de felicidade, tenda
eterna, morada junto do Pai, seio do patriarca, terra dos viventes, água do
descanso, Jerusalém celestial, reino dos céus, prémio dos eleitos, coroa de
graças, coroa de felicidade, coroa de formosura, torre de poder, banquete de
festa, estar sentado junto de Deus, trono para julgar, lugar ilustre, tenda
escondida (Gn. 3, 23; Lc.
16, 9; Jo. 14, 2; Lc. 16,
22; Is. 38, 11; Sal. 23, 2; Ga.
4, 26; Mt. 3, 2; Flp. 3,
14; Pr. 1, 9.4, 9; Is. 62, 3; Sal. 61, 4; Ap. 3, 21; Sal. 89, 15; Is. 56,
5; Sal. 27, 5). Assim pois, dizemos que a entrada de Moisés na fenda designa a
mesma realidade que todas estas expressões. Posto que a fenda é interpretada
por Paulo como Cristo (1 Cor. 10, 4), e cremos que em Cristo está a esperança
de todos os bens, e sabemos, com efeito, que nele estão todos os tesouros dos
bens (Col. 2, 3), quem alcançou algum bem, esse
certamente está em Cristo, o qual contem todo bem. Quem avançou até este ponto
e esteve protegido pela mão de Deus, como pôs em relevo o relato, a mão talvez
seja a força de Deus, criadora dos seres, o Unigénito de Deus por meio do qual
foram feitas todas as coisas (Jo. 1, 3), o qual é
também lugar para quem corre; é, segundo sua própria expressão (Jo. 14, 6; 1 Tm. 4, 7), caminho
dos que correm, e é também rocha para quem está firme, e casa para os que
alcançaram o repouso, esse se sentirá chamar, e verá as costas do que chama,
isto é: marchará atrás do Senhor Deus (Dt. 13, 5),
conforme prescreve a Lei. Também o grande David, ao ouvir isto, o entendeu,
quando diz a quem habita sob a protecção do Altíssimo: Ele cobrirá com suas
asas (Sal. 91, 4), que é o mesmo que encontrar-se atrás de Deus, pois as asas
se encontram nas costas, e grita com relação a si mesmo: minha alma aderiu a
Ti, tua direita me sustentou (Sal. 53, 9). Vês como concorda o salmo com o
relato? Da mesma forma que este diz que a direita protegeu a quem estava
aderido a Deus, assim também ali a mão toca em quem espera na fenda a palavra
divina, e lhe pede que o siga. Também o Senhor que, ao converter-se em
plenitude da própria Lei, recebia a riqueza de Moisés, dirige-se de forma
parecida a seus discípulos, e revela claramente as coisas que haviam sido ditas
em figuras, quando diz se alguém quer vir atrás de Mim (Lc.
9, 23). Não diz: "Se alguém quer ir adiante de Mim". E dirigiu o
mesmo convite a quem suplicava pela vida eterna: Vem e segue-me (Lc. 18, 22). Pois bem, quem segue vê as costas. Portanto,
Moisés, que anseia por ver Deus, recebe o ensinamento de como é possível ver
Deus: seguir a Deus aonde quer que Ele conduza, isto é ver Deus. Sua passagem
indica que guia a quem o segue. Para quem ignora o caminho, não é possível
percorrê-lo com segurança senão seguindo atrás de quem guia. Por esta razão
aquele que guia, indo adiante, mostra o caminho a quem o segue, e quem segue
não se separará do bom caminho se olhar continuamente para as costas de quem
conduz.
CAPÍTULO 41
Quem em seu movimento se deixa levar para os lados,
ou se coloca olhando o guia de frente, inventa outro caminho para si, e não
aquele que lhe mostra o guia. Por esta razão diz Deus ao que é guiado: Meu
rosto não será visto por ti (Ex. 33, 20), isto é, não te ponhas de frente a
quem te guia, pois obviamente o caminho seria em sentido contrário. O bem não
olha de forma oposta ao bem, mas o segue. O que conhecemos como contrário ao
bem, isto se o põe de frente. O mal olha para a virtude em sentido contrário;
ao passo que a virtude não é olhada de forma oposta pela virtude. Por esta
razão, Moisés não olha agora a Deus de frente, mas vê o que está atrás dele.
