SPINOZA

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Baruch Spinoza     1632-1677


   
Nasceu em Amsterdã, Holanda. Jonh Locke nasceu no mesmo ano. Spinoza era de uma família tradicional judia, de origem portuguesa. Sua família emigrou porque os judeus estavam sendo perseguidos. Seu pai era um comerciante bem sucedido e abastado. Spinoza gostava de estudar e ficava na sinagoga. Era um dos melhores alunos. Aprendeu a Bíblia Sagrada e o Talmund. Então foi para uma escola particular, onde conheceu o latim. Pôde então ter um estudo mais abrangente. Leu sobre a identificação de Deus com o universo, sobre a associação da matéria com o corpo de Deus. Se interessou muito pela filosofia moderna, como Bacon, Hobbes e Descartes. Então foi acusado de heresia, por se mostrar irredutível em suas opiniões Spinoza fez uma análise histórica da Biblía, colocando-a como fruto de seu tempo. Critica os dogmas rígidos e rituais sem sentido nem poder, bem como o luxo e a ostentação da Igreja. 

Por suas opiniões, um homem tentou matá-lo com um punhal. Escapou graças à sua agilidade. Ofereceram uma pensão para ele manter fidelidade à sinagoga e Spinoza recusou. Foi então excomungado, em 1656. Amaldiçoaram-no em ritual. Depois disso, viajou pela Holanda. Os judeus não falavam com Spinoza, mas os cristãos sim. Apesar disso, não se converteu ao cristianismo. Seus familiares quiseram deserdá-lo. Lutou pela herança do pai e ganhou a causa. Mas recusou a recebê-la, só queria fazer valer seus direitos.

Spinoza era meio frágil, pois seus pais eram tuberculosos. Viveu uma vida modesta, frugal e sem grandes luxos. Se sustentava com algumas doações e com o dinheiro de polidor e cortador de lentes ópticas. Mantinha uma relação com amigos e admiradores, e discutia suas idéias. Se correspondeu bastante. Era de altura mediana, pele escura, cabelos escuros e encaracolados e feições agradáveis. Segundo Colerus, se vestia descuidadosamente. Suas principais obras são: Tratado político, inacabado; Tratado da correção do intelecto; Princípios da Filosofia Cartesiana; Pensamentos Metafísicos;que veio de curso particular que deu sobre Descartes, e sua obra prima: Ética Demonstrada pelo método geométrico. Algumas obras suas foram incluídas no Index de livros proibidos. Foi preso sob acusação religiosa e morreu na prisão, aos quarenta e quatro anos.

A vida de Spinoza foi marcada pela sua concepção de Deus. No Tratado teológico político defende uma interpretação da Bíblia diferente da visão dogmática de judeus e cristãos. Diz que a Bíblia está no sentido figurado. Spinoza atacou a falsa noção que se tem de Deus e da espiritualidade. Mais tarde, identificou isso como um erro da mente diz como escapar no Tratado da correção do intelecto. Ainda no Tratado teológico político, diz que as massas tendem a associar Deus com fenômenos extraordinários, que não ocorrem comumente na natureza. O ponto principal do pensamento de Spinoza é a comunhão entre Deus e a natureza. Spinoza critica a religião porque ela está alimentada pelo medo e a supertição. Devemos fazer uma interpretação racional da Bíblia. A diferença entre filosofia e religião é que a primeira busca a verdade e a segunda precisa da obediência para ser realizada. Spinoza saiu da sociedade. Desde que foi excomungado, viveu à parte. Isso implica buscar vivências incomuns às galerias. Spinoza buscou a espiritualidade racionalista, é profunda sua cultura e é clara sua visão de assuntos que estão fora da subjetividade, e envolvem um conhecimento complexo, conhecimento este que nos dias de hoje são marcado pela banalização cultural e a ideologia deturpada pelas derrotas sucessivas. Desse modo , Spinoza, numa época ainda pura nos conceitos, fala de Deus, da alma e da mente. A religião e o Estado devem estar subjugados à eles. Spinoza não acreditava na divindade de Cristo, mas o colocava como o primeiro entre os homens. Spinoza, na mesma época que Locke, defendeu o liberalismo político. Para ele, direitos naturais são as regras do ser. Somos forçados a obedecer as leis naturais, que são divinas e eternas. A ajuda mútua é necessária e útil. Sem ela, os homens não poder viver confortavelmente nem cultivar seus espíritos. O objetivo do Estado não deve ser tirânico (como em Hobbes) mas libertário. O direito natural em Spinoza é compatível com a democracia: é nas grandes massas que a natureza humana melhor se manifesta

Nos seus Pensamentos Metafísicos Spinoza trata dos entes e afecções de um ponto de vista metafísico. Ente é tudo o que existe. As quimeras e o Entes que a razão produz através da representação não são entes. As representações estão dividas em categorias como gênero, espécie, etc. Essa classificação do real ajuda a memória a reter as representações. Descartes influenciou Spinoza, que desenvolveu alguns assuntos do filósofo francês. Spinoza comenta as noções cartesianas de Deus e suas substâncias: o pensamento e a extensão, que existem separados. Spinoza era monista. Pensamento é uma extensão da substância primordial, Deus. A diferença é que Descartes explora o lado gnosiológico, da fundamentação e origem do conhecimento. Spinoza vai para o lado ético, em busca da verdade e do sentido da vida. O racionalismo de Descartes parte em direção à metafísica, o de Spinoza, que defendia Deus como única substância, parte para a imanência. Spinoza vai ao microscópico, Descartes vai ao macroscópico.

Spinoza diz que percebemos o tempo e o espaço (como mais tarde definiu Kant) usando a medida para essas duas extensões. A medida é usada para explicarmos as coisas. Ele explica que a realidade é uma coisa muito mais vasta do que as categorias humanas de entendimento podem conhecer. Isso porque existe a essência. O povo que percebemos confunde o real com a razão, e o filósofo, numa postura investigativa, não pode se deixar enganar. O ente da razão não existe fora da mente.

Deus é o único ser em que a essência coincide com a existência. Isso não acontece com os outros seres. É a causa última de tudo, e as coisas estão em Deus. Essa é uma noção panteísta. E Deus é perfeito. Conhece a si e a tudo objetivamente. As coisas só tem essências na medida em são atributos de Deus. Spinoza desenvolverá isto no Ética. A parte divina do ser é a essência. A essência, a potência, a existência e a idéia só se diferenciam mas coisas criadas. A existência e a essência, nas criaturas humanas,diferem uma da outra por causa da razão. Spinoza chama de afecções aquilo que Descartes chama de atributos. Os entes são afecções de Deus. Dependem dele. Spinoza queria que víssemos as coisas sob o ponto de vista da eternidade. Devemos considerar o mundo objetivo em si, fora das noções subjetivas. Eternidade é o atributo sob o qual concebemos a existência de Deus, como diz nos Pensamentos metafísicos. Eternidade é a junção de essência e existência. O tempo pertence à razão, é um modo de pensar a pluralidade também, pois tudo é Deus, e ele é Uno.

Como Descartes, Spinoza fala que temos a noção clara do que é verdade, pois ela é certa e suprime toda a dúvida. Spinoza fala que o bem e o mal são pareceres, que só existem nas relações. Mas reconhece como bom e na Ética, diz que certas coisas nos são agradáveis, e nos esforçamos para que elas sejam freqüentes. Mas uma coisa tomada em si não nem boa nem má.

Deus é imutável, porque não pode mudar e ser outro Deus. Na natureza tudo são substâncias e seus modos. Deus é simples, a grande substância. Spinoza refuta as distinções do Aristotelismo sobre Deus.

A vida pode ser de dois modos: com uma alma unida ao corpo, e apenas corporal. Tudo está vivo, porque tudo está em Deus e ele é vivo. Spinoza era contra a visão antropocêntrica da divindade. Deus conhece as coisas que criou. Dessa forma conhece os pecados. Mas os pecados só existem na mente humana. Assim , Deus não ama nem odeia os homens. Mas tem seus decretos. É por decreto que ele incita e encoraja os homens.

A onipotência de Deus é dividida em absoluta e ordenada, ordinária e extraordinária. A ordinária é aquela que dá ordem e conserva o mundo. A extraordinária vai contra essa ordem,como no caso dos milagres. Além de ter criado o mundo, Deus o conserva a cada instante.

Apesar de admitir que a potência de Deus também pode destruir, Spinoza afirma que a alma humana é imortal. Pois uma coisa incorpórea não pode destruir-se, nem pode ser destruída por uma coisa criada.

Deus tem muitas leis que estão acima do intelecto humano, e quando esse as vê, parecem milagres. Deus está acima da natureza percebida pela razão. A vontade humana é o seu intelecto.

As riquezas, quando buscadas, absorvem todo o ser do homem, diz Spinoza no Tratado da Correção do Intelecto. O homem gosta de paixão e dos prazeres, mas a eles sobrevém a tristeza. Os prazeres riquezas e honras devem ser um meio, não um fim. Devem existir apenas no necessário para manter a boa saúde.

Spinoza achou quatro tipos de percepção:

A primeira é arbitrária; a segunda vem da experiência; na terceira a essência de uma coisa é tomada pela de outra. Por exemplo quando se acha que o universal sempre é acompanhado de uma propriedade. Não é adequada. A última percepção é a da essência.

Para o melhor modo de perceber, temos de ver quais os meios para conseguirmos nosso fim .
1º temos de conhecer a natureza das coisa e a nossa, para aperfeiçoá-la.
2º temos de deduzir as diferenças e as concordâncias das coisas.
3ºtemos de ver o que essas coisas poder sofrer.
4º temos de associar isso com a natureza e a potência das coisas.

Assim Spinoza, com um estilo que lembra o de Bacon, descreve seu método para melhor percebemos. E chega a conclusão que a melhor percepção é a da essência.

Para começar a se corrigir o intelecto precisamos "continuar conforme a norma de alguma idéia existente e verdadeira e investigar segundo suas leis certas." Devemos saber distinguir a idéia verdadeira dentre as idéias falsas. Durante seus escritos, Spinoza imagina objeções à sua argumentação (que seriam feitas pelos leitores) e responde à elas. Enfrenta o adversário no campo do adversário. Assim é com filósofos e outros teólogos. Também fala contra os ignorantes, que ele chama de vulgo, ou os não-iniciados. O vulgo não consegue entender a filosofia porque não sabe o que lhe sucede, está sujeito às marés das paixões, e por isso cheio de preconceitos.

Spinoza diz que temos mente, em maior parte, idéias verdadeira (apesar de existirem os entes da Razão, que são falsos) Pois não podemos supor uma idéia falsa como verdadeira. Não devemos considerar como o verdadeiras coisas da imaginação, que estão no intelecto. Spinoza se contrasta a Descartes, dizendo que devemos considerar como verdadeiras as coisas da natureza, pois não existe nenhum Deus enganador.

Spinoza fala da memória, mostrando que separamos as coisas por categorias e que se imaginamos um item dessa categoria em separado, visualizarmos bem os detalhes, mas ao misturarmos o que estamos lembrando com outras memórias da mesma categoria, o pensamento se torna confuso. A memória é a "sensação das impressões do cérebro junto com o pensamento de uma determinada duração da sensação".

O Livro Ética demonstrada pelo método geométrico tem uma estrutura clássica, baseado no modelo do matemático Euclides. Dessa forma , temos definição , axioma, preposição demonstração, escólio e corolário. Com esse método, Spinoza queria refutar outros. Esse método por muitos é considerado chato e difícil. Como diz Will Durant, não é para ser lido, mas estudado.

Uma coisa é finita quando podemos limitá-la por outra semelhante. A substância é independente, em si. Há três termos básicos no livro: substância, modo e atributo. O atributo é o que o intelecto percebe da substância. Como vimos, o intelecto precisa ser corrigido para não ser limitante. Deus é absolutamente infinito. Deus é uma substância que não remete a ninguém, exceto à ela mesma é que possui inúmeros atributos. Cada atributo tem infinitos modos.

A liberdade é um estado de ser, quando se existe por si, e necessário quando determinado por outras coisas. A eternidade transcende o tempo, é verdade eterna sem começo nem fim. Essa noção recorre a Platão. Toda causa tem um efeito. Deus é causa primordial que tem inúmeros efeitos. A diversidade de substância é infinita, cada uma é única.

Deus é imanente ao mundo. Para Descartes é transcendente. Existe necessariamente, pois existir é ter potência. E se há potência há alguém para irradiá-la. Na consciência fora de Deus, como Spinoza já expôs nos Pensamentos Metafísicos a existência não envolve a essência. Deus tem intelecto no ato, não em potência. Muitos consideram que Spinoza diz que Deus não tem intelecto, mas Spinoza coloca que o intelecto de Deus são suas ações.

Os homens agem ser conhecer as causas de seus atos. As coisas são atributos e afecções de Deus. O corpo exprime determinadamente parte da essência de Deus, na extensão. A alma é uma coisa pensante (nesse ponto concorda com Descartes, mas ao colocar a alma como substância não). A duração é a continuação da existência. Deus pensa, é extenso, tem idéia da sua essência e do que se segue à ela. As coisas estão compreendidas na essência da idéia infinita de Deus. Ele é a causa de tudo, substância incriada, onipotente e onisciente.

As coisas ficam marcadas na alma, além do intelecto. A memória é uma rede de representações associativas dos objetos. Deus conhece a alma.E a alma conhece à Deus. O pensamento é um atributo divino. A alma não conhece a si mesma, e conhece sem adequação o corpo. A alma não tem vontade nem é livre.Todas as idéias que se referem à Deus são verdadeiras. A mente humana é disposta de tal forma que pode funcionar ordenadamente. Com um certo número de imagens, expressando esse número, há "embaralhamento". Quem tem uma idéia verdadeira, o sabe sem dúvida. Spinoza, desenvolvendo seu lado racionalista diz que a razão percebe a coisa em si e a eternidade, que são comuns à todas as coisas. A mente humana é uma parte do intelecto infinito de Deus. Conhecer Deus eterno e infinito nos ensina a nos conduzirmos perante o dinheiro, coisas fora de nós, suportar a vida, não desprezar, não expor ninguém ao ridículo, não odiar. A moral de Spinoza parte de sua metafísica.

O corpo humano pode ser afetado de diversas maneiras, e sua potência aumentada e diminuída. A alma pode ser passiva ou ativa. As idéias adequadas existem em Deus, são ativas. O corpo humano é mais engenhoso que as máquinas.

