Strange Days (1967)
Local: Hollywood / Data: Setembro de 1967 / Foto: Guy Webster / Texto: Pablo Alu�sio /
Nota: Gravado em oito canais no m�s de agosto de 1967, no Sunset Sound Studios #1 (Hollywood, CA).
Lan�ado oficialmente nos EUA no dia 25 de setembro de 1967. Produzido por Paul A. Rothchild. No mesmo ano em que haviam invadido os EUA com seu primeiro disco e com o single de grande sucesso Light My Fire, os Doors prepararam seu segundo trabalho, Strange Days. Dessa vez, contaram com equipamentos de alta tecnologia (para a �poca) e puderam realizar uma das primeiras grava��es da hist�ria feitas a oito canais de �udio. Mesmo n�o tendo conseguido atingir o mesmo impacto que o disco The Doors causou na m�dia, lan�ou can��es de sucesso popular (People Are Strange e Love Me Two Times) e v�rios cl�ssicos da banda (principalmente When the Music's Over), al�m de faixas pouco conhecidas, como You're Lost Little Girl e I Cant See Your Face In My Mind, que podem facilmente entrar na lista das melhores do grupo. Apesar de manter o mesmo estilo que havia sido consagrado no disco de estr�ia, Strange Days tem menos influ�ncias de blues que seu antecessor, dando mais �nfase ao lado sombrio das composi��es, os "dias estranhos" do t�tulo e da capa.
Mas, passando por cima de todos esses detalhes, "Strange Days" foi ganhando status ao longo do tempo e hoje � considerado pelos especialistas como o melhor disco da banda. O trabalho mais art�stico dos Doors, sem d�vida. Come�ando pela capa, em estilo nitidamente europeu, pelo som que se tornou �nico dentro da hist�ria do conjunto e pelo conte�do das letras, que ficaram mais elaboradas do que nunca.
Jim considerava "Strange Days" o ponto alto da discografia do quarteto, tanto que sempre o utilizava como paradigma em rela��o aos outros discos. A id�ia da capa circense, inclusive, foi sugest�o do pr�prio cantor que n�o queria aparecer novamente ao lado de seus colegas de banda, como ocorreu no disco de estr�ia. Mas a id�ia do circo europeu com malabaristas, artistas e cartomantes, foi na verdade a segunda id�ia de Jim. A primeira? Morrison queria que os Doors fossem cercados por trinta c�es. Quando perguntado de onde ele tinha tirado uma id�ia t�o surreal, Jim respondeu que tudo seria uma met�fora, pois c�o (dog) � o inverso de Deus (God)! Vai entender...
Singles nas lojas: People Are Strange / Unhappy Girl - Em Setembro de 1967 os Doors lan�aram este primeiro single extra�do de "Strange Days". O Lado A � o ponto forte com uma can��o que entraria definitivamente na hist�ria do grupo. Na realidade "People Are Strange" j� havia sido composta h� muito tempo, antes mesmo at� do grupo se formar. S� ficou fora do disco de estr�ia por pura falta de espa�o. Melhor assim. Aqui ele ganhou o ve�culo perfeito para sair das trevas dos arquivos dos Doors. A can��o do Lado B n�o acompanha o alto n�vel art�stico do lado A. Mas tamb�m n�o faz feio. Cumpre tabela.
Love Me Two Times / Moonlight Drive - Dois meses depois do primeiro single chegar nas lojas, em novembro de 1967, os Doors invadem novamente as lojas com esse segundo single. A ordem das m�sicas deveria ter sido invertida, porque sem d�vida, "Moonlight Drive" � bem superior que "Love Me Two Times", essa apenas uma m�sica feita para tocar nas r�dios. De certa forma o tempo fez justi�a, pois "Moonlight Drive" � uma das mais conhecidas m�sicas dos Doors e sua parceira de single caiu na vala comum do anonimato. Com um lado excepcional e o outro apenas regular, esse single leva uma nota sete por seu valor musical e passa por m�dia.
