A Família Burke no Brasil       - 1919-2006

 
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6 – VOLTANDO A VIVER NO CAMPO E

OS ÚLTIMOS TEMPOS DOS PIONEIROS

(1950-1990)

 

O Sítio, em Mogi das Cruzes           

O sítio, comprado em 1941, que Mr. Burke e D. Emma haviam batizado de "Sétimo Céu", tinha de início aproximadamente cinco alqueires, depois ganhou mais um alqueire (o "sítio do Papai Noel", adquirido do velho de barbas longas, Seu Ernesto). Ficava a cerca de cinco quilômetros do centro da cidade de Mogi das Cruzes, no bairro de São João do Caputera, ao lado da "Estrada da Pedreira", e distante 800m da estrada de terra que ligava Mogi à vila de Capela do Ribeirão. O sítio, em pouco tempo, veio a ser conhecido nas redondezas como "sítio dos americanos", mas os Burke simplesmente se referiam a ele como "o sítio".

Por volta de 1946, a Cia Light and Power desapropriou, litigiosamente, uma faixa com 110 metros de largura, para construção de uma linha de transmissão de alta voltagem (230.000 volts), cortando diagonalmente o sítio em duas partes. A faixa sob a linha podia continuar a ser explorada pelos Burke com plantações de baixo porte, sendo proibidas quaisquer edificações. A ironia desse fato foi a desapropriação ter sido feita, muito a contragosto de Mr. Burke, justamente para a passagem de uma linha de transmissão de energia gerada na usina de Cubatão (Henry Borden) da Light, que ele havia ajudado a construir cerca de vinte anos antes...

O sítio ficava na cabeceira de um pequeno vale, que descia até o Rio Tietê, num ponto pouco acima de Mogi. À sua direita, ficava o "morro da pedreira", de onde se extraia grande quantidade de "macacos" (paralelepípedos) e mourões de granito, cortados a mão com martelo e talhadeira. Tinha duas pequenas nascentes, uma perto do pé da pedreira, que dava origem ao pequeno córrego afluente do Tietê, e outra no pé do capão de mato, do lado esquerdo do sítio, que fornecia a água para beber e cozinhar. Mais ou menos no seu centro, havia um pequeno lago, quase totalmente todo tomado por taboa.

A velha casa do sítio era de alvenaria e coberta com telhas "francesas". O forro era de madeira e o assoalho de taboas de peroba. No início, consistia apenas de uma sala, que dava acesso direto a três quartos e uma cozinha (com fogão a lenha). Não tinha banheiro; havia apenas, do lado de fora, uma "casinha" de madeira, sobre uma fossa negra, sobre a qual havia um caixote de madeira sem fundo e com um buraco na parte de cima, servindo como "vaso sanitário". Os banhos eram tomados "de bacia", no meio da cozinha. Afastados 6m da casa, havia os restos de uma grossa parede de taipa, que restara "dos tempos dos escravos".

Havia também no sítio uma pequena casa de empregado (zelador), muito rústica, com chão de terra e coberta com telhas "coloniais" primitivas. Ela tinha uma cozinha, sala e três quartos, e do lado de fora a "casinha".

 O sítio não tinha eletricidade nem água encanada. A iluminação era feita com lamparinas, lampiões e velas, e o ferro de passar roupa era aquecido com brasas colocadas no seu interior. A água para uso geral e banho era tirada de um poço, distante vinte metros da casa, de onde era carregada em latas de vinte litros. Ao lado do poço havia um tanque para lavar roupa. O poço e o tanque eram cobertos por um pequeno telhado. A água para beber era colhida na nascente, no pé da mata, distante uns 150m da casa. Como não havia geladeira, a manteiga era conservada "refrigerada" dentro da lata enterrada na areia debaixo da "biquinha". 

Ao redor das casas, havia, dispersas, enormes jabuticabeiras nativas, que tinham sido deixadas no lugar quando a floresta primitiva foi derrubada "no tempo dos escravos". Uma grande parte do terreno servia de pasto, onde foram colocados os cavalos "Baio" e "Ghosty", trazidos caminhando desde Perus. Havia também algumas bananeiras e velhas laranjeiras, e o caseiro plantava um pouco de milho, feijão e arroz, e criava algumas galinhas. Logo depois que os Burke compraram o sítio, eles empreitaram o plantio de aproximadamente um alqueire de eucalipto, que anos depois viria a produzir postes e lenha, em vários cortes sucessivos. 

Pouco depois de terem comprado o sítio, Mr. Burke e D. Emma haviam feito algumas melhorias na casa sede, onde costumavam passar fins de semana e férias. Construíram uma nova cozinha (com fogão a querosene e uma pia) e transformaram a antiga cozinha em um corredor e um banheiro (com banheira, chuveiro, pia, privada e aquecedor Dako a carvão). Do lado de fora, construíram uma fossa céptica e colocaram uma caixa d'água elevada, ligada ao banheiro e à cozinha. No poço, colocaram uma bomba manual, ligada por encanamento à caixa d’água.

Mr. Burke e D. Emma, antes de se mudarem para o sítio, já haviam feito algumas modificações na casa. Construíram mais um dormitório, anexo ao que vinham ocupando, ficando este como "dressing room" (sala de vestir) do "apartamento" do casal. Fizeram uma lareira na sala e, ao longo do lado da casa que dava vista para o vale, construíram uma varanda, com 1,5m de largura. Com isso, a antiga frente da casa passou a ser os fundos, e a frente passou a ser o lado da varanda. Além dessas melhorias, fizeram um barracão, aproveitando a antiga parede de taipa e puxando um telhado de zinco de 5m de largura por 15m de comprimento, até a porta externa da nova cozinha. O barracão veio a se tornar mais tarde o local mais importante das atividades dos moradores do sítio, funcionando como lugar para secar roupa, fazer churrasco, guardar e classificar ovos, garagem para carro e trator, oficina, depósito de combustível e muitas outras coisas. Na foto, ao fundo, vê-se o morro da pedreira de granito. 

