entrevista
Essa entrevista foi publicada pela revista Fama em meados de 1991!!

     Por dois anos, os reis do i�-i�-i� fecharam-se em copas. Lan�aram "Arquivo" em 1990, uma colet�nea de hits, e pediram um tempo. Queriam pensar. Cansados da Fama? N�o... Herbert Vianna (guitarrista, letrista e vocalista), Bi Ribeiro (baixista) e Jo�o Alberto Barone (baterista), Os Paralamas do Sucesso, estavam preocupados em continuar- com qualidade- na trilha que os levou de Alagados � Montreux e acabar de uma vez por todas com a hist�ria de que eram melhores na estrada que no est�dio.

   A produ��o de "Os Gr�os" demorou quase um ano. Herbert precisou de 7 meses para compor a maioria das m�sicas do disco. Os outros dias foram consumidos na grava��o e mixagem, em Los Angeles. O �lbum �, para eles, uma esp�cie de s�ntese de todas as experi�ncias anteriores. Tem samba, reggae, maracatu,, refer�ncias de Beach Boys- uma antiga paix�o de Herbert-, led Zeppelin e at� rock ligeiramente pesado. Violinos, violas, cellos e metais ajudam a temperar a salada sonora de "Os Gr�os". A carreira internacional ganhou aten��o especial. O LP em espanhol vai ser lan�ado em Janeiro, e o vocalista teve que suar para perder seu sotaque argentino.

    Mas o ano n�o foi s� de trabalho para Os Paralamas . No meio da correria, Herbert cavou uma brecha em sua agenda para casar-se com a inglesa Lucy, com quem j� vivia h� tr�s anos. O trio inteiro bandeou-se para a Inglaterra, onde aconteceu a cerim�nia, mas j� est� com o p� na estrada enfrentando o grande desafio de reproduzirem o resultado obtido no disco: "Se passarmos por essa prova, � porque podemos continuar tocando", diz Herbert. Aqui, Os Paralamas contam como fizeram para encarar a maturidade e qual o segredo dessa uni�o de quase dez anos.

Qual � a grande novidade de "Os Gr�os"?
Herbert- A grande novidade � que se pode dizer que tem at� rock no disco. S�o m�sicas diferentes entre si. Tem funk, samba, reggae, balada e rock. Acho que "Os Gr�os" � uma esp�cie de desdobramento de tudo que fizemos anteriormente. Essa � a diferen�a, a miscel�ncia, e se n�o fosse isso n�o teria gra�a.
Barone- Variamos os sons, os ritmos. Pra usar um chav�o, estamos achando que � o melhor disco que fizemos at� agora. � uma coisa linda.

O �ltimo � sempre o melhor?
Herbert- Nem sempre. �s vezes, voc� est� de bode justamente com o �ltimo, de tanto que tocou, ouviu. Este, a gente n�o cansa de ouv�-lo, o que tamb�m � uma novidade.
Barone- Eu, por exemplo, gosto bastante de "Selvagem?", um disco tipo tapa no cara, �timo. Com ele, explodimos no Rock in Rio, come�amos a viajar muito. Na verdade, cada disco tem uma hist�ria pessoal, e eu me apaixono por cada um deles.
Bi- Como o Barone disse, pode parecer um chav�o dizer que este disco � o melhor, mas � o trabalho mais s�rio que j� fizemos.
Herbert- � t�o s�rio que eu, que normalmente falo como um papagaio nos lan�amentos dos �lbuns, quero ficar calado.

Por que?
Herbert- Porque, quando se faz um trabalho deste tipo, realmente se v� algumas coisas. Ou melhor, voc� sabe porque aquilo est� ali, porque � este som e n�o outro, e as pessoas podem n�o perceber desta maneira. Quer um exemplo? Tem m�sicas excelentes do passado, na minha opini�o, que nunca aconteceram. E ningu�m escreveu uma linha sobre elas...