Pois quem olha de frente não viverá, como atesta a palavra divina: Ninguém verá
a face do Senhor e viverá (Ex. 33, 20). Vês quão importante é aprender a seguir
a Deus: aquele que aprendeu a colocar-se às costas de Deus, depois daquelas
altas ascensões e daquelas terríveis e maravilhosas teofanias, já quase na
consumação de sua vida, apenas se acha digno desta graça. A quem desta forma
segue Deus, não detém nenhuma das contradições suscitadas pelo mal. Pois após
isto, nasce a inveja dos irmãos. A inveja, a paixão malvada primordial, pai da
morte, primeira porta do pecado, raiz do mal, origem da tristeza, mãe das
desgraças, fundamento da desobediência, princípio do paraíso convertendo-se em
serpente para dano de Eva. A inveja nos separou com um muro da árvore da vida,
nos despojou das vestimentas sagradas e, para vergonha, nos revestiu com folhas
de figueira. A inveja armou Caim contra sua natureza, e inaugurou a morte
castigada sete vezes. A inveja fez escravo José. A inveja é incentivo portador
de morte, arma oculta, enfermidade de nossa natureza, veneno bilioso, putrefacção
voluntária, dardo cruel, loucura da alma, fogo que abrasa o coração, chama que
devora as entranhas. Para ele, é uma desgraça não o próprio mal, mas o bem
alheio e, vice-versa, é um bom sucesso não o bem próprio, mas o mal do próximo.
A inveja, que se entristece com os êxitos dos homens e se alegra com suas
desgraças. Dizem que os abutres, devoradores de cadáveres, são aniquilados pelo
perfume, pois sua natureza se fez afim do insalubre e pútrido. Assim também
quem está dominado por esta enfermidade se consome com a boa sorte do próximo
como com a presença de um perfume, e ao ver algum sofrimento por alguma
desgraça, revoa sobre ele, e mete seu bico torcido, trazendo à luz os aspectos
ocultos da desgraça. A inveja atacou a muitos antes de Moisés. Arrojando-se
contra este grande homem, se pulveriza como um vaso de argila estraçalhado
contra uma pedra. Nisto, sobretudo, se mostrou o prémio de caminhar atrás de
Deus como fez Moisés; ele havia corrido no lugar divino, havia permanecido
firme sobre a fenda e, metido em seu vão, havia sido protegido pela mão de
Deus, e havia marchado atrás de quem guiava, sem vê-lo face a face mas olhando
suas costas. E que ele alcançou por si mesmo a felicidade ao seguir a Deus se demonstra
por se ter mostrado mais elevado que um tiro de arco. A inveja, com efeito,
enviou seu dardo contra ele, porém o tiro não alcançou a altura em que se
encontrava Moisés. A corda do arco da maldade não teve força suficiente para
lançar esta paixão tão longe para que o contagiasse esta enfermidade partindo
dos que já haviam caído nela. Aarão e Maria, roídos pela paixão da inveja, se
converteram em um arco feito de selos de barril lançando contra ele a palavra
como um dardo.
CAPÍTULO 42
Porém ele estava tão longe de participar da
enfermidade que curou a doença de quem havia adoecido. Não só permaneceu
quieto, sem se deixar levar pela vingança contra os que o haviam ferido, mas
aplacou a Deus em favor deles, mostrando com sua acção -
penso - que quem se encontra bem protegido com o escudo da virtude não é
arranhado pelas pontas dos dardos. Ele, com efeito, engrossa a ponta das armas,
e a solidez da armadura as faz voltar para trás. A armadura que protege destes
dardos é o mesmo Deus, do qual se reveste quem combate pela virtude.
Revesti-vos, diz, de Nosso Senhor Jesus Cristo (Rm. 13, 14; Ef.
