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Friedrich
Nietzsche [Vida
e Obra] [Filósofo e o
Músico] [Solidão,
Agonia e Morte] |
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Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de outubro de 1844 em Röcken, localidade próxima a Leipzig. Karl Ludwig, seu pai, pessoa culta e delicada, e seus dois avós eram pastores protestantes; o próprio Nietzsche pensou em seguir a mesma carreira.
Em 1867, Nietzsche foi chamado para prestar o
serviço militar, mas um acidente em exercício de montaria livrou-o
dessa obrigação. Voltou então aos estudos na cidade de Leipzig. Nessa
época teve início sua amizade com Richard Wagner (1813-1883), que
tinha quase 55 anos e vivia então com Cosima, filha de Liszt
(1811-1886). Nietzsche encantou-se com a música de Wagner e com seu
drama musical, principalmente com Tristão
e Isolda e com Os
Mestres Cantores. A casa de campo de
Tribschen, às margens do lago de Lucerna, onde Wagner morava, tornou-se
para Nietzsche lugar d "refúgio e consolação". Na mesma época,
apaixonou-se por Cosima, que viria a ser, em obra posterior, a
"sonhada Ariane". Em cartas ao amigo Erwin Rohde, escrevia:
"Minha Itália chama-se Tribschen e sinto-me ali como em minha própria
casa". Na universidade, passou a tratar das relações entre a música
e a tragédia grega, esboçando seu livro O
Nascimento da Tragédia no Espírito da Música.
Em 1871, publicou O
Nascimento da Tragédia, a respeito da
qual se costuma dizer que o verdadeiro Nietzsche fala através das
figuras de Schopenhauer e de Wagner. Nessa obra, considera Sócrates
(470 ou 469 a.C.-399 a.C.) um "sedutor", por ter feito
triunfar junto à juventude ateniense o mundo abstrato do pensamento. A
tragédia grega, diz Nietzsche, depois de ter atingido sua perfeição
pela reconciliação da "embriaguez e da forma", de Dioniso e
Apolo, começou a declinar quando, aos poucos, foi invadida pelo
racionalismo, sob a influência "decadente" de Sócrates.
Assim, Nietzsche estabeleceu uma distinção entre o apolíneo
e o dionisíaco:
Apolo é o deus da clareza, da harmonia e da ordem; Dioniso, o deus da
exuberância, da desordem e da música. Segundo Nietzsche, o apolíneo e
o dionisíaco, complementares entre si, foram separados pela civilização.
Nietzsche trata da Grécia antes da separação entre o trabalho manual
e o intelectual, entre o cidadão e o político, entre o poeta e o filósofo,
entre Eros e Logos. Para ele a Grécia socrática, a do Logos e da lógica,
a da cidade-Estado, assinalou o fim da Grécia antiga e de sua força
criadora. Nietzsche pergunta como, num povo amante da beleza, Sócrates
pôde atrair os jovens com a dialética, isto é, uma nova forma de
disputa (ágon),
coisa tão querida pelos gregos. Nietzsche responde que isso aconteceu
porque a existência grega já tinha perdido sua "bela
imediatez", e tornou-se necessário que a vida ameaçada de dissolução
lançasse mão de uma "razão tirânica", a fim de dominar os
instintos contraditórios.
Durante o verão de 1881, Nietzsche residiu em
Haute-Engandine, na pequena aldeia de Silvaplana, e, durante um passeio,
teve a intuição de O
Eterno Retorno, redigido logo depois.
Nessa obra defendeu a tese de que o mundo passa indefinidamente pela
alternância da criação e da destruição, da alegria e do sofrimento,
do bem e do mal. De Silvaplana, Nietzsche transferiu-se para Gênova, no
outono de 1881, e depois para Roma, onde permaneceu por insistência de
Fräulein von Meysenburg, que pretendia casá-lo com uma jovem
finlandesa, Lou Andreas Salomé. Em 1882, Nietzsche propôs-lhe
casamento e foi recusado, mas Lou Andreas Salomé desejou continuar sua
amiga e discípula. Encontraram-se mais tarde na Alemanha; porém, não
houve a esperada adesão à filosofia nietzschiana e, assim, acabaram
por se afastar definitivamente.
