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3 – A VIDA DE DESBRAVADORES (1928-1938) Iniciando Uma Nova Vida
A mudança dos Burke de Santo Amaro para Água fria foi, como relata Henrietta, que participou dela, uma verdadeira aventura, "feita com 5 crianças, 2 cachorros (Pinga e Cerveja), 1 gato (Ginger) e 1 empregada (Helena). A casa era apenas o ‘esqueleto’ do que seria feito aos poucos. Janelas? Sim (apenas os batentes). Portas? Idem. Os cachorros entravam e saiam à vontade, lambendo a cara de quem dormia". Durante os anos em que os Burke viveram sua primeira, difícil e complicada vida no Brasil, Charles F. Burke e Julia, o pai e a madrasta de John, vieram duas vezes ao Brasil para visitá-los. A segunda visita foi em 1929, ano em que John e Emma comemoravam o seu décimo aniversário de casamento. Trouxeram consigo um grande pedaço do bolo servido no casamento ("plumpudding", uma espécie de bolo de frutas secas), que havia sido guardado durante todos aqueles anos dentro de uma lata lacrada hermeticamente. Todos, encantados, festejaram a data comendo aquela preciosa relíquia... (parece que naqueles tempos ninguém se preocupava muito com a "data de validade" de um produto...).
No dia 3 de maio de 1931, cinco anos após ter começado a trabalhar na Cia. de Cimento Perus, John e Emma, agora com 6 filhos (Mary, Margaret, John, Henrietta, Charles e Thomas), escreveu uma carta para sua madrasta, Julia, que chamava de mãe. Nela, John dava notícias sobre a família e tecia alguns comentários sobre os acontecimentos dos últimos anos da "grande depressão" (crise econômica), que abalara o mundo econômico e social. Eis um pouco do que ele disse naquela carta, na qual comentava o que tinha acontecido à Companhia de Cimento Perus durante aquele período.
(traduzida do inglês). [...] Nosso negócio, pelo menos, está indo a toda velocidade, e todos os recordes de produção foram batidos. Uns poucos meses atrás tudo estava no buraco, mas nós conseguimos nos arranjar de alguma maneira. O panorama geral é um tanto obscuro, mas isso não é nada particularmente surpreendente quando se olha ao redor do resto do mundo. Eu tenho uma grande fé no futuro deste país, mas parece como se as pessoas estão esperando o milênio aparecer por algum passe de mágica ao em vez de pegar uma picareta e uma pá e virar a terra para plantar alguma coisa. Nós estivemos bastante incomodados por algum tempo por uns pretensos comunistas, mas essa bobagem foi prontamente debelada, e por enquanto o governo tem sido capaz de lidar com esse aspecto em bom estilo. O Brasil encontrará sua saída das suas atuais dificuldades, mas não será da noite para o dia, paciência e visão clara serão necessárias para recolocar o barco no prumo. Em todo caso, este país parece estar basicamente em melhor condição que a maioria dos outros, de forma que nós todos vivemos em esperança. Quando a maré econômica virar, como certamente o fará, nós todos olhamos para um período de desenvolvimento por muito tempo, e numa escala que se rivalizará com os "hey-days" dos U.S.A., sem, esperamos, a insensatez de não olhar para onde estamos indo. Os brasileiros têm em sua verdadeira natureza criar um país que talvez sirva bem como modelo para futuras gerações, e Deus permita que eles aproveitem integralmente a gloriosa oportunidade. [...] Lamento que o mercado de ações pareça tão podre, mas sempre as coisas parecem mais negras – etc. Eu não prego o socialismo, mas eu não hesito em dizer, para constar em registro, que a menos que seus líderes industriais acordem para os fatos batendo-lhes na cara e adotem uma política mais sensata em relação aos trabalhadores, vocês terão problemas ainda muito mais graves nas mãos do que aqueles que tiveram que enfrentar até agora – que, em comparação com a presente aflição econômica parecerão um agradável piquenique. Muito amor para você e papai (e para toda a gang) de nós todos. Seu menino John Abrindo Pedreiras, Construindo Vilas e Ferrovias
Quando os Burke se mudaram para Água Fria (hoje Cajamar) em 1928, ela era um lugarejo pertencente ao município de Santana do Parnaíba*. Era pouco mais do que um grande pátio ferroviário e uma pequena vila operária, que estavam sendo construídos para a mineração de pedra calcária, usada para a produção de cimento na fábrica em Perus. Ficava num vale, em região montanhosa, na Serra dos Cristais, coberta por floresta nativa. No fundo do vale, serpenteava o córrego Água Fria (afluente do Juqueri Mirim, afluente do Juqueri Guaçu, afluente do Tietê). A região toda era ainda praticamente intocada, coberta de florestas nativas e habitada por uma grande variedade de animais silvestres. Água Fria distava cerca de 3 km do antigo vilarejo de Lavrinhas (diminutivo de lavras), que consistia de um armazém de secos e molhados, e um punhado de pequenas casas, ao longo de uma estradinha de terra. Ali, antigamente, houve garimpo de ouro, o que podia ser comprovado pelos enormes montes de seixos, areia e cristais de quartzo cobertos de vegetação encontrados ao longo do córrego. Lavrinhas, muitos anos mais tarde, veio a se tornar sede do município de Cajamar (1959), que se tornou bastante conhecido no Brasil todo por causa de afundamentos de partes da cidade, engolindo casas e ruas, causados pelo colapso de grutas calcárias existentes no seu subsolo, e amplamente noticiados pela imprensa e mostrados na TV.
