A UNIDADE DA
IGREJA
I Parte:
"Vós sois o sal da terra" (Mt. 5, 3), diz o Senhor, e
ainda nos recomenda que sejamos simples pela inocência e prudentes na
simplicidade (Mt. 10, 16). Nada pois é mais importante para nós, irmãos
dilectíssimos, quanto vigiar com todo o cuidado para descobrir logo e, ao mesmo
tempo, compreender e evitar as ciladas do inimigo traiçoeiro. Sem isso, embora
sejamos revestidos de Cristo (Rom. 13, 14; Gál. 3, 27), que é a Sabedoria de
Deus Pai (1 Cor. 1, 24), nos mostraríamos menos sábios na defesa da salvação.
De facto, não devemos temer só a perseguição e os
vários ataques que se desencadeiam abertamente para arruinar e abater os servos
de Deus. Quando o perigo é manifesto, a cautela é mais fácil. O nosso espírito
está mais pronto para lutar contra um adversário abertamente declarado. É mais
necessário ter medo e guardar-nos do inimigo que penetra às escondidas, e se
vai insinuando oculta e tortuosamente com falsas imagens de paz. Bem lhe convém
o nome de serpente! Essa foi sempre a sua astúcia, esse foi sempre o tenebroso
e pérfido engano com que tenta seduzir o homem.
Já no começo do mundo mentiu e enganou as almas
crédulas e ingénuas (dos nossos primeiros pais), acariciando-as com palavras
falazes (Gén. 3, 1ss). Igualmente ousou tentar a Cristo, Nosso Senhor, e
aproximou-se dele insinuando, disfarçando, mentindo. Foi contudo desmascarado e
repelido. Desta vez, foi derrotado porque foi reconhecido e descoberto (Mt. 4,
1ss).
Sirvam-nos estes exemplos. Evitemos o caminho do
homem velho, para não cair no laço da morte. Sigamos as pisadas de Cristo
vencedor, para que, usando cautela diante do perigo, alcancemos a verdadeira
imortalidade.
Mas, como poderíamos chegar à imortalidade, sem
observar os mandamentos de Cristo? São eles os únicos meios para combater e
vencer a morte. Ele avisa-nos: "Se queres chegar à vida, observa os
mandamentos" (Mt. 19, 17), e, de novo: "Se fizerdes o que vos
mando, já não vos chamarei servos, mas amigos" (Jo. 15, 15).
Esses são os que ele diz serem fortes e firmes.
Esses têm fundamento sólido na pedra, e gozam de inabalável resistência contra
todas as tempestades e as rajadas do século. "Quem ouve as minhas
palavras - diz ele - e as cumpre é semelhante ao homem
sábio que construiu a sua casa sobre a pedra. Desceu a chuva, desabaram as
correntes, sopraram os ventos, batendo contra aquela casa, e ela não caiu
porque fora fundada na pedra" (Mt. 7, 25).
Devemos, pois, prestar atenção às suas palavras,
devemos aprender e praticar o que ele nos ensinou e o que fez. Como poderia
asseverar que acredita em Cristo aquele que não cumpre o que Cristo mandou? E
como conseguirá o prémio da fé aquele que recusa a fé no que foi mandado? Fatalmente
ele irá vacilando, à ventura, e, arrastado pelo espírito do erro, será varrido
como pó agitado pelo vento.
Nunca poderão conduzir à salvação os passos daquele
que não adere à verdade da única via que salva.
O demónio é o autor dos cismas
Devemos pois guardar-nos, irmãos caríssimos, não só dos males que aparecem claramente como tais, mas também, como já disse, daqueles que nos enganam pela subtileza da astúcia e da fraude.
Pois bem, vede agora a que ponto chega a astúcia e a
subtileza do inimigo. Veio Cristo ao mundo. Veio a luz para os povos e
resplandeceu para a salvação dos homens (Lc. 2, 32). Com isto ficou descoberto
e derrotado o antigo adversário. Os surdos abrem os ouvidos às graças
espirituais, os cegos abrem os olhos a Deus, os enfermos ficam sãos ao ganhar a
saúde eterna, os coxos correm à Igreja, os mudos soltam as suas línguas na
oração (Mt. 11, 5; Lc. 7, 22). Aumenta dia a dia o povo fiel, abandonam-se os
velhos ídolos, tornam-se desertos os seus templos.
Então, o que faz o malvado? Inventa nova fraude para
enganar os incautos com o próprio título do nome cristão. Introduz as heresias
e os cismas para derrubar a fé, para contaminar a verdade e dilacerar a unidade.
Assim, não podendo mais segurar os seus na cegueira da antiga superstição,
rodeia-os, condu-los ao erro por novos caminhos. Rouba à Igreja os homens e,
fazendo-lhes acreditar que alcançaram a luz e subtraíram-se à noite do século,
envolve-os ainda mais nas trevas: não observam a lei do Evangelho de Cristo e
se dizem cristãos, andam na escuridão e pensam que possuem a luz, nisto são
iludidos e lisonjeados pelo adversário, que, como diz o Apóstolo, "se
transfigura em anjo de luz" (2 Cor. 11, 14).
Disfarça os seus ministros em ministros de justiça,
ensina-lhes a dar à noite o nome de dia, à perdição o nome de salvação,
ensina-lhes a propalar o desespero e a perfídia sob o rótulo da esperança e da
fé, a apregoar o Anticristo com o nome de Cristo. Mestres na arte de mentir,
diluem com as suas subtilezas toda a verdade.
Isto acontece, irmãos caríssimos, porque não se bebe
à fonte mesma da verdade, não se busca aquele que é a Cabeça, nem se observam
os ensinamentos do Mestre celestial.
"Tu és Pedro e sobre esta pedra...”
Quem presta atenção a estes ensinamentos não precisa de longo estudo, nem de muitas demonstrações. A prova da nossa fé é fácil e compendiosa.
Assim fala o Senhor a Pedro: "Eu te digo que
tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas dos
infernos não a vencerão. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus e tudo o que
ligares na terra será ligado também nos céus, e tudo o que desligares na terra
será desligado também nos céus" (Mt. 16, 18-19).