Quais?
Herbert- Ah, tantas! Nebulosa do Amor, Voc� Me Quer...Para n�s, t�m um significado especial. Ent�o, n�o vou cair nessa de dizer: "Olha, esta can��o � fant�stica, n�s fizemos isto e aquilo, preste aten��o"

E para "Os Gr�os", voc�s se basearam em qu�? Tend�ncias?
Herbert- Nos baseamos em n�s. � uma tremenda bobagem este papo de achar que se faz m�sica em cima da tend�ncia. Outro erro s�o os que dizem: "Eu sou talentoso, o que eu fizer vai dar certo, porque eu sou o tal, etc...", Isto n�o � garantia de nada. N�s desconfiamos de n�s pr�prios mais do que ningu�m. Somos fracos, fazemos muita piada em cima do grupo. Agora que estamos come�ando a mostrar o novo show, pensamos assim: "Nesta cidade, se tiver cinco pessoas pra ouvir, � bastante". Temos autocr�tica...J� ouvi muitos dizerem: "N�o, n�o tenho nenhuma m�sica nova para o pr�ximo disco, mas vou para o est�dio e crio". J� vi isso acontecer e vi o fracasso que foi- um disco sem sustenta��o, sem sabor. S� se pode ir para o est�dio quando se tem realmente algo a dizer, consistente. Enquanto isso n�o acontece, deve-se esperar. Esperar e viver. Ir ali, comprar um peixe, passar na quitanda, ver um filme...
Barone- Ter um filho...

E o disco em espanhol?
Herbert- � um disco de sucessos. S�o oito m�sicas do arquivo, regravadas em espanhol, e uma nova, TRAC TRAC, do argentino Fito Paez, que tamb�m est� em Os Gr�os. TRAC TRAC � contundente, forte, bel�ssima. Olha a� eu fazendo justamente o que acabei de falar que n�o ia fazer....

Regravar as m�sicas em espanhol deu muito trabalho?
Herbert- Federal!
Barone- Eu n�o queria estar na pele do Herbert...
Herbert- � que, como eu tenho muitos amigos argentinos, acabei aprendendo espanhol com sotaque deles, e isso � muito malvisto no resto da Am�rica do Sul
Barone- O sotaque � muito regional, ent�o tem que se usar mais global, pra se ouvir no M�xico, Col�mbia...
Herbert- A Col�mbia tem um sotaque mais neutro, a minha professora viveu l�
Barone- Resumindo, no final da hist�ria, depois que o couro do Herbert foi esticado no sol, ele recebeu um tremendo de um elogio de quem fala espanhol de verdade. Disseram que n�o d� pra dizer que � um brasileiro que est� cantando. Est� t�o legal, t�o bem falado, t�o bem cantado...
Herbert- Chegam pra mim e dizem que n�o d� pra sacar o sotaque. Pode ser de um porto-riquenho, pode ser de um...
Barone- Alem�o...
Herbert- (rindo) Mas brasileiro, n�o, porque brasileiro tem uma forma muito caracter�stica de falar. Caprichei, caprichei mesmo, nos vocais tamb�m, nos dois discos.

Antes n�o caprichava?
Herbert- Antes eu era muito desleixado com vocal. Eu cantava gritando, desafinado. E em Os Gr�os tive um cuidado danado. No disco espanhol, o problema foi maior, porque tinha que cantar as m�sicas recentes e antigas. Que barra! Se cantar afinado pra mim j� � um problema, afinado e com pron�ncia j� viu, n�?

Quando ser� lan�ado o disco no mercado latino?
Bi- Em janeiro.
Herbert- O alvo priorit�rio abrange o centro do M�xico, porque atinge toda a popula��o latino-americana. � um grande lance, porque h� milh�es de pessoas que falam espanhol, r�dios que s� t�m programas em espanhol.

O rock latino est� com essa for�a?
Herbert- Ilha, eu j� ouvi v�rias pessoas do mercado fonogr�fico dizerem que, nos anos 90, a m�sica cantada em espanhol, nos Estados Unidos vai estourar, com aten��o especial ao pop-rock, que vem ganhando for�a.