Em seguida, retornou à Itália, passando o
inverno de 1882-1883 na baía de Rapallo. Em Rapallo, Nietzsche não se
encontrava bem instalado; porém, "foi durante o inverno e no meio
desse desconforto que nasceu o meu nobre Zaratustra".
No outono de 1883 voltou para a Alemanha e
passou a residir em Naumburg, em companhia da mãe e da irmã. Apesar da
companhia dos familiares, sentia-se cada vez mais só. Além disso,
mostrava-se muito contrariado, pois sua irmã tencionava casar-se com
Herr Foster, agitador anti-semita, que pretendia fundar uma empresa
colonial no Paraguai, como reduto da cristandade teutônica. Nietzsche
desprezava o anti-semitismo, e, não conseguindo influenciar a irmã,
abandonou Naumburg.
Em princípio de abril de 1884 chegou a
Veneza, partindo depois para a Suíça, onde recebeu a visita do barão
Heinrich von Stein, jovem discípulo de Wagner. Von Stein esperava que o
filósofo o acompanhasse a Bayreuth para ouvir o Parsifal,
talvez pretendendo ser o mediador para que Nietzsche não publicasse seu
ataque contra Wagner. Por seu lado, Nietzsche viu no rapaz um discípulo
capaz de compreender o seu Zaratustra. Von Stein, no entanto, veio a
falecer muito cedo, o que o amargurou profundamente, sucedendo-se alternâncias
entre euforia e depressão. Em 1885, veio a público a Quarta parte de Assim
falou Zaratustra; cada vez mais isolado, o
autor só encontrou sete pessoas a quem enviá-la. Depois disso, viajou
para Nice, onde veio a conhecer o intelectual alemão Paul Lanzky, que
lera Assim falou Zaratustra
e escrevera um artigo, publicado em um
jornal de Leipzig e na Revista
Européia de
Florença. Certa vez, Lanzky se dirigiu a Nietzsche tratando-o de
"mestre" e Nietzsche lhe respondeu: "Sois o primeiro que
me trata dessa maneira".
Depois de 1888, Nietzsche passou a escrever
cartas estranhas. Um ano mais tarde, em Turim, enfrentou o auge da
crise; escrevia cartas ora assinando "Dioniso", ora "o
Crucificado" e acabou sendo internado em Basiléia, onde foi
diagnosticada uma "paralisia progressiva". Provavelmente de
origem sifilítica, a moléstia progrediu lentamente até a apatia e a
agonia. Nietzsche faleceu em Weimar, a 25 de agosto de 1900. Nietzsche enriqueceu a filosofia moderna com
meios de expressão: o aforismo
e o poema.
Isso trouxe como conseqüência uma nova concepção da filosofia e do
filósofo: não se trata mais de procurar o ideal de um conhecimento
verdadeiro, mas sim de interpretar e avaliar. A interpretação
procuraria fixar o sentido de um fenômeno, sempre parcial e fragmentário;
a avaliação tentaria determinar o valor hierárquico desses sentidos,
totalizando os fragmentos, sem, no entanto, atenuar ou suprimir a
pluralidade. Assim, o aforismo nietzschiano é, simultaneamente, a arte
de interpretar e a coisa a ser interpretada, e o poema constitui a arte
de avaliar e a própria coisa a ser avaliada. O intérprete seria uma
espécie de fisiologista e de médico, aquele que considera os fenômenos
como sintomas e fala por aforismos; o avaliador seria o artista que
considera e cria perspectivas, falando pelo poema. Reunindo as duas
capacidades, o filósofo do futuro deveria ser artista e médico-legislador,
ao mesmo tempo.
