Desconstruindo
a chapeuzinho vermelho
O clima sempre gélido,
as geleiras eternas e a neve que não cessa em cair faz ficar impossível a visão
do quente sol e obter a sabedoria das horas. Algumas partes descobertas de neve
das enormes montanhas dão uma pincelada de cinza e os bosques esparsos de
enormes arvores dão um toque de verde no eterno branco
Sozinho, caminhando nesta onírica
paisagem, o Monstro-Lobo está faminto. Há dias não encontra um ser humano
para que possa saciar sua fome. De repente pôr entre as arvores fareja alguma
coisa, ouve passos.
Algumas dezenas de metros de
onde está o Lobo, caminha feliz uma menina pela trilha que corta o bosque.
Usando uma capa vermelha, carrega nas mãos uma cesta. Ao lado dela um cachorro
vira lata a acompanha-la.
De súbito, no limiar da
trilha surge um vulto usando capa e um capuz que lhe escondia a face. O cachorro
desanda a latir. E uma voz de trovão se fez ouvir.
— Ei menina, estou perdido e
com fome. Pode me ajudar?
— Claro seu moço. No fim da
trilha mora minha vó. Vai lá, ela pode te ajudar. Estou indo pra lá. Mas
antes estou pensando em catar pedras para ajudar minha vó em sua coleção.
O vulto se foi, mas enquanto a
menina catava pedras, ela pensou consigo mesmo: e se esse moço for um ladrão?
ele pode roubar minha vó. Pôr causa deste pensamento ela foi até a casa do
Ranger que ficava no meio do bosque pedir ajuda, era uma casinha bonitinha feita
de madeira sobre os galhos das arvores.
Enquanto isso, o Lobo já a
mesa se alimentava com os cozidos da avó da menina. Depois se sentaram na
sala, e o Lobisomem contava sua historia sofrida de criatura mitológica quando
bateram na porta.
Era os três ursos, Pai Urso,
Mãe Ursa, Filho Urso, que vieram dar uma passeada na singela casa da vovó.
Eles conversaram muito. Todos tinham muitas historias para contar. Os três
ursos lembravam do sumiço dos mingaus dando gargalhas que pareciam não acabar
mais. Vovó servia lhes suco de morango.
O auge da confraternização
foi quando os ursos chamaram o lobisomem para morar com eles. O Lobo ficou
contente, mas preferiu não aceitar pois “tem hora que eu perco o controle de
minha fome e fúria”. Quando o lobo falou isso todos ficaram assustados, mas
ele completou: “Mas fiquem calmos que eu não perco o controle quando estou
com amigos.” E todo riram novamente, mas o lobo continuou: “Mas vocês não
são meus amigos”. O clima ficou tenso de novo. E novamente o lobo falou: “É
brincadeira gente.” E todo mundo riu de novo.
— E os anões hein gente?
Tem visto eles? — perguntou a vovó para os ursos.
— Eles tão sumido, ficam na
mina o dia inteira agora que a Branca de Neve os deixou. Estão tão tristes, até
o Risonho. — respondeu a mãe ursa.
— Até
o Risonho! Que coisa né.
Depois foram todos para a
copa, sentaram se a mesa e comeram bolo de chocolate. Vovó em sua euforia,
euforia esta que fez ela esquecer da visita que sua netinha faria hoje a sua
casa, disse o quanto estava alegre e: — Que bom seria se todas a historias
acabassem felizes assim.
Enquanto isso na casinha sobre
os galhos, a pobre menininha foi estuprada, morta e esquartejada pelo Ranger
alcoólatra.