The Doors (1967)
Local: Los Angeles / Data: dezembro de 1967 / Foto: Michael Earl Ochs / Texto: Pablo Alu�sio /
Nota: Gravado em quatro canais no m�s de agosto de 1966, no Sunset Sound Studios #1 (em Hollywood, CA). Lan�ado oficialmente nos EUA no dia 4 de janeiro de 1967. Produzido por Paul A. Rothchil. Com o estouro de Light My Fire em todo os EUA, o produtor Paul Rothchild, um dos mais conceituados profissionais da Elektra Records, costumava dizer que criou um sucesso em apenas uma semana. E foi isso mesmo. Assim que assinaram com a gravadora, no final de 66, os Doors logo entraram em est�dio e em meros seis dias (com um fim de semana de intervalo) gravaram seu disco de estr�ia. As m�sicas escolhidas j� faziam parte do repert�rio que a banda vinha tocando em bares na Calif�rnia durante um ano inteiro, alternando-se entre composi��es de autoria pr�pria (apesar de serem todas compostas por Morrison e Krieger, a banda inteira levava o cr�dito no encarte) e covers (Alabama Song, de Kurt Weill e Bertold Brecht, e Back Door Man, de Willie Dixon). A sonoridade pode ser descrita como um blues urbano e sombrio, misturando influ�ncias da m�sica negra e de elementos totalmente novos no mundo da m�sica pop. Sucesso de p�blico (transformou-se logo em disco de ouro) e muito elogiado pela cr�tica, o �lbum se tornou um dos maiores cl�ssicos da hist�ria do rock e colocou Jim Morrison e os Doors entre os maiores �cones pop do s�culo.
Este � o primeiro disco da carreira dos Doors. O normal � que todo disco de estr�ia de qualquer grupo seja pouco ousado, em que os m�sicos ainda estejam procurando seu pr�prio caminho, em suma o normal � que o disco de estr�ia seja produto de uma fase de experimenta��o, de inexperi�ncia. Esque�a isso em rela��o aos Doors. Que banda de Rock coloca uma m�sica como "The End" logo de cara em seu debut musical? At� os Beatles levaram um tempo para deixar a fase "menudos dos anos 60". S� evolu�ram depois, quando deixaram as "musiquinhas idiotas de amor" (como o pr�prio Lennon se referia, quando falava da primeira fase do conjunto). Com os Doors isso n�o aconteceu, eles j� come�aram detonando meio mundo, colocando por terra qualquer conformismo ou lugar comum mel�dico. O disco � uma tijolada no cen�rio rock da �poca. Um cr�tico disse que "Gosto dos demais grupos porque entendo o que eles dizem, com os Doors isso n�o acontece, quem pode entender o que Jim est� querendo transmitir?" Pois �, sem d�vida Jim e banda era por demais avan�ado para a �poca, e o mais importante eles colocaram as cabecinhas ocas das adolescentes que gritavam pelos Beatles para funcionar! O neg�cio de Jim era esse: "Pense". Eles surgiram no momento em que os Estados Unidos e o mundo j� haviam perdido a inoc�ncia. A guerra do Vietn� estava no ar e os Doors eram ouvidos no sudeste asi�tico pelas tropas americanas aquarteladas no fim do mundo. "Os Doors foram a trilha sonora do Vietn�" disse depois o diretor Oliver Stone.
Talvez por isso a guerra tenha ido pelo ralo. Os Doors fazem pensar, o que definitivamente est� fora de cogita��o para os militares, que querem que seus soldados sejam simples m�quinas idiotas de matar. Ent�o o grupo veio e rompeu com tudo, inclusive com a pasmaceira reinante. Em suma, os Doors foram definitivamente (desculpe a refer�ncia por demais �bvia) aqueles que arrombaram as portas da caretice e do marasmo musical do final dos anos 60, que trouxeram novos valores ao ass�ptico mundo WASP dos EUA. Todos se tocaram que a juventude estava agora fazendo amor livre, tomando drogas adoidado (inclusive os milicas no Vietn�) e que os valores dos pais viraram definitivamente "piadas no cinema com suas leis" (outro trocadilho infame, I'm Sorry Renato!).