6, 13), isto é, da armadura completa, sem fissuras. Moisés, bem protegido por
ela, tornou ineficaz o malvado arqueiro. Com efeito, nem ele foi presa de um
impulso de vingança contra os que o haviam feito dano, nem depois de eles serem
condenados por um juiz irrepreensível, ignorou o que é justo segundo a
natureza, mas se fez suplicante diante de Deus em favor dos irmãos. Certamente
não haveria de ter feito isso se não tivesse estado atrás de Deus, que lhe
havia mostrado suas costas como guia seguro da virtude. As coisas que seguem
são parecidas. Posto que o inimigo natural dos homens não encontrou nele campo
para o dano, volta a guerra contra os mais fáceis de caçar. E tendo lançado no
povo, como um dardo, a paixão da gula, preparou-os para comportar-se ao modo
egípcio no que concerne ao paladar, fazendo-os preferir as ansiadas carnes do
Egipto àquele alimento celestial. Porém ele, mantendo sua alma no alto,
sobrevoava acima de semelhante paixão e estava todo inteiro pendente da herança
futura, prometida por Deus aos que saíssem do Egipto espiritual e marchassem
para aquela terra na qual mana leite misturado com mel. Por esta razão
constituiu exploradores que informassem dos bens daquela terra. Os portadores
de boas esperanças são, a meu ver, as considerações nascidas da fé, que
fortalecem a esperança com os bens que estão preparados; os que causam a
desilusão das melhores esperanças são os pensamentos que provém do inimigo, os
quais debitam a fé na promessa. Sem levar em conta nenhuma palavra dos
adversários, Moisés julgou digno de fé quem dava as melhores referências acerca
daquela terra. Josué era o chefe da melhor exploração e o que com sua
autoridade dava credibilidade às notícias. Ao vê-lo, Moisés teve como
indubitáveis as esperanças destes bens futuros, tomando o ramo de uvas,
transportado por ele em varas, como sinal das riquezas dali (Nm. 13, 24).
Evidentemente, ao ouvir que Jesus revela aquela terra e que levanta o ramo de
videira no madeiro, entendes que coisa confirmava Moisés nas esperanças. O ramo
de uvas pendurado no madeiro que outra coisa designa senão o ramo pendente do
madeiro nos últimos dias, cujo sangue se converte em bebida salvadora para os
crentes? Moisés nos anunciou isto como símbolo, dizendo: Bebiam vinho, sangue
da uva (Dt. 32, 14), referindo-se por meio disto à
Paixão salvadora. Novamente o caminho através do deserto. O povo, que havia
perdido a esperança nos bens da promessa, se vê incomodado pela sede.
CAPÍTULO 43
Moisés novamente inunda o deserto para eles por meio
da pedra (Nm. 20, 2-11; Ex. 17, 1-7). Este relato, em sua interpretação
espiritual, nos ensina como é o sacramento
da penitência. Com efeito, aqueles que depois de haver
experimentado a água da pedra se voltam para o ventre, a carne e os prazeres
egípcios, são castigados com a ânsia da participação dos bens. Porem graças ao
arrependimento é-lhes possível encontrar de novo a rocha que abandonaram, e
abrir de novo o veio de água e saciar-se novamente da fonte. A pedra o outorga
isto àquele Moisés que acreditou que a exploração de Josué era mais verdadeira
que a de seus adversários, que via o ramo de uvas (Jo.
15, 1) pendente em nosso favor, e que de novo fez com a vara que a pedra
manasse para eles. O povo ainda não havia aprendido a seguir as pegadas da
grandeza de Moisés. Ainda se deixa arrastar para baixo, para os desejos servis,
e se inclina aos prazeres egípcios. O relato mostra através destas coisas que a
natureza humana é propensa a esta paixão acima de todas as demais, capaz de
sucumbir à enfermidade por mil caminhos. Moisés, como médico que impede com sua
arte que o mal vença sempre, não permite que a enfermidade predomine sobre eles
a ponto de causar a morte (Nm. 21, 6-9). Posto que a concupiscência de coisas
absurdas engendrou serpentes cuja mordida era portadora de morte ao introduzir
o veneno em quem era alcançado por seus dentes, o grande Legislador neutralizou
com a imagem de uma serpente a força das feras verdadeiras. Talvez seja tempo
de revelar mais claramente o enigma. Existe uma só protecção contra estas
perversas paixões: a purificação de nossas almas que tem lugar através do
mistério da piedade. Entre as coisas que cremos no mistério, é ponto capital a
fé na Paixão Daquele que por nós aceitou o padecimento. A cruz,
com efeito, é um padecimento; quem olha para ela, como explica o relato, não é
atingido pelo veneno da concupiscência (Nm. 21, 9; Jo.
3, 15). Olhar para a cruz não é outra coisa que converter a vida inteira de
cada um em crucificação e morte ao mundo (Ga. 6, 14),
inamovível por qualquer pecado, crucificando verdadeiramente as próprias carnes
com o temor de Deus, como diz o profeta (Sal. 119, 120). O cravo que sujeita a
carne é a continência. E posto que a concupiscência de coisas absurdas faz sair
da terra serpentes portadoras de morte, - todo rebento
da concupiscência é uma serpente-, a Lei nos mostra o que se revela no madeiro.