Os homens falam demais. A ética de Spinoza tem uma frase: "o esforço para compreender é a primeira e única base da virtude." Existem contrários, que não coexistem num mesmo sujeito. Como as emoções são marcadas na alma, Spinoza dá importância para coisas que parecem óbvias, mas são um elo de um intrínseco pensamento. As emoções conscientes, como gostar de alguma coisa, tem de ser seguidas por querer que essa coisa se repita. O primeiro contato com uma coisa importante, pois sempre associaremos ele. As coisas se esforçam para se perseverar no seu ser. As coisas singulares são manifestações da potência de Deus. A alma é causa do corpo, que é proporcional à ela. Quero dizer, estão unidos e mantém relação.

Para Spinoza, a paixão e perfeição relacionadas com tristeza e alegria constituem a idéia que envolve a essência. A alma repugna imaginar coisas que diminuem sua potência. O amor e alegria remetem à idéia de uma coisa exterior. Assim também é com o ódio e a tristeza. O amor gera amor e o ódio, ódio. O bem é aquilo que é útil, e o mal inútil. O amor faz parte do amor infinito pelo qual Deus ama a si mesmo. Spinoza, como Nietzsche, não aprovava a humildade. Dizia que ela provinha da contemplação da própria fraqueza.

Spinoza influenciou muito a filosofia posterior. Hume cita-o. Não gozou de muita reputação , mas sim desprezo, até que Lessing afirmou não existir outra filosofia senão a de Spinoza. Junto com Fichte e Kant, foi fundamental para Hegel e Schelliing. Nietzsche admirava-o, apesar de discordar. O spinozismo foi inicialmente rejeitado, mas depois, no século XIX foi reabilitado. Influenciou Marx e Freud, que tinham uma visão naturalista do mundo.

 

Época. Spinoza nasceu em uma família judia, a 24 de novembro de 1632, em Amsterdã, Holanda.(o mesmo ano do nascimento de Locke-1632-1704) e veio a falecer em Haia, em 1677. Seu nome hebreu era Baruch, significando abençoado, e em suas obras publicadas em Latim, Benedictus. Viveu dentro da chamada "Idade de Ouro" da história da Holanda, era de grandeza econômica, política, e cultural, apoiada na expansão comercial, durante a qual a pequena nação do Atlântico Norte ombreou com as mais poderosas e influentes nações da Europa. A qualidade de vida tinha um padrão geral de bem estar marcado pela simplicidade e uma proximidade de nível entre as classes e respeito entre as pessoas que não existiam nos demais países europeus, e isto é importante ressaltar para compreender que Spinoza, seguindo sua própria filosofia, viveu simplesmente, o que na rica Holanda daquela época não significava pobreza e muito menos indigência.
Nessa época, além do próprio Spinoza, o filósofo René Descartes viveu e escreveu suas obras na Holanda, por duas décadas.

A Idade de Ouro produziu cientistas como o físico Christian Huygens, o matemático Simon Stevin e os microscopistas Antonie van Leeuwenhoek e Jan Swammerdam; na literatura Joost van den Vondel e na pintura De Vermeer, Ruysdael e principalmente Rembrandt van Rijn. E apesar de tanta grandeza, a Idade de Ouro foi também um período de guerras. As províncias unidas dos países baixos, atualmente Bélgica e Holanda, rebelaram-se contra o domínio espanhol e seguiram-se anos de confronto com a Espanha, em que se destacaram como chefes militares holandeses os príncipes de Orange.

A Família. A família de Spinoza, como o seu nome indica, é originaria da cidade castelhana de Spinoza dos Monteros, na região da cordilheira cantábrica, norte da Espanha. Deixou a Espanha quando o célebre decreto da Alhambra do ano 1492, dos Reis Católicos Fernando e Isabel, proibiu aos judeus a residência no país. Quem não queria o desterro devia aceitar a fé católica. Portugal ofereceu asilo aos emigrados judeus e uma grande parte destes, inclusive a família Spinoza, se estabeleceu lá no mesmo ano de 1492. Mas em 1498, por desejar o monarca português, Dom Manuel o Venturoso, a mão da princesa espanhola, os reis católicos impuseram como condição que Portugal também expulsasse os judeus ou os fizesse batizar. Em consequência a família Spinoza se converte forçadamente ao catolicismo em 1498. O pai de Spinoza, Miguel de Spinoza, nasceu cerca de um século depois, na pequena cidade portuguesa de Vidigueira, na cercania de Beja.

A condição de cristãos novos no final do século XVI era extremamente perigosa, devido à caprichosa investigação que fazia a Santa Inquisição sobre a autenticidade de sua vida católica. Por esta razão, ou por razão de negócios, a família Spinoza, quando Miguel de Spinoza , o pai do filósofo, era ainda criança, foi conduzida por seu chefe, Isaac de Spinoza, avô do filósofo, de Vidigueira para o importante porto de Nantes, no estuário do rio Loire, noroeste da França. Em Nantes, devido ao Édito de tolerância religiosa de Henrique IV, promulgado em 1598, havia uma colônia marrana bem aceita pelos habitantes predominantemente protestantes. Mas esta não durou muito tempo, pois em 1615 todos os marranos foram expulsos. De lá o velho Isaac de Spinoza se trasladou a Roterdã, onde morre em 1627. Miguel de Spinoza e seu tio Manuel foram para Amsterdã. Talvez porque não fosse prudente ser católico em um país que era oficialmente calvinista e que estava em guerra contra a católica Espanha, Miguel e o tio abraçam o judaísmo, este último assumindo o nome de Abraão de Spinoza, embora continuasse sua atividade comercial sob o nome cristão de Manuel Rodrigues.

Miguel de Spinoza se casou três vezes. Sua primeira mulher, Raquel, morreu em 1627 deixando-lhe uma filha chamada Rebeca. No ano seguinte, se casa com Ana Débora, mãe de Spinoza e de mais três filhos, Miriam, Isaac, e Gabriel. Sabemos pouco da mãe de Spinoza, senão que padecia de tuberculose e que morreu em 5 de novembro de 1638, quando Baruch tinha seis anos de idade. Casou pela terceira vez com sua prima Ester de Spinoza, de Lisboa, e esta é quem cuida da educação de seus filhos. Ester morreu em 1652, dois anos antes que seu esposo, que falece o 28 de março de 1654.
Miguel, - que se tornou sócio do estabelecimento comercial de seu sogro e tio Abraham e que o sucedeu na direção do negócio, - foi um dos comerciantes judeus mais respeitados de Amsterdã. A família residia onde atualmente é o bairro Waterlooplein, no qual viviam muitos judeus. Sua casa é descrita, com base nos desenhos que ficaram, como uma casa muito espaçosa porém sem luxo. Foi demolida ainda no século XVIII

Estudos. A educação recebida por Baruch é a de um jovem judeu de família de posses e isto incluía o estudo fundamental do hebreu, e o conhecimento minucioso da Bíblia Sagrada. Supõe-se que Spinoza estivesse entre os primeiros a freqüentar a escola "Árvore da vida", criada em Amsterdã em 1637 para iniciar no judaísmo aos jovens da comunidade. Em 1638 essa Escola foi confiada a Manasseh ben Israel , um rabino Sefardin de cultura humanista, que influiria muito sobre a formação de Spinoza. O ensino que ministravam os rabinos estava dividido em sete classes, que abarcavam desde os fundamentos do idioma até as culminâncias do Talmud; de modo que as últimas classes só se ministravam aos maiores de treze anos que desejassem tornar-se rabinos. Os que não tinham vocação religiosa, como foi o caso de Baruch, podiam aperfeiçoar sua educação religiosa, filosófica e mística na "A academia da coroa da lei" (Kether Thora), criada em 1643 por outro rabino, Morteira, um radical ortodoxo Askenazi, cujo espírito radical terminou por dominar tanto na escola talmúdica "Árvore da vida" como na "Academia da coroa da Lei" que Spinoza também freqüentou. Os estudos superiores compreendiam a obra do filósofo judeu-espanhol Jasdai Crescas e vários ensaios que ensejavam debates, entre eles os "Diálogos do amor" do filósofo renascentista judeu, León Hebreu. Este, do platonismo renovado pelo Renascimento, faz a combinação do conceito de uma razão universal com a teoria das idéias de Platão da qual extrai uma concepção do mundo baseada no amor como força cósmica, e de onde Spinoza desenvolverá sua teoria da razão infinita e das essências.

É igualmente importante a cultura que Spinoza adquiriu com o ex-padre jesuíta Francis van den Enden, estudioso da filosofia clássica, poeta e dramaturgo, e que abriu uma escola para crianças em Amsterdã. Spinoza foi professor em sua escola e com ele aprendeu ciências naturais (física, mecânica, química, astronomia e fisiologia), latim, grego, e a filosofia de Descartes, alem da filosofia neo-escolástica. Van den Enden fazia seus discípulos representarem as comedias latinas. A ele, com certeza, Spinoza deve seu conhecimento profundo do latim, língua em que escreveu sua obra. Van den Enden tinha uma filha, Clara Maria, nascida em 1644 a qual, ainda menina, falava tão bem o latim que, com freqüência, substituía ao pai em suas aulas. Parece que Spinoza a apreciava muito pela sua inteligência e precoce erudição e, mais tarde, segundo seu biógrafo Colerus, se enamorou dela e até quis desposá-la. Clara Maria porém se casou com um condiscípulo de Spinoza, o médico Dirck Kerckrinck, de Hamburgo, que, de acordo com o mesmo Colerus, havia conquistado seu favor com um valioso presente e que se converteu ao catolicismo a seu pedido.

Como matemático Spinoza realizou observações e cálculos sobre o arco-íris, e ocupou-se do cálculo de probabilidades, recém descoberto por Johan de Witt e outros. A caminho da maturidade seu interesse intelectual conduziu-o a uma cultura científica e médica que em todos os terrenos o coloca à altura de seu tempo. Como parte dos estudos de física, tal como todos os sábios de então, inclusive Leibniz e Christian Huyghens, polia ele mesmo suas lentes. Sabe-se que suas lentes eram de grande perfeição, seja pela precisão de seu cálculo matemático, seja por sua habilidade manual, e é provável que tenha aceito pedidos de amigos para prepará-las.

No ano de 1650 falece Guilherme II, Conde de Nassau e Príncipe de Orange, chefe dos Estados Gerais e também Descartes que, tendo deixado a Holanda para viver na corte da Rainha Cristina, falece aquele ano na Suécia. Em 1654 faleceu Miguel de Spinoza.

Ceticismo de Spinoza. O jovem Spinoza, aos vinte anos de idade, começa a levantar suspeitas quanto ao que ensinava e discutia de religião. Seu ceticismo manifesto não é estranho aos jovens das famílias de cristãos novos reconvertidos ao judaísmo. Nem é difícil entender a origem desse ceticismo no próprio espírito marrano. Entre os que foram para Amsterdã, muitos desejavam voltar a ser livremente judeus, porém outros vacilaram em aceitar a fé judaica, continuando católicos. Outros ainda, desejam voltar ao judaísmo, mas não encontram lá a mesma tradição judaica de Portugal e Espanha, a grande tradição do judaísmo sefardim, representada por Maimónides. Um exemplo é o caso de Uriel da Costa, membro de uma família de cristãos-novos rigorosamente católicos, e que chega em Amsterdã, por volta de 1612. Havia recebido já os hábitos sacerdotais quando se converte ao judaísmo de seus ancestrais. Porém o judaísmo ashkenasi holandês, sistemático e fanaticamente ortodoxo, não o satisfaz, e vive um drama que o leva ao suicídio. Em geral a comunidade portuguesa de Amsterdã, unida pelo idioma e a procedência, se considera a si mesma como uma nação; está constituída por um mundo de altos comerciantes para quem a religião não é um problema fundamental. Si aderem ao judaísmo é porque em um Estado fundado pelos calvinistas se sentem mais seguros assim que sendo católicos, e não têm necessidade de se fazerem calvinistas.

O estudo da Bíblia levou Spinoza às obras dos comentadores judeus e entre estes aprendeu a estimar, em primeiro lugar, a Abraham ibn Ezra quem deve ter-lhe despertado as primeiras dúvidas sobre a unidade do Pentateuco, o que pode tê-lo movido ao exame crítico das Escrituras. Também Gersonides, ao assinalar as discrepâncias da cronologia bíblica. Em Maimónides, que reúne, como escolástico judeu, a Bíblia e a concepção aristotélica do mundo, encontra talvez Spinoza sua maior inspiração humanista e anti-ortodoxa. No grupo de autores judeus que Spinoza chegou a estudar na comunidade de Amsterdã, pertence também Abraham Herrera, que em seu "Porta do céu" une em forma original a mística do neoplatonismo com as especulações da Cabala.

Outra grande influência sobre Spinoza é a do médico Juan (Daniel) de Prado, que com ele será expulso da comunidade; este exerce sobre Spinoza uma influencia maior e mais imediata. Aceita um naturalismo puro enquanto nega a verdade da Escritura e do Deus nela revelado, para substitui-lo por um Deus-Natureza que se manifesta nas leis naturais. Para o ceticismo de Spinoza contribuíram igualmente as disputas dentro da própria comunidade judaica de Amsterdã, dividida na oposição pessoal dos dois rabinos principais, os citados Menassé ben Israel e Saúl Levi Morteira. O primeiro, sefardim nascido em Lisboa, é humanista, e o segundo, Morteira, nascido em Veneza, é aschkenasi, um fanático radical.

A oposição dos dois rabinos determina conflitos dramáticos. Menassé ben Israel busca uma sínteses do judaísmo com o humanismo e goza de mais alto conceito entre os intelectuais holandeses. Morteira, ao contrário, quer um judaísmo voluntariamente segregado, a forma religiosa estreita dos judeus orientais ou aschkenasis, dominada pela Cabala, a teologia emanatista medieval, carregada de profundo sentido místico penetrado de superstições pueris. Seu livro "" Providência de Deus com Israel" (ou "Esperança de Israel"), devido à orientação fanática anticristã, não teve permissão para publicação mas cópias circularam na comunidade e, graças a ele, Morteira triunfa sobre seu adversário: o espírito do judaísmo aschkenasi domina na comunidade judaica de Amsterdã, uma fórmula religiosa do século XV em desacordo com o espírito científico do século XVII. Os judeus que, portadores da tradição humanista portuguesa, eram socialmente integrados e viviam em palácios, viram-se constrangidos por uma religião de gueto, potencialmente criadora de profundos conflitos.