Sobre um só edificou a sua Igreja. Embora, depois da
sua ressurreição, tenha comunicado igual poder a todos os Apóstolos, dizendo: "Como
o Pai me enviou, eu vos envio a vós. Recebei o Espírito Santo, a quem
perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados, a quem os retiverdes ser-lhe-ão
retidos" (Jo. 20, 21-23).
É verdade que os demais Apóstolos eram o mesmo
que Pedro, tendo recebido igual parte de honra e de poder, mas a primeira
urdidura começa pela unidade a fim de que a Igreja de Cristo aparecesse uma só.
O Espírito Santo, falando na pessoa do Senhor,
designa esta Igreja única quando diz no Cântico dos Cânticos: "Uma
só é a minha pomba, a minha perfeita, única filha da sua mãe e sem igual para a
sua progenitora" (Cant. 6, 9).
Aquele que não guarda esta unidade poderá pensar que
ainda guarda a fé? Aquele que resiste e faz oposição à Igreja poderá confiar
que ainda está na Igreja?
Paulo, apóstolo inculca o mesmo
ensinamento e mostra o sacramento da unidade, dizendo: “Um só corpo e um só
espírito, uma só esperança da vossa vocação, um Senhor, uma fé, um baptismo,
um só Deus” (Ef. 4, 4-5).
E, depois da ressurreição, diz ao mesmo: "Apascenta
as minhas ovelhas" (Jo. 21, 17). Sobre o seu testemunho constrói a
Igreja e manda-lhe que apascente as suas ovelhas.
É verdade que os demais Apóstolos eram o mesmo que Pedro,
mas o
primado é conferido a Pedro para que fosse evidente que
há uma só Igreja e uma só cátedra. Todos são pastores, mas é anunciado um só rebanho, que
deve ser apascentado por todos os Apóstolos em unânime harmonia.
Aquele que não guarda esta unidade, proclamada também por Paulo, poderá pensar que ainda guarda a fé? Aquele que abandona a cátedra de Pedro, sobre o qual foi fundada a Igreja, poderá confiar que ainda está na Igreja?
A
Igreja única e universal: muitos são os raios, uma a luz...
Esta unidade devemos guardar e exigir com firmeza,
especialmente nós, bispos, que na Igreja presidimos, para dar prova de que o
episcopado também é um e indiviso. Ninguém engane os irmãos com
mentiras, ninguém corrompa a pureza da fé com pérfidos desvios. Uma só é a ordem episcopal e
cada um de nós participa dela completamente. Mas a Igreja também é uma, embora,
em seu fecundo crescimento, se vá dilatando numa multidão sempre maior.
Assim muitos são os raios do sol, mas uma só é a
luz, muitos os ramos de uma árvore, mas um só é o tronco preso à firme raiz. E
quando de uma única nascente emanam diversos riachos, embora corram separados e
sejam muitos, graças ao copioso caudal que recebem, todavia permanecem unidos
na fonte comum.
Se pudéssemos separar o raio do corpo do sol, na luz
assim dividida já não haveria unidade. Quando se quebra um ramo da árvore, o
ramo quebrado já não pode vicejar. Se separamos um regato da fonte, ele secará.
Igualmente a Igreja do Senhor, resplandecente de
luz, lança seus raios no mundo inteiro, mas a sua luz, difundindo-se em toda a
parte, continua sendo a mesma e, de modo nenhum, é abalada a unidade do corpo.
Na sua exuberante fertilidade, estende os seus ramos
em toda a terra, derrama as suas águas em vivas torrentes, mas uma só é a
cabeça, uma a fonte, uma a mãe, tão rica nos frutos da sua fecundidade. Do
parto dela nascemos, é dela o leite que nos alimenta, dela o Espírito que nos
vivifica.
Única
Esposa de Cristo: não pode ter Deus por Pai, quem não tem a Igreja por mãe.
A Esposa de Cristo não pode tornar-se adúltera, ela
é incorruptível e casta (Cf. Ef. 5, 24-31). Conhece só uma casa, observa, com
delicado pudor, a inviolabilidade de um só tálamo. É ela que nos guarda para
Deus e torna participes do Reino os filhos que gerou.
Aquele que, afastando-se da Igreja, vai juntar-se a
uma adúltera, fica privado dos bens prometidos à Igreja. Quem abandona a Igreja
de Cristo não chegará aos prémios de Cristo. Torna-se estranho, torna-se
profano, torna-se inimigo.
Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por
mãe. Como
ninguém se pode salvar fora da arca de Noé, assim ninguém se salva fora da
Igreja (nota: aqui Cipriano fala dos obstinados que, conhecendo a verdade,
insistem, por ódio ou comodismo pagão, em se apartar da Igreja de Cristo).
O Senhor alerta-nos e diz: "Quem não está
comigo está contra mim, quem comigo não recolhe, dissipa" (Mt. 12,
30). Quem rompe a paz e a concórdia de Cristo trabalha contra Cristo. Quem faz
colheita alhures, fora da Igreja, esse dissipa a Igreja de Cristo.
Diz ainda o Senhor: "Eu e o Pai somos um"
(Jo. 10, 30), e do Pai, do Filho e do Espírito Santo está escrito: "Estes
três são um" (1 Jo. 5, 7). Como poderá alguém pensar que esta unidade
da Igreja, decorrente da própria firmeza da unidade divina, e tão conforme com
este celeste mistério, pode ser rompida e sacrificada ao arbítrio de vontades
opostas? Quem não observa esta unidade não observa a lei de Deus, não observa a
fé do Pai e do Filho, não possui nem a vida, nem a salvação.
Este sacramento da unidade, este vínculo de
concórdia inviolada e sem rachadura, é figurado também pela túnica do Senhor
Jesus Cristo. Como lemos no Evangelho, ela não foi dividida, nem, de modo
algum, rasgada, mas sorteada. Isto quer dizer que quem toma a veste de Cristo e
tem a dita de se revestir do próprio Cristo (Rom. 13, 14; Gál. 3, 27), deve
receber a sua túnica toda inteira e possuí-la intacta e sem divisão.
Diz a Divina Escritura: "Quanto à túnica,
visto que, desde a parte superior, era feita de uma única tecedura, sem costura
alguma, disseram: não a dividamos, mas lancemos-lhe a sorte para ver a quem
toca" (Jo. 19, 23-24). A unidade da túnica derivava da sua parte
superior - em nosso caso, do céu e do Pai celeste.