Água Fria distava 20 quilômetros da fábrica de cimento em Perus, ao qual era ligada por uma ferrovia, de linha única e bitola estreita (60 cm entre trilhos). A "Perus-Pirapora" fora projetada oficialmente como um ramal ferroviário para ligar a SPR (São Paulo Railway, hoje "Santos-Jundiai") à cidade de Pirapora, mas de fato destinava-se ao transporte de cal, produzido no bairro de Gato Preto pela família Beneducci, Sylvio de Campos e alguns outros empresários, e ao transporte de pedra calcárea para a fábrica de cimento em Perus. Ao longo da ferrovia não havia qualquer moradia ou outra edificação, somente uma linha telefônica, instalada pela Companhia. A cada dois ou três quilômetros, havia um pequeno trecho de linha dupla, permitindo que os trens que iam das pedreiras pudessem cruzar com os que voltavam vazios da fábrica. Em cada cruzamento havia uma pequena "cabine" telefônica "de bloqueio" (aberta, de concreto, telefone com baterias e acionado a manivela). Eram locais de parada obrigatória. O maquinista descia da locomotiva e ligava para a cabine central de controle do tráfego, comunicando sua chegada e aguardando a ordem para prosseguir até o próximo cruzamento ou para aguardar a chegada do trem vindo em sentido contrário. O processo todo era lento, fazendo com que o percurso de apenas 20 km geralmente levasse mais de uma hora para ser percorrido.
Pela estrada de ferro trafegavam as composições que transportavam as pedras de Água Fria até a fábrica em Perus. Eram formadas por vagões de aço puxados por uma locomotiva a vapor, que queimava óleo combustível. O último vagão era de madeira e destinava-se ao transporte de passageiros. Duas vezes por dia, também trafegava uma composição especial formada por um só vagão de passageiros e a locomotiva. Oficialmente, eram as composições "M-2" e M-3" da E.F.P.P, simplesmente chamadas de "o eme". Algumas das locomotivas mais modernas e vagões de passageiros foram comprados da antiga fazenda de café da família de Santos Dumont, que possuía uma ferrovia própria.
As Pedreiras Tudo em Água Fria girava em torno das pedreiras de calcário ( enormes jazidas de rochas sedimentares metamórficas (carbonatos de cálcio e magnésio) formados durante milhões de anos pelo depósito de conchas e carapaças de animais marinhos no fundo de mares primitivos, e erguidos pelos movimentos da crosta terrestre. As pedreiras eram identificadas de acordo com a ordem em que eram descobertas. Quando os Burke chegaram à Água Fria, a pedreira "um" já estava chegando ao seu fim, e a pedreira "três" entrando em exploração. Alguns anos depois, a "dois" foi aberta, e em pouco tempo se tornou um imenso paredão de rocha, com cerca de quinhentos metros de frente por cem de altura. Dentro de um raio de uns 5 km em torno de Água Fria, tinham sido descobertas várias outras grandes jazidas de rocha calcária, que mais tarde viriam a ser abertas como novas pedreiras: "Gato Preto", "Rosário", "Bocaina", e "Pires".