Quando em 1951 Mr. Burke, D. Emma, Tommy e Eddy foram viver no sítio, para iniciarem uma granja de galinhas, eles fizeram mais algumas melhorias importantes no sistema de abastecimento de água. Furam um novo poço bem ao lado da lagoa, onde instalaram uma moto-bomba (motor a gasolina), ligando a bomba a uma caixa d’água, erguida perto da entrada do sítio, para abastecer os galinheiros que estavam sendo construídos, e também a casa sede. Alguns anos depois, quando novos galinheiros e três novas casas (as de Eddy, Tommy e John) foram construídos, foi feito um novo poço, logo abaixo da nascente, no pé da mata, onde foi instalado um novo conjunto moto-bomba (motor a diesel), ligado a uma nova caixa d'água, construída no ponto mais alto do sítio, de onde a água descia para servir as quatro casas e a todos os galinheiros. Quando, finalmente, em 1957, os Burke conseguiram puxar por sua conta uma linha de força até o sítio, a velha bomba foi substituída por uma moto-bomba elétrica. Com a eletricidade, além das lâmpadas, foram chegando ao sítio os eletrodomésticos, como ferro de passar, rádio, liquidificador, aquecedor e TV (branco e preto) etc.

De 1951 a 1954, Tommy passava os períodos letivos na ENA (no Rio de Janeiro) e voltava para ajudar o Eddy durante as férias. Em algumas ocasiões ele trouxe os colegas amigos: "Teco" (Carlos Ortega Iriarte, guatemalteco), "Panchito" (Luiz Palazuelos, boliviano) e Dimas Waltrick (de Lajes-SC).           

Em 1954, Tommy terminou o curso de Agronomia e no dia 16/12/1954 se casou com Maria Therezinha, que conhecera em Bertioga e de quem era noivo desde 1949. O novo casal ficou morando na "casa do sítio", ocupando um dos quartos e construindo mais um anexo. Em 08/05/1955, Eddy se casou com Elza (filha de Jacob Jorge e D. Rachid) e eles ampliaram o quarto que ele vinha ocupando. Com isso, na "casa do sítio", já bastante modificada, passaram a morar os três casais. 

Em 1954, Tommy e Maria adicionaram mais um quarto à "casa do sítio", formando seu "apartamento".  Nesta foto, eles aparecem na janela da parte antiga do seu "apart". 

Em 1955, Eddy e Elza também fizeram o seu "apart" no canto sudeste da "casa do sítio". Ela passou, assim, a ter 3 "apartamentos", sala com lareira, banheiro, cozinha, terraço, galpão e garagem.Esta foto da casa do sítio foi tirada do "outro lado" da lagoa. No canto esquerdo está o "apart" construído por Eddy e Elza. No centro está a sala da casa e à direita o "apart" de Mr. e Mrs. Burke.

 

Em 1956, com uma ajuda financeira do sogro, Eddy e Elsa construíram perto do canto noroeste do sítio sua casa (sala, dois dormitórios, banheiro, cozinha e varanda), para onde se mudaram. Na foto da esquerda (de 1964), em frente da varanda da casa deles, estão Elza Maria, Edinho, Carlinhos e Paulinho (no colo do Edinho).

Em 1956, Tommy recebeu uma herança de seu tio-avô e padrinho (por procuração), Thomas Daily Joseph Burke, que havia falecido nos Estados Unidos em 1955, tendo antes colocado no seu testamento aquele seu desejo (um lote de ações do Chase Manhatan Bank, que foram depois vendidas por cinco mil dólares). Tommy e Maria aproveitaram o dinheiro para construírem sua própria casa (duas salas, dois dormitórios, cozinha, banheiro, lareira e varanda), perto da casa do Eddy.

 

 Em 1957, John e Cecília também construíram sua casa no sítio, entre as de Tommy e de Eddy (dois dormitórios, banheiro, cozinha, sala, varanda, garagem). Mais tarde, acrescentaram dependências de empregada. Nas fotos, tiradas em 1975 e 1978, John aparece de bigode, que usou durante algum tempo, e Cecília sendo abraçada por sua neta Patrícia.

 

À esquerda, estão John (Jr.) e Pedro Paulo. (foto de 1959)

 

À direita, foto de João Passos tirada em 1959, quando ele passava férias com os Burke no sítio. Ao fundo aparece o primeiro conjunto de galinheiros construído na granja.

 Em agosto de 1957, Frances Hennessy e Anna Colligan, as grande amigas de juventude de D. Emma, vieram novamente ao Brasil para visitar os Burke. Frances Hennesy voltou ainda mais duas vezes, em 1961 e em 1968.

Foto tirada em 1959, quando "Uncle Carl" (Charles Burke, irmão de Mr. Burke) com sua esposa Frances, vieram dos EUA passar algum tempo com a família no sítio. Trouxeram consigo várias garrafas de whisky, que foram rapidamente consumidas pelos próprios visitantes,  com alguma ajuda de Mr. Burke...

 Em 1968, "Uncle Arthur" (Charles Aubry) e sua mulher Florence Burke (irmã de Mr. Burke), também vieram passar uns tempos com os Burke em Mogi. Ele trouxe consigo seu inseparável estojo de tacos de golfe. Esperava jogar grandes partidas no sítio... e acabou tendo que se contentar em bater umas bolinhas no gramado ao lado do barracão...

 

A Granja

Quando os Burke começaram a pensar em explorar uma granja de galinhas, só havia no Brasil duas raças especializadas na produção de ovos: a Leghorn e a New Hampshire. A Leghorn era totalmente branca, muito leve e produzia ovos de casca branca. A New Hampshire tinha coloração avermelhada, era mais pesada e produzia ovos "vermelhos", que tinham melhor preço no mercado. A escolha dos Burke foi pela New Hampshire, talvez influenciados pelo fato de terem criado em Água Fria galinhas da raça "Rodes" vermelhas (Road Island Red), e da qual a New Hampshire tinha se originado, e por preferirem ovos de casca avermelhada. O sistema de criação escolhido foi o de semi-confinamento.