Aquele que a recebia e guardava não podia rasgá-la de modo nenhum, de fato ela
era resistente e sólida por ser constituída de um modo inseparável.
Não pode possuir a veste de Cristo aquele que rasga
e divide a Igreja de Cristo.
O contrário aconteceu à morte de Salomão, quando o
seu reino e o povo deviam ser divididos. O profeta Aías, indo ao encontro do
rei Jeroboão no campo, cortou o seu manto em doze partes, dizendo: "Toma
para ti dez partes, porque assim diz o Senhor: eis que eu divido o reino da mão
de Salomão, a ti darei dez ceptros e dois ficarão para ele, por causa do meu
servo David e de Jerusalém, a cidade eleita em que eu pus o meu nome"
(1 Rs. 11, 30-36). Para separar as doze tribos de Israel, o profeta dividiu o
seu manto.
Mas o povo de Cristo não pode ser dividido, e por
isso a sua túnica, que era um todo feito de uma só tecedura, não foi dividida
por aqueles que a deviam possuir. Ficando uma só, bem firme na sua contextura,
ela mostra a união e a concórdia do nosso povo, isto é, daqueles que são
revestidos de Cristo. Por este sinal sagrado da sua veste, proclamou ele a
unidade da Igreja.
Portanto quem será tão celerado e pérfido, tão louco
pelo furor da discórdia, para pensar como possível ou até para ousar romper a
unidade de Deus, a veste do Senhor, a Igreja de Cristo?
Ainda uma vez nos avisa ele no Evangelho dizendo: "E
haverá um só rebanho e um só pastor" (Jo. 10, 16). E como se pode
pensar que, num mesmo lugar, existam muitos pastores e muitos rebanhos?
O apóstolo Paulo, por sua vez, inculcando esta mesma
unidade, suplica e exorta: "Rogo-vos, irmãos, pelo nome de Nosso Senhor
Jesus Cristo, que todos digais as mesmas coisas e não se dêem cismas entre vós.
Sede unidos no mesmo sentimento e no mesmo pensamento" (1 Cor. 1, 10)
E de novo: "Sustentando-vos mutuamente no amor, esforçando-vos por
conservar a unidade do Espírito na união da paz" (Ef. 4, 2-3).
Achas tu que alguém pode afastar-se da Igreja,
fundar, a seu arbítrio, outras sedes e moradias diversas e ainda perseverar na
vida? Ouve o que foi dito a Raabe, na qual era prefigurada a Igreja: "Recolhe
teu pai, tua mãe, teus irmãos e toda a tua família junto de ti, na tua casa, e
qualquer um que ouse sair fora da porta da tua casa, será ele próprio culpado
da sua perda" (Jos. 2, 18-19). Igualmente o sacramento da Páscoa
antiga, como lemos no Êxodo, exigia que o cordeiro, morto como figura de
Cristo, fosse comido numa só casa. Eis as palavras de Deus: "Seja
comido numa só casa, não jogueis fora da casa carne alguma dele" (Ex.
12, 46). A carne de Cristo, o Santo do Senhor [Nota: "Sanctum Domini"
O Santo do Senhor - era como os primeiros cristãos chamavam a Eucaristia
- O Corpo e Sangue
de Cristo Jesus], não pode ser jogado fora. Para os que nEle crêem, não há
outra casa a não ser a única
Igreja.
O Espírito Santo anuncia e significa esta casa, esta morada da união dos corações, dizendo nos salmos: "Deus faz habitar na casa aqueles que são unânimes" (Sl. 67, 7). Na casa de Deus, na Igreja de Cristo, os moradores são unidos e perseveram na concórdia e na simplicidade.
II Parte:
Por isto também o Espírito Santo desceu em forma de
pomba (Mt. 3, 16; Mc. 1, 10), animal simples e alegre, sem amargura alguma de
fel, incapaz de se enfurecer; não morde, não arranha com as unhas. Prefere as
moradias dos homens e gosta de habitar numa mesma casa. Quando criam, as pombas
cuidam dos filhotes juntamente, quando viajam, voam pertinho umas das outras.
Passam o tempo em tranquilos arrulhos, manifestam a concórdia e a paz
beijando-se no rosto. Enfim, em todas as coisas seguem a lei da boa harmonia.
Esta é a simplicidade que deve reinar na Igreja,
essa a caridade que devemos realizar: o amor fraternal imite as pombas, a
mansidão e a brandura sejam iguais às dos cordeiros e das ovelhas.
Como podem estar no coração de um cristão a
ferocidade dos lobos, a raiva dos cães, o veneno mortífero das serpentes ou a
crueldade sanguinária das feras?
Devemos alegrar-nos quando os que têm esses
sentimentos separam-se da Igreja. Assim as pombas e as ovelhas de Cristo não
serão contagiadas pela sua maldade e pelo seu veneno. Não podem conciliar-se e
juntar-se amargura e doçura, trevas e luz, chuva e céu sereno, guerra e paz,
esterilidade e fecundidade, secura e manancial, tempestade e bonança.
Não acreditem que os bons possam deixar a Igreja:
não é o trigo que o vento carrega, o furacão não arranca as árvores que têm
sólidas raízes. Ao contrário são as palhas vazias que a tormenta agita, são as
árvores vacilantes que a força dos turbilhões abate. Contra esses o apóstolo
São João manifesta a sua repulsa, dizendo: "Saíram do nosso meio, mas
não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, sem dúvida teriam ficado
connosco" (1 Jo. 2, 19).
Origem
e maldade das heresias
A
origem de onde nasceram frequentemente e continuam nascendo as heresias é a
seguinte: há mentes perversas e sem paz, que, discordando em sua perfídia, não
podem suportar a unidade. O Senhor, por seu lado, respeita a liberdade do
arbítrio humano, permite e tolera que isto aconteça, a fim de que o crisol da
verdade purifique os nossos corações e as nossas mentes, e, na provação,
resplandeça com luz inequívoca a integridade
da fé.