Os Doors cresceram r�pido, at� porque eles n�o teriam tempo! Em apenas cinco anos o grupo jogou para o alto qualquer mesmice musical. Fico imaginando em que grupo eles teriam se transformado se tivessem pelo menos mais 10 anos de carreira pela frente. Teriam tirado os Beatles do trono de "banda mais importante da hist�ria do rock" ou teriam se tornados "vov�s rid�culos posando de adolescentes imaturos" como os Rolling Stones? Esque�a. Filosofia � para Jim Morrison. N�o cometerei nenhuma heresia em um site feito para homenagear "A mais inteligente banda de rock da hist�ria", o que j� � um respeit�vel t�tulo.
Single nas Lojas: Break On Through (To The Other Side) / End Of The Night: Misture filosofia francesa, pitadas de existencialismo, culto � morte, alucina��es psicod�licas e o que voc� tem? Ora, o primeiro single dos Doors, um dos mais revolucion�rios e transgressores da hist�ria do rock americano. Voc� s� tem a no��o exata da singularidade deste single se ouvir outras bandas e artistas americanos da �poca. Tente comparar essa m�sica com The Mamas and The Papas, por exemplo. S�o dois mundos completamente diferentes, Jim e os caras da banda parecem ter chegado de marte! A dist�ncia da ess�ncia dos Doors e de outros grupos � abissal. N�o d� para comparar. Por isso houve tanto rebuli�o nos States. Jim literalmente rompeu com o cen�rio musical da �poca e fez algo totalmente novo. Por isso tentar classificar e enquadrar o grupo em alguma tend�ncia � bobagem, simplesmente s�o �nicos, sem ningu�m parecido por perto. Jim foi nessas can��es o que John Lennon gostaria de ter sido, se tivesse uma forma��o educacional mais s�lida, porque ningu�m mistura tantas coisas diferentes e relevantes em um s� caldo e se sai bem. Tem que ter embasamento intelectual e isso o rei lagarto tinha de sobra. As m�sicas? Nem vou comentar, tire suas pr�prias conclus�es. Esse ali�s sempre foi o recado por tr�s das m�sicas dos Doors: "Pense por si mesmo".
Light My Fire / The Crystal Ship: Um dos grandes sucessos da carreira dos Doors, sen�o o maior. Primeiro houve muita surpresa por parte das r�dios americanas pela dura��o da m�sica. Nos anos 60 uma can��o tinha que ter no m�ximo tr�s minutos e a� chega os Doors e chutam o balde, lan�ando uma que durava a eternidade (mais de 7 minutos!). Como tocar um tro�o desses? Mas n�o teve jeito, eles tiveram que se curvar e colocar a vers�o completa nos dials. O produtor do grupo ainda fez uma vers�o menor (abominada por Jim) para que as esta��es mais comerciais (e mais idiotas) pudessem tocar o sucesso dos Doors. Depois o sacril�gio: Atr�s de uma grana f�cil os tr�s (fora Jim) venderam os direitos de "Light My Fire" para tocar como jingle no lan�amento de um novo carro, o Buick. Jim, � claro, ficou puto da vida e detonou uma TV nos est�dios quando soube! (Essa cena est� presente no filme de Oliver Stone). O conjunto estava se tornando justamente aquilo que Jim mais odiava: mero produto descart�vel da ind�stria automobil�stica. Que droga!
Bad Trip!
Enquanto isso, fora dos est�dios...
Nota: A banda The Doors surgiu no ver�o de 1965, criada por Jim Morrison e Ray Manzarek, que haviam acabado de se formar em cinema pela UCLA. Como reza a lenda, os dois se reencontraram na praia de Venice, em Los Angeles. Jim cantarolou os primeiros versos de Moonlight Drive e Ray, que tocava piano cl�ssico desde a inf�ncia, ficou t�o impressionado com o que tinha acabado de ouvir que sugeriu que os dois montassem uma banda de rock para ganhar milh�es de d�lares. E foi mais ou menos isso o que aconteceu a partir da�.
O nome The Doors (As Portas) foi tirado de um livro de Aldous Huxley, chamado The Doors of Perception : Heaven and Hell, que por sua vez foi inspirado num trecho de um poema de Willian Blake: "quando as portas da percep��o forem purificadas o homem ver� as coisas como realmente s�o, infinitas".