Este é figura de serpente, porém não é serpente, como também disse o grande
Paulo: Em semelhança da carne de pecado (Rm. 8, 3). A verdadeira serpente é o
pecado; quem marcha junto do pecado se reveste da natureza da serpente. Assim
pois, o homem é libertado do pecado por aquele que tomou sobre si a aparência
de pecado e se fez igual a nós que nos havíamos transformado em imagem da
serpente. Por ele é evitada a morte proveniente das mordidas, porem não são
aniquiladas as feras. Chamo feras à concupiscência. Com efeito, a má morte dos
pecadores não tem força contra aqueles que olham para a cruz, ainda que a
concupiscência contra o espírito, que está metida dentro da carne, não tenha
sido destruída de tudo (Ga. 5, 16-17). Também os
crentes se deixam sentir muitas vezes as mordidas da concupiscência, porem quem
olha para aquele que foi levantado no madeiro evita a paixão, dissolvendo o
veneno com o temor do preceito, como se fosse um antídoto.
CAPÍTULO 44
Que a serpente levantada no deserto é símbolo do
mistério da cruz o ensina abertamente a palavra do Senhor quando diz: Da mesma
forma que Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja
levantado o Filho do homem (Jo. 3, 14). Novamente
marcha o pecado por seu caminho habitual, avançando regularmente em uma
concatenação malvada, com uma lógica perversa. E o Legislador, como um médico,
amplia a cura conforme o progresso do mal. Posto que a mordida das serpentes se
havia tornado ineficaz para os que olhavam para a figura da serpente, pelo já
explicado entendes bem o simbolismo, aquele que maquina enganos tão diversos
contra nós inventa outro caminho para o pecado. Também agora podemos observar
que isto mesmo sucede a muitos. Com efeito, muitos que reprimem a paixão da
concupiscência por meio de uma vida mais sensata, cheios de soberba, se lançam
ao sacerdócio contra o plano de Deus, por esforços humanos e intrigas para ser
escolhidos. Aquele a quem o relato acusa de fazer o mal aos homens é o que
empurra a esta perversa cadeia de pecados. Com efeito, depois que, por causa da
fé naquele que está elevado sobre o madeiro, cessou a terra de dar a luz
serpentes contra os que estavam cheios de concupiscência, e eles se acreditaram
mais fortes que as mordidas venenosas, então, quando se ultrapassa a paixão
relativa à concupiscência, se apresenta a enfermidade do orgulho. Julgando que
é pouco estar no lugar em que foram colocados, se lançam à dignidade do
sacerdócio, intrigando para afastar aqueles que receberam por sorte esta função
sagrada da parte de Deus. Estes desaparecem deglutidos pelo abismo. Os que
haviam de seu grupo sobre a terra foram abrasados por raios (Nm. 16, 31-35).
Penso que com este relato a palavra ensina que o final da exaltação própria do
orgulho é a descida para debaixo da terra. Talvez alguém, inspirando-se nestas
coisas defina a soberba, não sem razão, como uma subida para baixo. Não
estranhes se este pensamento está em contradição com o sentir de muitos. As
pessoas pensam que com o nome soberba designa-se o estar acima dos demais. A
verdade do que foi aqui narrado confirma nossa definição. Com efeito, se os que
se elevaram a si mesmos acima dos demais se afundaram no abismo da terra aberta
debaixo deles, talvez ninguém repudie a descrição que define o orgulho como uma
caída ao mais baixo. Moisés ensina a quem contempla estas coisas a ser
comedidos e a não envaidecer-se com os êxitos, mas a administrar sempre bem o
presente. Pois ainda que hajas sido mais forte que os prazeres, não por isso
estás isento de ser preso por outra forma de paixão. Toda paixão é uma caída
enquanto é paixão. Não há nenhuma diferença de caída na diversidade de paixões:
quem resvalou na suavidade do prazer, caiu; e quem foi derrubado pelo orgulho,
caiu. Para quem tem inteligência não é desejável nenhuma forma de caída, pois
toda caída, enquanto caída, deve ser igualmente evitada. Por esta razão, se
agora vês em algum lugar alguém que se purificou da debilidade dos prazeres, porém
que se lança de novo com afã ao sacerdócio por julgar que está acima dos
demais, pensa que, na mesma elevação do orgulho, o vês cair terra abaixo. No
que segue a continuação, a Lei ensina que o sacerdócio é um assunto divino, não
humano. O ensina desta forma: Havendo marcado as varas de cada tribo com o nome
dos que as haviam oferecido, Moisés as colocou sobre o altar de Deus, de forma
que a vara distinguida das outras por um prodígio divino fosse o testemunho da
eleição do céu (Nm. 17, 6 -11). Feito isto, as varas dos demais permaneceram
como estavam, porem a vara do sacerdote, que havia lançado raízes em si mesma
não por uma humidade vinda de fora, mas pela força metida por Deus dentro dela,
germinou ramos e frutos, e o fruto, - era uma amêndoa
-, chegou a amadurecer. Este acontecimentoo ensinou a todo o povo a permanecer
submisso em boa ordem. No fruto que produziu a vara de Aarão, podemos ver como
a vida no sacerdócio deve ser continente, severa e dura na manifestação externa
da conduta, porem levando por dentro, no oculto e invisível, o fruto que se
come, o qual se mostra quando, com o tempo, amadurece o comestível, parte-se a
casca rugosa e se abre a envoltura lenhosa do fruto.