O Espírito Santo previne-nos, por meio do Apóstolo: "Convém que haja heresias para que entre vós se tornem manifestos os que resistem à prova" (1 Cor. 11, 19). Assim, aqui mesmo, antes do dia do juízo, são divididas as almas dos justos e dos perversos e as palhas são separadas do trigo.
Esses são os que, por própria iniciativa e sem
chamamento divino, se põem a encabeçar temerários grupinhos. Contra toda a lei
da ordenação, constituem-se superiores e, sem que ninguém lhes dê o episcopado,
atribuem-se a si mesmos o nome de bispos. A eles faz alusão o Espírito Santo,
no Salmo, falando dos que estão sentados em cátedras de pestilência, porque são
peste infecciosa da fé. Mestres na arte de corromper a verdade, eles enganam
com bocas de serpente, vomitando de suas línguas pestilentas peçonhas
mortíferas. Os seus discursos brotam como chaga cancerosa, o trato com eles
deixa no fundo de cada coração um veneno mortal.
Contra esses homens brada o Senhor, para afastar ou
retirar deles o seu povo desviado: "Não escuteis os sermões dos
pseudo-profetas, porque vivem iludidos pelas alucinações do seu coração. Falam,
mas não as palavras do Senhor. Aos que rejeitam a palavra de Deus dizem eles:
tereis a paz, vós e todos os que andam segundo as próprias vontades. Não virá
mal algum, ainda sobre aqueles que seguem os erros do próprio coração. Eu não
lhes falei e eles vão "profetizando". Se tivessem atendido ao meu
conselho, ouvido as minhas palavras e as tivessem ensinado ao meu povo, eu os
teria convertido dos seus perversos pensamentos" (Jer. 23, 16-22).
E de novo fala deles o Senhor: "Abandonaram
a mim, que sou a fonte da água viva, e escavaram para si covas escuras, que nem
podem dar água" (Jer. 2, 13 [Nota: Tradução literal do texto latino
antigo. As versões tiradas do hebraico dizem: "cisternas fendidas, que não
retêm a água"]).
Enquanto não pode haver senão um Baptismo, eles pensam que podem baptizar.
Abandonaram a fonte da vida e ainda prometem a graça da água que dá a vida e a
salvação. Lá os homens não são purificados, mas, ao contrário, mais poluídos.
Lá os pecados não são perdoados, mas, antes, aumentados. Aquele nascimento não
gera filhos para Deus, mas para o demónio
[Nota: Esta recusa do baptismo dos hereges é consequência do pensamento
vigente. Este pensamento afirmava que qualquer violação na unidade da Igreja
significava perversão total da fé. Hoje, a Igreja aceita o baptismo de algumas
denominações protestantes tradicionais].
Os que pretendem nascer por meio da mentira não recebem absolutamente as promessas da verdade. Gerados pela perfídia, não alcançam a graça da fé. Aqueles que, no delírio da discórdia, quebraram a paz do Senhor, não podem chegar ao prémio da paz.
"Onde
dois ou três..." (Mt. 18, 20)
Alguns enganam-se a si mesmos com uma presunçosa
interpretação das palavras do Senhor, que disse: "Onde quer que se
encontrem dois ou três reunidos em meu nome, eu mesmo estou com eles"
(Mt. 18, 20).
São falsificadores do Evangelho e intérpretes
mentirosos. Apegam-se ao que é dito depois, esquecendo o que foi dito antes,
lembram-se de uma parte da frase e, astutamente, deixam do lado a outra. Assim
como eles se separaram da Igreja, do mesmo modo truncam o sentido de uma única
sentença.
De facto, o que queria dizer Nosso Senhor? Para
inculcar aos seus discípulos a união e a paz, diz ele: "Eu vos afirmo
que, se dois de vós concordarem na terra em pedir qualquer coisa, ela lhes será
outorgada por meu Pai que está nos céus" (Mt. 18, 19). E continua: "Onde
quer que se encontrem dois ou três reunidos em meu nome, eu mesmo estou com
eles", mostrando que o que mais vale na oração não é o número dos que
oram, mas a sua união de espírito.
"Se dois de vós concordarem na terra", diz ele. Antes exige a
união, põe na frente a paz: o seu primeiro e mais firme preceito é que entre nós haja acordo. E como poderá estar de acordo
com alguém aquele que está em desacordo com o corpo da Igreja e a totalidade
dos irmãos?
Como poderão estar reunidos dois ou três em nome de
Cristo, se é patente que estão separados de Cristo e do seu Evangelho? De facto
não somos nós que nos apartamos deles, mas eles de nós. E quando, em seguida,
formando entre si vários grupos, deram origem a heresias e cismas, abandonaram
a cabeça e a fonte da verdade.
O Senhor quer falar da sua Igreja e dirige aquelas palavras àqueles que estão na Igreja, dizendo que, se dois ou três deles estiverem concordes, como ele ensinou e mandou, e se reunirem em um só espírito para rezar, embora sejam só dois ou três, impetrarão da majestade de Deus o que pedem.
"Onde quer que se encontrem reunidos em meu
nome dois ou três, eu mesmo estou com eles", quer dizer com os simples,
com os pacíficos, com os que temem a Deus e observam os seus preceitos. Com
esses, ainda que não fossem mais do que dois ou três, prometeu que estaria,
assim como esteve com os três jovens na fornalha ardente, e, porque permaneciam
simples com Deus e unidos entre si, até no meio das chamas, os animou com uma
brisa de orvalho (Dan. 3, 50).
Do mesmo modo esteve presente aos dois Apóstolos
encerrados na cadeia, porque eram simples e unânimes. Ele mesmo abriu as portas
do cárcere e os conduziu de novo à praça para que pregassem à multidão a
palavra que tão fielmente anunciavam.
Por conseguinte, quando o Senhor coloca entre os
seus preceitos estas palavras: "Onde quer que se encontrem dois ou três
reunidos em meu nome, eu mesmo estou com eles", não quer separar os
homens da Igreja, pois ele mesmo instituiu e formou a Igreja, mas ao contrário,
repreendendo os pérfidos pela discórdia e encarecendo, com a sua própria voz, a
paz aos fieis, quer mostrar que ele está mais com dois ou três que oram
unânimes, do que com muitos que oram na dissidência, e que obtém mais a prece
concorde de poucos que a oração sediciosa de muitos.