O que a todos comentaristas de Spinoza parece, é que, em um mundo de tantas tendências variadas e algo contraditórias, ele teve que buscar uma solução própria. Não seguiu a Morteira como toda a comunidade, pela senda do judaísmo aschkenasi, nem tão-pouco aceitou a linha de Menassé.

Expulsão da Comunidade Judaica. Spinoza logo incorreu na desaprovação das autoridades da sinagoga, por suas afirmações junto aos rabinos, como a de que não havia nada na Bíblia afirmando que Deus não possuía um corpo físico, que os anjos realmente existissem como espíritos sem corpo, ou que a alma humana fosse imortal fora do corpo. Porém, depois daquelas afirmações, o acusaram de ateísmo ante a comunidade e foi instaurada a correspondente devassa. Spinoza foi convidado a comparecer ante Morteira, e frente à ameaça de excomunhão, teve uma atitude arrogante. Declarou que já havia desejado romper com a Sinagoga, mas evitara faze-lo para não provocar um escândalo. Frente à acusação, dirigiu aos rabinos um escrito em que reafirma suas convicções. Deve ser desta ocasião, em 1655, a preparação por Spinoza do seu Tractatus de Deo et homine et jusque felicitate, em que se defende explicando seus pontos de vista. A congregação não teve alternativa senão aplicar-lhe a excomunhão. O texto da excomunhão de Spinoza, publicado o 27 de julho de 1656, diz ao final: "Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste nenhum favor, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia nada escrito ou transcrito por ele". Até que ponto havia chegado a rejeição a Spinoza pelos fanáticos da comunidade mostra o atentado que o vitimou: uma noite, alguém tentou apunhala-lo no caminho de sua casa, quando voltava da Sinagoga. Conseguiu esquivar-se ao golpe do punhal que apenas rasgou sua casaca.

A vida de Spinoza fatalmente sofreria uma mudança quando ele se afastou do judaísmo. Estava então, juntamente com seu irmão Gabriel, à frente do negócio deixado por seu pai quando este faleceu em 1654. Tratava-se de um comercio de importação e exportação, uma tradição de negócio que vinha de Portugal, onde as transações ultramarinas estavam quase inteiramente em mãos dos marranos portugueses. Essa prática comercial envolvia vultosas operações bancárias e importantes contratos de seguros entre os judeus. Porém o negócio de Miguel d'Spinoza havia decaído muito nos últimos anos de sua vida, correspondentes ao período em que a guerra entre Inglaterra e Holanda havia prejudicado o comercio com o exterior. Esta dificuldade e principalmente o peso de sua condenação levaram Spinoza a renunciar à profissão mercantil. Seus biógrafos acreditam que se dedicou à medicina, pois em seus escritos mostra profundos conhecimentos médicos, e sua biblioteca contem todas as obras de medicina teórica e prática necessárias ao médico em aquela época. Até uma carta de Leibniz está dirigida ao "Médecin tres célebre et philosophe tres profonde". Com estos estudos médicos estão relacionados seguramente seus conhecimentos químicos. Quando aconselha De Vries no planejamento de seus estudos de medicina, lhe recomenda que estudasse primeiro anatomia e depois química. Seus estudos químicos são os que lhe permitem manter com o grande químico Roberto Boyle uma correspondência científica, baseada em experimentos próprios, acerca da natureza do salitre.

Além do negócio, seu pai deixou um legado que foi objeto de contenda entre Spinoza e uma meia irmã. Os parentes tentaram então excluir a Spinoza da herança, pretextando, tal vez, sua apostasia, pois segundo a lei judaica é permitido deserdar ao que ha desertado do judaísmo. Para defender seus interesses frente aos credores de seu pai, se lhe designou um tutor o 23 de março de 1656. (Em Holanda a maioridade de começava então aos 25 anos). Embora tenha ganho a causa na justiça, Spinoza deixou para ela praticamente tudo. Quando teve lugar a repartição de bens, solo se ficou com uma cama e sua correspondente cortina para seu uso pessoal. Com essa injustiça, o distanciamento de sua família foi definitivo.

Os colegiantes. Depois de sua voluntária ruptura com o judaísmo, Spinoza se liga a uma irmandade ecumênica leiga, de pessoas das mais diversas comunidades religiosas que se reuniam para ler e interpretar a Bíblia. Sequer a condição de ser cristão era exigida. Conhecidas como os colegiantes, faziam da Bíblia o centro de sua vida religiosa, e certamente estimaram muito a entrada de Spinoza, por seus profundos conhecimentos bíblicos.

O primeiro de seus amigos do círculo dos colegiantes foi o rico comerciante Jarig Jelles, o qual havia abandonado seu negócio em mãos de um gerente de confiança a fim de viver em retiro silencioso para meditar. Jelles empregava fundos em mandar traduzir obras filosóficas, entre as quais as obras de Descartes, de quem era admirador. Fez traduzir o pensamento estóico de Séneca e inclusive a Homero e ao Corão. Deve ter se alegrado em receber Spinoza no grupo, pois seus pensamentos se afinavam, tanto quanto ao interesse pela filosofia de Descartes quanto por suas posições religiosas em comum. Fixou uma pensão para que Spinoza pudesse ocupar-se exclusivamente de escrever e financiou a publicação de seus livros e, após a morte do filósofo, mandou cuidadosamente, junto com outros amigos de Spinoza, editar em latim e holandês suas obras.

O outro amigo, colegiante como Jelles foi Pedro Balling, também comerciante e cujos negócios o levavam por toda Península Ibérica, donde a possível base de sua amizade com Spinoza ser o fato de poder conversar com o filósofo na língua materna de sua família. Inteligente e conhecer do grego e do latim, foi quem traduziu para o holandês os primeiros escritos de Spinoza.

Um terceiro amigo, mais jovem e também colegiante, foi o citado Simón de Vries. Filho de um próspero comerciante pretendia ser médico contando para isto com a orientação de Spinoza. Juntamente com os demais amigos, de Vries funda, em Amsterdã, uma agremiação para estudar e discutir a filosofia de Spinoza, com a assistência do próprio filósofo. Era mais moço que Spinoza, porém falece em l 667. De Vries ofereceu a Spinoza a soma de dois mil guldens para que pudesse viver mais folgadamente, mas o filósofo recusou a oferta, alegando que em absoluto necessitava daquela quantia, que poderia inclusive leva-lo a distrair-se de seu trabalho e de suas pesquisas. De Vries, que veio a falecer solteiro, também quis fazer de Spinoza seu único herdeiro, quando o filósofo exigiu dele que deixasse sua fortuna para seu irmão Isaac de Vries, seu herdeiro legal, que vivia em Schiedam. Vries obedeceu, porém com a condição de que Isaac pagasse a Spinoza uma pensão vitalícia. Cumprindo essa condição, Isaac de Vries fixou a pensão em quinhentos guldens, porém Spinoza o fez reduzi-la a apenas trezentos.

Alguns colegiantes amigos de Spinoza foram políticos importantes. Conrado van Beuningen, foi prefeito de Amsterdã e embaixador na França e na Suécia. Mandou publicar as obras do filósofo alemão Jacobo Boehme e aceitou a concepção de Deus postulada por Spinoza. Outro foi Conrado Burgh, ministro das finanças. Um terceiro político foi Nicolás Tulp, cunhado de Burgh, médico e também prefeito de Amsterdã, famoso pelo retrato feito por Rembrandt de uma de suas aulas de anatomia; e também ainda outro prefeito de Amsterdã, conhecido por seus trabalhos de óptica, Juan Hudde, com quem Spinoza manteve correspondência filosófica sobre o problema da unidade de Deus. Por último, pertenceu ao mesmo círculo Juan Rieuwertsz, o editor da maior parte dos livres-pensadores que procuravam editores holandeses, e que editou toda a obra de Spinoza.

Em 1661 Spinoza sentiu a necessidade de buscar um local de residência mais tranqüilo para melhor meditar as obras que preparava. Refugiou na tranqüila aldeia de Rijnsburg, que era o centro dos colegiantes, nas proximidades de Leyden. Em Rijinsburk, de 1661 a 1662, Spinoza dividiu a morada com o cirurgião Hermann Homam, e ali escreveu "Pequeno tratado sobre Deus, o homem e sua felicidade" e o seu Tractatus de Intellectus Emendatione ("Tratado sobre o melhoramento do Intelecto"). Ele também completou a maior parte da sua "versão geométrica" da obra de Descartes, Principia Philosophiae com o apêndice Cogitata Metaphysica ("Pensamentos metafísicos") e também a primeira parte de sua "Ética", a qual dividiu em cinco partes: A respeito de Deus; A natureza e origem do espírito humano; Natureza e origem das emoções; A escravidão humana, ou a Força das emoções; e Poder do conhecimento, ou Liberdade humana. Nessas obras Spinoza envereda pela contestação ao dualismo cartesiano, e utiliza notas que havia feito nos debates do círculo de Amsterdã. Em Rijnsburg foi visitado, no verão de 1661, pelo acadêmico anglo-alemão Heinrich Oldenburg, que logo seria um dos dois primeiros secretários da Royal Society em Londres. O ano de 1662 é provavelmente aquele em que Spinoza, completa o Tractatus de intellectus emendatione.

Período do Tratado Político. A partir de 1663 e até 1670 Spinoza viverá na pequena aldeia de Voorburg, nas imediações de Haia, e onde seus contactos políticos serão maiores. O mesmo grupo de amigos políticos de Amsterdã, os citados Conrado van Beuningen, Juam Hudde e Conrado Burgh, pode encontrar-se com ele mais facilmente, por virem freqüentemente tratar assuntos políticos em Haia, sede da Assembléia dos Estados Gerais que governava as províncias unidas do estado holandês. Porém trava relações com várias outras figuras importantes, membros da Assembléia, cuja proteção será importante para poder publicar suas obras. Aqui começa o conhecimento e amizade de Spinoza com o chefe do Estado Holandês, Johan de Witt. Consta que Spnoza não os procurava porém os recebia em sua casa onde políticos e pessoas eminentes iam visitá-lo.

Em Vooburg Spnoza alugou seus aposentos em casa do pintor Daniel Tydeman. Não gozou boa saúde no período em que lá residiu. Sofria febre freqüente, e tratava-se com sangrias e extratos de rosa, um antitérmico então em uso. Evitava sair conforme o tempo não estivesse favorável. Permanecer em casa provavelmente motivou-o a aprender desenho, possivelmente com o próprio pintor. Pelo menos dois biógrafos afirmam que tiveram em mãos um livro de desenhos de Spinoza, em que apareciam retratos de muitos homens eminentes seus amigos.

O "Princípios da filosofia" escrito por Spinoza em Rijnsburg apareceu em 1663 em língua latina, com o título Renati des Cartes Principiorum Philosophiae Pars I et II, com o apêndice Cogitata Metaphysica, e no ano seguinte vertido para o holandês pelo amigo Pedro Balling. Foi sua única obra assinada, publicada durante sua vida. Em parte o propósito desse trabalho era evidenciar que conhecia Descartes, o qual ele refutava nas obras que iria completar e publicar. Parece que em meados de 1665 ele estava próximo de completar sua "Ética". Durante os próximos anos, no entanto, ele prefere trabalhar no seu Tractatus Theologico-Politicus o qual, seguindo a mesma cautela então em voga entre os filósofos, ele fez publicar anonimamente em Amsterdã em 1670. Com certeza Spinoza considerava esse trabalho indispensável para desarmar os espíritos, a fim de lançar em seguida a sua Ética.

O "Tratado teológico-político" foi escrito para mostrar que não apenas a liberdade de filosofar era compatível com a piedade religiosa e com a paz do Estado, mas que tirar essa liberdade era destruir a paz pública e inclusive própria piedade. Ele argumenta também que a inspiração dos profetas do Velho Testamento compreendia apenas sua doutrina moral e que em matéria de mundo físico as crenças que tinham eram meramente aquelas próprias do seu tempo e não tinham importância filosófica. Completa liberdade para a especulação científica e metafísica era portanto consistente com tudo que é importante na Bíblia. Os milagres são explicados como eventos naturais mal interpretados e exagerados para maior efeito moral. Buscou demonstrar que a Bíblica, propriamente interpretada, não da nenhum apoio à intolerância religiosa ou para a interferência do clero nos assuntos civis e políticos.

À época em que Spinoza escreveu seu "Tratado", o destino político da Holanda estava em jogo. Parecia inevitável que, quando De Witt deixasse o poder, o príncipe de Orange trataria de ser soberano. Seria o fim da República colegiada e a volta da monarquia desejada pelo partido orangista. Spinoza se preocupa com a constituição do Estado, fosse ele monárquico ou aristocrático, "para que não sucumbisse à tirania e ficassem intactas a paz e a liberdade dos cidadãos", fazendo uma minuciosa exposição e crítica das constituições do tipo monárquico e aristocrático. Exige a participação do povo no Estado e a cooperação regular do povo com a aristocracia. Suas idéias tinham, portanto, enorme importância política, porque favoreciam aos partidários da república, então comandada por Johan de Witt, e contrariavam as pretensões de Guilherme III, príncipe da casa de Orange, de transformar as províncias unidas em uma monarquia, o que contava com o apoio dos calvinistas ortodoxos.

Em maio de 1670 Spinoza mudou-se para Haia, imediatamente depois da publicação do Tratado teológico-político. Vai morar no bairro mais tranqüilo da cidade, onde viviam então numerosos intelectuais e artistas., primeiro em casa de uma senhora viuva, van Velen, e depois, na primavera de 1671, em casa do pintor Hendrick van der Spyck, em Paviljoensgracht, onde ficou até sua morte.

