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Aprofundamento à vírgula e ponto-e-vírgula


- A vírgula entre o sujeito e o verbo

 Muitos homens, preferem o caminho do dinheiro


 Que vírgula é essa? Aliás, qual é o raciocínio que você aplica na utilização desse sinal gráfico? É interessante, antes de compreender as regras básicas da vírgula, desmistificar um antigo conceito: o de que a vírgula indica somente a pausa na fala. Se pensarmos dessa maneira, o asmático virgulará de um jeito; o obeso e o atleta, de outro. Em verdade, a vírgula depende, além da pausa, do conhecimento da sintaxe das orações, isto é, da maneira como são construídas.

 Diante disso você pergunta: "Mas tenho que saber toda aquela análise sintática que vi na escola?" Seria bastante oportuno, mas não é necessária a análise sintática completa. Somente alguns conceitos são fundamentais, os quais você conhecerá nas linhas que se seguem.

 O principal conceito sintático que você deve conhecer é o sujeito: é o ser sobre o qual dizemos algo. Para achá-lo, basta perguntar "Quem?" a qualquer verbo. Quase todos os verbos têm um sujeito. Quando vamos corrigir um texto, temos que nos acostumar a perguntar "Quem?" a todos os verbos que escrevemos, a fim de identificar imediatamente cada sujeito. Peguemos a frase título: "Muitos homens, preferem o caminho do dinheiro". Perguntemos ao verbo: quem prefere? Sujeito: muitos homens. Está vendo? Agora você pode conhecer a primeira regra da vírgula: não separe o sujeito de seu verbo por vírgula! Logo, a forma correta seria Muitos homens preferem o caminho do dinheiro (sem a horrenda vírgula divorciando o sujeito do verbo). Outros exemplos: O homem que estuda vive mais (quem vive mais? O homem que estuda é o sujeito; sem vírgula, portanto); As mulheres choraram; os homens dançaram (quem chorou? As mulheres é o sujeito; sem vírgula, portanto; quem dançou? Os homens é o sujeito; sem vírgula, é claro); etc.


- Quer dizer que nunca haverá vírgula entre o sujeito e o verbo?


Nunca diga nunca! Em alguns casos, é absolutamente permitido (mas não obrigatório) meter a vírgula entre o sujeito e o verbo. Vamos pensar neste eslôgã: "Colégio Maxi - quem faz, aprova." Qual é o sujeito do verbo aprovar? Quem aprova? Quem faz... esse é o sujeito. Pela regra, não poderíamos pospor-lhe a vírgula, não é verdade? Porém, ele termina em verbo ("Quem faz"), e logo após aparece outro verbo ("aprova"). Poderia haver uma confusão, caso não houvesse a vírgula. Por isso, é permitido o seu uso: "Quem faz, aprova."

Quando o sujeito for muito extenso, também é lícita (permitida) a vírgula. Exemplo: Aqueles três homens de ternos laranja que se encontram de fronte ao mercado da esquina, parecem suspeitos. Qual é o sujeito do verbo parecer? Quem parece? Aqueles três homens de terno laranja que se encontram de fronte ao mercado da esquina... veja o tamanho da sucuri! Pode usar a vírgula, quando o sujeito for extenso!

- Que preciso saber para virgular bem?


 Ótima pergunta! Para nunca errar na virgulação, o ideal mesmo seria uma excelente noção de análise sintática. Mas, como a esmagadora maioria das pessoas desfruta de uma precária noção sintática, tentaremos, nas próximas linhas, abordar somente os termos estritamente necessários para uma boa virgulação.

 Para começar, é interessante notar que a ordem natural das frases é a seguinte: A) sujeito; B) verbo; C) complementos; e D) circunstâncias. O sujeito e o verbo você já conhece. Para encontrar o sujeito, pergunte Quem? a todos os verbos que vir pelo texto (aliás, para acertar a vírgula, acostume-se a detectar todos os sujeitos de seu texto; se usou um verbo, já lhe pergunte Quem?, a fim de saber quem é o seu sujeito).

 E os complementos? Como o próprio nome diz, são os termos que completam os verbos e nomes. Por exemplo, o verbo amar, na maioria das vezes, não tem sentido sem um complemento. Imagine alguém lhe dizendo: "Eu amei..." Não faltou algo? Afinal, quem ama ama alguma coisa. Esse alguma coisa é o complemento do verbo. Exemplos de complementos verbais (em negrito): Todos precisam de carinho; Ao shopping-center fui com minha irmã; Os alunos, bastante quietos, assistiam ao filme emudecidos...; etc. Os complementos, além de verbais, podem ser nominais, quando completam o sentido de um nome: necessidade de carinho; O amor à pátria era fantástico; Não há necessidade de chorar; etc. As circunstâncias (expressas pelo que a Gramática chama de advérbio e palavra denotativa) são as condições em que a frase (ou o que nela está expresso) se estabelece. As circunstâncias mais comuns são as de tempo, lugar, modo, intensidade, afirmação, negação, dúvida, etc. Exemplos ( as circunstâncias vêm em letra escura): Os ministros não se encontraram ontem, na festa do Presidente da república (tempo e lugar, respectivamente); Os dois se abraçaram agressivamente (modo); Talvez nos tenha sido melhor essa situação (dúvida); etc. Ficando claras essas quatro definições, já podemos começar a entender melhor a vírgula.

