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Apresentação
NOS TEMPOS DAS DILIGÊNCIAS
Uma grande saudade dos tempos das matinês infantis com o mocinho e a mocinha cercado de índios e bandidos... Eu disse uma grande saudade. Poderia ter dito melhor, ter dito uma saudade grande. Porque este "No tempo das diligências" é mesmo um western típico aumentado.
Aumentado em tudo. Na qualidade da produção, por exemplo, que é a mais fina possível, graças ao caprichosíssimo sr. Walter Wanger, disposto, como sempre, a nada poupar nas suas realizações, escalando um cast cujo simples enunciado bastaria para defender a fita: movendo a sua trupe numa "location" custosa, que ofereceu às câmeras os autênticos cenários fabulosos dos desertos do Arizona; vestindo com todo o rigor da moda do período (1885) as figuras; construindo sets magníficos de beleza e verdade, etc...
Um western aumentado também no tema e no entrecho, que não mais um simples pretexto para correrias e carnificinas de índios contra xerifes e "gold diggers", mas um estudo bem feito de caracteres: os nove viajantes da diligência, a resumir toda a humanidade nas suas histórias, nos seus sonhos, nos seus destinos, que Colliers, no seu conto "Stage to Lotdsburg", retrata com muita finura de observação.
É também um western aumentado, por causa da direção segura e inspirada de John Ford, um mestre criador de emoções, que inventou, por exemplo, aquele longo e terrível momento da "execução" dos três inimigos de Ringo Kid em Lordsburg: uma das passagens cinematográficas mais altamente excitantes que tenho visto ultimamente: com a distensão do clímax dentro do saloon, primeiro, onde os inimigos esperam a vítima, e a atmosfera de ansiedade comunicativa que dos espectadores que estão na tela se propaga aos espectadores que estão na sala eq ue ficam sem ar, numa agonia terrível, à espera do desfecho; e afinal, o temendo arrepio que culmina com o duelo, na rua noturna.
Finalmente, "Stagecoach" é um western aumentado, por causa dos seus intérpretes, exatos todos, todos essenciais. Tão equilibrados são os artistas que interpretam esta fita, que só a muito custo e por simpatia a estas pessoas a gente pode, não razoavelmente, mas sentimentalmente, preferir este àquele. Eu, por exemplo, sinto-me mais atraído por Thomas Mitchell (papel do ébrio, Doc Boone). É um artista de gênero, que me parece absolutamente insuperável. Só vejo Charles Laughton, talvez, capaz de se medir com ele num papel como esse. Mitchell toma conta da fita toda - parece-me -, com a mesma facilidade com que se apossou da maleta onde Donald Meek levava o seu mostruário de whisky... Também John Wayne e Claire Trevor (o "mocinho" e a "mocinha" da fita) formam um par amoroso repassado do mais legítimo humanismo e - note-se bem! - vem um único momento açucarado meloso (sacarine - como dizem os sobrinhos de Tio Sam) no seu idílio emotivo... John Carradine, Andy Devine, George Bancroft, Donald Meek, etc. - todos magníficos nas suas caracterizações. É inesquecível a aparição, infelizmente rápida demais, de Elvira Rios (a índia asteca, mulher de Chris), cuja voz, na canção mexicana que interpreta enquanto agem os ladrões de cavalos, é qualquer coisa como... como um "bombom qu'on suce avec l'oreille..."
A única coisa que, nesta fita, não é aumentada, que é mesmo diminuída, inferior à das velhas fitinhas do Oeste, é a fotografia, inexplicavelmente dura demais às vezes, às vezes suja ou sem nitidez. Se não fosse isto - e mais uma ou outra pequena falha na continuidade, que me parece "holes" praticados na enquadração defeituosa - eu teria completado a minha cotação a "Stagecoach" com pelo menos, mais uma meia estrelinha.
Cotação: ***1/2 (em um máximo de *****)
Crítica publicada pelo Estadão a 7 de junho de 1939:
"John Wayne no Odeon e no Alhambra"
Guilherme de Almeida

Contato:[email protected] / Texto:Pablo Aluísio / Junho 2002