Em Haia os calvinistas ortodoxos, dominantemente monarquistas ou do "partido orangista", levantaram denuncias contra o "Tratado", que em 1669 foi denunciado pelo Conselho da Igreja calvinista de Amsterdã como "um instrumento forjado no inferno por um judeu renegado e o demônio, e publicado com o conhecimento do Senhor De Witt". Para os contemporâneos era evidente que seu autor estava em íntima relação com a pessoa e a política do Chefe da Confederação das Províncias ou Estados Gerais. Suas relações eram muito próximas e conhecidas. Seu biógrafo e contemporâneo Lucas diz que De Witt ouvia a opinião de Spinoza sobre questões políticas importantes, discutia com ele questões de matemática, pois ele mesmo, De Witt, conquistou fama de matemático notável no estudo das seções cônicas e no cálculo de probabilidades, enquanto Spinoza, por sua vez, escreveu um opúsculo sobre o cálculo de probabilidades, motivo pelo qual manteve em correspondência com um tal van der Meer. Os protestos contra o "Tratado" não alcançaram nenhum resultado enquanto Johan de Witt teve em suas manos o leme do Estado. A obra provocou grande interesse e teve cinco edições sucessivas nos cinco anos seguintes. Mesmo depois do assassinato De Witt em 1672 não se produziu nenhuma intervenção e o livro alcançou ainda duas edições mais devido ao extraordinário interesse que despertou em toda a Europa. Mas quando Guilherme III, para afirmar seu poder, se liga cada vez mais com a ortodoxia calvinista, tem fim a liberdade do "Tratado". Por um édito de 1674 a Assembléia dos Estados Gerais, agora chefiada pelo príncipe de Orange, o proíbe junto com outros livros considerados contrários à religião do Estado.

Últimos anos.

Certamente Spinoza sentiu a morte do pintor Rembrandt (nascido em Leiden em 1606) ocorrida em Amsterdã, em 1669.
Em 1671 Leibniz, sabendo-o uma autoridade em ótica enviou para Spinoza o seu Notitia opticae promoteae;
Spinoza retribuiu a gentileza enviando-lhe uma cópia do Tractatus Theologico-Politicus que interessou profundamente o filósofo alemão.

Em 1672 os franceses invadiram as Províncias Unidas. Os holandeses abriram os diques do mar e conseguiram manter o inimigo a um dia de marcha de Amsterdã. Johan de Witt e seu irmão foram considerados responsáveis pela invasão e foram linchados por uma multidão em 20 de agosto. Guilherme de Orange foi feito Capitão-General das Províncias Unidas. O linchamento de De Witt levou Spinoza a planejar colocar cartazes denunciado a barbárie - um ato que poderia ter custado sua vida não tivesse ele sido à força impedido de executá-lo pelo senhorio da casa em que morava. Elaborou um cartaz taxando de bárbaros os responsáveis pelo assassinato e pretendia fixá-lo no lugar do crime. Mas seu senhorio van der Spyck fechou a porta impedindo-o de sair, de modo que teve de desistir de seu inútil e perigoso propósito.

No ano seguinte, l673, recebeu um convite da Universidade de Heidelberg. O nobre príncipe eleitor palatino Carlos Luís, que reconstruiu seu país sobre as ruínas da Guerra dos Trinta Anos, pretendendo superar os conflitos religiosos funda um Templo da Concórdia para o culto comum das três confissões cristãs. Spinoza, que em seu Tratado teológico-político expõe os dogmas de uma fé comum, devia parecer-lhe o homem mais indicado para ensinar filosofia em sua Universidade. Encarrega ao geólogo Luís Fabritius de escrever a Spinoza oferecendo-lhe a cátedra de professor titular de filosofia. Porém não fica claro para Spinoza se poderia gozar de completa liberdade de pensamento o que o faz recusar o convite.
A decisão de Spinoza foi sensata porque, de fato, a Universidade de Heidelberg foi fechada no ano seguinte, ao ser ocupada a cidade pelos franceses.

A situação de Spinoza em Haia ficou perigosa em maio de 1673, quando ele foi para Utrecht (então sob ocupação francesa) com vistas a uma possível negociações de paz. Spinoza recebeu um convite do chefe supremo do exército francês, o grande Condé, que havia ocupado a maior parte de Holanda, para que o filósofo lhe fizesse uma visita em seu quartel general de Utrecht. O oficialato francês em campanha desejava de Spinoza um esclarecimento sobre a situação religiosa da Holanda, que supunham não era puramente protestante e estava cheia de católicos e de sectários de várias correntes. Spinoza aceita o convite e empreende a viagem a Utrecht através das tropas inimigas com a aprovação dos regentes holandeses que viram com esperança a probabilidade de se fazer a paz, e aquela era a ocasião para sondar as perspectivas por meio de uma conversação, não comprometedora, com o general inimigo. Mas a missão de Spinoza não teve êxito, porque Condé havia partido de Utrecht e Spinoza esperou inutilmente seu regresso durante algumas semanas. No seu retorno, várias semanas depois, ele foi recebido mal pela desconfiada população de Haia, correndo rumores de que era espião francês.

Em Haia Spinoza começou a compor uma gramática hebraica (Compendium Grammatices Linguae Hebraeae), mas não a terminou; em lugar disso, ele retomou o trabalho de redação da "Ética". Apesar de toda a cautela guardada ao preparar sua Ética, transpirou que preparava uma publicação cheia de idéias revolucionárias. Os representantes da Igreja calvinista iniciaram a luta em toda Holanda contra o livro, e apelaram ao governo para impedir sua publicação. Quando em 1675 termina essa obra, não consegue publicá-la. Havia se difundido o rumor de que estava no prelo um libro seu sobre Deus, no qual tratava de demostrar que Deus não existia. Alguns teólogos apoiados por certos cartesianos que queriam limpar-se de toda suspeita de simpatizar com Spinoza, o acusam ante o príncipe de Orange. "O assunto toma dia a dia um vulto mais grave", escreve Spinoza a Oldenburg. Porém a obra circulou em cópias manuscritas entre seus amigos mais íntimos.

Spinoza não para de escrever. Empreende alguns trabalhos menores, faz anotações à margem do "Tratado teológico-Político", e trabalha em sua gramática da língua hebrea que antecipa posições da moderna filosofia do linguagem, além de um opúsculo sobre o arco-iris, publicado depois de sua morte. Mas o trabalho fundamental dos dois últimos anos de sua vida foi o" Tratado Político", no qual expõe sua teoria do Estado e projetos de constituições para os estados monárquicos e aristocráticos, e que não viveu para completar.

Depois que a Ética ficou conhecida, Spinoza foi procurado por muitas pessoas importantes. Destes, o mais notável foi Gottfried Wilhelm Leibniz, o qual era, como Spinoza, um dos mais destacados racionalistas da época. Ambos os filósofos haviam trocado exemplares de obras suas alguns anos antes ( vide acima) e por último Leibniz havia tentado em vão conseguir uma cópia manuscrita da Ética. Vindo de Paris, Leibniz visita a Spinoza em Haya em 1676. Na ocasião Leibniz, nascido em 1646, contava 29 anos. Falaram sobre as leis cartesianas do movimento, sobre uma nova forma da prova ontológica proposta por Leibniz, ocasião em que Spinoza lhe mostra o manuscrito de sua Ética e lê para o colega algumas partes. De acordo com Leibniz, nessa visita eles conversaram longamente muitas vezes. Outro ilustre visitante foi Ehrenfried Walter von Tschirnhaus (em 1675), um cientista e filósofo que se interessava especialmente pela teoria do método. Com Tschirnhaus trocou uma correspondência sobre questões filosóficas relativas ao conhecimento, com grande interesse por parte de Tschirnhaus que mais tarde publicaria uma Medicina do Espírito ou Psicologia. médica.

De declarações de quase todos os que o visitaram ou com ele conviveram se pode compor os traços gerais da personalidade de Spinoza. Leibniz diz da figura de Spinoza que ele tinha uma cor azeitonada, o que é comum aos povos do Mediterrâneo. Tinha traços típicos portugueses e espanhóis conforme a descrição de seu principal biógrafo, o citado Colerus, que o apresenta de mediana estatura, rosto moreno, cabelos negros e ondulados e sobrancelhas largas e negras.
Segundo os donos da casa onde alugou seus aposentos suas maneiras eram tranqüilas e reservadas; às crianças da casa ele aconselhava obediência aos pais, e que assistissem aos serviços religiosos. Estando em casa passava a maior parte do tempo recolhido ao seu trabalho, se bem que gostasse de conversar com o senhorio sobre variados assuntos enquanto se dava ao prazer de fumar um cachimbo. Sua simplicidade impedia que suas maneiras reservadas fossem tomadas por alguém como pretensão de superioridade. Vestia-se bem e disse do estereótipo dos filósofos: "Uma aparência suja e descuidada não nos transforma em sábios". Diz um seu biógrafo que no ambiente refinado do quartel general francês onde foi recebido, se admiraram da natural distinção de seu porte. O marechal francês Charles Saint Dénis, Seigneur de Saint Evremont, hospede do príncipe de Orange, Guilherme III, ateu e autor de memórias, logo que chega à Holanda, em 1665, visita a Spinoza em Voorburg e o descreve: "Spinoza era de mediana estatura e de fisionomia agradável. Seu saber, sua discrição e sua independência faziam que todas as pessoas inteligentes de Haia o apreciassem e buscassem seu convívio". Se diz geralmente que não só ensinou sua filosofia, como também que ele próprio a seguiu. Viveu suas próprias máximas: "Dos prazeres fazer uso só do necessário para conservar a saúde. Adquirir dinheiro ou outros bens só na medida necessária para subsistir e conservar nossa saúde e para adaptar-se a uma vida social que não seja contraria a nossos fins". Aceita a alegria como um bem em si e rechaça a tristeza porque nos deprime. "Quanto maior é a alegria que nos invade, tanto maior é a perfeição que alcançamos".

Spinoza morreu inesperadamente em 21 de fevereiro de 1677. Havia chamado ao médico Jorge German Schuller, de seu círculo de amizades, um alemão nascido em Wesel em 1651 que exercia sua profissão em Amsterdã e era aficionado aos experimentos de alquimia. Schuller estava presente quando faleceu. Seu corpo foi sepultado na Nieuwe Kerk (Igreja Nova), no Spuy, a igreja da aristocracia cristã. Faleceu solteiro sem deixar herdeiros, e seus pertences foram leiloados. A lista de objetos foi conservada e inclui 160 títulos de livros.

Seguindo instruções do filósofo, vários amigos prepararam seus manuscritos secretamente para publicação e os enviaram a um editor em Amsterdã. A Opera Posthuma ( Ethica, Tractatus politicus, Tractatus de intellectus emendatione, Epistolae, Compendium Grammatices Linguae Hebrae e também suas cartas foram publicados antes do fim do ano de 1677. O seu "Sobre o arco-íris" e o seu "Sobre o cálculo das oportunidades" foram impressos juntos em 1687. O "Pequeno tratado sobre Deus, o homem e sua felicidade" somente foi conhecido quando publicado bem mais tarde, em 1852.

FILOSOFIA

Teoria do Conhecimento. A filosofia de Spinoza é considerada uma evidente resposta ao dualismo da filosofia de Descartes (1596-1650) a qual, na opinião dele, fazia o mundo impossível de ser entendido. Era impossível explicar a relação entre Deus e o mundo, ou entre o espírito e o corpo, ou apresentar fatos devidos a uma vontade livre.

Spinoza sustentava que existe um sentido no qual as definições podem ser corretas ou incorretas. Uma definição confiável, ele afirmava, deveria deixar clara a possibilidade ou a necessidade, conforme possa ser o caso, da existência do objeto que foi definido. Portanto, uma definição correta é sempre verdadeira e a partir dessa definição se podem deduzir outras verdades; e por via de tais deduções é possível construir um sistema metafísico isto é, uma apresentação do mundo como um todo perfeitamente inteligível. Estava convencido de que cada aspecto da realidade é necessário e que toda possibilidade logicamente coerente deve existir. Portanto é possível demonstrar a metafísica dedutivamente, através de uma série de teoremas derivados, etapa por etapa, de conseqüências necessárias a partir de premissas auto-evidentes, expressas em termos que são auto-explicativos ou definidos com uma correção inquestionável. Porém tal método garante conclusões verdadeiras somente se os axiomas são verdadeiros e as definições corretas. Com este pensamento, voltou-se para o método geométrico à maneira dos Elementos, de Euclides. Sua obra prima, a "Ética", foi escrita desse modo - "Ordine Geometrico Demonstrata". O que Spinoza quer dizer com "prova geométrica" é precisamente que, se aceitamos as definições e os axiomas dados, e desde que as deduções sejam corretamente feitas, então temos que aceitar as conclusões. Cada uma das cinco partes da "Ética", sua obra fundamental, abre com uma lista de definições e axiomas, dos quais são deduzidas várias proposições, ou teoremas. Porém, porque a Ética começa justamente com uma definição básica, a definição de "substância", que é aquilo que necessariamente existe, fica claro que, se rejeitamos sua definição de substância estamos rejeitando todas as deduções que ele faz a partir dela; rejeitando, portanto, todo o seu sistema.

Spinoza recomenda que façamos uma cuidadosa distinção entre as várias formas de conhecimento e confiemos apenas nas melhores. Primeiro, existe o conhecimento por ouvir dizer, pelo qual, por exemplo, sei o dia de meu nascimento. Segundo, existe a experiência vaga, o conhecimento "empírico" no sentido depreciativo, como quando um médico sabe de um tratamento, não através da formulação científica de testes experimentais, mas por uma "impressão" de que "costuma" dar certo. Terceiro, existe a dedução imediata, ou seja, conhecimento a que se chega pelo raciocínio, como quando concluo da imensidade do sol por saber que a distancia diminui o tamanho aparente dos objetos. Este último tipo de conhecimento é superior aos outros dois, mas está ainda sujeito a uma repentina refutação pela experiência direta.

Quarto, a forma mais elevada de conhecimento, que provém da dedução imediata e da percepção direta, como quando vemos imediatamente que 6 é o número que falta na proporção, 2: 4 :: 3: x; ou quando percebemos que o todo é maior que a parte. Spinoza acredita que os homens versados em matemática conhecem Euclides principalmente por essa forma intuitiva; mas confessa tristemente que "as coisas que com segui saber através dessa forma conhecimento têm sido muito poucas até agora".

Comentando o conhecimento empírico, Spinoza sustentou que toda experiência dos sentidos e toda generalização não científica a partir dessas experiências é inadequada. Nenhum objeto pode ser isolado do resto da natureza; portanto, ninguém pode afirmar a verdade total sobre ele, uma vez que isto envolveria a natureza inteira. O conhecimento deste tipo foi chamado por Spinoza opinião ou imaginação. Se, no entanto, como acontece na terceira forma, a consciência é dirigida somente para aquelas propriedades que todos os objetos tem em comum, não haverá a distorção que ocorre na experiência dos sentidos. Este tipo de conhecimento é chamado razão. Por esse caminho Spinoza dava conta da possibilidade do conhecimento a priori na geometria, física geral e psicologia geral.