CAPÍTULO 45
Se chegasses a saber que a vida de um sacerdote é
doce, folgada e cor de rosa, como aqueles que se vestem de linho e púrpura e
engordam em mesas esplêndidas (Lc. 16, 19), que bebem
vinho filtrado, estão ungidos com o melhores perfumes e reúnem para si tudo o
que parece suave ao gosto superficial dos que desfrutam de uma vida mole,
poderias aplicar com toda exactidão o dito evangélico: olhando o fruto, não
reconheço a árvore sacerdotal, pois um é o fruto do sacerdócio e outro muito
diferente este (Lc. 6, 43-44). Aquele fruto é a
continência, este é a moleza; aquele não está alimentado por humidade
terrestre, a este regam muitos arrojos de prazeres daqui de baixo, graças aos
quais nesta hora o fruto de vida se colore de rosa. Uma vez que o povo se tenha
purificado também desta paixão, atravessa a vida estrangeira guiando-o a Lei
pelo caminho real, sem desviar-se de um lado ou de outro (Nm. 20, 17). É
perigoso para o caminhante desviar-se para qualquer lado. Quando dois
precipícios se estreitam no caminho de um rompente elevado, é perigoso para
quem marcha por ele desviar-se para uma parte ou outra, pois o abismo do
precipício traga igualmente a quem se desvia de um lado ou de outro; assim a
Lei quer que quem segue suas pegadas não abandone o caminho, o qual, como diz o
Senhor, é estreito e empinado (Mt. 7, 14), isto é,
que não se desvie nem à esquerda, nem à direita. Esta palavra, ao definir que
as virtudes se encontram no meio, contem este ensinamento: todo vício nasce ou
por falta ou por excesso no fazer em relação à virtude. Assim com respeito ao
valor, a covardia é uma falta de virtude, e a temeridade um excesso: o que está
livre destes extremos se encontra situado no meio dos vícios que se encontram
em seus flancos. Isto precisamente é a virtude. Da mesma forma todas as demais
coisas se encontram, em sua relação com o bem, no meio de vizinhos perigosos. A
sabedoria ocupa o lugar intermediário entre a astúcia e a candura: nem a
astúcia da serpente é aprovada, nem a candura da pomba,
se tomarmos cada uma delas separadamente em si mesma (Mt.
