HISTÓRIA
A IGREJA NA ANTIGUIDADE TARDIA OCIDENTAL

CAPITULO I
- A IGREJA NA TRANSIÇÃO
Perry Anderson, autor que utiliza o método
materialista dialético de Karl Marx, demonstra em sua obra, a influência da
Igreja no declínio do poder do Império Romano, sob o ponto de vista econômico.
No fim da Antigüidade, a Igreja teria contribuído, com um peso muito grande,
com o esfacelamento dos meios de defesa que o Império Romano possuía. O mais
impressionante foi como isto ocorreu. A igreja influenciou não através da
desmoralização doutrinária ou de seus dogmas cristãos, mas pôr seu poder
político e de mando. Anderson nos revela que a grande quantidade de cargos do
clero e toda estrutura burocrática que ela conseguiu criar no último Império,
que necessitava de grandes recursos financeiros para mantê-la, pois os salários
pagos e esta superestrutura supracitada consumiam grandes recursos econômicos,
se tornando assim, como diz o próprio Anderson, “uma sobrecarga parasítica
que exauriu a economia e a sociedade romana”. Ao lado disso, por volta do século
VI, ocorreu, impressionantemente, uma desproporção entre o número de funcionários
do Estado e o número de bispos e o clero, pois estes dois últimos estavam em
muito maior número, além de receberem salários bem mais altos que o dos
funcionários do Estado. [1]
Contrapondo, ao mesmo tempo em que a
Igreja ajudou na queda do Império ela era guardiã da ordem e cultura oriunda
da Roma Imperial. O ilustre autor de “passagens da antiguidade ao
Feudalismo”, sintetiza essa contradição dizendo que “O complexo infra e
supra-estrutural que iria compor a estrutura geral de uma totalidade feudal na
Europa teve assim uma dupla origem, depois do colapso e confusão da Idade Média.
Entretanto, uma única instituição abarcou toda a transição da Antigüidade
à Idade Média em continuidade essencial: a Igreja Cristã. Ela foi, realmente,
o principal e frágil aqueduto sobre o qual passavam agora as reservas culturais
do Mundo Clássico ao novo universo da Europa feudal, onde a escrita se tornara
clerical.”2
O terceiro fator importante que Perry
Anderson denuncia sobre a Igreja em seu livro é a relação da instituição
religiosa cristã com o conceito e definição de trabalho. Pôr algumas linhas
o autor trabalha para nos mostrar que a Igreja tem
mínima ou pouca culpa em diminuir a ojeriza pelo trabalho, na verdade o
conceito da labuta e a gloria e dignidade em trabalhar sofreu influência de
toda a transição e da crise econômica e escravagista: “...a Igreja foi também
o terreno movediço dos primeiros sintomas da libertação de técnica e cultura
a partir dos limites de um mundo construído sobre a escravidão... Nas ordens
monásticas do Ocidente o trabalho manual e o intelectual estavam unidos
providencialmente a serviço de Deus. O pesado trabalho agrícola adquiria a
dignidade do culto divino, e era desempenhado pôr monges letrados: laborare
est orare. Com isto caía uma das barreiras à invenção técnica e ao
progresso. Seria um erro atribuir esta mudança a qualquer poder auto-suficiente
dentro da Igreja — o curso diferente dos acontecimentos no Oriente e no
Ocidente apenas seria o bastante para deixar claro que foi todo o complexo dos
relacionamentos sociais, e não a própria instituição religiosa em si, que
definitivamente fixou os papeis econômicos e culturais do monasticismo...”3
Ainda em meio a decadência do império,
a Igreja teve que assumir as rédeas da civilização. Ação esta feita em
favor da própria autodefesa. Utilizando muitas vezes meios contraditórios. É
o que nos esclarece Jacques Le Goff, um dos autores da Historia Nova:
“Na desordem causada pelas invasões,
os bispos e os monges — como S. Severino — tinham passado a ser os chefes
polivalentes de um mundo desorganizado: juntavam à sua função religiosa uma
função política, negociando com os Bárbaros; uma função econômica,
distribuindo viveres e esmolas; uma função social, protegendo pobres contra
poderosos; e até uma função militar, organizando a resistência ou lutando
com as <<armas espirituais>>, onde já não houvesse armas
materiais... Mas, barbarizados eles próprios, ou incapazes de lutar contra a
barbárie dos grandes e do povo, os chefes eclesiásticos ratificam a regressão
da espiritualidade e da pratica religiosa... A Igreja procura, principalmente,
satisfazer os seus próprios interesses sem se preocupar com as razões dos
Estados bárbaros — como já se não preocupavam com as do Estado romano.