A quarta forma, que é a intuição, parece ser adequada ao conhecimento dos objetos individuais. É possível, pela intuição afirmar de qualquer coisa que ela depende de Deus como sua causa completa, imanente. Talvez pelo termo intuição Spinoza referisse a um tipo de experiência mística, o insight acompanhado por uma forte emoção que ele chamou "o amor intelectual de Deus" na dependência de todas as coisas, incluindo o ser humano ele mesmo, no total da natureza.

Deus. Na primeira parte da "Ética", "Com respeito a Deus", Spinoza, após apresentar as definições e axiomas pertinentes, deduz 36 proposições sobre a natureza de Deus. Destas a mais importante sem dúvida é a 14, que diz: "Além de Deus, nenhuma substância pode ser dada ou concebida". Ela é a proposição panteísta de Spinoza, na qual ele faz Deus idêntico ao universo; tudo que existe, sob qualquer forma, é parte de Deus. Esta proposição conflita com a idéia mais comum de que Deus é transcendente, distinto da sua criação, separado do mundo físico e dos homens. O argumento de Spinoza a esse respeito é o seguinte: Não é possível existirem duas substancias com os mesmos atributos; ora, Deus tem todos os atributos; então não sobra qualquer atributo possível que já não esteja em Deus e portanto nenhuma outra substancia pode existir além de Deus mesmo.

Pensamento e extensão são dois atributos. Existem coisas que são pensamento e existem as coisas do mundo físico que têm a extensão. No entanto, para Spinoza, Deus já possui necessariamente esses dois atributos, pensamento e extensão, porque sua perfeição exige que tenha todos os atributos possíveis. Consequentemente esses atributos não pertencem a uma substância "pensamento" ou a uma substância "coisa física" e sim pertencem a Deus que tem todos os atributos possíveis. Logo, Deus é a única coisa que existe. Necessariamente, as outras coisas só existem em Deus mesmo, como parte d'ELe.

Spinoza chama de substancia aquilo que verdadeiramente existe, o ser interior ou a essência. Substancia então é aquilo que eterna e imutavelmente é, aquilo que pode ser pensado como tendo existência completamente independente e do qual todo o resto participa como forma ou modo transitório. Porque não pode ser explicada por nenhuma outra coisa, ela deve ser sua própria causa, ou necessariamente existente. Como tal, pode haver apenas uma única substância, e Spinoza a identifica com Deus e ao mesmo tempo com a Natureza inteira. Spinoza assim aporta ao panteísmo.

Mas, ainda assim, Spinoza não exclui que haja um Criador e a coisa criada. Spinoza concebe a natureza, que é Deus, sob um duplo aspecto. Como um processo ativo e vital, que chama "natura naturans", natureza criadora; e como o produto passivo desse processo, "natura naturata" natureza criada, a matéria e o conteúdo da natureza, suas florestas e ventos e águas, suas colinas e campos e miríades de formas externas. E assim explica essas duas naturezas contidas na substância (que seria Deus ou uma natureza geral): Se duas coisas, dois universos, tiverem os mesmos atributos, então trata-se da mesma coisa, ou do mesmo universo, ou da mesma substância, como visto. No entanto, a substância única, que contem todos os atributos, pode mostrar diferenças, não nos atributos, porém no que Spinoza chama "modos". Um modo (ou modificação) é uma propriedade mais restrita do universo, o modo como um atributo aparece em um nível inferior. Modos variam, aparecem e desaparecem.

Um modo é uma coisa ou acontecimento individual, qualquer forma ou aspecto especial, que a realidade assume transitoriamente; você, seu corpo, seus pensamentos, seu grupo, sua espécie, seu planeta, são modos; tudo isso são formas, modos, quase que literalmente estilos, de alguma realidade eterna e invariável que está por trás e por baixo deles. Por exemplo, a forma de um objeto, se redondo, se tem superfície irregular, quadrado, etc., é uma modificação ou "modo" do atributo "extensão". Os modos, como pensamento de Deus, são modelos que acomodam as coisas nas formas em que as conhecemos de corpos, fatos, acontecimentos. Por isso as coisas são transitórias, existem como movimento, enquanto a matéria temporariamente se integra no "modo" ou modelo de cada coisa; são a natureza naturante Natura naturans, e os corpos são a coisa formada, Natura naturata. Mas esta é somente mais uma maneira de falar porque substancia (essência) e modos (acidente), a ordem eterna (essência) e a ordem temporal (acidente), a natureza ativa ou natura naturans (essência) e natureza passiva ou natura naturata (acidente), Deus (essência) e o mundo (acidente), todas essas classificações são para Spinoza, coincidentes e dualidades sinônimas. Cada uma divide o universo em essência e acidente.

Todas as coisas, ainda que em grau diverso, são animadas. Vida ou mente é um aspecto ou fase de tudo que conhecemos, assim como a extensão material ou corpo é uma outra fase; são essas as duas fases ou atributos (como os denomina Spinoza) através dos quais percebemos a ação da substancia ou Deus. Nesse sentido, Deus, o processo universal e realidade eterna por trás do fluxo das coisas, pode ser considerado como tendo uma mente e um corpo. Nem a mente nem a matéria são isoladamente Deus; mas os processos mentais e os processos moleculares que constituem a história dupla do mundo eles sim, suas causas e leis, são Deus. A vontade de Deus é antes a soma de todas as causas e de todas as leis e o intelecto de Deus é a soma de todas as mentes. "A mente de Deus", como Spinoza a concebe, "é toda a mentalidade que está espalhada pelo espaço e pelo tempo, a consciência difusa que anima o mundo". Portanto, Deus não é transcendente ao universo, nem pode ter personalidade, providencia, livre vontade e propósitos. Então, mesmo o homem bom, apesar de que ame a Deus, não pode esperar que Deus o ame em retorno.

Corpo e Espírito. A substância, que é única na visão de Spinoza, tem uma infinidade de atributos. Por "atributos" entenda-se "aquilo que o intelecto pode perceber da substância, como constituinte de sua essência". Desses atributos somente o pensamento e a extensão são conhecidos do homem. Aplicando seu esquema metafísico ao ser humano, Spinoza argumenta que o corpo do homem é um modo sob a extensão, um modo complexo devido a sua unidade, que vem da manutenção de um modelo constante de relações entre partes cambiantes. O espírito humano é, similarmente, um sistema mantendo o mesmo modelo de relações enquanto mudando as partes. No homem não há senão uma entidade, vista interiormente como mente, e exteriormente como matéria. O que existe na realidade é a mistura inextricável, a unidade de ambas. A mente e o corpo não agem um sobre o outro, porque não há outro. "O corpo não pode determinar que a mente pense; nem pode a mente determinar que o corpo fique em movimento ou em repouso, ou em qualquer outro estado", pela simples razão de que "a decisão da mente e o desejo e determinação do corpo... são uma só coisa". Pois não existem dois processos nem duas entidades. Não há senão um processo, visto interiormente como pensamento e exteriormente como movimento.

E o mundo todo é dessa forma unamente duplo; onde quer que haja um processo "material" externo, ele será apenas um lado ou aspecto do processo real, que a um exame mais amplo, mostraria incluir também um processo interno que é correlativo, em graus diferentes e variados, ao processo mental que vemos dentro de nós. O processo "mental" e interior corresponde em cada estágio ao processo "material" e externo; "a ordem e conexão das idéias é a mesma que a ordem e conexão das coisas." Isto quer dizer que o universo é um todo espacial que é consciente em toda sua extensão, e "Todas as coisas..., como ele diz, "são vivas"- uma posição conhecida como pampsiquismo.

Da mesma forma que a emoção é parte de um todo, - do qual as mudanças nos sistemas circulatório, respiratório e digestivo são a base -, a idéia, juntamente com as modificações "corpóreas", é parte de um processo orgânico complexo. Ate mesmo as sutilezas infinitesimais da reflexão matemática têm repercussão no corpo e, inversamente "não pode acontecer nada ao corpo que não seja percebido pela mente, e consciente ou inconscientemente por ela captado" diz Spinoza. "Substancia pensante e substancia extensa são uma coisa única, compreendida ora através deste, ora através daquele atributo" ou aspecto. "Certos judeus parecem ter percebido isso, ainda que confusamente, pois disseram que Deus e seu intelecto e as coisas concebidas pelo seu intelecto eram uma só coisa.

Vontade e liberdade. Depois de eliminar a distinção entre corpo e mente, Spinoza nega que haja "faculdades" na mente, ou entidades tais como intelecto ou vontade, muito menos imaginação ou memória. A mente consiste das próprias idéias em seu processo e associação. Intelecto é meramente um termo para uma série de idéias; e vontade um termo para uma série de ações ou volições. A vontade é primeiramente pensamento de um curso de ações a ser seguido e, quando não há fatores contrários, a ação em questão inevitavelmente se segue. A ilusão de uma determinada escolha surge da ignorância do indivíduo das causas precedentes do pensamento e da ação. Assim, "vontade e intelecto são uma só e a mesma coisa"; pois uma volição é apenas uma idéia que, pela riqueza de associações (ou talvez pela ausência de idéias rivais), permaneceu tempo suficiente no consciente para passar à ação. Cada idéia transforma-se em ação a menos que seja sustada na transição por uma idéia diferente; a idéia é, ela própria, o primeiro estágio de um processo orgânico unificado do qual a ação externa é o desfecho.

O que é freqüentemente chamado vontade, como força compulsiva, deveria ser chamado desejo: é um apetite ou instinto do qual temos consciência. "Os homens pensam que são livres, porque têm consciência de suas volições e desejos, mas ignoram as causas pelas quais são levados a querer ou a desejar." Cada instinto é um artifício desenvolvido pela natureza para preservar o indivíduo. Por trás dos instintos está o esforço variado e vago de auto-observação (conatus sese preservandi). Spinoza vê isso em todas as atividades humanas e mesmo infra-humanas, como sua motivação básica. "Todas as coisas, quanto delas depende, esforçam-se em persistir em suas próprias naturezas; e o esforço com o qual uma coisa procura persistir em seu próprio ser, nada mais é do que a verdadeira essência daquela coisa." O prazer e a dor são a satisfação ou a repressão de um instinto; não são as causas de nossos desejos, mas seus resultados; não desejamos as coisas porque elas nos dão prazer; mas elas nos dão prazer porque as desejamos; e nós as desejamos porque temos que desejá-las. Conseqüentemente não existe vontade livre; as necessidades da sobrevivência determinam o instinto, o instinto determina o desejo e o desejo determina o pensamento (a idéia de vontade) e a ação. "As decisões da mente são apenas desejos que variam conforme as disposições". "Na mente não existe uma vontade absoluta ou livre; a mente é levada a querer isto ou aquilo por uma causa, que por sua vez, é determinada por outra causa, e esta por outra e assim por diante, até o infinito".

O bem, o mal e o belo. A vontade de Deus e as leis da natureza sendo uma única e mesma realidade diversamente expressa, segue-se que todos os acontecimentos são a ação mecânica de leis invariáveis. É um mundo de determinismo, não de desígnio, não de vontade.

A filosofia moral de Spinoza como ele a apresenta na "Ética", define "o bom" em termos largamente subjetivos: o bom para diferentes espécies (Por exemplo, para o homem e para o cavalo) é diferente. O que nossa razão considera como mal, não é um mal em relação à ordem e às leis da natureza universal, mas somente em relação às leis de nossa própria natureza, tomada separadamente. Assim, para Deus a distinção entre bom e mau não teria sentido, uma vez que tal distinção é essencialmente relativa a finalidades das criaturas finitas. Daí nosso "problema do mal": lutamos para reconciliar os males da vida com a bondade de Deus, esquecendo de que Deus está acima do bem e do mal. Bom e mau são ligados a gostos e finalidades humanas e muitas vezes individuais e não têm validade para um universo no qual os indivíduos são coisas efêmeras. Assim, quando qualquer coisa na natureza parece-nos ridícula, absurda ou má, é porque não temos senão um conhecimento parcial das coisas e ignoramos em geral a ordem e a coerência da natureza como um todo e porque desejamos que tudo se arrume conforme os ditames de nossa própria razão.

E tal como acontece com "bom" e "mau", o mesmo se dá com "feio" e "belo"; esses termos são também subjetivos e pessoais. Sua estética é também totalmente subjetiva, pois segundo ela a beleza não é mais que um efeito sobre o espectador.
Spinoza não atribui à natureza nem beleza nem deformidade, nem ordem nem confusão. Somente com relação à nossa imaginação podem as coisas ser chamadas de belas ou feias, bem ordenadas ou confusas."

Teoria Política. Os filósofos modernos formularam hipóteses sobre a vida do homem anteriormente à formação das sociedades organizadas, buscando, naqueles primórdios, os fundamentos da ordem política e social.. Também Spinoza pretendeu lançar-se sobre esse problema, porém veio a falecer antes de completar seu trabalho. Da sua teoria política ficou apenas o esquema de seu pensamento.

Spinoza formula sua hipótese partindo do homem primitivo que age sem preocupações com o certo e o errado, sem leis ou organização social, consultando apenas sua própria vantagem e decidindo o que é bom ou ruim conforme a sua força. A lei e a regra da natureza sob a qual todos os homens nascem, e na maior parte vivem, não proíbe nada a não ser o que ninguém deseja e não se opõe à contenda, ao ódio, à ira, à traição ou a qualquer outra coisa que os apetites sugiram.
Spinoza exemplifica o egoísmo do estado natural com a conduta dos Estados no seu tempo: "não há altruísmo entre as nações", diz ele. Porém, devido à necessidade de ajuda mútua, "porque na solidão ninguém é forte bastante para se defender e obter todas as coisas necessárias à vida", os homens tendem à organização social. Os homens não estão, por tanto, preparados por natureza, para a ordem social; mas o perigo pede a vida em comunidade. Uma parte do poder natural, ou soberania, do indivíduo é passada para a comunidade organizada. Como consequência, a lei do poder individual cede o lugar ao poder legal e moral do todo.

