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Pablo Aluísio


Rastros de Ódio




John Wayne Home Page - "Rastros de Ódio"

"A odisséia no deserto de Ethan Edwards"

A volta para casa é um tema mais antigo que Homero, e não seria John Ford, cujos personagens são almas nômades em busca de um lugar permanente para armar sua tenda, que deixaria de tentar elevar um assunto tão antigo a uma nova escala de criação. Rastros de ódio (The searchers, 1956) é a mais bem realizadas das tantas odisséias que John Ford filmou ao longo de 130 trabalhos e quase 50 anos de carreira em cinema.

Mas, ao contrário de suas dezenas de comédias ou westerns, em que se manteve fiel aos arquétipos da Odisséia e permitiu até o mais amaldiçoado de seus personagens (como Victor MacLaglen, em O delator) se reconciliasse com sua origem, não haverá jamais paz ou reconciliação para Ethan Edwards.

Ethan Edwards (John Wayne) é o Ulysses sombrio que retorna para uma família que não o espera, para uma casa que não é sua e para uma mulher que pertence ao irmão. Sua arrogância, rancor e impaciência são pouco quebradas pelo tépido carinho que dedica à cunhada e aos sobrinhos. seu Telêmaco, nesta aventura que o espreita, um órfão que ele resgatou de um massacre índio, só receberá desprezo de desconfiança.

Ethan volta a este lugar perdido do Texas, em 1868, dois anos depois do fim da Guerra da Secessão, como um dos derrotados cavalarianos do general Lee. Não reconhece a derrota do Sul, não se alegra com os vizinhos, não se integra nem se deixa tocar. Dá ordens ao irmão como se estivesse em casa e participa de uma patrulha de rangers, atrás de um grupo de guerra comanche, como se estivesse sozinho. Depois, diante da destruição de sua família pelos índios, empreende uma jornada de vingança que lhe toma mais cinco anos de caçada, acompanhado pelo órfão e mestiço Martin Pawley (Jeffrey Hunter), atrás da sobrinha capturada pelos índios.

Ao redor deles o habitual mundo simples e colorido de John Ford: o reverendo e ranger, cowboys, pequenos fazendeiros, vizinhos, loucos, comerciantes que mereciam a prisão, soldados, mexicanos retóricos e mexicanas com castanholas, mulheres mandonas e práticas, os bailes, as fogueiras e as intermináveis brigas de namorados condenados a ficar juntos. Essas comunidades pequenas de europeus exilados fazem parte do mundo mais caloroso de John Ford, enquanto Ethan Edwards é a certeza da vida como exílio permanente.

Ford escolheu as planícies poeirentas, os campos e rios gelados ao norte do Arizona ou os desertos da fronteira com o México para mostrar a beleza terrível dessa solidão. Sem família, sem amigos, sem um sentimento de comunidade e parceria, Ethan Edwards leva uma vida tão árida como as planícies mal e mal recortadas por torreões argilosos do Monument Valley. Esse homem seco como essa paisagem lunar não busca nenhuma forma de reconciliação com o mundo. Busca a retaliação.

Os críticos, como inglês Lindsay Anderson, que consideram o filme uma menor de Ford, reclamam que Ethan Edwards tem apenas uma dimensão. E a mais terrível. Bobagem, o filme trata da extremada solidão diante do destino, é sobre o sentimento de separação com o mundo e da caçada como busca da reparação. Ethan segue o chefe de guerra comanche chamado Scar, como o capitão Ahab perseguia a baleia branca, com a impacável e enlouquecida obsessão de um homem sem deus e sem família. Ethan Edwards é o momento mais escuro da poesia de Ford, o sentimento raramente expresso tão carnalmente, da solidão diante do mundo.

Ford insinua, mais do que se diz, que esse desamparo, nos fracos, cria a família e a comunidade. Nos fortes, como Ethan, cria a noção de tarefa. Mas, para ironizar esse autismo existencial, começa a desenvolver, à medida que o conflito final se aproxima, a suspeita de que destruir o último elo que liga um homem à família e à comunidade é uma tarefa tão impossível como capturar a baleia. Mesmo para Ethan Edwards.

A liberdade não é sair porta afora ou praticar qualquer tipo de desobediência física ou moral. A liberdade significa falta de qualquer tipo de vínculo afetivo, que se desdobre em vida amorosa, familiar ou comunitária. Essa dualidade atravessa a maioria dos filmes de Ford e, no final das contas, é um tema americano clássico, que aparece em Jack London, Mark Twain e Faulkner e atravessa boa parte do cinema de Hollywood. Rastros de ódio não inaugura, mas exacerba um tema banal com um personagem magnífico, ao redor do qual gira o mundo simples que irá derrotá-lo.

Ethan é o inimigo do povo, é a América da fronteira, sem lei e sem compromissos. "Não acredito em rendições", diz ele no início, ao falar sobre a derrota do Sul. Nem em compromissos, porque não deixa o capitão dos rangers fazê-lo prestar juramentos. Nem a vizinha, que percebe suas intenções assassinas com a sobrinha, consegue arrancar dele uma palavra de compromisso. É como se o mundo, ao seu redor, não existisse. A América não era muito diferente de Ethan, na sua recusa de se misturar com índios e negros, no seu isolacionismo majestoso e na arrogância de olhar todo o resto do mundo como inferior.

A força de Ethan está em ele tentar ir mais longe do que todos, em caçar o índio que subjugou sua sobrinha e a fez sua mulher e em caçar a própria sobrinha, seu último vínculo com a família e seu primeiro vínculo com um índio. Todos conseguem perceber a monstruosidade do projeto, e Ford o empurra ao limite, mostrando a cada notícia da proximidade de índios o rosto sombrio e assassino de um homem que pretende ir ao limite.

Ele perde, claro. O sangue e a comunidade vencem sempre e, ninguém conseguirá jamais se desvencilhar da família e da comunidade, mesmo neste mundo de desterro, neste vazio imenso de desertos e planícies do Texas. Ahab morre grudado no seu ódio, que é a baleia, e Ethan será derrotado por si mesmo, abraçado ao vínculo que desejava destruir. mas o sentimento de deslocamento e a paixão pelo espaço vazio permanecem. Num plano que já foi repetido centenas de vezes em livros ou documentários, Ford enquadra Ethan/Wayne do lado de fora, de costas para a casa da nova família, mais uma vez derrotado, mas insubmisso, irredutível. À sua frente, o interminável horizonte vazio visto pela camada mais secreta do desejo de estar só e ser só. E Ford fecha a porta, no plano final, para não revelar a casa, a família, a vitória dos justos e simples. Sobra apenas a escuridão de uma derrota.

Escrito por José Onofre - O Estado de São Paulo



Contato:[email protected] / webmaster: Pablo Aluísio / Novembro de 2002

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