 Primeira regra: A vírgula deve ser usada para separar sujeitos, verbos, complementos ou circunstâncias que não estejam ligados pela conjunção e. Exemplos: Homens, mulheres, animais e crianças se desesperaram (usou-se a vírgula para separar os sujeitos homens, mulheres, animais; crianças não foi precedido por vírgula porque está acompanhado do e); Eles choraram, gritaram, beberam e morreram (usou-se a vírgula para separar os verbos choraram, gritaram, beberam; morreram não foi precedido por vírgula porque está acompanhado do e); Todos amam a TV, o rádio, as fofocas e a família (usou-se a vírgula para separar os complementos a TV, o rádio, as fofocas; a família não foi precedido por vírgula porque está acompanhado do e); O evento acontecerá no sábado, às 15h, no Hotel Fênix [usou-se a vírgula para separar as circunstâncias no Sábado (tempo), às 15h (tempo), no Hotel Fênix (lugar)].

 Segunda regra: A vírgula marca o deslocamento da ordem natural das frases. Como já vimos, a normal é A B C D (A - sujeito; B - verbo; C - complementos; D - circunstâncias).

 Veja este exemplo: Os funcionários da embaixada encontraram o presidente durante o encontro internacional.

A (sujeito) - Os funcionários da embaixada

B (verbo) - encontraram

C (complemento) - o presidente (quem encontra encontra alguém)

D (circunstância) - durante o encontro internacional (tempo)

 Usar-se-iam duas vírgulas para isolar um elemento deslocado dessa ordem natural.  Exemplo 1: A B, D, C - Os funcionários da embaixada encontraram, durante o encontro internacional, o presidente (a circunstância está isolada entre vírgulas, por estar fora de sua posição natural, que seria no final da oração);

 Exemplo 2: A, D, B, C - Os funcionários da embaixada, durante o encontro internacional, encontraram o presidente;

 Exemplo 3: D, A B C - Durante o encontro internacional, os funcionários da embaixada encontraram o presidente.

 Observações: Quando o elemento deslocado estiver no começo da frase, usa-se, obviamente, apenas uma vírgula, depois dele; se vier no final, o sinal vem antes. Quando no meio da oração, deve vir entre vírgulas. Deve haver duas!!!

- Então todo elemento deslocado vem com vírgula?


 Não! Só a(s) use se os elementos deslocados forem suficientemente grandinhos para atrapalhar a seqüência da frase. Tomemos o exemplo anterior: Os funcionários da embaixada encontraram o presidente durante o encontro internacional. Substituamos a circunstância, que é bem grandinha, por outra, de menos extensão. A palavra hoje, que também indica tempo, serve como exemplo: Os funcionários da embaixada encontraram o presidente hoje. Se deslocarmos essa circunstância, não há a necessidade da(s) vírgula(s), devido ao seu pequeno tamanho: Os funcionários da embaixada encontraram hoje o presidente. Entretanto, usa(m)-se a(s) vírgula(s) para enfatizar a circunstância: Os funcionários da embaixada encontraram, hoje, o presidente; Hoje, os funcionários da embaixada encontraram o presidente; etc.


- Há outros elementos que interferem na ordem natural da frase?


 Sim! Tudo o que interfere na ordem natural da frase é elemento interferente. E, se tiver um tamanho considerável, deve vir isolado pela pontuação. Para detectar esses elementos, é importante que tenhamos uma visão sintática da frase. Urge identificarmos A B C D (sujeito, verbo, complementos e circunstâncias). O que estiver sobrando (ou empatando no meio desses termos) pode ser isolado por vírgulas. Uma prova de que esses chatos são interferentes é o fato de poderem ser excluídos da frase, sem prejuízo ao sentido. Vamos a um exemplo (os elementos interferentes vêm em negrito):

 Os marinheiros, pelo menos dizem por aí, não se comportaram na nova cidade. E, como não bastasse, aterrorizaram as mulheres do porto, que, por serem bastante recatadas, ficaram chocadas.