Os pintos de um dia (só fêmeas), eram comprados da Granja Santo Onofre, em São Paulo. Eram criados durante os primeiros dias em "baterias" metálicas, aquecidas por lamparinas a querosene, dentro do quarto ao lado da "fábrica de ração". Dali, depois de vacinados contra "bouba" e doença de New Castle, os pintos passavam para o "pinteiro", um abrigo de alvenaria, estreito e comprido, com duas alas, e piso telado, onde ficavam até se tornarem franguinhas; depois iam para os galinheiros de postura.

 

Os galinheiros foram construídos em alvenaria, piso de cimento liso e cobertos com "Brasilit" (chapas onduladas de cimento-amianto). O piso era forrado com palha de capim gordura, produzida no próprio sítio. No centro de cada galinheiro havia um tablado, sobre o qual era colocado, horizontalmente, o "poleiro". Encostados na parede do fundo ficavam os ninhos de madeira, e na frente o bebedouro (um cocho de cimento). Distribuídos pelo chão, ficavam os comedouros (cochos de madeira, sobre os quais havia uma madeira roliça, que podia girar livremente, evitando que as galinhas entrassem no comedouro ou se empoleirassem sobre ele). Havia, também, um comedouro com cascas de ostras quebradas. Cada galinheiro tinha ao seu redor uma área cercada com "tela de galinheiro" e plantada com capim kikuio (originário da África), à qual as galinhas tinham livre acesso durante o dia, quando não estava chovendo. Na primeira foto estão Eddy (com uma cesta de ovos), Joãozinho Passos e Teco (Carlos Ortega Iriarte), guatelmateco, colega do Tommy na Escola Nacional de Agronomia. Ao todo, foram construídos 6 desses galinheiros (2 conjuntos de 3 galinheiros). Nesta foto aparece o primeiro conjunto construído no sítio. Na frente vê-se o pátio cercado, ao qual as galinhas tinham acesso nos dias sem chuva.

Com o passar do tempo, verificou-se que os galinheiros apresentavam alguns problemas: a cama de palha ficava muito molhada e emplastrada; as galinhas acabaram completamente com o kikuio e quando chovia a área virava um "chiqueiro", trazendo sérios problemas para a saúde das aves (especialmente verminoses). O sistema foi, então, mudado para o de confinamento total, sendo a cama substituída por um ripado removível (para permitir a retirada do esterco), colocado 30 cm acima do piso. O telhado de cimento amianto causava um calor excessivo dentro dos galinheiros, especialmente durante os dias mais quentes, o que foi remediado pela abertura de estreitas janelas ao longo da parede do fundo, permitindo uma melhor circulação do ar. Alguns anos depois, foi construído um grande galinheiro (o último), com telhado bem mais alto e com telhas de barro "francesas", e o ripado colocado numa altura que permitia retirar facilmente o esterco sem precisar remover o ripado.   

 A ração para alimentação das aves era preparada no próprio sítio, com os ingredientes adquiridos nos armazéns especializados (Sakoda e Shibata), em Mogi. A "fábrica de ração" foi montada na velha casa desocupada do caseiro. Consistia de um "misturador", uma enorme banheira de madeira, onde todos os ingredientes (farelo e farelinho de trigo, "refinazil", farinha de soja, fubá, quirera, farinha de carne, farinha de osso, farinha de ostra, alfafa em pó, mistura de sais minerais e vitaminas, e terramicina), devidamente pesados, eram jogados e misturados com uma enxada. Ao lado do misturador, ficava um enorme caixotão de madeira, com quatro repartições, com tampas, onde as diversas rações prontas (para pintos, frangas e poedeiras) eram guardadas. Dali, a ração era carregada, em baldes de 20 litros, até os galinheiros, várias vezes por dia. Alem da ração, as aves recebiam uma certa quantidade de folhas de couve gigante, plantada numa horta perto da lagoa. Alguns anos mais tarde, quando surgiram no mercado rações já prontas, os Burke aderiram ao novo sistema, passando a comprar ração granulada ("peletizada").

Os ovos eram retirados dos ninhos todas as tardes e levados até o barracão, onde eram classificados por tamanho, colocando-os num classificador manual de madeira (conjunto articulado de tábuas sobrepostas, com orifícios de diferentes diâmetros). Depois de classificados, os ovos eram colocados em caixas de madeira, contendo várias "gavetas" providas de alças de arame para manter os ovos no lugar. Dali, as caixas de ovos eram levadas ao armazém em Mogi que fornecia os ingredientes para a ração, para serem comercializados.

A postura de cada lote de galinhas era controlada por meio de fichas, onde eram registrados: data de aquisição dos pintos; procedência; data em que foi botado o primeiro ovo, o número de ovos postos em cada mês, o total de dias desde o primeiro ovo, e o número total de ovos produzidos nesse período. Ao lado está a ficha do primeiro lote (experimental) da granja, de 6 de julho de 1951, com o primeiro ovo posto no dia 01 de janeiro de 1952. As fichas de acompanhamento dos lotes eram redigidas em inglês, por D. Emma.

Logo, os Burke perceberam que o preço pago pelos ovos oscilava muito em função da época do ano. Nos períodos de "muda" (troca das penas, entre fevereiro e abril) a postura caia e os preços subiam bastante, enquanto que na época de maior postura (outono, inverno e primavera) os preços despencavam, muitas vezes não cobrindo os custos de produção. Resolveram, então, passar a produzir ovos para incubar, que alcançavam um preço bem melhor durante o ano todo.