Artaud Rock: a L�gica Dark dos Doors por BiII Kerby
Ray, com a cabe�a curvada, observa atentamente as teclas de seu org�o; John faz os �ltimos ajustes na batera e Robbie, como um filho alucinado de Robert Mitchum, equaliza suavemente seu amplificador. Ap�s uma intermin�vel espera, Robbie come�a, seguido por John e Ray. A introdu��o � poderosa e solene, envolvendo-nos ondulantemente. O Kaieidoscope j� havia esgotado suas entradas. O Ciro's estava apinhado de gente que provinha de todo o hemisf�rio ocidental e que, frente ao palco, reconhecia o impacto daquela introdu��o, numa expectativa ansiosa. L� estava ele, como um Anel provindo das entranhas do inferno, deslizando atrav�s do lento pulsar "c�mara lenta" da batera. Robbie o espreita com certo desgosto, mas Morrison est� indiferente. Em �xtase, podia-se notar seu olhar de cumplicidade com a plat�ia. Vibrando excitado, aproxima-se do microfone. Suas roupas davam a impress�o de que ele n�o as tirava desde os doze anos. Pega o microfone e num flash, sua maravilhosa face de crian�a nos alerta de que tudo � mentira. Todo terror, todo veneno e todo mal s�o repentinamente exorcizados! Um som n�o-humano, visceral, projeta-se atrav�s dos grandes auto-falantes emudecendo as cr�ticas. Um sil�ncio espectral invade a sala quando ele come�a a cantar, alternando gritos com car�cias mel�dicas e v�os po�ticos. Por mais de uma hora, numa noite de sexta-feira, o grupo americano chamado The Doors ultrapassou todos os limites sonoros naquele lugar. Pela simples raz�o de que s�o grandes e porque � precisamente nestes momentos lim�trofes que os artistas produzem o que h� de melhor, ocorreu l� um verdadeiro milagre. O criador do Teatro da Crueldade, Antonin Artaud, descreve suas ins�litas representa��es c�nicas como "erotismo, selvageria, sanguinol�ncia, viol�ncia, obsess�o (pelo horror, colapso) dos valores morais, hipocrisia social, mentira, sadismo, perj�rio, deprava��o etc." Todos que ouviram os Doors poder�o encontrar um farto cat�logo de todo esse material. Artaud, nesse contexto, � mais que um simples ornamento, uma rubrica conveniente nesta m�sica. Os Doors aparecem como algo totalmente diferente. Indeciso (satisfeito, desapontado: escolha urna destas duas possibilidades) em sua sobreviv�ncia, o homem ocidental come�a a olhar seu interior para examinar o que est� certo e o que est� errado (ou se eventualmente ambas as coisas n�o seriam o mesmo). Os conceitos de ordem e caos t�m agora novos significados. A contesta��o assume neste momento uma validade muito grande na arte como um ato intenso de paix�o. E os Doors sabem disso. Este tipo de irracionalidade que ultrapassa os devaneios on�ricos e a loucura inspira suas m�sicas que chocam mais do que apresentam hist�rias l�gicas. Ao fim do espet�culo, todo o mal foi exorcizado e Morrison empunha solenemente um f�sforo aceso, envolvido por uma negra escurid�o. Neste momento voc� torce para que eles n�o mande tudo para os ares! Muitas Coisas acontecem ao ouvi-los. As sensa��es v�o da beleza, hilaridade on�rica ao pesadelo. "Os sonhos possuem algo mais que nossa restrita l�gica. T�m uma exist�ncia pr�pria onde as trevas e as s�bias verdades se revelam." (Artaud ou Morrison: escolha). Os Doors s�o quatro m�sicos que juntos apresentam uma �nica vis�o. Mas � Morrison que o p�blico quer ver. S�o atra�dos por sua ambig�idade que nos conduz calamitosamente � festa. Sua natureza perversa � afirmada quando ele encara as coisas que mais tememos. Encolhemo-nos e morremos um pouco interiormente enquanto o mal e a morte dan�am muito pr�ximos � nossa insignificante concep��o de imortalidade. Mas James Douglas Morrison, nascido em Melbourne, Fl�rida, em 1943, cineasta e astro, move-se no palco dan�ando com express�o de indiferen�a e com a face convulsionada por uma espl�ndida f�ria. Nota-se um desd�m espont�neo, o maior e mais completo desprezo por tudo que o cerca que jamais presenciei. mas quando ele se ergue vociferante ao microfone e irradia pelo palco sua contund�ncia, el�trico e tomado pelo fogo, tudo ali � seu: a espera, o perigo e o terror. Sozinho. (UCLA Daily Bruin, 1967)