 Veja que os elementos em negrito são interferentes. E estão entre vírgulas. Se os excluirmos, a frase continua tendo sentido:

 Os marinheiros não se comportaram na nova cidade. E aterrorizaram as mulheres do porto, que ficaram chocadas. As três orações presentes a esse trecho estão na ordem natural, e, por isso, não levam vírgula: Oração 1 - Os marinheiros (A); comportaram-se (B); na nova cidade (D - lugar); Oração 2 - Os marinheiros (A - aparece na oração anterior; é um sujeito oculto, pois sabemos quem praticou a ação, apesar de não aparecer na oração); aterrorizaram (B); as mulheres do porto (C); Oração 3 - As mulheres (A - esse sujeito está sendo substituído pelo pronome que); ficaram (B); chocadas (C).


 Em E como não bastasse, vem a vontade de pôr a vírgula somente depois de bastasse, né?


 É verdade. Vem uma vontade danada!!! Sabe por quê? É que raríssimos brasileiros sabem que a vírgula não depende somente da pausa. Depende, principalmente, da posição daqueles quatro elementos básicos da frase (sujeito, verbo, complementos e circunstâncias - A B C D).

 Vamos pensar no seguinte trecho do tópico acima: E, como não bastasse, aterrorizaram as mulheres do porto. Notou a presença do e? Pois é... ele é uma conjunção, elemento responsável por ligar orações ou termos da oração. Vamos entender melhor esse conceito? Observe estas duas orações, a título de ilustração: Os diretores da multinacional são egoístas; têm ajudado bastante os funcionários ultimamente. Primeiramente, sei que são duas orações porque há dois verbos (um deles - têm ajudado - é uma locução verbal, porque são dois verbos que valem por um), certo? O.k.! Como poderíamos unir essas duas orações? Usando uma conjunção, claro! Ela funciona como um conectivo, uma espécie de cimento: Os diretores da multinacional são egoístas, MAS têm ajudado bastante os funcionários ultimamente. Foi escolhida a conjunção mas em virtude de a segunda oração introduzir uma idéia contrária à expressa pela primeira.  Se alguém nos diz que fulano é egoísta, espera-se que este não ajude ninguém, não é verdade?

 Bem, sempre que usamos uma conjunção para ligar orações, urge termos em mente que esse elemento conectivo introduz uma oração. Isso mesmo! Se há conjunção, na maioria das vezes ela introduz, inicia uma oração. Voltemos ao exemplo antigo: E, como não bastasse, aterrorizaram as mulheres do porto. Qual é a oração que a conjunção e introduz? Se você respondeu aterrorizaram as mulheres do porto, acertou! A oraçãozinha como não bastasse está entre a conjunção e a oração que ela introduz, atrapalhando o caminho. É por isso que se devem usar duas vírgulas. Elas isolam qualquer elemento que esteja interferindo na ordem natural da frase. Outros exemplos: 1) Os meliantes demonstraram melhora; entretanto, como era de se esperar, não demoraram a fazer nova rebelião; 2) Isso não é justo porque, como o senhor mesmo sabe, eu não fui registrado em sua empresa; 3) Eles nem têm diploma. E, mesmo assim, ganham mais que os outros. Veja que os elementos em negrito poderiam ser retirados da oração, sem prejuízo ao sentido. Como estão "atrapalhando" a seqüência das orações, devem vir isolados pelas vírgulas. Contudo, se esse elemento for de pequena extensão (exemplo 3), podem-se omitir as vírgulas: (...) E mesmo assim ganham mais que os outros. Detalhe importante: nesses elementos pequenos que interferem no meio da oração, usam-se duas vírgulas ou nenhuma. Em hipótese alguma pode-se usar apenas uma ("E mesmo assim, ganham...").

- Antes do e, nunca haverá vírgula, certo?


 Erradíssimo! Estamos habituados a nunca pôr a vírgula antes da conjunção e, mas existem casos (bastante comuns, por sinal) em que ela deve existir. Exemplo: Muitos sofreram, e poucos ganharam. Nesse caso, a vírgula é perfeita. Por quê? Porque o e introduz uma oração de sujeito diferente do da anterior. Perceba que, nessa frase, há dois verbos; logo, dois sujeitos: quem sofreu? Muitos é o primeiro sujeito; quem ganhou? Poucos é o segundo sujeito. Viu só? A segunda oração tem outro sujeito, diferente do da outra. Outros exemplos: Há muitos problemas neste país, e temos que nos esforçar para mudá-lo (quem há? O verbo haver no sentido de existir não tem sujeito; quem tem que se esforçar? Nós é o sujeito); ONU oferece ajuda, e Brasil recusa (quem oferece ajuda? ONU é o sujeito; quem recusa? Brasil é o sujeito); Inúmeras pessoas só cantam e dançam nas férias (nessa frase, não caberia a vírgula antes do e, já que os dois verbos - cantar e dançar - compartilham o mesmo sujeito. Quem canta? Inúmeras pessoas; quem dança? Inúmeras pessoas); etc.