Para Nietzsche, um tipo de filósofo
encontra-se entre os pré-socráticos,
nos quais existe unidade entre o pensamento e a vida, esta
"estimulando" o pensamento, e o pensamento
"afirmando" a vida. Mas o desenvolvimento da filosofia teria
trazido consigo a progressiva degeneração dessa característica, e, em
lugar de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo, a filosofia
ter-se-ia proposto como tarefa "julgar a vida", opondo a ela
valores pretensamente superiores, mediando-a por eles, impondo-lhes
limites, condenando-a. Em lugar do filósofo-legislador, isto é, crítico
de todos os valores estabelecidos e criador de novos, surgiu o filósofo
metafísico. Essa degeneração, afirma Nietzsche, apareceu claramente
com Sócrates,
quando se estabeleceu a distinção entre dois mundos, pela oposição
entre essencial e aparente, verdadeiro e falso, inteligível e sensível.
Sócrates "inventou" a metafísica, diz Nietzsche, fazendo da
vida aquilo que deve ser julgado, medido, limitado, em nome de valores
"superiores" como o Divino, o Verdadeiro, o Belo, o Bem. Com Sócrates,
teria surgido um tipo de filósofo voluntário e sutilmente
"submisso", inaugurando a época da razão e do homem teórico,
que se opôs ao sentido místico de toda a tradição da época da tragédia.
Para Nietzsche, a grande tragédia grega
apresenta como característica o saber místico da unidade da vida e da
morte e, nesse sentido, constitui uma "chave" que abre o
caminho essencial do mundo. Mas Sócrates interpretou a arte trágica
como algo irracional, algo que apresenta efeitos sem causas e causas sem
efeitos, tudo de maneira tão confusa que deveria ser ignorada. Por isso
Sócrates colocou a tragédia na categoria das artes aduladoras que
representam o agradável e não o útil e pedia a seus discípulos que
se abstivessem dessas emoções "indignas de filósofos".
Segundo Sócrates, a arte da tragédia desvia o homem do caminho da
verdade:
"uma obra só
é bela se obedecer à razão",
formula que, segundo Nietzsche, corresponde ao aforismo
"só o homem que
concebe o bem é virtuoso". Esse bem
ideal concebido por Sócrates existiria em um mundo supra-sensível, no
"verdadeiro mundo", inacessível ao conhecimento dos sentidos,
os quais só revelariam o aparente e irreal. Com tal concepção,
criou-se, segundo Nietzsche, uma verdadeira oposição dialética entre
Sócrates e Dioniso: "enquanto em todos os homens produtivos o
instinto é uma força afirmativa e criadora, e a consciência uma força
crítica e negativa, em Sócrates o instinto torna-se crítico e a
consciência criadora". Assim, Sócrates, o "homem teórico",
foi o único verdadeiro contrário do homem trágico e com ele teve início
uma verdadeira mutação no entendimento do Ser. Com ele, o homem se
afastou cada vez mais desse conhecimento, na medida em que abandonou o
fenômeno do trágico, verdadeira natureza da realidade, segundo
Nietzsche. Perdendo-se a sabedoria instintiva da arte trágica, restou a
Sócrates apenas um aspecto da vida do espírito, o aspecto lógico-racional;
faltou-lhe a visão mística, possuído que foi pelo instinto irrefreado
de tudo transformar em pensamento abstrato, lógico, racional. Penetrar
a própria razão das coisas, distinguindo o verdadeiro do aparente e do
erro era, para Sócrates, a única atividade digna do homem. Para
Nietzsche, porém, esse tipo de conhecimento não tarda a encontrar seus
limites: "esta sublime ilusão metafísica de um pensamento
puramente racional associa-se ao conhecimento como um instinto e o
conduz incessantemente a seus limites onde este se transforma em
arte".