Depois de limpa por cima, a pedreira ia sendo cortada, de alto a baixo, por meio de enormes explosões de dinamite, colocada em profundas perfurações, feitas com martelos pneumáticos (de ar comprimido). Antes de cada explosão, uma seqüência de fortes apitos (a vapor), audíveis por toda Água Fria, avisava que, dentro de alguns minutos, "iam dar fogo", para que todos procurassem imediatamente um abrigo seguro, já que as explosões arremessavam pedras a centenas de metros de distância, chegando até a atingir algumas das casas. Após cada "dinamitada", os trabalhadores voltavam para encher manualmente os vagões com as pedras. As demasiado pesadas para serem erguidas e jogadas dentro dos vagões eram quebradas a golpes de pesadas marretas; os blocos maiores eram deixados para serem posteriormente quebradas com pequenas cargas de dinamite. Cada vagão era carregado por um só homem, identificado pelo seu número, escrito em giz na lateral do vagão. O pagamento dos carregadores era feito semanalmente, conforme a produção de cada um (peso total de pedra carregado na semana), o que era controlado por uma balança ferroviária, colocada ao lado do escritório da Cia Perus. Carregar vagões com pedra era um trabalho pesado, bruto, extenuante e sem limite de horas. Somente cerca de vinte anos mais tarde é que foram introduzidas grandes máquinas carregadeiras, para substituir o trabalho braçal (foto).
A Vila de Água Fria Na vila de Água Fria, além das casas dos trabalhadores, havia o entreposto da Cia Perus. Era o único estabelecimento onde se podia comprar gêneros de primeira necessidade, produtos de limpeza, carne e alguns poucos artigos de vestimenta. As compras eram feitas a dinheiro (raramente), com vales e "na caderneta", descontadas nas folhas de pagamento dos empregados. Para qualquer outra coisa, o jeito era ir até Perus ou mesmo São Paulo. Uma vez por mês, os Burke e algumas outras famílias de funcionários mais graduados eram visitados por um mascate da Casa Lima (de São Paulo, Ladeira Porto Geral), o "Zé Turquinho", que chegava de trem e andava carregando uma enorme mala e um imenso volume embrulhado em papel Kraft cheios de roupas e amostras de tecidos. A família comprava alguma das suas mercadorias e encomendava outras, para serem trazidas na próxima visita. Uma vez por mês, Mr. Burke e D. Emma iam a São Paulo para fazerem compras no Empório Sírio ("pertinho da Praça da Sé, quase na Rua Direita", como diziam). Ali compravam quase tudo que a família consumia em matéria de "secos e molhados". O Empório se encarregava de embalar as mercadorias em caixas de madeira e despachá-las para Água Fria. As casas dos trabalhadores da Cia. Perus eram construídas com tijolos de cimento, cobertas com telhas e razoavelmente confortáveis.
Na vila havia uma pequena "farmácia", atendida por um farmacêutico ("Seu Nezinho"), que também "quebrava o galho" como médico. O médico da Companhia, Dr. J. B. Rodrigues Pacheco, vinha de São Paulo todas as quartas e sábados, para atender consultas (sempre visitava os Burke). Não havia dentista diplomado, e os Burke iam a São Paulo ("no Dr. DeLuca") sempre que precisavam de tratamento dentário. A população local era atendida (debaixo da caixa d’água que abastecia as caldeiras das locomotivas) por um dentista prático, que "esterilizava" seus instrumentos ao Sol, colocando-os sobre uma toalha no parapeito da janela... Uma vez por mês, um padre vinha de Santana de Parnaíba, para celebrar missa e fazer batizados e casamentos numa igrejinha (de São Sebastião) ao lado do caminho de Água Fria para Lavrinhas. A Igreja foi construída em 1931 com recursos doados por Charles e Julia, avós dos Burke brasileiros. Os paramentos, toalhas, cálice etc., foram contribuição de Frances Hennessy e Anna Colighan, duas grande amigas de infância e juventude de D. Emma. John e Emma eram católicos fervorosos. Rezavam antes das refeições e de dormir, participavam de todas as atividades religiosas da vila (missas, procissões, quermesses) e davam "aulas de catecismo" aos filhos. Os padres de Santana do Parnaíba visitantes hospedavam-se com os Burke. Também os padres redentoristas missionários norte-americanos, que vinham ao Brasil catequizar índios no oeste do Paraná e em Mato Grosso, costumavam passar alguns dias com os Burke em Água Fria, antes de prosseguirem viagem. Alguns deles se tornaram grandes amigos da família pelo resto da vida. A Comprida Casa dos Burke A casa destinada ao superintendente das pedreiras, para onde a família Burke se mudou em 1928, vinda de Santo Amaro, em São Paulo, foi construída de uma forma inusitada. Ficava numa encosta bastante íngreme no morro que ligava a pedreira "dois" e a pedreira "três" (ver fotos na página 28). Para construir a casa, foi feito um comprido corte na face do morro (um "dente" nivelado de aproximadamente 50m por 12m), de modo que na frente o terreno descia rapidamente, e nos fundos ficou um barranco, quase vertical, mais alto que a casa. Daquele local, em noites de lua cheia, era possível se avistar onças passando no alto do morro. Da frente da casa, avistava-se todo o vale de Água Fria e os grandes morros ao seu redor. A casa, sem portas e janelas, para a qual os Burke tinham se mudado precariamente em 1928, foi sendo melhorada aos poucos. Logo foram colocadas as portas e janelas e construída uma lareira (1929 foi o ano de inverno mais frio de que se tem notícia naquela região). A casa foi sendo progressivamente "espichada" conforme as necessidades da família. Inicialmente, ela (a partir da esquerda, olhando-a de frente) era formada por uma comprida cozinha, com um fogão a lenha, mais tarde substituído por outro maior, com um grande forno e provido de uma serpentina para aquecer a água, que ficava depositada em dois grande cilindros presos na parede sobre ele. Anexo à cozinha havia uma sala de jantar com a lareira, ligada a três dormitórios, um pequenino banheiro (mais tarde ampliado com uma grande banheira de ferro esmaltado e chuveiro). Anexa à cozinha, havia uma despensa com prateleiras. Mais tarde foram construídas (em várias etapas), à esquerda da cozinha, dependências para empregada (dois quartos e um banheiro), e ao lado direito da sala outra grande sala de estar, mais dois quartos outra cozinha e um banheiro.