 Há outra situação em que a vírgula antes do e é obrigatória. Para entendê-la, voltemos ao conceito de conjunção: elemento que liga orações ou termos da oração. Repare neste exemplo: Floriano, muito cansado da viagem, e sua esposa deitaram cedo. O termo muito cansado da viagem está atribuindo uma qualificação a Floriano, e vem isolado por duas vírgulas. Veja que as vírgulas isolam esse termo. Obrigatoriamente deve haver duas vírgulas. Ou duas, ou nenhuma... Quê? Não entendeu o que é um termo isolado? Veja este outro exemplo, para o qual lhe forneceremos uma regra prática: As roupas, sujas como pau de poleiro, e a barba por fazer denunciavam-lhe a algazarra noturna. A vírgula antes do e faz par com a antes de sujas. Elas isolam o termo sujas como pau de poleiro.  Tanto isso é verdade que, se eliminarmos o termo isolado, a frase continuará a ter sentido: As roupas f e a barba por fazer (...). Viu? Os termos isolados podem ser retirados da frase... legal, né?

- A vírgula com vocativo

 Oi Fernando? Essa frase está certa?


 Não! Esse Fernando que você usou é, segundo a Gramática, um vocativo, termo que serve para invocar, chamar, pedir a presença de qualquer ente, real ou imaginário. E, por ser um vocativo, deve ser isolado por vírgula(s). Sempre! Logo, Oi, Fernando? Com vírgula! Um detalhe: se o vocativo estiver acompanhado da interjeição ó, os dois serão isolados. Exemplos: Veja só, caros amigos, o que foi feito; Ó Maria, será que não me vês?; Venha logo aqui, rapaz!; etc.

 A vírgula antes de mas, de porque e de outras conjunções

E vírgula antes do mas? Existe?

 É de praxe (mas não obrigatório) separar por vírgula as orações (lembre que oração é todo enunciado que possua um verbo ou uma locução verbal) que indicam idéias contrárias (como é o caso da oração introduzida por mas), tempo, causa, finalidade, lugar, explicação, condição, conseqüência, modo, conformidade, proporção, etc. A vírgula torna-se mais elucidante quando essas orações aparecem antes de outras. Vindo depois, a vírgula não é obrigatória, mas deve ser usada caso sua omissão comprometa a clareza e o sentido da frase. Exemplos (as vírgulas entre parênteses são dispensáveis): Muitos tentam, mas poucos conseguem (a oração grifada indica idéia contrária); Eu fiquei deveras feliz(,) quando cheguei a casa (a oração grifada indica tempo); Quanto mais se aprende, menos se sabe (a oração grifada indica proporção e vem antes da outra); Cheguei perto dela(,) a fim de que me contasse todos os seus segredos (a oração grifada indica finalidade); Tudo está aqui, de acordo com o que combinamos (a oração grifada indica conformidade); Sem se cuidar, penará muito! (a oração grifada indica condição e vem antes da outra), etc.


- Antes do porque a vírgula também é facultativa?


 Existem dois porquês que merecem atenção: o causal (que indica causa) e o explicativo (que, obviamente, explica algo). Antes do explicativo, sempre use a vírgula, pois ele introduz uma oração precedida por uma pequena pausa; antes do causal, use quando a oração que vier antes do porque tiver média ou grande extensão. Ah! você deve querer saber como reconhecer o causal e o explicativo, não é? Vamos aos exemplos: 1) Não corra, porque o chão está molhado; 2) Ela não veio porque está doente. Todo porque explicativo pode ser substituído pela palavrinha que (Não corra, QUE o chão está molhado); já o causal, obviamente, não pode (Ela não veio PORQUE está doente). Notemos que em 1) a pausa é marcada pela fala, o que não acontece em 2). Daí a necessidade da vírgula.

 Vamos a outros exemplos, adotando a seguinte regra prática: vírgula necessária antes de porque substituível por que; caso contrário, usemos o sinal de pontuação se a oração da esquerda for média ou grandinha. 3) Não era muito fã de trabalho(,) porque a família lhe ensinou assim (não cabe que no lugar desse porque - causal; a vírgula é facultativa, já que a oração da esquerda não é tão grande); 4) É bom ela vir logo, porque não tenho muita paciência (cabe que no lugar desse porque - explicativo; usemos a vírgula); 5) O Governo insistiu em não assinar o acordo com os demais países, porque julgou improcedentes as acusações (não cabe que no lugar desse porque - causal; apesar disso, é interessante usarmos a vírgula, haja vista a grande extensão da oração da esquerda). Como percebemos, quando o porque é causal (não cabe que), devemos confiar nos ouvidos, que nos acusarão a necessidade ou não da pausa.