Por essa razão, Nietzsche combateu a metafísica,
retirando do mundo supra-sensível todo e qualquer valor eficiente, e
entendendo as idéias não mais como "verdades" ou
"falsidades", mas como "sinais". A única existência,
para Nietzsche, é a aparência e seu reverso não é mais o Ser; o
homem está destinado à multiplicidade, e a única coisa permitida é
sua interpretação. O
Vôo da Águia, a Ascensão da Montanha
A crítica nietzschiana à metafísica tem um
sentido ontológico e um sentido moral: o combate à teoria das idéias
socrático-platônicas é, ao mesmo tempo, uma luta acirrada contra o
cristianismo.
Segundo Nietzsche, o cristianismo concebe o
mundo terrestre como um vale de lágrimas, em oposição ao mundo da
felicidade eterna do além. Essa concepção constitui uma metafísica
que, à luz das idéias do outro mundo, autêntico e verdadeiro, entende
o terrestre, o sensível, o corpo, como o provisório, o inautêntico e
o aparente. Trata-se, portanto, diz Nietzsche, de "um platonismo
para o povo", de uma vulgarização da metafísica, que é preciso
desmistificar. O cristianismo, continua Nietzsche, é a forma acabada da
perversão dos instintos que caracteriza o platonismo, repousando em
dogmas e crenças que permitem à consciência fraca e escava escapar à
vida, à dor e à luta, e impondo a resignação e a renúncia como
virtudes. São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além
para compensar a miséria; inventaram falsos valores para se consolar da
impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes;
forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo;
criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias
terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. "Este ódio
de tudo que é humano", diz Nietzsche, "de tudo que é
'animal' e mais ainda de tudo que é 'matéria', este temor dos
sentidos... este horror da felicidade e da beleza; este desejo de fugir
de tudo que é aparência, mudança, dever, morte, esforço, desejo
mesmo, tudo isso significa... vontade de aniquilamento, hostilidade à
vida, recusa em se admitir as condições fundamentais da própria
vida".
A etimologia nietzschiana mostra que não
existe um "sentido original", pois as próprias palavras não
passam de interpretações, antes mesmo de serem signos, e se elas só
significam porque são "interpretações essenciais". As
palavras, segundo Nietzsche, sempre foram inventadas pelas classes
superiores e, assim, não indicam um significado, mas
impõem uma interpretação. O trabalho
do etimologista, portanto, deve centralizar-se no problema de saber o
que existe para ser interpretado, na medida em que tudo é máscara,
interpretação, avaliação. Fazer isso é "aliviar o que vive,
dançar, criar". Zaratustra, o intérprete por Os
Limites do Humano: O Além-do-Homem
Em Ecce Homo, Nietzsche assimila Zaratustra a
Dioniso, concebendo o primeiro como o triunfo da afirmação da vontade
de potência e o segundo como símbolo do mundo como vontade, como um
deus artista, totalmente irresponsável, amoral e superior ao lógico.
Por outro lado, a arte trágica é concebida por Nietzsche como oposta
à decadência e enraizada na antinomia entre a vontade de potência,
aberta para o futuro, e o "eterno retorno", que faz do futuro
numa repetição; esta, no entanto, não significa uma volta do
mesmo nem uma volta ao
mesmo; o eterno retorno
nietzschiano é essencialmente seletivo. Em dois momentos de Assim
falou Zaratustra (Zaratustra doente e
Zaratustra convalescente), o eterno retorno causa ao personagem-título,
primeiramente, uma repulsa e um medo intoleráveis que desaparecem por
ocasião de sua cura, pois o que o tornava doente era a idéia de que o
eterno retorno estava ligado, apesar de tudo, a um ciclo, e que ele
faria tudo voltar, mesmo o homem, o "homem pequeno". O grande
desgosto do homem, diz Zaratustra, aí está o que me sufocou e que me
tinha entrado na garganta e também o que me tinha profetizado o
adivinho: tudo é igual. E o eterno retorno, mesmo do mais pequeno, aí
está a causa de meu cansaço e de toda a existência. Dessa forma, se
Zaratustra se cura é porque compreende que o eterno retorno abrange o
desigual e a seleção. Para Dioniso, o sofrimento, a morte e o declínio
são apenas a outra face da alegria, da ressurreição e da volta. Por
isso, "os homens não têm de fugir à vida como os
pessimistas", diz Nietzsche, "mas, como alegres convivas de um
banquete que desejam suas taças novamente cheias, dirão à vida: uma
vez mais".