10, 16), pois a virtude consiste na disposição intermediária que modera estas
duas. O que está falho de temperança é um libertino, enquanto que quem se
excede em sua prática cauteriza a própria consciência, como declara o Apóstolo
(1 Tm. 4, 2): um, de facto, entregou-se voluntariamente
aos prazeres, enquanto o outro sente horror ante o matrimónio, como se fosse
adultério. A disposição intermediária entre estes dois é a temperança. Posto
que, como diz o Senhor, este mundo está sob o poder do maligno (1 Jo. 5, 19), e para quem segue a Lei tudo quanto se opõe à
virtude - isto é, a maldade - lhe resulta estranho,
aquele que marcha através deste mundo levará a bom termo durante sua vida este
caminho da virtude, se não perder a grande estrada, pisada e abrandada pela
virtude, sem desviar-se pelo vício para caminhos impraticáveis que estão aos
lados. Como já foi dito, a tentação do adversário -
que, em qualquer situação, encontra ocasiões para desviar-nos para o mal -
cresce juntamente com o progresso da virtude. Na hora que o povo cresceu muito
na vida segundo Deus é quando o inimigo tenta atacar com outra forma de
tentação segundo o uso de melhores estratégias. Estes quando julgam difícil
vencer a frente do exército do inimigo, superior em forças, o combatem com
emboscadas e enganos. Por esta razão, a estratégia do mal não apresenta
frontalmente sua força contra aqueles que estão robustecidos pela Lei e a
virtude, mas realiza a tentação veladamente, com emboscadas. Chama agora a
magia como aliada para atacar. O relato diz que era um adivinho e um
investigador do vôo das aves, o qual tinha um poder
daninho contra os adversários, sem dúvida por alguma força dos demónios. Este
estava sendo pago pelo chefe dos madianitas para danar com maldições os que
viviam para Deus, porem trocou a maldição em benção
(Nm. 22, 2-35). Nós, por coerência com nossa exegese anterior, interpretamos
que nem sequer a magia tem força contra quem vive na virtude; quem está
fortalecido pela ajuda de Deus vence toda tentação.
CAPÍTULO 46
O facto de que o investigador do voo das aves, que
mencionamos, praticava a magia é atestada pelo relato quando diz que tinha o
poder de fazer vaticínios na mão e de consultar através das aves e, antes
disso, que havia conhecido pelo zurro da jumenta o concernente à rivalidade que
tinha diante. A Escritura apresentou o zurro da jumenta como uma palavra
articulada, porque ele habitualmente consultava com uma força diabólica as
vozes dos animais. Mostra-nos com isto que quem está enredado com este engano
dos demónios chega inclusive a tomar como uma palavra racional o ensinamento
que encontra na observação dos sons dos irracionais. Ao escutá-la, compreendeu
por aquelas mesmas coisas em que havia errado, que era invencível a força
contra a qual o haviam alugado. Também na narração evangélica a turba de
demónios chamada legião (Mc. 5, 9; Lc. 8, 30), prepara-se para se opor ao poder do Senhor.
Porém quando se aproxima Aquele que tem o poder sobre todas as coisas, a horda
proclama seu poder excelso e não oculta a verdade: que este é a força divina, e
que em tempo vindouro infligirá o castigo aos pecadores. Pois diz a voz dos
demónios: Sabemos quem és: o Santo de Deus, e que vieste antes do tempo a
atormentar-nos (Mc. 1, 24; 5, 7; Lc.
4, 34-35). Isto é o que sucedeu também então: o poder demoníaco que acompanhava
o mago ensinou a Balaan que o povo era invencível e invulnerável. Harmonizando
este relato com as coisas que já explicamos, dizemos que quem quer maldizer os
que vivem na virtude não pode pronunciar nenhuma palavra hostil nem
discordante, mas converte sua maldição
CAPÍTULO 47
O Senhor no Evangelho, com sua própria voz, para que
nos mantivéssemos afastados deste mal, cortou o caminho, como raiz da paixão,
da concupiscência que nasce do olhar, quando ensina que quem admite a paixão
com a vista, abre, contra si mesmo, a porta da enfermidade (Mt.
5, 28). As paixões perversas, como a peste, uma vez que tiverem dominado os
pontos chaves, só cessam com a morte. Penso que não é necessário alargar o
discurso apresentando ao leitor toda a vida de Moisés como exemplo de virtude.
Com efeito, para quem se esforça por uma vida mais elevada, as coisas que já
foram ditas servirão de não pequeno alimento para a verdadeira filosofia,
enquanto que quem se encontra sem forças para os trabalhos da virtude não
obteriam maior proveito com um escrito mais prolixo. Sem dúvida, para que não
se esqueça a definição dada no começo na qual se baseava nosso discurso - que a vida perfeita é aquela à qual nenhum limite impede
avançar, e que o constante progresso da vida ao melhor é para a alma o caminho
para a perfeição - talvez seja bom que, levando o discurso até o final da vida
de Moisés, se demonstre que a definição de perfeição que foi dada está certa.
Com efeito, Moisés havendo se elevado durante toda a vida com estas ascensões,
não duvidou em elevar-se sempre sobre si mesmo, de forma -
penso - que sua vida perece em todas as coisas com a da águia, mais celestial e
elevada que as nuvens, voando em círculos na abóbada celeste da ascensão espiritual.