- Como se comporta a vírgula com pois, entretanto, todavia, etc.?


 Vamos começar pelo pois. Essa conjunção (palavrinha que liga orações) pode ser explicativa (tendo o mesmo valor de porque) ou conclusiva, com o sentido de logo, portanto, dessa maneira, etc. Quando ela introduz uma explicação, geralmente há vírgula antes, separando-a da oração anterior. Vírgula depois, só se houver um elemento intercalado, atrapalhando a seqüência da frase. O pois pode, ainda, introduzir uma conclusão. Nesse caso, vem entre vírgulas. Exemplos: 1) As garotas se portaram bem, pois as portas ficaram abertas (o pois introduz uma explicação; a vírgula vem antes); As garotas se portaram bem, pois, como já era combinado, as portas ficaram abertas (o pois também introduz uma explicação, tendo vírgula antes. A vírgula que vem depois serve para isolar a oração intercalada, em negrito); O colégio, pois, ficou orgulhoso do comportamento delas (aqui o pois não está no começo da oração; tem valor conclusivo e deve ser isolado por duas vírgulas).

 As conjunções porém, contudo, todavia, entretanto e no entanto - que introduzem idéias contrárias, assim como o mas - obedecem à mesma regra do pois. A diferença é que no pois, dependendo de sua posição, há mudança de sentido (explicativo ou conclusivo); as outras conservam o valor adversativo (idéias contrárias) independentemente de aparecerem no início da oração (com uma vírgula antes, separando-a da anterior) ou no meio dela (isolado por vírgulas). Exemplos: Esperei bastante, contudo não desanimei; Esperei bastante. O desânimo, contudo, não tomou conta de mim; Aquele garoto come muito, no entanto continua magro; Aquele garoto come muito. Continua, no entanto, magro; etc. Obs.: As conjunções porém, contudo, todavia, entretanto e no entanto podem iniciar frases após ponto. Nesse caso, pode-se usar a vírgula depois: Muitos compareceram à festa daquele garoto. Contudo, ele não tem amigos de verdade.

- A vírgula antes do pronome que e de expressões explicativas

E a vírgula antes do "que"?

 Para usá-la corretamente, você deve ter em mente um conceito muito importante: o pronome relativo. É... entre várias funções, o que pode desempenhar a de pronome relativo. E é antes do pronome relativo que a vírgula costuma aparecer de maneira equivocada.

 Pronome relativo é toda palavrinha que retoma um nome. Veja este exemplo: Renata é a mulher que eu amo. Para saber se o que é pronome relativo, basta conferir se ele retoma um nome (esse nome não precisa ser, necessariamente, um nome de pessoa; pode ser qualquer substantivo ou, ainda, pronome ou numeral). O nome que vem antes do que é mulher (...a mulher que eu amo). Vamos tentar colocar mulher no lugar do que, para ver se a oração que o que introduz continuará a fazer sentido: a mulher eu amo. Opa! Fez sentido! Para ficar ainda melhor, é só inverter a ordem da oração: eu amo a mulher. Se o que retomou um nome, pode-se dizer com certeza que é um pronome relativo. E há outro detalhe, também importante: todo pronome relativo introduz uma oração (enunciado com verbo), que estará ligada a um nome. Veja só: Renata é a mulher que eu amo. Viu? A oração que eu amo está ligada ao nome mulher.

 Vejamos mais um exemplo: As músicas de que gosto não constam no elepê. A oração que o que introduz é de que gosto (se houver preposição - a, de, com, em, para, sobre, etc. - antes do que, ela entra na oração que ele introduz). O nome que vem antes do que é músicas (...músicas de que gosto). Se colocarmos músicas no lugar do que, a oração fará sentido: de músicas gosto (ou gosto das músicas). Pronto! O que é pronome relativo! E a oração que ele introduz está ligada a um nome: As músicas de que gosto não constam no elepê. Outro exemplo: Todos nós queremos que ela melhore. O que introduz a oração que ela melhore. Será que ele é pronome relativo? Será que retoma um nome? Vamos tentar pôr o nós em seu lugar: "nós" ela volte. Puxa! Não tem nada a ver! Não fez sentido... Se não retomou um nome, esse que não é relativo. E pode ver que a oração que ele introduz não está ligada a um nome, mas a um verbo: Todos nós queremos que ela melhore. A oração que ela melhore completa o verbo queremos. E nunca devemos separar por vírgula um verbo de seu complemento.