Fizeram um contrato com a Incubadora Saito, de Mogi das Cruzes, para o fornecimento de ovos de galinhas selecionadas de alta postura. Compraram alguns galos (1 galo para cada 8 galinhas), e transformaram todos os antigos ninhos em "ninhos alçapão", com uma portinhola, que desarmava quando a galinha entrava para botar, ficando ali presa até ser solta.. Todas as galinhas eram numeradas, pela colocação de um anel de alumínio numerado numa das pernas. Ao lado de cada conjunto de ninhos havia uma prancheta, segurando uma ficha com 33 colunas. Na primeira coluna constavam os números de todas as galinhas do galinheiro, e nas demais colunas (uma para cada dia do mês) eram feitos risquinhos sempre que a galinha punha um ovo, o que era constatado ao se pegar a galinha para soltá-la do ninho. No fim do mês, o total de ovos postos por cada galinha era anotado na última coluna, e os dados eram transferidos para fichas individuais. Assim, cada galinha tinha sua história de postura perfeitamente registrada. As boas poedeiras eram mantidas como reprodutoras por dois anos, e aquelas que não atingiam um índice mínimo mensal de 22 ovos (240 ovos por ano) eram imediatamente vendidas para o abate. Somente os ovos dentro do padrão (entre 53 e 60g) eram destinados à incubação, sendo os maiores e menores vendidos para o consumo normal, e os muito grandes (com duas gemas) ficavam para serem consumidos no sítio.

Outra exigência para a produção de ovos para incubação era um rigoroso controle sanitário das aves, especialmente em relação à neurolinfomatose, doença que afeta o sistema nervoso e linfático, e acaba matando a ave. Um dos sintomas iniciais da doença (nem sempre presente) é uma deformidade da íris do olho, mas o único exame seguro é através do exame de sangue, que pode ser feito de uma forma muito rápida, colhendo-se uma gota de sangue numa lâmina de vidro e pingando sobre ela uma gota do antígeno específico, e observando o padrão de coagulação (visível a olho nu). Inicialmente, esse controle era feito por funcionários do Instituto Biológico de São Paulo, que iam até a granja, mas isso se revelou muito complicado e incerto devido à distância e à insuficiência de pessoal. Eddy e Tommy resolveram, então, passar a fazer eles mesmos os exames, inicialmente com antígeno conseguido no Instituto Manguinhos, no Rio de Janeiro, e depois no Instituto Biológico, em São Paulo. O exame causava uma enorme "comoção" no galinheiro, pois cada ave precisava ser apanhada, examinada e testada, e em seguida separada das demais (colocadas em grandes engradados). Isso ocasionava muito stress nas galinhas, o que se refletia durante os dias seguintes por uma acentuada queda na postura, causando muito prejuízo.

 Em resumo, toda a complicação e os custos adicionais para a produção de ovos de incubação, acabou se revelando não ser economicamente vantajoso em relação à produção de ovos para o consumo, apesar do seu preço melhor e mais constante. Os Burke resolveram, então, partir para um projeto muito mais simples e menos oneroso que a produção de ovos: a produção de frangos de corte. A idéia era aproveitar os galinheiros e as instalações existentes para criar frangos em vez de poedeiras. As aves poderiam ser vendidas em apenas 90 dias, o tempo que era necessário para se produzir um frango New Hampshire com um peso médio em torno de 1,7 quilo (atualmente, com os híbridos modernos, um frango atinge mais de 2 quilos em apenas 40 dias).

O projeto de criação de frangos foi posto em prática, e como Tommy e Eddy passaram a ter mais tempo disponível, resolveram aproveitar o resto do sítio com agricultura. Compram um pequeno trator Massey-Harryson (Poney) à gasolina (com arado e grade de discos) e um conjunto de irrigação por aspersão, e passam a plantar "batatinha" ("batata inglesa"), batata doce, pimentão, abóbora e amendoim. Começaram, também, uma criação de coelhos, para produção de coelhinhos (láparos), que eram comprados pela Rhodia, para testes de vacinas e medicamentos. A criação terminou subitamente, quando, numa noite, cachorros de alguma propriedade próxima arrombaram as telas do galinheiro e das coelheiras, matando todos os coelhos.

 Todos esses empreendimentos de criação e agricultura se revelaram repletos de riscos, especialmente quanto à comercialização dos produtos, ficando evidente que o sítio não seria capaz de gerar renda suficiente para sustentar as três famílias que viviam dele. Para conseguir um dinheirinho extra, Tommy e Eddy chegaram a arar e gradear terra com o trator do sítio, para um fazendeiro de Guararema, onde ficaram acampados, se revezando a cada dois dias, e trabalhando de sol a sol. Mas o resultado de tudo é que, ao longo dos anos, o sítio foi acumulando uma dívida considerável junto aos fornecedores, que só foi quitada com uma ajuda de um parente, que mandou dos Estados Unidos, como presente, uma certa quantia; com a venda da parte do sítio que ficava do outro lado da faixa da Light; a venda de postes e lenha de eucalipto, do trator e seus implementos, do conjunto de irrigação e da vaca  leiteira Daisy. 

Tommy resolveu, então procurar um emprego, e conseguiu ser admitido pela Secretaria da Agricultura do estado de São Paulo, como Engenheiro Agrônomo da recém criada Casa da Lavoura do município de Itaquaquecetuba, começando, assim, uma atividade que o ocuparia pelos próximos 33 anos. Trabalhou durante um ano em Itaquá (indo e vindo de trem), e depois foi transferido para a Casa da Lavoura de Mogi das Cruzes, no lugar de Edson Consolmagno, que tinha sido promovido ao cargo de Delegado Regional Agrícola. Tommy e Maria continuaram morando no sítio até 1966, depois se mudaram para uma casinha alugada em Mogi (do Seu Petená), onde ficaram até 1968, quando Tommy foi transferido para Campinas. (para mais informações sobre o casal, ver Cap. 8 – Biografias Resumidas)

Eddy e Elza, que tinham uma pequena renda do aluguel de uma casa em Mogi, recebida em herança do pai da Elza, continuaram no sítio, criando frangos (os pintinhos, agora, aquecidos por lâmpadas de luz infra-vermelho, e não mais por lampiões de querosene). Mas, numa noite, ladrões de galinha roubaram todos os frangos, que estavam quase no ponto de serem vendidos, e então Eddy também resolveu parar com criação de aves e procurar um emprego.