Por isto, quando ensinou o modo de orar,
acrescentou: "Quando estiverdes em pé para orar, perdoai, se por acaso
tendes mágoa contra alguém, a fim de que o vosso Pai que está nos céus vos
perdoe também os pecados" (Mc. 11, 25). E se alguém vier ao
sacrifício, estando de mal com alguém, ele afasta-o do altar e ordena que,
antes, se ponha de acordo com o irmão, e só depois volte em paz para oferecer a
Deus a sua dádiva (Cf. Mt. 5, 24).
Deus não olhou aos presentes de Caim (Gén. 4, 5),
porque aquele que, pelo rancor da inveja, não tinha paz com o irmão, não podia
encontrar a Deus propício.
Que espécie de paz podem pretender os inimigos dos
irmãos? Que sacrifício pensam eles oferecer, enquanto não são que rivais dos
sacerdotes? Julgam que Cristo esteja presente nas suas reuniões, enquanto se
reúnem fora da Igreja de Cristo?
Ainda que esses homens fossem mortos pela confissão
do nome cristão, o seu sangue não lavaria esta mancha. O pecado da discórdia é
tão grande e tão imperdoável, que não se apaga nem pelos tormentos. Não pode
ser mártir quem não está na Igreja, não pode alcançar o Reino quem abandonou
aquela que nasceu para reinar.
Cristo deu-nos a paz. Ele mandou-nos que fôssemos
concordes e unidos, ordenou que os laços do amor e da caridade fossem
conservados intactos e sem rachadura. Não pode iludir-se de ser mártir aquele
que não conservou a caridade fraterna.
O apóstolo Paulo ensina e testemunha isto mesmo
quando diz: "Ainda que eu tivesse fé para remover as montanhas, mas não
tivesse a caridade, eu nada seria, ainda que distribuísse em alimento dos
pobres tudo o que é meu, e entregasse o meu corpo às chamas, mas não tivesse a
caridade de nada adiantaria. A caridade é magnânima, a caridade é benigna, a
caridade não rivaliza, não faz mal, não se pavoneia, não se irrita, não pensa
com maldade, tudo ama, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais
termina" (1 Cor. 13, 1-9).
A caridade nunca termina, ela estará sempre no
Reino, durará eternamente pela unidade dos irmãos em mútua harmonia. A
discórdia não entra no Reino dos céus. Quem, com pérfida divisão, violou a
caridade de Cristo, não poderá chegar aos prémios do mesmo Cristo, que disse: "Este
é o meu mandamento, que vos ameis mutuamente como eu vos amei" (Jo.
15, 12).
Quem vive sem caridade está sem Deus. Eis a voz do
bem-aventurado apóstolo João: "Deus é amor. Quem permanece no amor
permanece em Deus e Deus nele" (1 Jo. 4, 16). Não podem permanecer com
Deus os que não quiseram estar unidos na Igreja de Deus. Ainda que, lançados no
fogo, fossem consumidos pelas chamas ou perdessem a vida sendo expostos às
feras, tudo isto não seria uma coroa da fé, mas, antes, um castigo da sua
perfídia, não seria o desfecho glorioso de uma vida religiosa intrépida, mas um
fim sem esperança.
Um homem assim poderia ser morto, mas não coroado.
Ele confessa que é cristão do mesmo modo que o diabo, muitas vezes, engana dizendo ser ele o Cristo. Escutemos o aviso do Senhor: "Muitos
virão com o meu nome, dizendo: sou eu o Cristo, e enganarão a muitos"
(Mc. 13, 16). Como o diabo não é Cristo, embora tome este nome, assim não pode
passar por cristão aquele que não permanece na verdade do Evangelho e na fé de
Cristo.
É certamente coisa incomum e admirável profetizar,
expulsar demónios e fazer obras portentosas aqui na terra, mas quem faz todas
essas coisas não conseguirá o Reino celeste se não anda no caminho recto e
certo.
Ouçamos ainda o Senhor: "Muitos me dirão
naquele dia: Senhor, Senhor, não te lembras que em teu nome profetizamos e em
teu nome expulsamos demónios e em teu nome fizemos obras portentosas? Eu porém
lhes direi: jamais vos conheci, apartai-vos de mim, vós que praticais a
iniquidade" (Mt. 7, 21-23). É necessária a justiça para que alguém
possa ser premiado por Deus. É necessário obedecer aos seus mandamentos e aos
seus avisos, para que os nossos méritos alcancem a recompensa.
O Senhor, no Evangelho, querendo mostrar-nos em
breve resumo a senda da nossa fé e da nossa esperança, disse: "O
Senhor, teu Deus, é um só", e continua: "Amarás
ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as
tuas forças" (Mc. 12, 29-31). "Eis o primeiro mandamento. O
segundo é semelhante a ele: amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois
preceitos funda-se toda a lei e também os profetas" (Mt. 22, 39-40).
Com a sua autoridade ensinou, ao mesmo tempo, a
unidade e o amor. Em dois preceitos compendiou a lei e todos os Profetas. Mas
que unidade observa, que amor pensa praticar aquele que, como doido pelo furor
da discórdia, divide a Igreja, destrói a fé, perturba a paz, aniquila a
caridade, profana o Sacramento?
Este mal, ó irmãos fidelíssimos, já tinha começado
algum tempo atrás, mas agora, como triste calamidade, foi crescendo dia a dia e
a venenosa praga da heresia e dos cismas aparece e pulula sempre mais. Assim
deve acontecer no fim do mundo, como nos vaticina e nos avisa o Espírito Santo
por meio do Apóstolo: "Nos últimos dias, diz ele, chegarão tempos
difíceis e haverá homens que só buscam os próprios gostos, soberbos,
arrogantes, avarentos, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, desalmados,
sem afeição e sem respeito de compromisso, caluniadores, incontinentes,
violentos, sem nenhum amor ao bem, traidores, atrevidos, estupidamente altivos,
amando mais os prazeres que Deus, ostentando um verniz de religiosidade, mas
conculcando todo valor religioso. Deles são os que se insinuam nas casas e
conquistam mulherezinhas carregadas de pecados, que se deixam levar por várias
volúpias e se mostram sempre curiosos de saber, mas nunca chegam ao
conhecimento da verdade. E como Jamnes e Mambres fizeram resistência contra
Moisés, assim estes resistem à verdade. Mas não serão bem sucedidos, porque a
sua incapacidade será a todos manifesta, como aconteceu àqueles" (2
Tim. 3, 1-9).