 Bem, provavelmente você já deve ter compreendido o que como pronome relativo. Já sabe que ele sempre introduz uma oração. Pois é justamente essa oração que pode ou não ser isolada por vírgula(s). Tudo vai depender de seu significado, que pode ser restritivo ou explicativo. Vamos entender?:

 Veja estes dois exemplos: 1) O homem que fuma vive menos; 2) O homem, que é um ser vivo, deve rever suas atitudes. Observe que a oração que fuma não vem entre vírgulas; a que é um ser vivo, por sua vez, aparece isolada. Por que isso aconteceu?

 Você deve ter percebido que ambas são introduzidas por um que relativo, certo? Tudo bem... isso é importante! Vejamos qual dessas orações restringe, delimita o significado do nome a que está ligada. Nos dois casos, o nome é homem, não é? A oração 1) que fuma está restringindo o significado de homem. De todos os homens do mundo, a oração que fuma restringe, delimita, aponta somente aqueles que fumam. Isso quer dizer que a frase em questão não se refere a todos os homens do mundo. Diz respeito somente àqueles que fumam. Por isso, a oração que fumam é restritiva.

 A oração 2) que é um ser vivo não restringe nada. Ela nos fornece uma idéia essencial do homem: todos os homens são seres vivos. É, portanto, explicativa Perceba que ela não nos traz novidade alguma. Tanto isso é verdade que ela poderia ser excluída da frase, sem prejuízo ao significado: O homem f deve rever suas atitudes.

 Viu só? As explicativas sempre aparecem com vírgula. As restritivas, nunca!

 O duro é saber quando a oração é restritiva ou explicativa...

 É nada... Tenha em mente que a restritiva restringe, delimita. Seleciona um ser entre vários. A explicativa somente explica algo que é essencial ao ser a que se refere. Antes de conferirmos novos exemplos, adotemos o seguinte raciocínio lógico: uma oração só poderá restringir um nome se ele pertencer a um grupo, não é verdade? Claro!!! Como delimitarei, restringirei um ser que é único? Não é possível! Logo, todas as orações iniciadas por pronome relativo que estiverem ligadas a um nome único serão explicativas: sempre com vírgula. Vamos a alguns exemplos:

1) (...) a reserva é rasgada pela BR - 376, que liga Curitiba ao interior do Estado; 2) Uma empresa demoliu a estrada asfaltada que levava ao parque; 3) A erosão está fortíssima. O problema, que atinge outras áreas, não foi controlado a tempo.

 É interessante, antes de mais nada, notar que todas as orações grifadas estão ligadas a um nome (BR - 376, estrada asfaltada e problema, respectivamente). E o que, nas três orações, retoma os nomes. Isso nos faz ter a certeza de que, em todos os casos, ele é relativo. Em 1), a oração que liga Curitiba ao interior do Estado foi separada por vírgula porque é explicativa. Não restringe BR - 376. Aliás, como poderíamos restringir a BR - 376? Há várias estradas com esse nome por aí? Claro que não. Por esse motivo, a oração ligada a ele só poderia ser explicativa... e com vírgula. Em 2), a oração que levava ao parque restringe, delimita o nome estrada asfaltada. Existem diversas estradas asfaltadas, e a referida oração restringiu, delimitou uma. No exemplo 3), a oração que atinge outras áreas explica o nome problema. Perceba que já sabemos algo sobre o nome problema. Ele se refere a erosão, que aparece um pouco antes. Desse modo, não se poderia restringir o problema, tendo em vista que se falava de um já especificado. A oração é explicativa (com vírgula), portanto.


- É só o "que" pode ser pronome relativo?

 Não... Qualquer palavrinha que retome um nome é pronome relativo. E introduz uma oração, que, como já vimos, pode ser separada por vírgula(s) ou não. Outros pronomes relativos: onde, quem, cujo, o qual, a qual, quanto, etc. Exemplos: 1) Meus parentes moram em Ribeirão Preto, onde a água é mais límpida; 2) Josias é um homem a quem devo muito respeito; 3) Não tenho tempo para essa garota, cujas ofensas já aturei o bastante. Em 1), onde retoma o nome Ribeirão Preto (a água é mais límpida em Ribeirão Preto). A oração que ele introduz - onde a água é mais límpida - é explicativa, porque se refere a um ser único (Ribeirão Preto). No segundo exemplo, a oração a quem devo muito respeito está ligada ao nome homem. E obviamente o está restringindo: de todos os homens existentes, esse é um a quem devo respeito. No exemplo 3), a oração cujas ofensas já aturei o bastante está ligada ao nome garota, que é um ser único, já delimitado pelo pronome essa (...essa garota). Pela frase, supõe-se que o falante já conheça a moça. Se é um ser único, não pode ser especificado. A oração a ele ligada, logo, é explicativa (com vírgula). Detalhe importante: lembre-se de que, se retirarmos as orações explicativas, não haverá grandes prejuízos ao sentido da frase. Imagine os exemplos 1) e 3) sem as explicativas: 1) Meus parentes moram em Ribeirão Preto f ; 3) Não tenho tempo para essa garota f . Tudo certo, não? Porém, se retirarmos a oração restritiva de 2), a frase teria o sentido original prejudicado: Josias é um homem f ...??? Viu só?