Acumula à custa de doações arrancadas aos reis e aos grandes, e até aos mais
humildes, terras, rendimentos, isenções; e, num mundo em que o entesouramento
só pode esterilizar cada vez mais a vida econômica, aplica à produção a
mais grave sangria.”4
É
mais do que claro, ficou estabelecido a importância da igreja na transição da
Antigüidade para a Idade Media entre os autores contemporâneos, como também
é claro a idéia de que a Igreja não tem grande importância no total
das causas do declínio do Império.
CAPITULO
II - Primórdios da Intelectualidade
Cristã
Com a ascensão da Igreja é
brutalmente diminuída a importância dada aos intelectuais laicos, que pôr sua
vez tentam achar as causas da decadência do Império. Ao contrario dos
intelectuais da Igreja que pensam em uma nova sociedade. É o que
Josep Fontana, este historiador espanhol, também de influência
Marxista, leciona :
“Entre Tácito e Santo Agostinho
(354-430) há uma larga coexistência de uma historiografia romana pagã e outra
cristã, como há entre as instituições políticas de um império que se
desmorona e uma Igreja que vai ocupando progressivamente o lugar da <<débil
organização estatal romana.>>. Pôr um lado, autores pagãos
<<menores>>, como Ariano, Dion Casio, os escritores da Historia
Augusta, ou esse Amiano Marcelino (c. 330 – c. 397), contemporâneo de Santo
Agostinho, cuja obra está na linha de uma historiografia laica, preocupada com
as causas externas e internas da decadência do império. Pôr outro, uma
historiografia cristã que, ainda que escrita em latim, não surge da romana
clássica pôr um processo de evolução ou degeneração, mas antes responde a
uma nova concepção da sociedade- à necessidade de justificar um novo sistema
de relações entre os homens.”1
Mas é importante realçar que a
cultura da Antigüidade não fora de toda esquecida. “A atitude fundamental
fora definida pelos padres da Igreja e perfeitamente formulada pôr Santo
Agostinho, que dizia que os cristãos deviam recorrer à cultura da Antigüidade
do mesmo modo que os judeus tinham recorrido aos despojos dos Egípcios.
<<Se os filósofos (pagãos) exprimiram , pôr acaso, verdades úteis à
nossa fé — em especial os filósofos platônicos —, não só não há que
recear tais verdades como é preciso arranca-las, para nosso serviço, a esses
seus detentores ilegítimos.>>... O grau de assimilação, de metamorfose
e de desnaturação varia de autor para autor e o mesmo autor oscila, muitas
vezes, entre os dois pólos que assinalam os limites da cultura medieval: a fuga
horrorizada à literatura pagã e a sua admiração apaixonada, que leva a
grandes aproveitamentos.”2
Porem para chegar as idéias a todos
fieis foi preciso os “homens da Igreja” adicionar humildade e simplicidade
em suas falas alem da renuncia de requinte intelectual. “No inicio do século
VI, Avito, bispo de Vienne, no prefacio a uma reedição das sua obras poéticas,
declara ao irmão que renuncia a este gênero <<pois pouca gente
compreende a medida das silabas>>. Na mesma época, Eugippius hesita em
publicar a Vida de S. Severino, pois
receia que <<a obscuridade da sua eloquência impeça que a multidão
compreenda os fatos admiráveis>> que relata. Césaire d’Arles
desenvolve o teme: << Peço humildemente que os ouvidos dos letrados
suportem sem queixumes as expressões rústicas para que todo o rebanho do
senhor possa receber alimento
celestial numa linguagem simples e terra-a-terra. Já que os ignorantes e os