Tudo o que tinha sido preanunciado se está cumprindo
e, enquanto se aproxima o fim do mundo, tudo se realiza nas pessoas e nos
acontecimentos.
O adversário está solto. Cada vez mais, o erro vai
espalhando os seus enganos. A insensatez gera orgulho, arde a inveja, a cobiça
chega até à cegueira, a impiedade deprava, a soberba incha, a discórdia
exaspera, a ira enfurece.
III Parte:
Não
ceder ao escândalo. Evitar os hereges.
Porém não nos impressione nem perturbe essa
desmedida e temerária perfídia de muitos. Ao contrário, torne-se mais forte a
nossa fé ao constatarmos a verdade do que foi profetizado. Alguns fizeram-se
traidores, porque assim fora predito; os demais irmãos, em virtude da mesma
profecia, acautelem-se contra essas coisas, escutando a voz do Senhor, que diz:
"Vós, porém, acautelai-vos, porque eis que eu vos predisse tudo"
(Mc. 13, 23).
Evitai, pois, eu vo-lo peço, irmãos, esses homens e
repeli, de vosso lado e de vossos ouvidos suas perniciosas conversas, como se
repele um contágio mortífero. Está escrito: "Cerca os teus ouvidos com
uma sebe de espinhos e não ouças a língua maldosa" (Eclo. 28, 24). E
ainda: "As péssimas conversas corrompem até as pessoas de boa
índole" (1 Cor. 15, 33). O Senhor recomenda-nos que evitemos essa
gente. "São cegos, diz ele, e guias de cegos. Quando é um cego que
conduz outro cego, caem juntos na fossa" (Mt. 15, 14).
Convém estar longe e fugir de qualquer um que se separou da Igreja. É um transviado, um culpado, ele se condena por si próprio (Cf. Ti. 3, 11). Poderá pensar que está com Cristo aquele que está tramando contra os sacerdotes de Cristo e se separa da comunidade do seu clero e do seu povo? Ele levanta armas contra a Igreja e resiste às ordens de Deus. Adversário do altar, rebelde contra o Sacrifício de Cristo, traidor na fé, sacrílego na religião, servo intratável, filho ímpio, irmão inimigo, despreza os bispos e abandona os sacerdotes de Deus e ousa erguer um outro altar, pronunciar com voz ilícita uma outra prece, profanar, com falsos sacrifícios, a Hóstia do Senhor, e esquece que quem vai contra as ordens de Deus será punido com os divinos castigos pela sua atrevida audácia.
[Nota: Parece até intolerância de S. Cipriano, mas
defender a fé não é intolerância. A culpa não é tanto estar fora da Igreja
"in-fidelis", mas em ter saído da Igreja e teimar numa fé espúria e
pervertida "perfídia". S. Cipriano deseja defender os que permanecem
na Igreja, das falsas doutrinas dos hereges, e não incitar um preconceito gratuito].
Assim Coré, Datã e Abirão receberam, sem demora, o
castigo da sua presunção, porque, violando as ordens de Moisés e do sacerdote
Aarão, pretenderam usurpar o direito de oferecer sacrifícios (Cf. Num. 16,
31-35). A terra perdeu a sua firmeza, fendeu-se numa profunda voragem, e o
chão, assim aberto, os engoliu vivos e em pé. A justiça indignada de Deus não
atingiu só os autores daquele gesto, mas também os outros duzentos e cinquenta,
seus companheiros, que foram cúmplices e solidários com eles. De repente saiu
do Senhor um fogo punitivo e os consumiu. Isto deve valer como demonstração e
sinal de que foi ofensa contra Deus tudo o que aqueles perversos tentaram, com
suas vontades humanas, para frustrar as ordens do próprio Deus.
Assim aconteceu também ao rei Ozias, quando segurou
o turíbulo e, com violência, pretendeu oferecer ele mesmo o incenso, violando a
lei de Deus e desobedecendo ao sacerdote Azarias, que a isto se opunha (Cf. 2
Cron. 26, 16-20). Lá mesmo foi confundido pela divina indignação e acometido
por uma espécie de lepra na fronte. Pela sua ofensa a Deus, foi punido
justamente naquela parte do corpo, onde recebem o sinal
(da cruz) os
eleitos de Deus.
Também os filhos de Aarão, por ter colocado no altar um fogo profano, contra os preceitos do Senhor, foram mortos no mesmo instante pela divina vingança (Cf. Lev, 10, 1-2; Num. 3, 4).
São esses os exemplos que seguem e imitam os que
buscam doutrinas estranhas, introduzem ensinamentos de invenção humana e
desprezam a divina
tradição.
A eles aplicam-se as repreensões e as censuras do Evangelho: "Rejeitais
o mandamento de Deus para apegar-vos à vossa própria tradição (pagã)"
(Mc. 7, 90).
Este crime é pior do que aquele que se pensa terem
cometido os lapsos, ao menos se falarmos dos que estão arrependidos e rogam a
Deus perdão do seu pecado, dispostos a dar completa satisfação. Os lapsos, com
súplicas, procuram a Igreja, os cismáticos combatem-na. Os primeiros podem ter
sido vítimas de alguma pressão, os segundos erram no pleno uso da sua
liberdade. O lapso, pecando, se prejudicou unicamente a si mesmo, ao passo que
aquele que tenta criar heresias e cismas engana a muitos, arrastando-os à sua
seita. Lá há detrimento de uma só alma, aqui o perigo é de muitos. O lapso
reconhece que certamente pecou, disto lamenta-se e chora, o cismático, cheio de
orgulho no seu coração e comprazendo-se dos seus próprios erros, arranca os
filhos à mãe, afasta, com aliciamentos, as ovelhas do Pastor, arrasa os Divinos
Sacramentos.
O lapso pecou só uma vez, o outro continua pecando a cada dia. Por fim, o lapso, mais tarde, poderá enfrentar o martírio e conseguir as promessas do Reino, o cismático, ao contrário, se for morto enquanto está fora da Igreja, não alcançará os prémios da Igreja.