 

Desde 1952 os Burke contaram com a colaboração do empregado "Pedrinho" ou "Pedro" (Pedro Conceição). Ele era pequeno e magrinho. Havia sido empregado duma chácara vizinha (do Seu Felipe, um espanhol que trabalhava "cortando pedra" na pedreira). Pedro fazia de tudo, e aprendia coisas novas com grande facilidade. Sempre prestativo, muito alegre e divertido, tornou-se, mais que um empregado, um grande amigo de toda a família. Nunca se casou (dizia que era porque sua noiva tinha morrido poucos dias antes da data marcada para o casamento). Morava numa casinha que possuía na Vila Natal, em Mogi, de onde vinha e voltava a pé todos os dias para o trabalho. Anos depois, quando a granja foi desativada, ele foi morar no sítio, num "apartamento" (a "casa do Pedro") no qual o antigo "pinteiro" foi transformado. Ele chamava Mr. Burke de "Capitão". Nas horas de folga, Pedro costumava acompanhar Tommy e Eddy em pescarias e caçadas de pombas do mato, rolinhas, gambás, rãs e lagartos.

 

A "Fruticultura Mogi"

 A essa altura, Tommy e Edson Consolmagno haviam resolvido se associar para a produção de mudas de oliveira (uma cultura que estava começando a se implantar no Brasil) e de algumas frutas de clima temperado. Convidaram Eddy, que não estava satisfeito no seu emprego, para administrar o empreendimento. Eddy receberia o pagamento de um salário mínimo por mês e mais uma participação nos resultados, proposta que ele aceitou, dando, assim, origem a mais uma nova fase de exploração do sítio.   

Eddy, com a ajuda do Pedro (que logo se tornou um excelente enxertador), implantou a "Fruticultura Mogi". No sítio foram plantadas diversas variedades de oliveira (negrusco, arauco, manzanila, gordal) e "ligustro" (Ligustrum sinensis, uma planta da família da oliveira, empregada como porta-enxerto). No terreno vizinho, que Edson Consolmagno havia comprado da família Hartmann, foram plantados pomares de caqui, figo, maçã e "laranjinha cunquate" (que se come com casca e tudo).

No início, a principal atividade da Fruticultura, era a produção de mudas de oliveira, enxertadas em ligustro, e vendidas com as raízes envoltas em terra, dentro de balainhos de bambu trançado. Depois passou também a produzir mudas enxertadas de caqui, pêssego, maçã e noz pecan, vendidas durante o inverno, com as raízes nuas (sem terra), em feixes e com as raízes protegidas por um pouco de musgo e envoltas em saco de aniagem. Produziu também mudas de nêspera, que eram vendidas em balainhos, como as de oliveira. Quando as fruteiras entraram em produção, a Fruticultura Mogi passou também a vender caqui, figo e cunquate.   

Para ajudar nos trabalhos, a Fruticultura comprou um micro-trator Tobata (a diesel), com enxada rotativa, roçadeira, pulverizador e carreta. Construiu uma estufa (de gás acetileno) para "destaninar" caqui, dentro de uma parte do grande galinheiro desativado. Também fechou um canto dele para servir de garagem e oficina para o micro-trator e seus implementos. Outra parte do galinheiro foi aproveitada para a instalação de um germinador de sementes de caqui, inventado e construído por Tommy e Eddy (aquecido por resistência elétrica e temperatura controlada por termostato).

Tommy e Eddy também inventaram um novo método para a produção de mudas de pecan e caqui: a enxertia por "garfagem em fenda inglesa, no colo da raiz do cavalo", feita sobre uma mesa. Os porta-enxertos ("cavalos") eram semeados na primavera, em tubinhos de lâmina de madeira cheios de terra, e arrancados no inverno seguinte para serem enxertados. Depois de enxertadas, as mudas eram replantadas no campo, para continuarem seu crescimento até o inverno seguinte, quando eram arrancadas para serem vendidas. Com o novo processo conseguiam ganhar um ano no tempo necessário para a produção das mudas, e elevando para quase 100% o "pegamento" dos enxertos.

Para facilitar e tornar mais rápido o enchimento dos tubinhos, eles inventaram e construíram uma máquina especial. Era uma mesa com um furo no centro e sob ele ficava preso um cilindro na vertical, no interior do qual movia-se um pistão acionado por um pedal. Sobre a mesa havia um depósito (moega), de onde a terra misturada corria por um funil para o interior do cilindro. A operação era muito simples: com o pedal, baixava-se o pistão, colocava-se a lâmina de madeira no interior do cilindro, enchia-se com terra, pressionava-se o pedal fazendo o tubinho cheio sair do cilindro, e colocava-se um elástico ao redor do tubinho. A seguir, os tubinhos cheios eram colocados em canteiros, sob um ripado, onde recebiam as sementes de caqui e de pecan.

Apesar da Fruticultura Mogi ter ido bem do ponto de vista da produção, ela nunca chegou a ser economicamente muito interessante.

 

O sítio começa a se desfazer

Em 1966, Tommy e Maria mudaram-se para Mogi e alugaram sua casa do sítio, e em 1968 mudaram para Campinas. Tommy desfez sua sociedade com Edson, desativando a "Fruticultura Mogi". Em 1968, Eddy e Elza mudaram-se para Mogi, e alugaram sua casa do sítio, e Eddy começou a trabalhar na fábrica de cerâmica da Cia Ceramus, em Suzano. Depois passou para a fábrica de tratores da Valmet, em Brás Cubas, como encarregado de garantia, onde trabalhou de 1970 a 1990.  Em 1979, John e Cecília mudaram-se para Campinas, e também alugaram sua casa do sítio. Mr. Burke e D. Emma, que pouco a pouco passaram a ser tratados simplesmente por "Grandpa" e "Grandma" (abreviações de Grandfather e Grandmother ¾ avô e avó), continuaram vivendo na "casa do sítio". Pedro Conceição continuou morando na "casinha do Pedro", cuidando de tudo, inclusive dando uma assistência aos inquilinos das casas alugadas. Os irmãos Burke se cotizaram para manterem o sustento de Grandpa e Grandma e o pagamento do salário do Pedro.