O Estado perfeito limitaria os poderes de seus cidadãos apenas na medida necessária à sua finalidade que não é "dominar os homens, nem coibi-os pelo medo", mas, ao contrário, a de libertar de tal modo o homem do medo, que ele possa "viver e agir com total segurança sem prejuízo para si nem para seus semelhantes". Estabelecidas essas premissas, a forma de governo pode ser escolhida, democrática, aristocrática ou monárquica, porque qualquer uma dessas formas políticas pode governar "de maneira que todos os homens... prefiram o direito publico à vantagem particular". Considera a Monarquia eficiente, porém opressiva e militarista, e sua preferência parece tender para a democracia, como melhor forma de governo pois nela "cada um se submete ao controle da autoridade sobre seus atos, mas não sobre seus julgamentos e raciocínio; isto é, vendo que todos não podem pensar igual, a voz da maioria tem força de lei". A força de sustentação da democracia seria o serviço militar geral, conservando os cidadãos suas armas durante a paz; e a sua base fiscal seria o imposto único.
Porém lamenta o defeito da democracia, de permitir o poder aos medíocres, e favorecer com os melhores cargos os maiores bajuladores. "O caráter inconstante da multidão quase leva ao desespero aqueles que dele têm experiência; pois é governada unicamente pelas emoções e não pela razão." Assim, o governo democrático torna-se um desfile de demagogos de vida curta e homens de valor relutarn em ver seus nomes em listas para serem julgados e catalogados por pessoas inferiores. Mais cedo ou mais tarde os homens mais competentes rebelam-se contra um tal sistema, ainda que estejam em minoria. "Por isso, acho eu, é que as democracias passam para aristocracias e estas afinal para monarquias"; o povo, enfim, prefere a tirania ao caos.

A igualdade de poder é uma condição instável; os homens são desiguais por natureza; e "aquele que pretende a igualdade entre desiguais pretende uma coisa absurda". A democracia tem ainda de resolver o problema de atrair os melhores esforços dos homens, ao mesmo tempo em que dá a todos o direito de escolha daqueles por quem desejam ser governados.

Religião. No "Tratado teológico-político" e no "Breve Tratado acerca de Deus, o homem e Sua felicidade suprema" Spinoza expõe suas idéias sobre a religião. Seu modo de considerar a religião e seu papel no Estado é claramente coincidente com o daquele grupo de amigos de cujas convicções religiosas e políticas, bem definidas, ele compartilha como "colegiante". A posição que tinham em comum, de tolerância frente à rivalidade das seitas, o amor e obediência a Deus como somente o que importava, constitui também o núcleo do pensamento de Spinoza a respeito da religião. Cristo é considerado por Spinoza como a sabedoria divina que rege o mundo. Mostrando a influência do pensamento de Descartes, os colegiantes pretendem que a fé religiosa "é um conhecimento claro e distinto da verdade na mente de cada homem, pelo qual adquire uma convicção tal do ser e das qualidades das coisas que lhe resulta impossível duvidar delas".

Spinoza não aceita-a divindade de Cristo, mas dá-lhe o primeiro lugar entre os homens. "A eterna sabedoria de Deus... mostrou-se em todas as coisas, mas principalmente na mente do homem, e principalmente em Jesus Cristo." "Cristo .foi enviado para ensinar não só aos judeus mas a toda a raça humana"; daí "Ele acomodou-se à compreensão do povo... e ensinava mais freqüentemente por meio de parábolas." Considera que a ética de Jesus é quase sinônimo de sabedoria; reverenciando-O nós nos elevamos ao "amor intelectual de Deus".

Foi esperança de Spinoza que a religião judaica e a cristã, - que na verdade seriam uma só -, quando fossem afastados o ódio e as incompreensões e quando a análise filosófica encontrasse o âmago e a essência ocultos dessas crenças rivais, haveriam de unir-se. Mas, em seu tempo assim não era, e por isso diz: "Admiro-me com freqüência de que pessoas que se ufanam de professar a religião cristã, ou seja, a religião do amor, da alegria, da paz, da temperança e da caridade para com todos os homens, briguem tão rancorosamente e manifestem um ódio tão amargo uns para com os outros. Esquecem que isso, mais do que as virtudes que professam, oferece um critério decisivo para o julgamento de sua fé."

O primeiro passo para essa união, na opinião de Spinoza, seria a concordância em relação a Jesus. Uma figura tão nobre, livre do cerceamento de dogmas, que levam apenas a divisões e disputas, atrairia todos os homens; e talvez em seu nome, um mundo dilacerado por lutas suicidas de palavras e armas, pudesse afinal encontrar uma unidade de fé e uma possibilidade de fraternidade.

O pensamento de Spinoza no "Tratado teológico-político" enfoca três aspectos da religião: a Bíblia, sua própria defesa contra a acusação de ser ateu, e a separação entre Igreja e Estado. Com respeito à Bíblia, Spinoza ataca o dogma da revelação que interpreta a Bíblia como uma mensagem de Deus para os homens. Sua polêmica com o ¡judaísmo era de grande atualidade dado o valor que o calvinismo atribuía ao Antigo Testamento. Aplicando pela primeira vez na história a crítica histórica às Escrituras, busca demostrar a origens dos livros bíblicos e funda a ciência bíblica. Opõe-se à interpretação bíblica racionalista de Maimónides. É principio fundamental de Spinoza que a Bíblia só deve ser interpretada no contexto da própria bíblia, pelas suas possíveis contradições, reafirmações, etc. e de modo algum pela verdade racional da filosofia. Neste particular, as colocações de Spinoza coincidiriam de certo modo com o pensamento ortodoxo e contrariando o liberalismo. Mas esta interpretação pode mostrar apenas o sentido próprio da Bíblia, impedindo que se submeta à prova da razão.

Spinoza não podia aceitar que o taxassem de ateu porque acreditava em Deus, apenas era um Deus não personificado, não humanizado, e sintético com a natureza. Spinoza quer demostrar que sua fé coincide com todas as religiões no principio do amor e da obediência a Deus. Chegou a pensar que, com a tolerância dos colegiantes e a neutralidade dos regentes, haveria a possibilidade de uma religião comum que poderia unir a todos os homens.

Busca, finalmente, na sua obra, defender a liberdade de pensamento contra os pregadores fanáticos. Talvez por influência sua Johan de Witt lutava pelo direito do Estado, tentando tirar totalmente das autoridades eclesiásticas sua jurisdição nos assuntos temporais. Em 1656 Johan de Witt havia promulgado um decreto proibindo que se confundisse teologia e filosofia.

Educação  -  A filosofia da educação de Spinoza é determinista e estóica, compreendendo que Deus não é uma personalidade caprichosa absorvida nos assuntos particulares dos homens mas sim a ordem invariável que sustenta o universo.

Precisamente porque as ações dos homens são determinadas pelas suas lembranças, a sociedade tem de formar os cidadãos manipulando suas esperanças e receios, para alcançar uma certa dose de ordem social e cooperação. Quer nossas ações sejam livres ou não, nossas motivações ainda são a esperança e o medo. Aquele que considera todas as coisas como determinadas não se pode queixar, ainda que possa resistir; pois "percebe as coisas sob uma certa luz de eternidade" e compreende que suas desventuras não são acasos no esquema total; que elas têm alguma justificativa na eterna seqüência e estrutura do mundo. Com esse espírito, ele se ergue dos prazeres caprichosos da paixão para a elevada serenidade da contemplação, que vê todas as coisas como partes da ordem e do desenvolvimento eternos; aprende a sorrir diante do inevitável e "quer receba o que lhe é devido agora ou dentro de mil anos, permanece contente".

O determinismo conduz a uma vida moral melhor: ensina-nos a não desprezar ou ridicularizar ninguém, a não ficar zangado com ninguém; os homens "não são culpados"; e ainda que punamos os canalhas, será sen ódio; nós os perdoamos porque não sabem o que fazem. Acima de tudo, o determinismo fortalece-nos para acolher as duas faces da fortuna com igual espírito; lembramo-nos de que todas as coisas sucedem conforme as leis eternas de Deus.

Principais trabalhos.

Tractatus de Deo et Homine Ejusque Felicitate (escrito por volta de 1662, publicação póstuma em 1852); Tractatus de Intellectus Emendatione (escrito em 1662, primeira edição em 1677); Renati des Cartes Principiorum Philosophiae Pars I et II, More Geometrico Demonstratae, per Benedictum de Spinoza (1663); Ethica in Ordine Geometrico Demonstrata (escrito em 1662-75, primeira edição em 1677); Tractatus Theologico-Politicus (escrito em 1665-70, primeira edição em 1670); Tractatus Politicus (incompleto, escrito a partir de 1665, primeira edição em 1677);


NOTAS

Carlos Luís, Príncipe eleitor do Platatinado renano(1617-1680), era filho de Frederico V, rei protestante da Boêmia que acumulava sob seu poder também o Palatinado, e era o Chefe da União Protestante contra os católicos austríacos. Eleito Imperador do Sacro Império Germânico perdeu o trono em 1620 depois da decisiva batalha nas vizinhanças de Praga, que deu início à Guerra dos Trinta Anos. Sua irmã a erudita abadessa Isabel de Hervord tornou-se em 1643 uma correspondente e amiga próxima de Descartes, que então vivia na Holanda. Outra irmã foi a princesa Sofia, de Hanôver.

Filho maior de Frederico V, Carlos Luís recebeu excelente educação basicamente franco-holandesa. Depois da urina de sua Casa viveu como príncipe herdeiro refugiado e cavaleiro andante, freqüentemente entregue aos prazeres para desepero de seu tutor e conselheiro Rusdorf; de natureza alegre e saudável, nem os percalços por que passou o alquebraram ou diminuíram seu prazer de viver. Durante sua juventude conheceu as formas religiosas mais diferentes. Esteve submetido ao protestantismo alemão, holandês e inglês, havia tido contatos com os presbiterianos escoceses e com os puritanos ingleses. Na corte de seu tio Carlos I havia conhecido a igreja anglicana dos Stuarts, e em França ao catolicismo, sem que nenhuma destas formas religiosas lhe causasse uma impressão profunda. Era um tipo mundano que nada tinha da paixão religiosa protestante de seus antepassados. Era por conseguinte muito cético e mesmo frívolo, e só tratava de religião sob o aspecto político.

Com o apoio dos Ingleses Carlos Luís fez, em 1638 39 duas tentativas militares fracassadas de reconquistar pelas armas seu legítimo patrimônio. A segunda nem chegou a colocá-la realmente em prática, vindo da Inglaterra, foi preso em território francês por ordem do Cardeal Richelieu. Depois de libertado, retornou à Inglaterra onde teve, juntamente com seu irmão menor Ruperto uma participação débil na revolução que destronou Carlos I. Com o tratado de Westfalia teve de volta a parte circunscrita ao Palatinado Renano dos domínios hereditários que o pai havia perdido, e também a dignidade de Eleitor do Imperador do Sacro Império. A grande perda de patrimônio da família o deixaram em dúvida em aceitar as condições do tratado, porém seguiu o conselho do filósofo René Descartes, amigo da família, que lhe disse que naquelas circunstâncias era mais prudente contentar-se com o que era possível alcançar, parecer satisfeito e dar graças tanto aos que haviam concedido a devolução de uma parte, como aos que não se haviam apoderado de todo o resto, porque "A menor parte do Palatinado vale mais que todo o império dos tártaros ou dos moscovitas".

Em outubro de 1649 Carlos Luís entrou solenemente na antiga capital do condado do Palatinado, a cidade de Heidelberg, cujo magnífico palácio desmoronado foi restaurado com muito trabalho e tempo para faze-lo habitável. O novo soberano tinha 32 anos, vividos em sua maior parte na Corte de seu tio o rei Carlos I da Inglaterra. Era dos príncipes alemães mais simpáticos da época. Saiu do país menino e quando voltou o encontrou devastado e empobrecido mas sua simpatia e inteligência levaram o seu povo a reconstruí-lo. A essa missão dedicou Carlos Luís toda sua atividade e talento, que unidos a uma prudente economia produziram o resultado mais admirável, o que valeu ao príncipe o título de "Restaurador do Palatinado). Tão logo retornou ao país, se apressou em restituir a Igreja reformada seus direitos e seu antigo território. Os curas expulsos regressaram, as paroquias foram ocupadas de novo por seus pregadores e se restabeleceu o antigo predomínio da religião reformada conforme exigia a religiosidade dos habitantes. Também concedeu aos luteranos e católicos até mais do que a tolerância exigida pela paz de Wesfalia, para o que teve que moderar o zelo excessivo dos pastores calvinistas. dominante. Cedeu em Heidelberg uma igreja aos luteranos

Para repovoar seus domínios, o príncipe chamou colonos, inclusive oferecendo isenção de impostos por um ano a quem retomasse uma cultura abndonada, três anos para terrenos bravios e seis anos para quem plantasse novos vinhedos; introduziu-se no país o cultivo do tabaco e da batata. Fundou a cidade de Mannheim no ano de 1652, destinada a ser um grande centro comercial, um porto fluvial na confluência do Reno com o rio Nackar para realizar o comércio com a Holanda. Convidou pessoas honradas de todas as nações a se estabelecerem na nova cidade, e que todos os habitantes gozassem de completa liberdade, como na Holanda. Concedeu isenções de impostos também para a indústria, podendo todo habitante de Mannheim criar a indústria que quisesse , sem ser submetido a controles do estado ou de associações, e ampla liberdade religiosa. Em 1663 a cidade achava-se já notavelmente desenvolvida.

A Universidade de Heidelberg, a mais antiga da Alemanha, que sofrera grandemente com a guerra foi restaurada. Sua magnífica biblioteca havia sido levada para Roma; seus professores e estudantes se haviam dispersado e estivera completamente deserta e fechada desde 1630. A 1 de novembro de 1652 a Universidade foi solenemente reaberta. Criou novos estatutos para a Universidade em vigor a partir de 1672, estabelecendo como lei a completa igualdade religiosa. Convidou a Spinoza para ocupar uma cátedra, este recusou-a por não pretender trocar a liberdade que tinha na Holanda sob a proteção do Chefe dos Estados Gerais, Johan de Witt, por uma situação desconhecida em um país estrangeiro.

Carlos Luís foi casado primeira vez com Carlota de Hessse, de quem teve dois filhos, Carlos, que chegou a subir ao trono do eleitorado, e Isabel Carlota. Casou em segundas núpcias com Luisa de Degenfeld.