[nota: Lapsos era o nome dado aos cristãos
que durante a perseguição tinham sacrificado incenso aos ídolos, o que
significava renúncia à fé. Para serem reintegrados na comunidade da Igreja
deviam se submeter às penitências prescritas].
Não deveis estranhar, irmãos dilectíssimos, que até
entre os confessores haja alguns que caíram nestes crimes. Acontece também que
alguns deles cometam outros pecados graves e vergonhosos. A confissão da fé não
torna uma pessoa imune das ciladas do demónio. A quem ainda vive neste mundo
ela não comunica uma perpétua segurança contra as tentações, os perigos e o
ímpeto dos ataques mundanos. Se assim fosse, não veríamos, em confessores, os
roubos, os estupros e os adultérios, que agora, com imensa tristeza, devemos
lamentar em alguns deles.
Quem quer que seja um confessor, ele não poderá ser
maior, melhor e mais amigo de Deus que Salomão. Entretanto, este, durante o
tempo em que se manteve nos caminhos do Senhor, conservou a benevolência com
que o mesmo Senhor o tinha favorecido, mas quando se desviou destes caminhos,
perdeu também a benevolência do Senhor (3 Rs. 11, 9).
Por isto diz a Escritura: "Segura o que
tens, para que um outro não tome a tua coroa" (Ap. 3, 11). Se lá o
Senhor ameaça tirar a alguém a coroa da justiça, é sinal que quem renuncia à
justiça fica privado também da coroa.
[nota: Os confessores eram os cristão que
afirmavam a fé perante os perseguidores, e por um motivo ou outro, não eram
condenados a morte. Alguns deles, cheios de soberba pelo ato de fé que
praticou, achavam que tinham o direito de dar o aval aos lapsos (ver nota
acima) e reintegrá-los na comunidade sem as penitências. Alguns confessores se
tornaram cismáticos].
A confissão da fé é um preâmbulo da glória, mas não
é ainda a posse da coroa. Não é a glória definitiva, mas só o início do mérito.
Está escrito: "O que perseverar até o fim, este será salvo"
(Mt. 10, 22). Tudo pois o que fazemos antes do fim é só um passo com o qual
vamos subindo ao monte da salvação, mas só ao fim da subida chegaremos à posse
perfeita do cume.
Trata-se de um confessor? Ora, depois da confissão
da fé, o perigo torna-se maior, porque o adversário está mais enraivecido
contra ele.
É confessor? Por isto, mais do que nunca, deve
permanecer fiel ao Evangelho do Senhor, ele que pelo Evangelho conseguiu esta
honra. Diz o Senhor: "A quem muito é dado, muito será pedido e a quem é
concedida maior dignidade, deste exigem-se maiores serviços" (Lc. 12,
48). Ninguém se deixe levar à perdição pelo mau exemplo de algum confessor. Ninguém
aprenda, do seu modo de proceder, a injustiça, a arrogância ou a perfídia.
É confessor? Seja humilde e tranquilo em todo o seu
comportamento, seja disciplinado e modesto, de modo que, como é chamado
confessor de Cristo, imite também aquele Cristo que confessa "Quem se
exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado" (Lc. 18, 14).
Assim disse ele, e foi exaltado pelo Pai, porque, sendo ele a Palavra, a
Virtude e a Sabedoria de Deus Pai, se humilhou a si mesmo na terra. E como
poderia amar a altivez, ele que, com a sua lei nos preceituou a humildade, e,
em prémio da sua humildade, recebeu do Pai o nome mais sublime? (Cf. Flp. 2,
9).
Alguém foi confessor de Cristo? Muito bem, mas,
depois, por sua culpa, não sejam blasfemadas a majestade e a santidade do
próprio Cristo. A língua que confessou a Cristo não seja maldizente nem
sediciosa, não se ouça vociferando em altercações e brigas; depois de palavras
tão divinas de louvor não vá vomitando veneno de serpente contra os irmãos e
contra os sacerdotes de Deus.
Em suma, se alguém, depois da confissão, se tornou
culpável e detestável, se aviltou a sua confissão com maus comportamentos, se
manchou a sua vida com torpezas indignas, se, afinal, abandonou a Igreja, na
qual se tornara confessor, e, quebrando a harmonia da unidade, trocou a fé de
então com a perfídia, um tal homem não pode lisonjear-se, presumindo da sua
confissão, de ser como que predestinado ao prémio da glória. Ao contrário, por
isto mesmo, aumentaram seus títulos para o castigo.
Vemos também que chamou a Judas entre os Apóstolos,
e este Judas, em seguida, traiu o Senhor. A fé e a perseverança dos Apóstolos
não esmoreceram pelo facto que Judas traidor tinha pertencido ao seu grupo.
Igualmente em nosso caso: a santidade e a dignidade dos confessores não ficam
destruídas, se naufragou a fé em alguns deles.
O bem-aventurado apóstolo Paulo diz numa das suas cartas: "Se
alguns decaíram da fé, será que a sua infidelidade tornou vã a fidelidade de
Deus? De modo algum. De facto, Deus é verídico e todo homem é mentiroso"
(Rom. 3,3-4; Sl. 115, 11).
A maioria e a parte melhor dos confessores mantém-se no vigor da sua fé e na verdade da lei e da disciplina do Senhor. Lembrando-se de ter alcançado a graça e a benevolência de Deus na Igreja, não se afastam da paz da mesma Igreja. Nisto merecem mais amplo louvor pela sua fé, porque, desligando-se da perfídia daqueles que já foram seus companheiros na confissão, resistiram ao contágio do mal. Iluminados pela luz verdadeira do Evangelho, brilhando na pura e cândida claridade do Senhor, mostram-se tão dignos de encómio na conservação da paz de Cristo, quanto o foram no combate, quando se tornaram vencedores do demónio.