simples não podem elevar-se à altura dos letrados, que os letrados se dignem
descer até à sua ignorância. Os homens instruídos podem compreender o que
foi dito aos simples, mas os simples não são capazes de tirar proveito do que
poderia dizer aos sábidos.>> E repete a frase de S. Jerónimo: <<O
pregador deve suscitar mais gemidos que aplausos.>> Sem duvida que em
ambos os casos se pretende subjugar , dominar. Mas os meios e as vias mudaram, e
esta modificação da sensibilidade e da propaganda define, na passagem da Antigüidade
para a Idade Média, uma nova sociedade.”3
Nesta transição rumo a uma nova
sociedade em meio ao amadurecimento e uma certa flexibilidade, limitada mas
funcional, do saber cristão, surgiram homens que K. Rand chamou de fundadores
da Idade Média. Entre estes Le Goff citou quatro que são de maior importância:
“A Boécio deveu a Idade Media tudo
quanto soube de Aristóteles até meados do século XII: a Logica
vetus, a velha lógica, e <<em doses assimiláveis, as categorias
conceptuais e verbais, que seriam a base inicial da escolástica>>...
A Cassiodoro devem os homens da Idade
Média os esquemas dos retóricos latinos. Fixou aos monges do convento de
Vivarium um encargo que a Idade Media não esqueceria: copiar os manuscritos
antigos. Nessa obra essencial, de conservação e de tradição, se inspiraram
os scriptoria monásticos.
O legado de Isidoro de Sevilha,
<<o mais ilustre pedagogo da Idade Media>>, é, principalmente
devido às suas Etimologias, o
programa das sete artes liberais, o vocabulário da ciência, a crença em que
os nomes são a chave da natureza das coisas e a repetida afirmação de que a
cultura profana é necessária para a boa compreensão das Escrituras. É a paixão
enciclopédica, que atormenta os clérigos medievais.
Bede, pôr fim, é a mais acabada
expressão da multiplicidade de sentidos da Escritura, a teoria dos quatro
sentidos, em que se funda toda a exegese bíblica medieval, como magnificamente
explicou Henri de Lubac, e, através da exegese bíblica e do cômputo eclesiástico,
a orientação para a astronomia e a cosmografia. <as Bede, tal como a maior
parte dos letrados anglo-saxónicos da Alta Idade Media, vira as costas de um
modo mais resoluto à cultura clássica e encaminha a Idade Media numa via
independente.”4
De fato a Idade Média não foi a
Idade das Trevas, muito menos a Alta Idade Média como também não fora a Antigüidade
Tardia seja qual o limite cronológico que certos autores ditam para estas épocas.
A passagem da Antigüidade para a Idade Media não é o detrimento nem uma
melhora de uma civilização mas sim o surgimento de uma nova sociedade onde a
Igreja, pôr vários fatores, alguns aqui citados, humildemente por mim,
adquiriu grande importância.
Bibliografia
Brasiliense, 1989.
FONTANA,
Josep. Historia: Análise do Passado e Projeto Social. Bauru, EDUSC,
LE
GOFF, Jacques. A Civilização Do Ocidente Medieval. Lisboa. Editorial
Estampa,
NOTAS
[1] ANDERSON, Perry. Passagens da Antigüidade ao Feudalismo. São Paulo. Brasiliense, 1989. p. 127
2
Iden. p. 126
3
Ibiden. pp. 127-129
4 LE GOFF, Jacques. A Civilização Do Ocidente Medieval. Lisboa. Editorial Estampa, 1983. pp. 60-61
1 FONTANA, Josep. Historia: Análise do Passado e Projeto Social. Bauru, EDUSC, 1998. P. 28.
2 LE GOFF, Jacques. A Civilização Do Ocidente Medieval. Lisboa. Editorial Estampa, 1983. p. 150
3
Iden. pp. 153-154
4
Ibiden. p. 165
TRABALHO NOTA 7
AUTOR: O ÚLTIMO ARGONAUTA