Um apólogo

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UM APÓLOGO

MACHADO DE ASSIS. Um apólogo. In: Para gostar de ler. 8.ed. São Paulo : Ática, 1995. vol.9. -  Contos


          

           
Era uma vez uma agulha, disse a um novelo de linha: 
          Por  que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo
?

        - Deixa-me, senhora.
          - Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

         - Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha, Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importa-se com a sua vida e deixe a dos outros.

         - Mas você  é orgulhosa.

         - Decerto que sou.

         - É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

          - Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

          - Você fura o pano, nada mais; eu é que coso., prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

          - Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, quem vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

          - Também os batedores vão adiante do imperador.

          - Você é imperador?

          - Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo ligo, ajunto.
             - Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana – para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
            - Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha e eles, furando abaixo e acima...
             - A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio.
               Na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto dia acabou a obra, e ficou esperando o baile.
       
          Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando a linha, para mofar da agulha, perguntou:
    
         - Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, dia lá.
           Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: 
          - Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
 
         -
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: - Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
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             * APÓLOGO: gênero de expressa uma verdade moral em forma de fábula.

 

 

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