Nasceu quando entre os egípcios se tinha como um delito que nascesse um hebreu.
Como o tirano castigasse então com a lei, ele foi superior à lei que dava
morte, pois foi salvo primeiro por seus progenitores e, depois, pelos que
haviam estabelecido a lei. E aqueles que haviam procurado sua morte com a lei,
esses não só tomaram sobre si o cuidado de sua vida mas também o de uma
educação bem planejada, conduzindo o menino através de toda a sabedoria. Depois
disto, faz-se superior à honra humana e mais elevado que a dignidade régia,
julgando que era mais forte e mais régio ter, em vez de servidores e da pompa
real, a guarda da virtude e adornar-se com sua beleza. Depois disto, salva seu
compatriota e fere com um golpe o egípcio, os quais, considerando-os à luz da
interpretação espiritual, entendemos como o inimigo e o amigo da alma.
Imediatamente faz do silêncio mestre de elevados ensinamentos, e desta forma
ilumina seu espírito com a luz que resplandece da sarça. E então se apressa por
fazer seus compatriotas participes dos bens que lhe foram dados por Deus. Com
isto deu uma mostra dupla de sua virtude: com golpes variados e sucessivos
mostrou, frente aos inimigos, sua força defensiva e, a seus compatriotas, sua
força benfazeja. Conduz a pé através do mar este povo, sem haver preparado para
si uma frota de navios, mas aprovisionando-os para a navegação com a fé como se
fosse um navio; faz do abismo terra firme para os hebreus, e da terra firme,
mar para os egípcios. Então os cantos de vitória. É guiado pela coluna de
nuvem. É iluminado pelo fogo do céu. Prepara uma mesa com alimentos do alto.
Sacia a sede com água da rocha. Eleva as mãos para a destruição dos amalecitas.
Sobe à montanha. Entra nas trevas. Ouve a trombeta. Aproxima-se da natureza
divina. Entra dentro do tabernáculo divino. Organiza o sacerdócio. Constrói a
tenda. Regula a vida com leis. Leva a bom termo as últimas lutas da forma que
explicamos. Para culminar suas obras rectas, castigou a impureza por meio do
sacerdócio: isto é o que significa a cólera que, através de Finéias, se
levantou contra a paixão. Depois destas coisas, aproxima-se da montanha do
descanso. Não caminha da terra daqui de baixo até a que, em razão da promessa,
olha todo o povo. Ele, que se esforçou por viver do alimento que mana do céu,
não experimenta mais um alimento terreno, mas elevado ao alto, acima mesmo da
montanha, como um hábil escultor que trabalha a estátua inteira de sua vida, ao
término de seu trabalho, pôs fim, sem coroa, à obra. Que diz o relato sobre isto?
Que Moisés morreu, servo do Senhor segundo a palavra de Deus, e que ninguém
conheceu seu sepulcro; que seus olhos não se apagaram, nem seu rosto se
corrompeu (Dt. 34, 5-7). Aprendemos que, depois de
haver passado por tantos trabalhos, é considerado digno deste nome sublime, a
ponto de ser chamado servidor de Deus, que é o mesmo que dizer que foi superior
a tudo. Com efeito, nada serviria a Deus se não houvesse chegado a ser superior
a tudo o que está no mundo. Para ele, este é o final da vida virtuosa dirigida
pela palavra de Deus. A história a chama morte, morte vivente, que o sepulcro
não é capaz de conter, sobre a qual não se levanta um túmulo, que não leva a
cegueira aos olhos, nem a corrupção ao rosto.