Quanto a mim, irmãos dilectíssimos, não deixo de
exortar e insistir, porque desejo que, se for possível, nenhum dentre os irmãos
pereça, e a mãe feliz (a Igreja) abranja no seu regaço o seu povo, unido na
concórdia como um só corpo. Se, todavia, este salutar conselho não consegue
reconduzir ao caminho da salvação certos chefes de cismas e certos autores de
dissensão, preferindo eles obstinar-se em sua cega demência, ao menos os
demais, os que foram surpreendidos na sua simplicidade, ou se deixaram desviar
por algum equívoco, ou foram enganados pelo ardil de uma astúcia dissimulada,
ao menos vós sacudi os laços falaciosos, livrai dos erros os vossos passos
extraviados, sabei reconhecer o caminho recto que conduz ao céu.
Ouvi a voz do Apóstolo, que clama: "Em nome
de nosso Senhor Jesus Cristo, nós vos mandamos, diz ele, que vos afasteis de
todos os irmãos que andam desordenadamente e não segundo a tradição que
receberam de nós" (2 Tes. 3, 6). E de novo: "Ninguém
vos engane com vãs palavras. Por causa disto veio a ira de Deus sobre os filhos
da contumácia. Não estejais, pois, ao lado deles" (Ef. 5, 6-7).
Deveis evitar os delinquentes e até fugir deles,
para que não aconteça que, juntando-se aos que trilham os caminhos do erro e do
crime, alguém se desvie também da verdade e se torne culpado de igual delito.
Deus é um, Cristo é um, uma é a sua Igreja, uma a fé
e o povo (cristão) é também um, aglutinado pela concórdia como na compacta
unidade de um corpo. Esta unidade não pode ser quebrada. Um corpo não pode ser
dividido, desarticulando as suas junturas. Não pode ser reduzido a pedaços,
dilacerando e arranhando as suas vísceras. Tudo o que se separa do centro vital
não pode continuar a viver ou a respirar porque fica privado do alimento
indispensável à vida.
O Espírito Santo assim nos fala: "Quem é o
homem que quer viver e deseja ver dias excelentes? Refreia do mal a tua língua,
e os teus lábios não falem insidiosamente. Evita o mal e faz o bem, busca a paz
e segue-a" (Sl. 33, 13-15). O filho da paz deve buscar a paz, deve
procurá-la. Quem conhece e ama o vínculo da caridade deve guardar a sua língua
do flagelo da dissensão.
O Senhor, já próximo à paixão, entre outros
preceitos e ensinamentos salutares, acrescentou o seguinte: "Eu vos
entrego a paz, eu vos dou a minha paz" (Jo. 14, 27). Esta é a herança
que nos deixou. Todos os dons e todos os prémios das suas promessas estão
incluídos nisto: a inviolabilidade da paz.
Se somos co-herdeiros de Cristo (Cf. Rom. 8, 17),
permaneçamos na paz de Cristo. Se somos filhos de Deus, sejamos pacíficos. "Bem-aventurados
os pacíficos, diz, porque serão chamados filhos de Deus" (Mt. 5, 9).
Convém, pois, que os filhos de Deus sejam pacíficos, mansos de coração (Cf. Mt.
11, 29), simples quando falam, concordes nos afectos, sempre ligados uns aos outros
pelos laços da unidade de espírito.
Essa unidade reinou ao tempo dos Apóstolos e a nova
plebe, o povo dos que acreditaram, guardava os preceitos do Senhor e ficava
fiel à sua caridade. Prova-o a Divina Escritura, dizendo: "A multidão
daqueles que acreditaram se comportava como se fossem todos uma só alma e uma
só mente" (At. 4, 32).
E antes: "Estavam perseverando todos
unânimes na oração com as mulheres e Maria,
a mãe de Jesus, e seus irmãos" (At. 1, 14). Por isto
oravam de modo eficaz e podiam confiar em alcançar o que estavam pedindo à
misericórdia divina.
Entre nós, ao contrário, esta união está demasiado
relaxada, e ao mesmo tempo aparece muito enfraquecida a generosidade nas obras
(boas). Então vendiam as suas casas e as suas propriedades e entregavam o preço
aos Apóstolos, para que fosse distribuído aos pobres: assim colocavam seus
tesouros no céu (Cf. Mt. 6, 19). Hoje nem se dão os dízimos dos patrimónios e,
enquanto o Senhor diz "vendei" (Cf. Lc. 12, 33), nós preferimos
comprar e possuir mais. Como, entre nós, murchou o vigor da fé, como esmoreceu
a força daqueles que crêem!
Por isto o Senhor, falando destes nossos tempos, diz
no Evangelho: "Quando vier o Filho do homem, pensas que encontrará fé
na terra?" (Lc. 18, 8). Vemos que está acontecendo o que ele predisse.
No que diz respeito ao temor de Deus, à lei da justiça, ao amor, às obras, não
há mais fé. Ninguém se preocupa com as coisas que hão de vir, ninguém pensa no
dia do Senhor, na ira de Deus, nos futuros suplícios dos incrédulos, nos
eternos tormentos destinados aos pérfidos. Se acreditássemos, a nossa
consciência teria medo de tudo isto. Se não temos medo é sinal que não cremos.
Quem acredita se acautela, quem se acautela se salva.
Despertemos, irmãos dilectíssimos, quebremos o sono
da inércia rotineira e, por quanto for possível, sejamos vigilantes em guardar
e cumprir os preceitos do Senhor. Sejamos prontos, como ele seja, quando diz: "Estejam
cingidos os vossos rins, e as lâmpadas acesas nas vossas mãos, e vós sede
semelhantes a homens que esperam o seu dono, quando voltar das núpcias, para
lhe abrirem logo que ele chegar e bater. Bem-aventurados os servos que o
Senhor, chegando, encontrar vigilantes" (Lc. 12, 35-37). É necessário
que estejamos cingidos, a fim de que, quando vier o dia da partida, não sejamos
surpreendidos cheios de impedimentos e de embaraços. Fique sempre viva a nossa
luz e brilhe em boas obras, para nos guiar da noite deste mundo aos esplendores
da claridade eterna. Sempre solícitos e cautos, fiquemos à espera da chegada
repentina do Senhor. Quando ele bater, encontre a nossa fé vigilante com uma
tal vigilância que mereça receber o prémio do mesmo Senhor.
Se forem observados esses mandamentos, se forem
postas em prática essas exortações, não acontecerá que sejamos vencidos, no
sono, pela falácia do demónio, mas, como servos bons e vigilantes, reinaremos
com Cristo glorioso.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)