MARIA O
CONSOLO DA IGREJA
Vida de Maria (fragmento)
O nascimento e a adolescência daquela que concebeu e
deu à luz - evento impensável, incompreensível,
inefável! - ao Filho de Deus, o Verbo, Rei e Deus do Universo, já haviam sido
mais maravilhosos que tudo o que se pode ver na natureza. Desde então, todos os
dias de sua inteira existência, mostrou um estilo de
vida superior à natureza. [...] Logo, no caminho de sua fatigosa tarefa, sofreu
e suportou muitas tribulações, provas, aflições e lamentos durante a Crucifixão
do Senhor, alcançando uma completa vitória e obtendo coroas de triunfo,
até ao ponto de ser constituída a Rainha
de todas as criaturas.
Depois de ver o Filho, o Verbo do Pai, verdadeiro
Deus e Rei da Criação, ressuscitar do sepulcro, -
acontecimento superior a qualquer outro - e subir
ao Céu com aquela natureza humana que dela havia tomado, depois de toda
esta glória, não lhe foi poupada aqui na terra uma vida de provas e fadigas,
não esteve privada de ansiedades e preocupações. Como se começasse então sua
vida pública, em seu desvelo, não concedia sono a seus olhos nem descanso às
suas pálpebras nem repouso ao seu corpo (Sl. 131, 4):
e quando os apóstolos se dispersaram pelo mundo inteiro, a Santa Mãe de
Cristo, como Rainha de todos, vivia no centro do mundo, em Jerusalém, em Sião
com o apóstolo predilecto que lhe havia sido dado como filho por Nosso Senhor
Jesus Cristo. [...]
A Virgem não só animava e ensinava aos santos
apóstolos e aos demais fiéis a ser pacientes e suportar as provas, senão que
era solidária com eles em suas fadigas, lhes sustentava na pregação, estava em
união espiritual com os discípulos do Senhor em suas privações e suplícios, em
suas prisões. Assim como havia participado com o coração trespassado, na Paixão
salvadora de seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, assim sofria com eles. Mais
ainda, consolava a estes dignos discípulos com suas acções, confortava-os com
suas palavras pondo-lhes como modelo a Paixão de seu Filho e Rei.
Recordava-lhes a recompensa e a coroa do Reino dos céus, a bem-aventurança e as
delícias pelos séculos dos séculos.
Quando Herodes capturou a Pedro,
tendo-lhe mantido prisioneiro até a aurora, também ela estava espiritualmente
prisioneira com ele: a santa e bendita Mãe de Cristo participava nas suas
algemas, rezava por ele e pedia à Igreja que rezasse. E antes, quando aos maus
judeus apedrejaram Estêvão, quando Herodes ordenou o martírio de Tiago, irmão
de João, as perseguições, sofrimentos e suplícios trespassaram o coração da
Santa Mãe de Deus: na dor de seu coração e com as lágrimas de seu lamento, era
martirizada com ele. [...]
Depois da partida de João, o Evangelista, São Tiago,
o filho de José, também chamado «irmão do Senhor», tomou a seu cuidado a Santa
Mãe de Cristo [...] Deste modo, também o regresso da Santa Mãe de Deus à
Jerusalém foi um bem: era ela, com efeito, a segurança, o porto e o apoio
dos crentes que ali viviam.
Qualquer preocupação ou dificuldade dos cristãos, era confiada à puríssima, já que habitavam em meio ao
rebelde povo judeu. Antes dos santos combates e da morte, de todos os lados
vinham os fiéis para vê-la. Ela consolava a todos e a todos fortalecia.
Ela era a santa esperança dos cristãos de então e
dos que viriam depois: até o fim do mundo será a mediadora e a fortaleza dos
cristãos. Porém, então, sua preocupação e seu empenho eram mais intensos, para
corrigir, para consolidar a nova lei do cristianismo, para que fosse
glorificado o Nome de Cristo.
As perseguições que sobre a Igreja eram disparadas,
a violação dos domicílios dos fiéis, as execuções capitais de numerosos
cristãos, as prisões e tribulações de todo o tipo, as perseguições, as fadigas
e vexames por que passavam os apóstolos, expulsos de lugar em lugar, todas
estas coisas repercutiam em seu coração materno, que sofria por todos e de
todos cuidava, com palavras e obras. Era ela o modelo do bem e a melhor mestra
no lugar do Senhor, seu Filho, e em vista dele. Era ela a intercessora e
advogada de todos os crentes. Suplicava a seu Filho que derramasse sobre todos
a sua misericórdia e a sua ajuda.
Os santos apóstolos haviam-na escolhido como guia e
mestra. Notificavam-lhe qualquer problema que surgisse e dela recebiam
propostas e conselhos sobre o que deviam fazer, até o ponto que, os que se
encontravam próximos a Jerusalém iam vê-la. De vez em quando, aproximavam-se
dela e informavam-na o que haviam feito e como haviam pregado. Seguiam depois
suas orientações. Depois de percorrer países distantes, procuravam voltar cada
ano, pela Páscoa, à Jerusalém, para celebrar com a Santa Mãe de Deus, a festa
da Ressurreição de Cristo. Cada um lhe informava sobre sua pregação aos gentios
e as perseguições que haviam encontrado por parte dos judeus e pagãos; logo,
reconfortados com sua oração e doutrina, retornavam ao apostolado. Assim
procediam todos, ano após ano - a menos que houvesse
grave impedimento -, excepto Tomé. Ele não podia vir por causa da enorme
distância e da dificuldade de se deslocar da Índia onde se encontrava. Todos os
demais vinham a cada ano visitar a santa Rainha; depois, fortalecidos com sua
oração, voltavam a anunciar a Boa-nova.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)