 Em 1973, Mr. Burke e D. Emma regularizam definitivamente sua situação de estrangeiros vivendo no país, tornando-se também cidadãos brasileiros.

 Em 1975, os Burke venderam a parte do sítio que ficava "do outro lado da faixa da Light" (antigo "sítio do Papai Noel").

 Em 1990, a parte restante do sítio foi desmembrada legalmente em 6 chácaras. Tommy e Maria, Eddy e Elza, e John e Cecília ficaram com as chácaras onde estavam suas respectivas casas. A chácara da "casa do sítio" ficou com Teta e Passos. Peggy ficou com a chácara situada entre as de Tommy e Teta, na qual ficava a "casinha do Pedro", a antiga "fábrica de ração" e uma parte do grande galinheiro.

 Aos poucos, a cidade de Mogi das Cruzes foi crescendo, até encostar no sítio (primeiro a Vila da Prata). Com isso, também chegou ao sítio eletricidade da rede pública, substituindo a linha particular construída pelos Burke. A estrada para Capela do Ribeirão foi, finalmente, prolongada até a Bertioga e asfaltada.

 Em 1992, a chácara da Peggy foi vendida por seus herdeiros. Em 1993, Tommy e Maria venderam a sua chácara, e em 1997 Teta e Passos venderam a chácara da "Casa do Sítio". Em 1998, a chácara de John e Cecília foi também vendida pelos herdeiros do falecido John. Resta, hoje, do "sítio" apenas a chácara de Eddy e Elza, onde residem atualmente seus filhos Luiz Ricardo, Elza Maria, e onde Paulo Burke ("Paulinho") construiu sua "mansão".

 

Curiosidades e Historinhas

Quando os Burke compraram o sítio, Mogi das Cruzes era uma cidade muito velha, ainda com muitas construções de taipa, e poucas ruas calçadas, e tinha apenas cerca de 30 mil habitantes. O único hospital era a Santa Casa de Misericórdia, perto das Igrejas de São Benedito e do Carmo (do Convento dos Padres Carmelitas, no Largo do Carmo). Mogi tinha um Mercado Municipal de bom tamanho, poucas lojas e uns poucos armazéns de secos e molhados. Só havia uma bomba de gasolina (de D. Anita, que era também a atendente e frentista do posto). Ficava na esquina da Rua Brás Cubas e Av. Voluntário Pinheiro Franco (a parte da estrada de rodagem Rio-São Paulo que atravessava o centro da cidade). A "Rodoviária" ficava logo depois do posto de gasolina, bem próxima do Largo do Rosário (pracinha situada em frente da Igreja do Rosário, do convento das freiras carmelitas). Havia apenas dois pontos de táxi na cidade, um ao lado da Estação e outro no Largo do Rosário. A estrada para Capela do Ribeirão (caminho para o sítio) era de terra, e começava no cruzamento das ruas Dr. Wertheimer e Ipiranga.

 Largo do Rosário, com sua fonte. A Igreja e convento das freiras carmelitas foram mais tarde transformados no Hotel Binder. Na foto da direita, está a Estação Rodoviária (na década de 50). Ali terminava a Avenida Pinheiro Franco, entrada da cidade para quem vinha por Suzano (parte asfaltada da antiga estrada de rodagem Rio-São Paulo). Atrás da Rodoviária ficava o Cine Urupema.

Durante muitos anos, os Burke que moravam no sítio (Mr. Burke e D. Emma; Eddy, Elza e filhos; Tommy e Maria; John, Cecília e filhos) viveram sem energia elétrica. Ao escurecer, acendiam lampiões a querosene ("Petromax"), lamparinas e velas. Iam dormir "com as galinhas" logo após o jantar. Não tinham rádio nem TV, somente um velho gramofone, que tocava discos de 45 rotações por minuto, movido por uma grande mola, à qual se "dava corda" por meio de uma manivela. O ferro de passar roupa era aquecido com brasas de carvão colocadas no seu interior, de onde às vezes saltavam fagulhas, que causavam estragos nos tecidos. Somente em 1967 os Burke conseguiram puxar, por sua conta, uma linha de eletricidade, com 800 metros de extensão, desde a estação de transformadores da Light (ao lado da estrada para Capela do Ribeirão) até o sítio; encerrando, finalmente, o "romântico" período dos "sem-eletricidade"...

 Em 1951, quando Mr. Burke, D. Emma, Tommy e Eddy se mudaram para o sítio a fim de iniciar a granja de galinhas, compraram uma perua Fordson, fabricada na Inglaterra, com bancos removíveis (para poder servir também de furgão). Esse foi o primeiro carro da família Burke depois do "carrão inglês com chofer" dos primeiros tempos em Santo Amaro, na década de 1920 (Mr. Burke nunca chegou a dirigir um carro em sua vida). A Perua do sítio não tinha motor de arranque e a partida era dada virando-se, com força, uma manivela, que era introduzida num orifício na frente do motor sob o radiador, enquanto o motorista tratava de não deixar o motor "apagar". As marchas (três à frente e uma à ré) não eram sincronizadas, e era preciso muita habilidade para trocar de marcha, esperando a rotação correta, e dando uma rápida "dupla desembreada" para reduzir de marcha. O freio era mecânico, com varejões ligando o pedal aos tambores das rodas traseiras. Dificilmente, atingia 60 quilômetros por hora, em estrada asfaltada... Com esse veículo precário e lento, Eddy foi até o Rio de Janeiro, para passear e trazer o Tommy para passar as férias de fim de ano (1951) no sítio. Não sem alguns sustos, tudo acabou dando certo...