Para Nietzsche, portanto, o verdadeiro oposto
a Dioniso não é mais Sócrates, mas o Crucificado. Em outros termos, a
verdadeira oposição é a que contrapõe, de um lado, o testemunho
contra a vida e o empreendimento de vingança que consiste em negar a
vida; de outro, a afirmação do devir e do múltiplo, mesmo na dilaceração
dos membros dispersos de Dioniso. Com essa concepção, Nietzsche
responde ao pessimismo de Schopenhauer: em lugar do desespero de uma
vida para a qual tudo se tornou vão, o homem descobre no eterno retorno
a plenitude de uma existência ritmada pela alternância da criação e
da destruição, da alegria e do sofrimento, do bem e do mal. O eterno
retorno, e apenas ele, oferece, diz Nietzsche, uma "saída fora da
mentira de dois mil anos", e a transmutação dos valores traz
consigo o novo homem que se situa além do próprio homem.
Esse super-homem nietzschiano não é um ser,
cuja vontade "deseje dominar". Se se interpreta vontade de potência,
diz Nietzsche, como desejo de dominar, faz-se dela algo dependente dos
valores estabelecidos. Com isso, desconhece-se a natureza da vontade de
potência como princípio plástico de todas as avaliações e como força
criadora de novos valores. Vontade de potência, diz Nietzsche,
significa "criar", "dar" e "avaliar".
Nesse sentido, a vontade de potência do
super-homem nietzschiano o situa muito além do bem e do mal e o faz
desprender-se de todos os produtos de uma cultura decadente. A moral do
além-do-homem, que vive esse constante perigo e fazendo de sua vida uma
permanente luta, é a moral oposta à do escravo e à do rebanho.
Oposta, portanto, à moral da compaixão, da piedade, da doçura
feminina e cristã. Assim, para Nietzsche, bondade, objetividade,
humildade, piedade, amor ao próximo, constituem valores inferiores,
impondo-se sua substituição pela virtù
dos renascentistas italianos, pelo orgulho, pelo risco, pela
personalidade criadora, pelo amor ao distante. O forte é aquele em que
a transmutação dos valores faz triunfar o afirmativo na vontade de potência.
O negativo subsiste nela apenas como agressividade própria à afirmação,
como a crítica total que acompanha a criação; assim, Zaratustra, o
profeta do além-do-homem, é a pura afirmação, que leva a negação a
seu último grau, fazendo dela uma ação, uma instância a serviço
daquele que cria, que afirma.
Compreende-se, assim, porque Nietzsche
desacredita das doutrinas igualitárias, que lhe parecem
"imorais", pois impossibilitam que se pense a diferença entre
os valores dos "senhores e dos escravos". Nietzsche recusa o
socialismo, mas em Vontade
de Potência exorta os operários a
reagirem "como soldados". Apoiado na crítica nietzschiana aos valores
da moral cristã, em sua teoria da vontade de potência e no seu elogio
do super-homem, desenvolveu-se um pensamento nacionalista e racista, de
tal forma que se passou a ver no autor de Assim
Falou Zaratustra um percursor do nazismo.
A principal responsável por essa deformação foi sua irmã Elisabeth,
que, ao assegurar a difusão de seu pensamento, organizando o
Nietzsche-Archiv, em Weimar, tentou colocá-lo a serviço do
nacional-socialismo. Elisabeth, depois do suicídio do marido, que
fracassara em um projeto colonial no Paraguai, reuniu arbitrariamente
notas e rascunhos do irmão, fazendo publicar
Vontade
de Potência como a última e a mais
representativa das obras de Nietzsche, retendo até 1908 Ecce
Homo, escrita em 1888. Esta obra constitui
uma interpretação, feita por Nietzsche, de sua própria filosofia, que
não se coaduna com o nacionalismo e o racismo germânicos. Ambos foram
combatidos pelo filósofo, desde sua participação na guerra
franco-prussiana (1870-1871).