Na eleição de Fernando IV, Imperador do Sacro Império Romano, em 1653, Carlos Luís figurou pela primeira vez com seu cargo honorífico de arquitesoureiro do Império, e talvez por esse título saiu a cavalo lançando moedas para o povo, e o animal, assustado, lançou ao solo, acidente sem consequência maior que a de ter sido tomado como sinal de mau presságio para o rei receém-coroado. Muito necessitado de dinheiro, em 1656 vendeu seu voto de eleitor comprometendo-se com o governo francês a eleger quem fosse do interesse da França, a troco de uma soma considerável e uma renda anual também grande, e no ano seguinte fez um acordo secreto sob condições ainda mais favoráveis obrigando-se a não votar em nenhum Habsburgo e a dar seu voto ao candidato que fosse recomendado pela França. Seu temperamento sangüíneo se manifestou numa reunião dos eleitores em Frankfurt, , após a morte de Fernando III. Irritado com o embaixador da Baviera por este fazer referências ofensivas ao falecido Frederico IV, seu pai, arremessou um tinteiro na cabeça do embaixador. O incidente não teria provocado tanto escândalo, não fosse a tinta haver atingido as vestes de vários dignatários à volta do embaixador.

O príncipe não teve nenhum escrúpulo em casar sua filha Isabel com um príncipe católico, Filipe de Orleans, irmão de Luiz XIV. Fingiu não saber que a filha, por exigência dos franceses, aprendia o catecismo católico dentro do seu próprio palácio, pois não queria que os súditos protestantes o considerassem traidor da igreja dominante. Depois perdoou publicamente a filha afirmando que as verdades fundamentais do cristianismo eram comuns a todas as religiões cristãs. Fez guerra ao seu vizinho o eleitor Juan Felipe de Magúncia, em 1665 por questões territoriais envolvendo a posse da cidade de Ladenburg à margem do rio Neckar, um conflito que necessitou da arbitragem da França e da Suécia para chegar ao fim.

No castelo de Mannheim construiu uma igreja que dedicou à "Santa Concórdia". Esta igreja devia servir, segundo a vontade do príncipe, ao culto das três religiões por igual segundo uma Agenda de concórdia. No lançamento da primeira pedra discursou um cura católico que pronunciou um discurso "em honra da concórdia". Carlos Luís faleceu pouco depois da inauguração da igreja da Concórdia, em 28 de agosto de 1680.RETORNO

Johannes Colerus, (1647-1707) pastor Juan Koehler, escreveu "A Vida de Spinoza", livro em que defende a fé na ressurreição de Cristo, contra o pensamento do filósofo.RETORNO

Uriel da Costa, sacerdote católico, nascido em l575 no Porto. Pertencia a uma familia de cristãos-novos, rigorosamente católicos, que se mudou para Amsterdã, por volta de 1612. Converteu-se ao judaísmo mas não encontra no judaísmo ashkenasi da colônia holandesa a doutrina o fundamento humanista que sua formação humanista católica esperava, e então dirige sua crítica contra a tradição. Chega à convicção de que não existe uma felicidade eterna, porque na Bíblia não se fala da imortalidade da alma, apenas da felicidade temporal. Esta opinião heterodoxa o coloca em conflito ao mesmo tempo com a Sinagoga e com as autoridades de Amsterdã. Foi expulso da comunidade, encarcerado e depois desterrado. Para fazer as pazes com a comunidade judaica concorda em fazer uma retratação contrária às suas convicções. Mas em seguida é acusado de não cumprir as prescrições alimentares rigorosamente observadas pelos ashkenasis, sendo novamente expulso. Por sete anos foi combatido com violência e viveu solitário e atormentado por sua inquietação espiritual. Isolado por completo por uma e por outra religião a que pertenceu, Uriel da Costa se submete finalmente a uma cerimonia de expiação que estende ao limite do suportável seu sofrimento moral. Profundamente desesperado escreve uma autobiografia que chama "um exemplo de vida humana" e comete o suicídio em abril de 1640.RETORNO

Charles de Marguetel de Saint-Denis, senhor de Saint-Évremond, nascido na França em 1613, faleceu em 1703 em Londres. Filósofo moralista e escritor. Seguiu a carreira militar na juventude, distinguiu-se na guerra da Fronde (1648-53), leal a XIV e seu ministro Cardeal Mazarino. Acidentalmente uma carta sua criticando o "Tratado dos Pirineus" feito por Mazarino (1659) veio a publico, obrigando-o a fugir para não ser preso. Asilou-se na Inglaterra onde foi bem recebido por Carlos II que passara a juventude exilado em França e cuja corte em Paris Saint-Évremond com certeza freqüentou. Viveu o restante de sua vida em Londres, exceto por uma viagem à Holanda de 1665 a 1670, durante a qual se tornou amigo de Guilherme III, Príncipe de Orange e futuro rei da Inglaterra. Sua produção literária tornou-se conhecida apenas após sua morte, quando publicada em 1705; são poemas e uma comédia em versos Les Académiciens (1643) e Sir Politick Would-Be (1664) em prosa, discursos e cartas satíricas, e crítica literária voltada contra o dogmatismo, advogando a tolerância religiosa, e com apelo ao bom senso, incluindo uma série de escritos de ética que justificam um hedonismo moderado e prudente.RETORNO

Ehrenfried Walter von Tschirnhaus, intelectual e cientista alemão que publicou uma Medicina do espírito inspirada em Spinoza, mas que ficou famoso pela instalação de fábricas de instrumentos ópticos e pelo descobrimento da porcelana que realizou por volta de 1675, na Saxônia, fabricando porcelana de argila misturada com rochas fusíveis. Conseguiu produzir porcelana resistente ao final do século e estabelecer um processo industrial no ano de seu falecimento, em 1708. Seus experimentos foram continuados por seu assistente, um alquimista de nome Johann Friedrich Böttger. A fábrica foi estabelecida em Meissen por volta de 1710 e as primeiras vendas de porcelana foram feitas na Feira de Leipzig de 1713. A Tschirnhaus está dirigida a última carta escrita por Spinoza em julho de 1676.RETORNO

Francis van den Enden nasceu em Anvers (Antuérpia), hoje na Bélgica, em 1602 e havia pertencido à Ordem dos Jesuítas de 1619 até 1633. Expulso da ordem devido a alguns "erros", era culto e suficientemente versátil para tentar diversos ofícios inclusive o de médico, porém sem sucesso, até que em 1645 aparece em Amsterdã, onde figura como livreiro em 1650, e vai à falência. Em 1652 abriu uma escola de latim. Foi um personagem estudado através das cartas que escreveu a pessoas ilustres, mostrando ser um tipo fantasioso e visionário, que facilmente arquitetava projetos políticos. Em 1648 pretende conseguir a paz entre os Países Baixos e a Espanha; em 1650 se ofereceu ao chefe dos Estados Gerais Johan de Witt para lutar contra a Inglaterra. Em 1654 foi enforcado pelos invasores franceses, por haver participado em um complot de alta traição.RETORNO

Levi ben Gershom (Gersonides) (1288-1344), judeu francês, matemático e filósofo. Seguidor das idéias de Maimônides (vide abaixo) e de Ibn Rushd, Gersonides sustentava que a verdade da razão não pode conflitar com a religião revelada. Dedicou grande atenção ao problema da possibilidade tanto da criação do universo a partir do nada como ao da existência da vontade livre do homem.RETORNO

Heinrich (Enrique) Oldenburg, teólogo e acadêmico anglo-alemão nascido em Bremen em 1620, chegou como agente diplomático de sua cidade natal à Inglaterra, onde foi tutor de jovens da nobreza britânica. Amigo do grande químico Roberto Boyle. Seu espírito metódico foi valorizado por Boyle como indispensável para a coordenação das investigações científicas e foi por este indicado secretário da Royal Society (Academia Real das Ciências) recém fundada. Oldenburg, que em toda parte fazia contactos e cópias de idéias científicas, visitou Spinoza em Rijnsburg, em 1661, e obteve de Spinoza dados importantes sobre seu pensamento e o confronto destes com as posições filosóficas de Descartes e Bacon. Spinoza, depois de perceber seus propósitos meramente sistemáticos desinteressou-se dele, limitando-se depois a informa-lo sobre assuntos de física e química, e aconselhando-o, quanto aos problemas filosóficos, a aguardar a publicação de seus trabalhos. No entanto Oldenburg registrou a gentileza e simpatia de Spinoza, capazes de atraírem "todos os homens de caráter nobre e boa educação".RETORNO

Abraham Herrera, descendente do grande capitão espanhol Gonzalo de Córdoba, e que morreu em Amsterdã em 1631. Em seu "Porta do Céu" une em forma original a mística do neoplatonismo com as especulações da Cabala.RETORNO

Cristian Huygens, matemático, astrônomo, físico, criador da teoria ondulatória da luz, começou o uso do pêndulo nos relógios. Descobriu a forma verdadeira dos anéis de Saturno, e a ação das forças sobre os corpos. Viveu vários anos em Paris onde em 1666, foi membro fundador da Academia de Ciências Francesa. RETORNO.

León Hebreo, em italiano Leone Ebreo, nascido Judah Abravanel (c. 1460-c.1521), filósofo espanhol, médico, e escritor, em italiano, dos "Dialoghi di amore", a mais completa e extensa exposição renascentista de uma doutrina do amor que influiu a literatura espanhola e particularmente a filosofia de Spinoza. Era filho do último grande comentador bíblico, Isaac Abravanel.RETORNO

Lucas, médico francês, periodista e autor de libelos contra Luís XIV. Partidário entusiasta de Spinoza, escreveu uma biografia do filósofo considerada inspirada, porém nem sempre objetiva, mas que tem o valor de conter confidencias feitas pelo próprio Spinoza.RETORNO

Moshé (Moisés) Ben Maimón, sefardim, conhecido entre os muçulmanos como Abu Imram Musa ben Maimun Ibn Abdalá, e no ocidente por Maimónides - o médico Judeu, nasceu em 30 de março de 1135, na Aljama de Córdoba
Córdoba foi um admirável centro cultural na Espanha medieval. Contava um milhão de habitantes, sessenta mil edifícios, oitenta colégios e três universidades, e uma biblioteca de setecentos mil volumes manuscritos. Córdoba tornou-se um centro cultural judeu a partir do rabino Moshé ben Janóh.

Sobre a família de Maimônides se sabe que seu pai, rabí Maimón Hadayán, foi um matemático, astrônomo e talmudista famoso nos círculos intelectuais de Córdoba e Toledo. Seu irmão Davi era comerciante de jóias e sua irmã Shulamit foi dedicada secretária que em excelente caligrafia redigiu e copiou suas obras. Pouco se sabe sobre a mãe de Maimônides, senão que era filha de um assogueiro e que não chegou a criar a seu filho Moisés pois morreu de complicações do parto. Diz uma lenda que o rabí Maimón a desposou devido a um sonho no qual Elias lhe ordenou que a desposasse e que teria um filho que "iluminará os olhos de todo Israel".

Devido aos cuidados de seu pai, Maimônides dominou muito cedo as matemáticas, a astronomia, a filosofia e a física. Quando em 1148 o sul da Espanha foi conquistado pelos Almohads, uma seita fanática do Corão, os judeus e cristãos foram obrigados a emigrar para não perderem a vida, a menos que adotassem a fé muçulmana. A família seguiu para Almería, sul da Espanha, em 1151, e depois para Fez, no Marrocos, em 1159, onde o disfarce muçulmano seria mais facilmente praticado. Porém, porque um professor do jovem Maimônides foi descoberto praticando o judaísmo e por isso executado em 1165, a família de Maimon deixou Fez desta vez para a Palestina, e de lá retornando ao Egito, onde havia tolerância ao judaísmo. O exílio aumentou sua determinação de conhecimento e desde então inicia suas primeiras obras: um trabalho sobre os termos da lógica, um comentário ao Talmud babilônico em árabe e um manual em hebreu para o Talmud hierosolimitano intitulado "Leis de Jerusalém", e um tratado sobre o ajuste do calendário lunar ao calendário solar.

Trabalhou por dez anos em seu trabalho mais importante, "O Torah revisado", uma brilhante sistematização da doutrina e leis judaicas.

Em 1166 Maimônides perdeu seu pai e seu irmão Davi, este morto em um naufrágio. Deprimido caiu enfermo por um ano. Para sustentar-se, decide então ser médico. Contraiu matrimônio já com certa idade e teve o filho Abraham, um erudito que foi Príncipe e dirigente Espiritual do Judaísmo egípcio. Em 1176 ele começou a obra em que trabalharia por 15 anos, seu clássico em filosofia religiosa "O Guia dos Perplexos" uma contribuição importante para a compatibilização entre a ciência, a filosofia e a religião que depois foi traduzido na maior parte das línguas européias. Em 1187 Maimônides é médico da Corte do famoso sultão Saladin. Faleceu aos 60 anos de idade, a 13 de dezembro de 1204. Seus restos mortais foram trasladados a Tiberiades, em Israel.