Anos mais tarde, quando a perua começou a perder potência, eles mesmos resolveram recondicionar seu motor. Desmontaram-no, trocaram os anéis dos pistões, substituíram as válvulas que estavam queimadas e esmerilharam as outras, e o motor voltou a funcionar quase como quando era novo. Quando os amortecedores originais deixaram de funcionar (eram curtos e movidos por um braço lateral), não foi possível substituir-los, pois não existiam mais no mercado. O jeito foi rodar sem eles, e agüentar as trepidações, os solavancos e os balanços... Finalmente, a perua foi vendida para o amigo "Pedro Russo" - Pedro Fabergê (sobrinho do joalheiro do Czar da Rússia, o das famosas "Jóias de Fabergê", assassinado durante a revolução comunista de 1917), e que tinha vindo fugido para o Brasil e "aberto" um sítio na mata do bairro Tapanhaú.

Quando o sítio foi comprado, ele tinha uma pequena lagoa, muito antiga, quase toda tomada por taboa, onde havia carás. A barragem de terra estava em péssimo estado. Quando Tommy e Eddy foram morar no sítio, com a ajuda de Pedro reformaram a barragem e conseguiram eliminar grande parte da taboa. Colocaram nela alguns casais de tilápias do Nilo, e a lagoa se tornou o lugar onde várias gerações de Burke se divertiam muito pescando. Na foto aparece também uma das torres da linha de energia elétrica que dividiu o sítio original em duas partes.

Eddy – que costuma lembrar ser descendente de irlandeses – casou em 1955 com Elza Jacob Jorge, filha dos imigrantes libaneses: Jacob Jorge e Rachid Salomão. Jacob veio para o Brasil com 14 anos de idade. Tinha um irmão estabelecido no Rio de Janeiro, que lhe mandou a passagem de navio e ele veio e ficou trabalhando por lá até se casar, em Mogi, com Rachid. Ela vivia em Mogi com seu irmão Jorge Salomão e família. Parece que o casamento foi arranjado pelas famílias, pois eles não se conheciam, apesar de no Líbano terem vivido em vilas separadas por apenas alguns quilômetros.

No Líbano, durante o período da Primeira Grande Guerra (1914-1918), a família da Rachid teve amenizada suas dificuldades graças às economias que Rachid fizera vendendo coalhada, "tudo em libras esterlinas, e que ninguém sabia que ela tinha guardado..."

Após o casamento, com ajuda do irmão de Rachid, eles abriram um pequeno armazém em Mogi, no bairro do Shangai. Segundo Jacob contava, o nome do bairro surgiu por causa de um empregado seu, que possuía olhos meio fechados e que Jacob apelidou de "Shangai". Com o tempo, o bairro começou a ser conhecido como o bairro do Shangai, e assim ficou até hoje. Como bons libaneses, todas as economias que sobravam do armazém erram aplicadas na compra de imóveis, que na época erram baratos em Mogi ¾ pequena entrada e suaves prestações. Os alugueis ajudavam a dar a entrada em um novo imóvel, e assim eles foram adquirindo um patrimônio razoável, cerca de 10 imóveis, todos bem localizados.

Após alguns anos como comerciante, a "Cia. de Águas" (que construía o aqueduto para abastecer a cidade de São Paulo), localizada em Casa Grande (perto de Capela do Ribeirão), convidou Jacob para abrir um armazém dentro do pátio da Cia., devido ao fato do armazém que lá existia (do lado de fora do pátio), estar explorando demais os funcionários da empresa. Ele aceitou, e não teve que investir em instalações, pois a Cia construiu um armazém grande. Como o pagamento das mercadorias vendidas aos funcionários era descontado do salário, Jacob nunca teve prejuízo. Enquanto Jacob ficava. em Casa Grande, Rachid cuidava do armazém em Mogi. Depois de uns três anos, se sentindo muito afastado da família, ele resolveu encerrar suas atividades por lá. Jacob sempre contava que Rachid, apesar de não saber ler nem escrever, conseguia fazer a conta de tudo que o freguês levava. À medida que ia separando as mercadorias, somava de cabeça e no fim dizia quanto era o valor total, e nunca se enganava, fato confirmado pelos fregueses. Por volta de 1950, Jacob e Rachid encerraram suas atividades de comerciantes e passaram a viver de renda.

 Os Burke sempre tiveram cachorros e gatos. Os gatos do sítio foram especialmente notáveis. O "Cow Puncher" ("tocador de vacas" - vaqueiro), assim chamado por causa de suas pernas abauladas, se tornou um extraordinário caçador de ratos, desde pequenino, quando foi literalmente atropelado por um enorme ratão, que saiu correndo de debaixo da "banheira" (onde a ração das galinhas era misturada) e ao qual ele se agarrou com unhas e dentes, matando-o e em seguida comendo parte dele. Daquele dia em diante, foi se tornando um verdadeiro expert na arte de matar ratos. Bastava alguém começar a chamar "Cow Puncher, rato, rato!", e lá ia ele correndo para dar cabo do bicho. Um dia, ele descobriu uma ninhada de nove ratinhos. Foi matando-os, um a um, e colocando-os lado a lado. Depois, calmamente, comeu-os, todos. Cow Puncher adorava, como todo gato que se preza, além de apanhar ratos, caçar passarinhos. Ficava escondido no meio do capim e quando um passarinho passava voando baixo, saltava e apanhava-o no ar. Aquele extraordinário caçador, contudo, ficava tomando conta dos pintinhos doentes, chegando a dormir com alguns deles nas costas e entre as patas... (mais um dos mistérios da mente felina...).

Outro gato era o "Blacky", totalmente preto, que não era muito chegado a caçadas. Preferia ficar dormindo tranqüilamente sobre a mesa da cozinha. Um dia ele tomou o maior susto da sua vida, quando a panela de pressão, na qual D. Emma estava cozinhando feijão branco, explodiu, espalhando feijão por todos os lados e fazendo um barulho espantoso. O pobre Blacky, apavorado, tentou desesperadamente fugir, mas como as portas e janelas estavam fechadas ele corria como um doido ao redor da cozinha, subindo pelas paredes, até que alguém finalmente abriu uma porta. Demorou alguns dias até que ele juntasse coragem suficiente para voltar ao seu lugar preferido... 