O rock est� tocando mais por aqui tamb�m. � uma esp�cie de renascimento?
Herbert- A respons�vel por isso � a MTV, que est� chegando em muitos lugares. N�s sintonizamos a MTV em um sub�rbio de Macei�. O que � importante � que ela influencia os r�dios do Rio de Janeiro e de S�o Paulo, que por sua vez influencia o resto do pa�s. Isso explica o sucesso do Faith No More em Recife, Manaus... O Information Society passar um m�s fazendo shows por aqui.

 E os grupos nacionais, como ficam?
Herbert- N�o sei, porque ficamos um temp�o no est�dio, meio afastados. Mas acho que a onda, se � que se pode chamar assim, tamb�m vai pegar nas bandas nacionais, embora as r�dios, �s vezes, n�o percebam a for�a do rock nacional, que come�ou com a Blitz. A�, falam que o rock acabou, a m�sica jovem dan�ou, essas bobagens. Modismos, claro, existem. � a hist�ria do brega passar por cima do rock, do sertanejo passar por cima do brega. Mas a onda � bem vinda! Queremos estourar. Tudo que fa�a a m�sica brasileira tocar mais � fant�stico. Porque tocando mais n�s vamos ganhar mais. O sucesso dessa novela das sete, Vamp - uma das m�sicas da trilha, Tendo a Lua, faz parte de Os Gr�os- comprova isso. � um fen�meno parecido com a Blitz, uma linguagem nova, despretensiosa...

Como nos anos 80...
Barone- Como nos anos 80, que se experimentou muito. Tem sempre um p�blico grande dispon�vel para isso. � s� colocar � disposi��o produtos bons, legais, que eles acontecem. As bandas que conseguiram atravessar o deserto do final da d�cada passada s�o as que t�m tutano, fazem parte da m�sica brasileira
Herbert- E h� outro fator importante- a mudan�a do in�cio da FM no Brasil. Antigamente, era um aparelho de luxo, como � o CD hoje. Agora, todo mundo tem aparelho que pega FM. E o grande p�blico � o de FM, altamente popularizada. O ouvinte da FM participa mais. A garotada da Zona Sul compra o disco que quiser, n�o fica ligando para a r�dio pedindo. Agora, o cara que � f� de Leandro e Leonardo, e n�o tem grana, liga l� para o programa preferido e pede. Est� certo que o exemplo pode parecer disparatado, porque � uma m�sica que vende milh�es, mas mesmo assim h� os que n�o podem comprar. E esta atitude, o fato de ligarem pedindo a m�sica preferida, muda o perfil do r�dio. Ent�o tem gente pedindo, inclusive, os Paralamas... Com tudo isso, s� pod�amos caprichar. Deu um p* dum trabalho, mas valeu.

E ainda achou tempo para ir � Inglaterra se casar, voltar e terminar o disco?
Bi- N�o, n�o, n�o... a gente foi para Los Angeles, mixou, depois se casou...

Os tr�s se casaram com a Lucy?
Herbert- (gargalhadas)- N�o, n�o, n�o ...ha, ha, ha ..Eu me casei, eles foram l� conferir, de perto.

Os tr�s est�o casados?
Bi- Opa! Me tira fora dessa. Nem vem...
Barone- Eu t� nessa, casada�o com a M�rcia, com uma filha de 11 meses, a Clara...

E voc� Herbert, como est� a vida de casado?
Herbert- Excelente. N�s j� mor�vamos juntos. Voc� pensa que n�o, mas o casamento oficial tem algo muito legal, uma esp�cie de... D� uma aben�oada. Parece que apazigua, preenche... Pra mim, foi muito sensacional, at� como aprendizado cultural de outras tradi��es (Lucy � inglesa). A formalidade, o respeito. Aqui acabou completamente o respeito. Eu vejo por mim mesmo- n�o estou tirando o corpo fora, n�o. Eu chego atrasado, eu sou supererrado. Mas tenho feito for�a para melhorar em alguns aspectos. Moro com a Lucy h� quase tr�s anos, vamos e voltamos para a Inglaterra. Eu sinto que na minha educa��o houve uma mudan�a profunda.