Foi combinado ent�o que Jim cantaria as can��es enquanto Ray faria o acompanhamento em seu �rg�o. Apesar de Jim naquela �poca afirmar que n�o sabia cantar, desde mais novo era f� de cantores como Frank Sinatra e Elvis Presley. Logo foram incorporados aos Doors os dois irm�os de Ray (que tocavam juntos na banda Rick and the Ravens), uma garota baixista (cujo nome ningu�m consegue se lembrar) e o baterista John Densmore, que o tecladista havia conhecido no centro de medita��o Maheshi Yoga.
Juntos, gravaram uma fita demo no est�dio World Pacific, em setembro de 1965, com as seguintes faixas: Moonlight Drive, Hello, I Love You, Summer's Almost Gone, My Eyes Have Seen You, End of the Night e Go Insane (que mais tarde teve o nome modificado para A Little Game). Todas as faixas podem ser encontradas no The Doors Box Set, lan�ado em 1997. Talvez doze m�sicas tenham sido gravadas com essa forma��o, mas apenas as seis foram aproveitadas e colocadas em um disco de acetato que teve no m�ximo tr�s c�pias.
Os irm�os de Ray e a baixista an�nima n�o permaneceram por muito tempo, abrindo espa�o para o guitarrista Robby Krieger (que j� havia tocado com John na banda de folk Psychodelic Rangers e tamb�m freq�entava as aulas de medita��o) se juntar ao grupo. Ent�o, j� com a forma��o definitiva, conseguiram um contrato com a Columbia Records que, apesar de dar instrumentos e apoio financeiro aos Doors, n�o mostrou interesse em p�r a banda no mercado fonogr�fico.
Livres de qualquer contrato, come�aram a tocar em um pequeno bar de Sunset Strip chamado London Fog, que se encontrava sempre �s moscas. Saindo de l�, se tornaram a banda da casa do prestigiado Whiskey a Go Go, abrindo shows para grandes artistas como Them, Sonny & Cher e Frank Zappa and the Mothers of Invention. A presen�a de palco de Jim, que antes era exageradamente t�mida (chegando ao ponto de cantar virado de costas para o p�blico), j� come�ava a dar sinais do "performer" sensual e confrontador que ele se tornaria mais tarde. E Ray Manzarek, al�m de tocar �rg�o com a m�o direita, come�ou a fazer as linhas de baixo com a esquerda em um teclado especial, fazendo a banda n�o precisar de um baixista convencional.
Certa noite, tudo parecia desmoronar. Jim, provavelmente em uma viagem de LSD, incluiu novos versos na can��o The End no palco do Whiskey a Go Go. Nela, o vocalista encarnava �dipo e cantava o seguinte: "father, I want to kill you/ mother, I want to fuck you" ("pai, eu quero te matar / m�e, eu quero te foder"). Isso enfureceu o dono do bar, que demitiu os Doors ap�s a apresenta��o, jurando que eles nunca mais colocariam os p�s no Whiskey. Os integrantes da banda ficaram desesperados, achando que a carreira musical do grupo terminaria naquele momento. Foi quando Jack Holzman, presidente de Elektra Records, apareceu dizendo que tinha assistido ao show e gostado muito, propondo a eles um contrato com a gravadora.
- O Auge - No final de 1966, foram contratados pela Elektra e em poucos dias gravaram seu disco de estr�ia, batizado simplesmente de The Doors, que foi lan�ado na primeira semana de 1967. O sucesso do single Light My Fire (que se tornou o hino daqueles dias conhecidos como "o ver�o do amor") impulsionou as vendas do �lbum, um grande sucesso que se transformou rapidamente em disco de ouro. A cr�tica tamb�m n�o poupou elogios ao LP, que � at� hoje considerado um dos melhores da hist�ria do rock. Parecia que aquela mistura de blues e psicodelia havia conquistado Am�rica � primeira vista.
Com o �lbum entre os mais vendidos e um hit no alto das paradas, os Doors logo passaram de banda underground para os queridinhos da m�dia e dos adolescentes. Tamb�m viraram figura f�cil nos programas de TV, incluindo uma participa��o antol�gica no The Ed Sullivan Show (onde Jim foi proibido de cantar a palavra "higher", mas ao vivo no ar ignorou a proibi��o) e foram capa tanto de revistas musicais de prest�gio (como a rec�m criada Rolling Stone) quanto de publica��es destinadas ao p�blico jovem. No meio disso tudo, a imprensa considerou os Doors como a resposta americana aos Beatles e aos Rolling Stones.