- Quer dizer que tudo o que for explicativo deve vir com vírgula(s)?


 É isso aí! Você pegou o espírito da coisa! Até agora, você só viu as orações explicativas (se são orações, possuem verbos). Há, entretanto, termos explicativos sem verbos (os quais, logicamente, não são orações). Veja estes exemplos: 1) E o deputado, um funcionário do povo, não quis atender o povo; 2) Muito aflito, o açougueiro mal podia falar; 3) João Fernandes, dono de uma grande loja no centro de Curitiba, é considerado o maior comerciante do Estado. Os termos isolados por vírgula(s) explicam ou qualificam um nome. Chamá-lo-emos de explicativos, apesar de a Gramática tradicional distinguir o aposto explicativo do predicativo do sujeito, termos aos quais não nos reportaremos agora, a fim de que você não se confunda. Em todos esses termos, pode perceber, é possível construir uma oração com pronome relativo. Veja: 1) E o deputado, que é um funcionário do povo, não quis...; 2) O açougueiro, que estava muito aflito, mal podia falar; 3) João Fernandes, que é dono de uma grande loja no centro de Curitiba, é considerado o maior comerciante do Estado. Todos os termos entre vírgulas são explicativos porque se referem a um ser único, já conhecido e citado pelo texto. Não restringem, somente explicam algo essencial a tais nomes. Podem, inclusive, ser retirados da frase, sem grandes prejuízos a ela.


- Essa regra também se aplica aos nomes de pessoas?

 Bem lembrado! Uma construção bastante freqüente no texto jornalístico é a posposição de um nome de pessoa a um cargo ou qualificação. Chamaremos a essa estrutura de qualificação / nome, só para simplificar. Bem, quando ela ocorre, o nome pode ter a mesma função restritiva de algumas orações, como as vistas logo acima. Ou pode, ainda, ser explicativo, isolado pela(s) vírgula(s). Vejamos dois exemplos bastante simples: O professor da UEL João Freitas foi considerado...; O reitor da UEL, Jackson Testa, assinou convênio... Perceba que, em ambas as frases, há a seqüência qualificação / nome (professor / João; reitor / Jackson). Na primeira, o nome não veio isolado pela pontuação, por ser um elemento restritivo. É... claro! Quando se fala de professor da UEL, refere-se a um grupo de pessoas, certo? Não existe somente um professor na instituição. Logo, o nome (João Freitas, no caso) restringe o professor de que se fala. Se é restritivo, não pode vir com vírgulas de modo algum. Porém, em se tratando do reitor, é sabido que somente uma pessoa ocupa esse cargo nas universidades. Destarte, o nome (Jackson Testa) não pode restringir ou delimitar o sentido da palavra reitor, pois há somente um. Ser único, o nome torna-se um elemento explicativo, isolado obrigatoriamente pela pontuação.

 É interessante reiterar que o elemento explicativo pode ser retirado da frase. O reitor da UEL f assinou convênio. Como só há um reitor, a ausência do nome não compromete o sentido da frase. Todavia, se retirarmos o nome restritivo em O professor da UEL João Freitas foi considerado... ("O professor da UEL f foi considerado"), o leitor simplesmente não saberá quem foi o dito-cujo, uma vez que há vários professores na universidade, e o nome delimitaria esse grupo. Outros exemplos: 1) O Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, viajou à Itália; 2) O presidente Fernando Henrique Cardoso viajou à Itália. Notou a diferença nas duas frases? Na primeira, FHC é explicativo, pois refere-se a um ser único (só há um Presidente da República) e, por isso, pode ser retirado da frase (O Presidente da República f viajou à Itália). Em 2), FHC é restritivo, porque delimita, restringe a palavra presidente (existem vários presidentes no Brasil... de empresas, instituições, clubes, etc.) Não pode, pois, ser excluído da frase.

 Se o nome da pessoa, entretanto, vier em primeiro lugar, a qualificação sempre estará isolada por vírgula(s), por ser termo explicativo: João Freitas, professor da UEL, foi considerado...; Jackson Testa, reitor da UEL, assinou...; Fernando Henrique Cardoso, Presidente da República, viajou...; etc.

 A vírgula em expressões como isto é, ou seja...

 Isto é, ou seja, ou melhor... isso vem entre vírgulas?