Por ocasião desse conflito, Nietzsche
alistou-se no exército alemão, mas seu ardor patriótico logo se
dissolveu, pois, para ele, a vitória da Alemanha sobre a França teria
como conseqüência "um poder altamente perigoso para a
cultura". Nessa época, aplaudia as palavras de seu colega em Basiléia,
Jacob Burckhardt (1818-1897), que insistia junto a seus alunos para que
não tomassem o triunfo militar e a expansão de um Estado como indício
de verdadeira grandeza.
Em
Para
Além de Bem e Mal, Nietzsche revela o
desejo de uma Europa unida para enfrentar o nacionalismo ("essa
neurose") que ameaçava subverter a cultura européia. Por outro
lado, quando confiou ao "louro" a tarefa de "virilizar a
Europa", Nietzsche levou até a caricatura seu desprezo pelos alemães,
homens "que introduziram no lugar da cultura a loucura política e
nacional... que só sabem obedecer pesadamente, disciplinados como uma
cifre oculta em um número". No mesmo sentido, Nietzsche
caracterizou os heróis wagnerianos como germanos que não passam de
"obediência e longas pernas". E acabou rompendo
definitivamente com Wagner, por causa do nacionalismo e anti-semitismo
do autor de Tristão e Isolda: "Wagner condescende a tudo que
desprezo, até o anti-semitismo".
Para compreender corretamente as idéias políticas
de Nietzsche, é necessário, portanto, purificá-lo de todos os desvios
posteriores que foram cometidos em seu nome. Nietzsche foi ao mesmo
tempo um antidemocrático e um antitotalitário. "A democracia é a
forma histórica de decadência do Estado", afirmou Nietzsche,
entendendo por decadência tudo aquilo que escraviza o pensamento,
sobretudo um Estado que pensa em si em lugar de pensar na cultura. Em
Considerações
Extemporâneas essa tese é reforçada:
"estamos sofrendo as conseqüências das doutrinas pregadas
ultimamente por todos os lados, segundo as quais o estado é o mais alto
fim do homem, e, assim, não há mais elevado fim do que servi-lo.
Considero tal fato não um retrocesso ao paganismo mas um retrocesso à
estupidez". Por outro lado, Nietzsche não aceitava as considerações
de que a origem do Estado seja o contrato ou a convenção; essas
teorias seriam apenas "fantásticas"; para ele, ao contrário,
o Estado tem uma origem "terrível", sendo criação da violência
e da conquista e, como conseqüência, seus alicerces encontram-se na máxima
que diz: O Estado, diz Nietzsche, está sempre
interessado na formação de cidadãos obedientes e tem, portanto, tendência
a impedir o desenvolvimento da cultura livre, tornando-a estática e
estereotipada. Ao contrário disso, o Estado deveria ser apenas um meio
para a realização da cultura e para fazer nascer o além-do-homem.
A loucura não passa de uma máscara que
esconde alguma coisa, esconde um saber fatal e "demasiado
certo". A técnica utilizada pelas classes sacerdotais para a cura
da loucura é a "meditação ascética", que consiste em
enfraquecer os instintos e expulsar as paixões; com isso, a vontade de
potência, a sensualidade e o livre florescimento do eu são
considerados "manifestações diabólicas". Mas, para
Nietzsche, aniquilar as paixões é uma "triste loucura", cuja
decifração cabe à filosofia, pois é a loucura que torna mais plano o
caminho para as idéias novas, rompendo os costumes e as superstições
veneradas e constituindo uma verdadeira subversão dos valores. Para
Nietzsche, os homens do passado estiveram mais próximos da idéia de
que onde existe loucura há um grão de gênio e de sabedoria, alguma
coisa de divino: Bibliografia
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Atualizada em 27/11/2000 |
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