Tommy e Maria tinham um cachorro chamado "Dique", muito manso e amigo de todo mundo no sítio. Um dia, de repente, ficou louco (apesar de vacinado contra raiva), começou a correr atrás da Maria, tentando mordê-la. Sem saber bem como, ela conseguiu fugir dele e entrar em casa. Tommy gritou avisando todo mundo, e todos fugiram para suas casas. Ele, então, pegou sua carabina e entrou na casa de John e Cecília. O Dique, espumando e completamente transtornado, voltou e subiu no tanque de lavar roupa, que ficava do lado de fora sob a janela da cozinha, tentando abrir o vitrô com as patas e os dentes. Tommy não hesitou e atirou através do vidro, matando-o, e depois o enterrou bem fundo num lugar afastado. Preocupados com o fato das três crianças do Eddy terem brincado com o cachorro pouco antes do acontecido, Tommy e Eddy levaram-nos ao Médico (Dr. Homero Gomes). Ele aconselhou leva-los ao Instituto Pasteur, na Av. Paulista, em São Paulo. Lá, por medida de precaução, as crianças receberam a primeira dose de soro anti-rábico, e como tinham levado uma declaração do Dr. Homero dizendo que ele se responsabilizaria pela aplicação das demais doses, o Instituto entregou-lhes soro suficiente para o tratamento completo. No dia seguinte, Dr. Homero aplicou nos três a segunda dose do soro (por injeção sub-cutânea na barriga), mostrando ao Tommy como fazer, e autorizou-o a aplicar todas as demais 40 injeções. As crianças começavam a chorar assim que Tommy chegava para aplicar-lhes a injeção diária bastante dolorosa, mas aquentavam firmes, pois compreendiam que aquilo era necessário "para que não ficassem com raiva e morressem como o Dique".

 

Os Últimos Tempos dos Pioneiros John e Emma

Quando se mudaram para o sítio, em 1951, John e Emma eram ainda bastante fortes e ativos. Mr. Burke estava com 60 anos de idade e D. Emma com 56 (nesta foto ele estava com 64 e ela com 60). Ele ajudava nos trabalhos da granja e ela cuidava da casa e colaborava em algumas outras atividades do sítio. Com o passar dos anos, eles foram diminuindo lentamente de ritmo. Passavam cada vez mais tempo assistindo notícias e novelas na TV, e jogando baralho (buraco e paciência).

 

Em 1969, o casal John e Emma comemorou suas bodas de ouro (1919-1969). Ele estava com 78 anos de idade e ela com 74. Nesta foto também aparece a filha Henrietta (à esquerda). No ano seguinte Mr. Burke ficou doente e foi tratado no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo.

Provavelmente esta seja a última foto em que John Ulic Burke aparece. Nela, John e Emma, que se aproximam do fim de uma longa, rica e difícil jornada, contemplam, com ternura, mais uma descendente que está começando sua caminhada neste mundo, a Patrícia. O que estaria lhes passando pela cabeça naquele momento? (Foto de 1974)

 

Em 1976, John começou a adoecer novamente, mas não foi hospitalizado, e foi, pouco a pouco, piorando, até ficar permanentemente na cama, sendo cuidado, noite e dia, por D. Emma, ajudada pelo Pedro Conceição. Tinha câncer da próstata, efizema e problema cardíaco. Foi definhando, cada vez mais, e começou a delirar. Finalmente, após ter passado os últimos dois anos de sua vida acamado, Mr. Burke faleceu, no dia 28/11/1978, data em que completava 87 anos de vida. Foi sepultado no Cemitério São Salvador, em Mogi das Cruzes.

Após a morte de Mr. Burke, D. Emma foi viver com Teta e Passos, em São Paulo. Em 1983, com a sua saúde exigindo uma assistência permanente e cada vez maior, que a Teta já não podia mais lhe dar, ela foi colocada numa casa de repouso para idosos (no alto do Pacaembu).

Em 1985, Peggy ¾ que se casara com Victor Franck em 1974, depois de ter deixado o convento em 1970 ¾ resolveu levar D. Emma para sua casa no Embu (hoje, Embu das Artes, na saída de São Paulo para Curitiba), para cuidar dela, com a colaboração de uma ajudante especializada, que Peggy contratou por lá. Por incrível coincidência, descobriu-se que a ajudante era filha da senhora que havia tocado a pensão "Casa Grande", em Perus, nos tempos em que os Burke moravam lá. Ela dizia se lembrar de ter brincado com Tommy e Eddy, quando meninos...

 

No Embu, D. Emma festejou seus 90 anos de idade (foto tirada nesse dia, onde também aparece Peggy). Ficou ali até 1987, quando Peggy, sentindo que não teria mais condições de cuidar dela, a colocou noutra casa para idosos, desta vez no Paraíso, onde permaneceu por algum tempo e depois foi transferida para outra casa de repouso no Brooklyn Paulista. Ali, ela foi "apagando", pouco a pouco, perdendo a memória e o interesse nas coisas; às vezes delirando, e passando cada vez mais tempo na cama. Em fins de fevereiro de 1989, pegou pneumonia e acabou falecendo no dia 01/03/1989, aos 94 anos de idade. Foi levada para Mogi e sepultada ao lado de Mr. Burke, seu inseparável companheiro de toda uma longa e difícil vida.

  Terminou, assim, a saga do casal fundador da família Burke no Brasil. Seus descendentes guardam com admiração, saudades e carinho suas memórias.

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Pedro Conceição, que havia colaborado durante mais de 40 anos com os Burke no sítio, e ajudado D. Emma a cuidar do "Capitão" nos dois últimos anos de sua enfermidade e que continuou a assistir aos novos proprietários das chácaras durante mais alguns anos, e cuidava carinhosamente da sepultura de John e Emma, um dia simplesmente desapareceu sem deixar vestígios. Por mais que Eddy tentasse, ele nunca conseguiu descobrir nada sobre o paradeiro do velho companheiro e amigo da família. Talvez ele tenha simplesmente resolvido fugir para longe de tudo que pudesse recordá-lo daquele convívio com as pessoas que o amaram e que aprendera a amar e a cuidar como se fossem seus únicos parentes na Terra.

 

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