 Quando essas expressões introduzem uma explicação, costuma-se isolá-las por vírgulas. Exemplos: Renata mostrou-lhe a vida, isto é, a maneira certa de viver; Resolvi mudar de vida, ou seja, parar de fumar; etc. Se houver a intenção de reforçar a pausa antes de tais expressões, pode-se usar o ponto-e-vírgula antes: Renata mostrou-lhe a vida; isto é, a maneira certa de viver.

 A vírgula em tanto... quanto

 Tanto ele, quanto ela são meus amigos... essa vírgula existe?


 Claro que não! Vamos pensar um pouco nessa frase? Você usou um verbo (são), que, provavelmente, tem um sujeito. Vamos achá-lo: quem são meus amigos? Tanto ele quanto ela. Eis o sujeito. Perceba que, na verdade, há dois sujeitos: ele e ela. Eles são ligados por estruturas correlativas (Tanto... como), caso em que a vírgula é absolutamente desnecessária. Veja alguns exemplos: Tanto ele quanto ela são meus amigos; Não só Carlos mas também João vieram à festa; Tanto eu como meu primo fomos prejudicados; etc. Viu? Sem vírgula nesses sujeitos!

 A vírgula em expressões como e sim, e não

 Antes de e sim se usa a vírgula?

 Certamente. A expressão e sim, que introduz uma idéia contrária, uma correção da anterior, deve ser precedida de vírgula. Entretanto, não se deve isolar o sim com vírgulas. Use somente uma, antes do e sim. A regra também vale para e não. Exemplos: Ele não fez as tarefas de que foi incumbido, e sim as que ele quis; Ela quis agradar-me, e não ofender-me. Em se tratando de mas sim, pode-se isolar o sim com vírgulas: Ele não fez as tarefas de que foi incumbido, mas sim (ou mas, sim, as...) as que ele quis. Quer saber por que o sim, nesse caso, pode ser isolado? É porque o mas por si só já tem valor adversativo (que introduz idéias contrárias). Por isso, o sim pode funcionar como mero reforço, equivalendo a isso sim. Ele não fez as tarefas de que foi incumbido, mas, isso sim, as que ele quis.

 E a vírgula antes de como?

 Observemos estas duas frases: 1) Elas gostam de artistas como Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso; 2) Elas gostam de vários artistas, como Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Notou que antes do segundo como há vírgula? Pois é... e por que essa injustiça? Bem, é que o primeiro como introduz uma oração comparativa (que estabelece uma comparação): Elas gostam de artistas (que sejam) como (é) Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Logo, não se usa a vírgula. No segundo caso, o como introduz uma enumeração, isto é, palavras que enumeram e exemplificam o que acabou de ser dito. E perceba que o nome antes do como veio determinado por uma palavra (vários, no caso). Isso é muito comum quando em seguida vem uma enumeração: Elas gostam de vários artistas, como (por exemplo) Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Notou a diferença? Fique atento à intenção do como. Se ele introduzir uma enumeração (exemplos), a vírgula é necessária, em razão da pausa que se faz na fala. Em se tratando de comparações, não.

 Há vírgula antes do etc.?

  Alguns gramáticos usam, outros não. Estes dizem que, pelo significado – e outras coisas –, a vírgula é dispensada, pois já existe o e (sabe-se que, geralmente, antes do e não há a vírgula). O argumento é bom, mas os modelos (leia-se A Vírgula, de Celso Pedro Luft) são mais fortes. Grandes autores e obras – inclua-se o Formulário Ortográfico da Língua Portuguesa, documento de valor legal de nosso idioma – usam a vírgula. E eu, como um bom seguidor, também a adotei. Antes de etc., estará a minha vírgula. Sempre.

 Ponto-e-vírgula

 O ponto-e-vírgula indica uma pausa um pouco mais longa que a vírgula e um pouco mais breve que o ponto.
 O emprego do ponto-e-vírgula depende muito do contexto em que ele aparece.
 
Podem-se seguir as seguintes orientações para empregar o ponto-e-vírgula:

 Para separar duas orações coordenadas que já contenham vírgulas:
Ex. Estive a pensar, durante toda a noite, em Diana, minha antiga namorada; no entanto, desde o último verão, estamos sem nos ver.

 Para separar duas orações coordenadas, quando elas são longas:
Ex. O diretor e a coordenadora já avisaram a todos os alunos que não serão permitidas brincadeiras durante o intervalo nos corredores; porém alguns alunos ignoram essa ordem.

 Para separar enumeração após dois pontos:
Ex. Os alunos devem respeitar as seguintes regras:
- não fumar dentro do colégio;
- não fazer algazarras na hora do intervalo;
- respeitar os funcionários e os colegas;
- trazer sempre o material escolar.

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