CAPÍTULO 48
Que aprendemos com estas palavras? A ter um só fim
durante a vida: ser chamados servidores de Deus por nossas acções. Assim pois,
quando tiveres vencido todos os inimigos, - o egípcio,
o amalecita, o idumeu, o madianita -, quando tiveres atravessado o mar, quando
tiveres sido iluminado pela nuvem, quando estiveres adoçado pelo lenho, quando
tiveres bebido da rocha, quando tiveres provado o alimento do manjar celestial,
e pela pureza e inocência tiveres aberto um caminho para a subida da montanha;
quando, uma vez chegado ali, tiveres sido instruído no mistério divino pelo som
das trombetas, e nas trevas que impedem ver te tiveres aproximado de Deus por
meio da fé e ali se te hajam dado a conhecer os mistérios da tenda e da
dignidade do sacerdócio; Quando te tenhas convertido em escultor de teu próprio
coração a ponto de fazer gravar nele pelo mesmo Deus os oráculos divinos;
quando tiveres destruído o ídolo de ouro, isto é, quando tiveres feito
desaparecer de tua vida a paixão da ambição; quando te hajas elevado de forma
que apareças invencível à feitiçaria de Balaam, - ao
ouvir falar de feitiçaria entendas o variado engano desta vida, através da qual
os homens, como se houvessem bebido de alguma taça de Circe, extraviando-se da
própria natureza, tomam as formas de animais irracionais -, quando tiveres
passado por tudo isto, e tiveres floreado em ti o ramo do sacerdócio sem que
hajas tomado nenhuma humidade da terra para germinar, mas por ter dentro de si
o poder de dar fruto, o fruto da amêndoa, cujo primeiro contacto é áspero e
desagradável, porem cujo interior é doce e comestível; quando tiveres elevado
até a aniquilação, - sepultado sob a terra como Datan
ou consumido pelo fogo como Coré -, tudo aquilo que se opõe a tua dignidade,
então te haverás aproximado do fim. Entendo por fim aquilo por cuja causa se
faz tudo, como o fim da agricultura é o gozo dos frutos, o fim da construção de
uma casa é habitá-la, o fim do comércio é enriquecer-se e o de todos os
esforços desportivos é a coroa de vencedor. O fim da vida superior é ser
chamado servidor de Deus, e, junto com isto, o não estar sepultado sob um
sepulcro, isto é, o levar uma vida despida e livre de cargas malvadas. O relato
oferece outro traço deste serviço: seus olhos não se apagaram e não se
corrompeu seu rosto (Dt. 34, 7). O olho que sempre
havia permanecido aberto à luz, como poderia ser obscurecido pelas trevas às
quais era estranho? Quem houver conservado durante toda sua vida a incorrupção
não experimenta em si mesmo nenhuma corrupção. De facto, aquele que chegou a
ser verdadeiramente imagem de Deus e não se afastou o mínimo do projecto
divino, chega a si os traços e concorda totalmente na semelhança com o
arquétipo, pois tem embelezada a própria alma com a incorrupção, a
imutabilidade e a ausência de qualquer mistura com o mal.
CONCLUSÃO:
Nosso breve discurso ofereceu-te, homem de
Deus, estas coisas sobre a perfeição da vida virtuosa, apresentando-te a vida
do grande Moisés como modelo evidente de bondade, para que cada um de nós,
imitando suas acções, copie em si mesmo os traços da beleza que nos foi
mostrada. E de que Moisés tenha conseguido realizar a perfeição que é possível,
que testemunho mais digno de fé poderíamos encontrar senão a palavra divina,
quando diz: Eu te conheço pelo teu nome e tu achaste graça diante de mim (Ex.
33, 12.17)? Também o facto de que seja chamado amigo de Deus pelo próprio Deus
(Ex. 33, 11), e o facto de que tendo escolhido perecer junto com os demais se
Deus não se aplacasse com benevolência daquilo que o havia ofendido, Deus
deteve sua ira contra os israelitas ao modificar seu próprio juízo para não
entristecer o amigo (Ex. 32, 7-14). Todos estes testemunhos são uma clara
demonstração de que a vida de Moisés alcançou o limite mais elevado da
perfeição. Posto que investigávamos qual é a perfeição da vida virtuosa e, pelo
que já dissemos, descobrimos esta perfeição, é hora, nobre homem, de que olhes
para o modelo e, aplicando a tua vida quanto temos contemplado nos
acontecimentos históricos com interpretação espiritual te faças ser conhecido
de Deus (Ex. 33, 12 e 17) e assim te convertas em seu amigo. A perfeição
consiste verdadeiramente nisto: em afastar-se da vida de pecado não por temor
servil do castigo, e em fazer o bem não pela esperança do prémio, negociando
com a vida virtuosa com disposição e ânimo interessado e mercantilista, mas
consiste em que, olhando mais além de todos os bens que nos estão preparados em
esperança segundo a promessa, não tenhamos como temível mais que ser repudiados
da amizade de Deus, e não julguemos respeitável e amável para nós senão o
chegar a ser amigos de Deus. Isto é, em minha opinião, a perfeição da vida.
Encontrarás isto quando tua mente se elevar às coisas mais altas e divinas, sei
bem que encontrarás muitas. Isto servirá claramente de proveito para todos.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)