UMA DAS AVENTURAS DO LINDOSVALDO
UMA DAS AVENTURAS DO LINDOSVALDO
— Ei seu moço, não
digo nada não alem do que passei, o foi os diabos, no tiro de guerra. Atirador
Lindosvaldo sim senhor e con’rgulho! Eia, fui monitor sim, ah sim, e como foi
ruim. Esse negocio de responsabilidade, coisa pra bobo. Mas nem digo nada o que
aconteceu, ah sim. Um dia, os cabra ruim sargento resolveram de fazer feijoada,
eh feijoada boa no tiro. Mas ae, os tirador sob minha responsa tivera idéia de
levá cerveja, credita? Não demoró muito eles iniciaram a bebe, beberam muito
eles? E como. Quem bebeu mais foram os tirado Tonetti e o Guapá. Eia, maluco
eles? Vos digo. Cantarolavam, nem imagina. Tudo bem que nois ficava no fundo e
os comandante lá no salão principal. Mas eia, o subtenente mostrando o tiro
pra um cabra veio, chegou perto da cozinha, que era onde nois ficava. Oia, eles
esconderam que só a cerveja, mas foi que ainda seguravam a lata pôr detrás da
mureta. Credita? E o sub pertinho, pertinho. Sorte minha, o sub se fez de bobo.
E o pior veio depois, o maluco do Tonetti, bêbado, garro a filha do sargento
que passeava pelo tiro, e ela gosto. Feia ela compadre! Nunca que tinha levado
um beijo. Esse dia foi engraçado, fico n’aistória. Tempos bom. Orra! E como.
Mas dispois, sabe como é, vida difícil, as veizes acho que nunca que divia de
ter saído do interiorzão. Dinheiro fácil me seduziu? Claro meu irmão, cê
deve crer mais desses assuntos do que eu. Voz digo que tu tem jeito de
experiente. Chuto o trafico. Mas antes de tu fala de su vida, dexa eu acabá. Eu
na minha moto, veia coitada, que comprei com os pouco lucro da mecânica do seu
Zé, era deliveri, não era? Era sim, era sim senhô. Moto boy das droga. Mas eu
era viciado? Não era não senhô. Meu pai me educou muito bem, nas leis severas
do ultramontanismo. Mas ae, onde fui parâ, aqui! Vô reza muito? E se vô. Mas,
galhardia, eu era tão bom guardador do tiro, monitor Lindosvaldo. Vô te dizê,
eu e aquelas espingarda do tiro, nascemo um pro outro. Eu era bom, rapaz, e
como! Acertava tudo, té mosquito. Recebi té medalha. Ficava com vontade de
atira nos plantão, mas eia, sou direito. Mas foi que num dia um tiradô deu
tiro no gato. Eia, mas deu problema? E se deu. Só deu. Mas oia, os comandante só
tinha pena de nois. O cabra acabô se safando. E oia, era sempre assim, os cara
fazia’rte e depois se safava. Mundo injusto só, era tudo filhim de papai.
Cheroqui e o diabo a quatro. Mas, pesar de tudo, saudade da farda. E o pessoal
nas rua admirava? E as mulheres então. Catei umas só com o poder das farda.
Farda boa né? Mas hoje vê só, tenho té medo dessas, as azuzinha. Vá me dize
que não. E tempo bom que não volta. Menino novo, já sabia tira leite de vaca.
Corria pelos campos, brincando de fugi do cachorro. Cara, vô te dize, deu
vontade de toma uma breja. Como nois consegui isto aqui? Depois tu me diz. O
pior foi vê minha mãe chorando. Pior que isso só vendo o pai chorando. Mas
meu pai, e cara trapaiado. Ou será que é esperto? Não sei, só sei que ele
fugiu seu moço, e que fugida! Ninguém sabe paradeiro. Eh, coitado, ele não
guento cidade. E ele nem conseguiu emprego, mas veja só, minha mãe conseguiu.
Aí que ele não agüento memo. Orra! Que saco! Também não divia ficá na
cidade. Oia onde to. Bom memo foi conhece a princesinha. Negrinha, negrinha. E
que bunda! Meu erro foi esse. Umas troca de beijos virando a esquina e pronto.
Eu mato quem deduro, ah eu mato. Ce não me conhece. Tem hora que eu fico brabo.
Mas tenho cá comigo uma duvida. Daquelas! E se foi a negrinha que contou pro
malandro do amasiado dela? E se foi? Muita ruindade né? Lembro como se fosse
onti. Mas faiz mais que trêsdontonte. A noite, na calma. Viera os azuzin. Deu
medo. Quando me algemaram o cabra ainda, querendo tira uma, disse: ... pro ce
aprende a não mexe com mulher de outro. Eu aquento? Injustiçada. Eu e mais
quase todo mundo. Mas uma coisa fiz que fiquei feliz. Tava no tiro e sargento
disse que na esquina, ali pertim,
mora um traficante, um tal de Luis Fernando. Pensei comigo memo. Que isso!
Traficante perto das forças armadas. Ah cara, não deixei barato. Na primeira
oportunidade que tive, fiz justiça. Tava guardando o tiro e tava lá, na casa
do home, uma movimentação. E que estranha! Liguei pra poliça. E oia, minha
intuição tava certa. Prenderam o cabra. Haha. Pelo menos isso. Prenderam o
tal. E você, por que foi preso? ...ah ta pensativo né. Mas não entendo essa
sua cara de bravo.
— Fui preso por
trafico. Um galego me dedurô...