Maimônides classificou a medicina em três divisões: a preventiva, a curativa e a que atendia aos convalescentes, inválidos e anciãos. Escreveu trabalhos de medicina como "Extratos de Galeno", uma seleção do que considerava o mais relevante entre os ensinamentos de Galeno, "Comentário sobre os aforismos de Hipócrates", onde critica outros pontos de Hipócrates; "Aforismos médicos de Moisés", com a descrição, diagnóstico e tratamento de várias doenças; "Tratado sobre as hemorróidas"; "Tratado sobre as relações sexuais", escrito para um sobrinho de Saladino e onde descreve alimentos e drogas afrodisíacas e antiafrodisíacas. y descreve a fisiologia sexual. Este tratado é também intitulado "Livro da Santidade", porque aconselha moderação na atividade sexual, fala das leis concernentes às relações ilícitas, das relações entre o judeu e o pagão, bastardos, descendência sacerdotal provada o não provada, aspectos generais relativos ao matrimônio e castidade, carnes e outros alimentos proibidos permitidos para o consumo humano, tudo sob o aspecto da lei na regulação da vida íntima e social; "Tratado sobre a asma", com o regime dietético e climático apropriados para os asmáticos. "Tratado dos venenos e seus antídotos"; "Regime da saúde"; e com recomendações gerais sobre higiene do corpo e higiene ambiental. No Mishné Torá, ele descreve as regras sobre a supremacia e a nobreza da vida humana. Segundo ele, o homem deve manter sua saúde física e seu vigor para que seu espírito se mantenha lúcido, em condições de conhecer a Deus, pois é impossível compreender as ciências e meditar sobre elas quando se está enfermo ou faminto.RETORNO

Manasseh ben Israel (1604-1657). Judeu filho de Cristãos novos portugueses imigrados para Amsterdã, tornou-se, com 18 anos, rabino de um templo naquela cidade. Foi nomeado para a escola judaica de estudos religiosos avançados de Amsterdã. Com reputação de erudito, foi um dos dois principais mestres de Spinoza. Muitas de suas obras teológicas eram lidas tanto por judeus quanto por cristãos. Seus estudos da Kabala (escritos místicos dos judeus) o haviam convencido de que o Messias viria para levar os judeus de volta à terra Santa somente depois que estes houvessem se dispersados por todo o mundo. Ele interessou-se então pela revogação do banimento de 1290 que proibia os judeus de viverem na Inglaterra. Sobre esse ideal ele escreveu "Esperança de Israel" com um prefácio endereçado ao Parlamento inglês. Oliver Cromwell deu a Manasseh permissão para visitar a Inglaterra e defender sua causa. Em 1655 Manasseh aceitou o convite de Cromwell (uma missão prévia pelo filho de Manasseh, Samuel, havia falhado). Publicou na Inglaterra o Vindiciae Judaeorum, em 1656 como reação a um panfleto de um puritano radical William Prynne. Sua visita não resultou em nenhuma declaração formal da legitimidade da imigração dos judeus, mas provocou o reconhecimento de que o banimento não tinha mais força legal. Este reconhecimento deu permissão tácita para os Judeus se estabelecerem na Inglaterra.RETORNO

Os Príncipes de Orange e a Independência da Holanda. Nos chamados Países Baixos o domínio do calvinismo entre as províncias do norte e do catolicismo nas províncias do sul, causou a separação do norte constituindo, através de um acordo em Utrecht uma união liderada pela Holanda, a principal província do norte, e sede em Haia, em 1579 para resistir ao domínio espanhol. constituindo uma República ou Estados Gerais com sede em Haia. Os príncipes de Orange, cujas possessões faziam parte da união, se impuseram como chefes militares garantindo a liberdade da República. O êxito das armas holandesas conduzidas pelo príncipe Maurício de Nassau levaram a Espanha a propor um armistício em 1609, o que significava tratar as Províncias Unidas como independentes e soberanas, e abrir mão de garantis para os católicos.

O êxito na guerra levou o príncipe Maurício de Nassau a pretender maior poder sobre os Estados Gerais. Sua tentativa de comandar as forças militares de todas a províncias unidas como seu chefe supremo. Conseguiu que o chefe do governo da província de Holanda, oposicionista de suas pretensões, fosse condenado à morte em 1619. a guerra com a Espanha foi reiniciada em 1621 sob a liderança de Maurício, que não conseguiu o êxito que prometera, falecendo em 1625. A ameaça aos Estados Gerias agravou-se porque, além das vitórias do exército espanhol, a Áustria, que então combatia os protestantes na guerra dos 30 anos, aliou-se à Espanha e isto era uma ameaça à união federativa dos Estados Gerais, oficialmente calvinista.

Em 1635 O irmão e sucessor de Maurício, Frederico Henrique, escolhido Chefe dos Estados Gerais, assinou uma aliança das Províncias Unidas com a França, estabelecendo que seria dividido entre os dois países aquilo que fosse conquistado de partes das províncias do sul (futura Bélgica), em poder da Espanha. Recapturou terras perdidas para os Espanhóis enquanto o Almirante Maarten Tromp comandando a marinha holandesa, derrotava em 1639 uma armada Espanhola que tentaria a invasão da Holanda por mar frente à costa inglesa. Além de suas vitórias, aumentou seu domínio pessoal sobre os deputados dos Estados Gerais, casando seu filho Guilherme com uma filha de Carlos I, rei da Inglaterra e de Henrieta Maria, irmã do rei da França Luís XIII. Conseguiu o apoio da Inglaterra e da França, prestígio que o teria feito rei da Holanda, não viesse a falecer em 1647.

Os Estados Gerais negociaram em Munster, na Westfália, uma paz permanente com a Espanha, assinado em 1648, ato que restituiu prestígio ao colegiado dos Estados Gerais. No ano seguinte, 1649 Charles I da Inglaterra, foi decapitado. Guilherme II (casado com Maria Stuart, filha de Carlos I, irmã de Carlos II e Jaime II da Inglaterra), sucessor de Frederico Henrique decidiu recuperar para a casa de Orange a posição de líder dos Estados Gerais pela força e fazer guerra à Inglaterra para vingar seu sogro, Carlos I, decapitado pelos republicanos de Cromwell em 1649. Em 1650 invadiu Haia e prendeu seis dos representantes de províncias integrantes do Colegiado dos Estados Gerais. Enviou uma força para dominar Amsterdã, que resistiu com o apoio do povo. Foi feito o sítio da cidade que finalmente se rendeu. Era o caminho para a ditadura militar, governo monárquico e envolvimento nas guerras de interesse dos príncipes e reis. Mas antes que isto acontecesse Guilherme II morreu vítima de varíola ao fim do mesmo ano.

A assembléia dos Estados Gerais pode então retomar inteiramente o governo das províncias unidas e concedeu anistia aos que haviam apoiado o príncipe. O herdeiro de Orange continuaram apenas representantes nos Estados Gerais de seus principados, as províncias de Friesland e Froningen. A esse tempo, em 1651, os parlamentaristas ingleses, no governo de Cromwell, passam uma lei proibindo a intermediação dos holandeses (já não é problema interno, nem de religião, nem de guerra com a Espanha) em negócios ingleses na Europa e no ultramar. Um incidente entre navios ingleses e holandeses em 1652 foi o estopim começando uma guerra total entre os dois países.

Em 1653 Johan de Witt foi indicado para os Estados Gerais pela província de Holanda, o qual passou a liderar.
Os holandeses, em inferioridade marítima, aceitaram a paz em 1654, desfavorável para os holandeses que tiveram inclusive que prometer aos parlamentaristas, ingleses alijar para sempre o príncipe de Orange do comando supremo dos Estados Gerais. Essa paz foi feita pelo tratado de Westminster, por insistência de Johan de Witt, o líder da política da república em assuntos internos e internos. De Witt reconstruiu a armada holandesa, melhorou o sistema financeiro tanto dos Estados Gerais quanto da província holandesa em particular e reacendeu o prestígio da república na Europa.

O conflito comercial com a Inglaterra continuava, que exigia agora um imposto de pesca no mar do norte e a irritação dos holandeses levou a uma nova guerra em 1664. Para nova paz, o monarca inglês Carlos II que restaurou a monarquia após a república de Cromwell, demandou dos holandeses exatamente o oposto antes exigido antes pelos parlamentaristas. Como condição para a paz exigia que Guilherme III, seu sobrinho fosse aceito chefe dos Estados Gerais retomando a posição de comando que tiveram seus antepassados. Mas Johan de Witt conseguiu contornar o perigo conseguindo o apoio dos franceses que não queriam uma Holanda governada por Guilherme III unida a sua arqui-inimiga Inglaterra. Também a marinha holandesa estava renovada por De Witt levava a melhor. Em 1667 ousada invasão do rio Tâmisa por uma esquadra holandesa que destruiu no porto a esquadra inglesa e os estaleiros ingleses.

Em 1666 Luís XIV ao mesmo tempo que apoiava frouxamente os holandeses, iniciou a invasão das províncias espanholas (atual Bélgica), o que era uma ameaça para os holandeses, e também para os ingleses. Isto levou a Inglaterra a fazer a paz com a Holanda no mesmo ano de 1667, e forçaram Luiz XIV a assinar a paz de Aix-a-Chapelle e devolver as províncias do sul à Espanha. Irritado, Luis XIV propôs à Inglaterra a aniquilação da Holanda. Considerando que a Holanda traíra o acordo de amizade, Luiz XIV buscou seduzir Carlos II a romper a paz com os Estados Gerais prometendo-lhe, inclusive, a restauração de Guilherme III. Para preservar a paz os orangistas tentaram restaurar a posição de Guilherme III à frente dos Estados Gerais porem não conseguiram impor sua vontade devido à oposição de Johan de Witt que temia que a República acabasse em monarquia absolutista. O príncipe foi apenas nomeado comandante em Chefe das forças armadas em 1672. Carlos II então juntou-se aos franceses contra a Holanda na primavera de 1672. O exército francês prontamente avançou até o coração da Holanda.

A política de De Witt, cuja consequência fora a invasão da Holanda, provocou arruaças em Haia o que levou à nomeação de Guilherme III chefe dos Estados Gerais como pretendiam os Ingleses e De Witt foi linchado pelo povo. Porém Guilherme III, sem fazer caso das simpatia dos ingleses, fez a guerra mudar de feição com sucessivas vitórias sobre os franceses em terra e sobre os ingleses no mar. Após 6 anos de guerra Guilherme III conseguiu, com o apoio da antes arqui-inimiga Espanha, forçar a retirada dos ingleses (1674) e dos franceses. Guilherme não pretendeu a monarquia absoluta como se temia. Não se interessou por reformas constitucionais e inclusive, mais tarde, em 1688, quando o parlamento inglês o chamou para salvar a Inglaterra do rei católico James II, seu sogro, avançando até Londres praticamente sem resistência. obteve do colegiado apoio para uma incursão à Inglaterra para depor Jaime II, rei católico protegido de Luis XIV e que pretendia o absolutismo. Porque era casado com sua prima Maria, filha de Jaime II, e pela sua própria linhagem de sobrinho de Jaime II, (sua mãe era filha de Carlos I, irmã de Carlos II e Jaime II) e por infundir confiança aos parlamentaristas, foi convocado para assumir o trono inglês pelo próprio Parlamento, quando a "Revolução Gloriosa" de que participou logrou depor seu tio e sogro Jaime II e este fugiu para Paris aquele ano.RETORNO

Juan Daniel do Prado, nascido em Alcalá de Henares, na Espanha. por volta de 1610, foi, exerceu sobre Spinoza grande influência e foi com ele expulso da Sinagoga de Amsterdã. Graduou-se em 1638 em Toledo e foi clinicar em Amsterdã, onde se encontra já em 1641. Nega Deus e as Escrituras e conseqüentemente que os judeus sejam um povo eleito, adotando uma filosofia naturalista pura em que a Natureza é Deus que se manifesta nas leis naturais.RETORNO

Johan de Witt. estadista holandês nascido em 24 de setembro de 1625 e falecido a 20 de agosto de 1672. Chefe executivo (Pensionário) dos Estados Gerais de 1653 a 1672, guiou as províncias Unidas na primeira e segunda guerra contra a Inglaterra (1652-54 e 1665-67) e consolidou o poder naval e comercial da nação. Filho de Jacob de Witt, seis vezes prefeito de Dordrecht, De Witt atuou como advogado em Haia antes de se tornar Chefe executivo de Dordrecht em 1650. Ele imediatamente tornou-se um líder no conflito entre os estados (assembléia) holandeses e o chefe (regente virtual) Guilherme II, príncipe de Orange. Guilherme, planejando uma outra campanha contra a Espanha, recusou o pedido da Holanda em 1650 para reduzir as forças armadas e reduzir as despesas.

Apesar do príncipe regente ter o apoio do exército e de várias províncias, o partido de De Witt, o partido dos Estados Gerais, triunfou quando Guilherme morreu em novembro de 1650, deixando os republicanos adversários da Casa de Orange no poder pelos 20 anos seguintes. Nomeado Grande Pensionário Executivo máximo da Holanda em 1653, De Witt obteve a aceitação dos holandeses do tratado de Wesminster (Abril de 1654) terminando a primeira guerra holandesa contra a Inglaterra (1652-1654). Ele persuadiu os estados da Holanda a aprovar uma clausula secreta do tratado (O Ato de Seclusão), excluindo o Príncipe de Orange, parente do deposto rei Stuart Carlos I da Inglaterra do posto de regente da Holanda.

Após a paz De Witt reconstruiu a Marinha holandesa, melhorou as finanças públicas, e estendeu a supremacia comercial da nação nas Índias Orientais. Na primeira guerra nórdica (1655-1660) ele mandou uma frota poderosa para salvar a Dinamarca da conquista pela Suécia e para assegurar o comércio das Províncias Unidas no comércio do mar Báltico. Rebatido em um esforço para aliar-se com o recente restaurado (1660) Carlos II da Inglaterra, De Witt assinou um tratado com a França (1662). A rivalidade comercial entre a Inglaterra e as Províncias Unidas entremente cresceu tornando-se amarga, especialmente na América do Norte, Sudeste Asiático e Guine, com a Segunda Guerra Anglo-holandesa estalando em 1665. A reconstrução naval que De Witt tinha promovido trouxe frutos sob o comando do Almirante Michiel Adriaanszoon de Ruyter na medida que as Províncias Unidas marcaram vitórias decisivas, destruindo a maior parte da frota britânica em Chatham em 1667 e reforçando a posição de negociação da Holanda em um eventual tratado de paz. Depois que Luís XIV de França invadiu os países baixos espanhóis ao final do mesmo ano (Guerra da Devolução), colocando em perigo tanto a Inglaterra quanto a republica holandesa, De Witt e Carlos II assinaram o Tratado de Breda (Julho de 1667) e então formaram uma aliança no início de 1668 (Chamada a Tríplice Aliança por reuniu também a Suécia) para deter a agressão dos franceses. Carlos, porem, assinou um tratado secreto de Dover com a França, em maio de 1670 e preparou um invasão anglo-francesa das Províncias Unidas.

De Witt passou nas Províncias Unidas um Édito Perpétuo, em 1667, abolindo a posição de Regente e separando dela do posto de capitão geral. Porém, após os distúrbios populares que se seguiram à invasão francesa de Junho de 1670 (1672?), Guilherme of Orange (Guilherme III, rei da Inglaterra a partir de 1689), foi nomeado Captão-General das Províncias Unidas e lhe foi dado poder total, incluindo a regência. Os holandeses abriram os diques do mar e conseguiram manter os franceses a um dia de marcha de Amsterdã. Em 4 de agosto De Witt renunciou como grande Pensioneiro.

De todos os púlpitos se acusava Johan de Witt e o partido governante de ateus e culpados pela infelicidade do país. Os orangistas estavam então no controle e eles prenderam o irmão de De Witt, Cornelis, em 24 de junho, sob acusação de conspirar contra Guilherme III. Quando De Witt. foi visitar seu irmão na prisão de Gevangenpoort em Haia, em 20 de agosto, os dois foram trucidados por uma multidão orangista.RETORNO

 


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