Parece que voc�s tr�s se d�o superbem. � s� apar�ncia ou s�o realmente grandes amigos?
Barone- N�s nos damos bem s� quando tem rep�rter na frente ( risadas...) Bi- Fora disso, � cascudo...soco...
Herbert- Falando s�rio, antes de montarmos a banda, j� �ramos amigos
Barone- No dia 17 de setembro fez dez anos que os conheci

Por que uma data assim t�o marcante?
Barone- Foi na �poca em que o Vital ( o primeiro baterista, que inspirou a engra�ada Vital E Sua Moto, um dos primeiros hits dos Paralamas) tocava com eles, num festival de m�sica em Bras�lia. A� neste dia 17 de setembro ele n�o foi, e fui apresentado ao Herbert e ao Bi. Tocamos juntos, meio de brincadeira...
Bi- Mas s� h� nove que tocamos como banda. Um ano depois de conhecermos o Barone � que nos cruzamos novamente
Barone- Eu encontrava com o Herbert na Universidade Rural (Herbert fazia Arquitetura, Barone, Biologia, e Bi, Zootecnia) e ele dizia:
"Como �? Pinta l� ..." At� que acabou engrenando de n�s tocarmos seriamente, porque tamb�m havia uma s�rie de gostos comens, essas coisas ...

O que curtiam?
Bi- Todo mundo come�ou ouvindo roquenrol, Led Zeppelin, Jimi Hendrix, Cream... Mas esta fazer era o auge da New Wave. N�s conhec�amos Police, Clash, e descobrimos o reggae- a afinidade foi se construindo com o tempo

E por que voc�s s�o t�o avessos ao estrelato?
Barone- Ser estrela aqui n�o vale a pena, porque se � esquecido muito facilmente. Sempre fizemos tudo pela m�sica. E at� hoje somos capazes disso. O prazer de tocar nos mant�m juntos. O grande barato � curtir o que estamos fazendo. Tanto que tivemos uma experi�ncia curiosa no primeiro disco. Quando fomos gravar o Passo do Lui, chegamos � gravadora e dissemos que s� far�amos aquilo que gost�ssemos

Enfrentaram a gravadora mesmo sendo garot�es na �poca?
Herbert- Garotos, mas com um pouquinho de cabe�a, pelo menos. E depois sempre foi uma banda t�o barata. Agora est� ficando mais cara, porque a m�sica est� mais sofisticada, exige mais horas de est�dio. Mas antes, qu�! Selvagem? Foi gravado em duas semanas e meia, e �, at� hoje, o maior �xito comercial dos Paralamas- vendemos 750 mil discos. E o custo de produ��o foi baix�ssimo
Barone- N�o abrimos m�o de gravar apenas o que desejamos. E essa � a raz�o de sermos o que somos. Dizemos n�o ao sucesso f�cil
Herbert- Se a m�sica que fazemos n�o der mais certo, partiremos para outra coisa, mas se concess�o...E isso em todos os aspectos

Fora a m�sica, o que fazem os Paralamas?
Herbert- Eu adoro ficar em casa, agora curtindo meus computadores, meu teclado, minha mulher ...
Bi- Gosto de ir para o campo, andar a cavalo, ver plantas.
Barone- Mimar a Clara...

Nada os preocupa?
Herbert- S� a situa��o deste pa�s. Pensei que ia ficar preocupado com a perda da juventude, mas n�o. Acho que � porque nossa m�sica tem se adaptado � nossa velhice, est� mais madura
Barone- Eu me preocupo com a esclerose do Herbert... (risadas)
Bi- Corresponder ao nosso p�blico, que � fiel, que nos d� a maior for�a. Fora isso, nada.

O que cada um representa para o outro?
Herbert- Eles s�o meus maiores amigos, dividimos tudo, s�o pessoas maravilhosas. Eu sou, em muitos momentos, insurpot�vel. Ent�o gostaria de aproveitar e pedir desculpas pelas minhas chatices
Barone- Tem sido horr�vel te suportar mesmo!
Herbert- Obrigado por me suportar...
Barone- Mas n�o � isso, suportar... � brincadeira, nossa amizade no fundo � engra�ada, por isso � que ag�entamos!
Herbert- L� vem ele de novo....
Bi- Eu n�o sei falar deles, s� sei gostar.

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