Ao redor de toda a casa havia uma calçada de cimento de 2m de largura. Encostado ao barranco, atrás da casa, ficava um "puxado", com um tanque de cimento e um grande forno de barro à lenha. Havia também uma enorme "geladeira" escavada dentro do barranco, com cerca de dois metros de profundidade por um de largura, no interior da qual uma pessoa podia ficar em pé. Rente ao teto, havia um cano de ferro com vários ganchos de açougue, onde eram penduradas as carcaças de porcos e carneiros, produzidos e consumidos pela família. A geladeira era fechada por uma grossa e pesadíssima porta de concreto (naquele tempo não existiam materiais isolantes térmicos). A refrigeração era conseguida pela colocação de longos blocos de gelo (de aproximadamente 25cm x 25cm e 1,5m de comprimento) num "túnel" retangular paralelo, na altura da parte superior da câmara frigorífica, e conectada com ela através de orifícios. As barras de gelo vinham, semanalmente, despachadas de São Paulo (fábrica da Antártica) pela estrada de ferro, embaladas em caixas de madeira e envoltas em serragem (o material isolante usado na época). A casa era coberta com telhas de barro "francesas", e todos os cômodos eram forrados com tábuas finas. Um dia, uma grande pedra arremessada por uma "dinamitada" na pedreira "três" atravessou o telhado e o forro, ido parar perto das crianças, que brincavam na sala, causando um enorme susto. Preocupado, Mr. Burke mandou colocar um outro forro, de grossas tábuas de pinho, entre o forro fino e o telhado. Quando mais tarde novos cômodos foram acrescentados à casa, seus forros foram construídos em concreto. Em 1936 ocorreu na região um surto de febre amarela transmitida por pernilongos (não existia vacina contra essa doença naquele tempo). Como medida preventiva, todas as matas mais próximas ao redor de Água Fria foram derrubadas. As portas, janelas e varanda da casa dos Burke foram protegidas por painéis removíveis de tela metálica, pintados de verde. Devido ao fato de só haver uma escolinha primária (classe única) em Água Fria (a professora vinha e voltava de São Paulo todos os dias), e os novos Burke precisarem começar a estudar, John e Emma resolveram construir uma "escolinha" particular, um pouco acima da casa, na encosta. Era uma sala retangular, com lareira e prateleiras de cimento, e era coberta com laje de concreto (como medida de segurança contra pedras arremessadas pelas explosões nas pedreiras). Ali, D. Emma, que havia se formado professora primária antes de vir para o Brasil, passou a alfabetizar, em inglês, seus filhos e a lhes ensinar religião e as primeiras noções de matemática, geografia e história americana, até que atingissem idade suficiente para serem colocados em colégios internos em São Paulo. Tudo funcionava como se fosse uma verdadeira escola, com horário, disciplina e com programas, livros e cadernos importados dos Estados Unidos, para ir acostumado as crianças, desde cedo, às normas e costumes do ensino escolar formal pelo qual iriam passar futuramente.
A família cresce e começa a se dispersar Ao se mudarem para Água Fria, em 1928, Mr. Burke e D. Emma trouxeram consigo seus filhos nascidos em Santo Amaro: Mary, com 8 anos; Margareth (Peggy), com 7 anos; John, com 5 anos; Henrietta (Teta), com 4 anos, e Charles (Carlito), com 2 anos. Em 1931 e em 1932 nasceram Thomas (Tommy) e Edward (Eddy), ambos no Hospital Samaritano (do Dr. Lane), em São Paulo.
Mr. Burke tinha um excelente salário, o que lhe permitia colocar todos os seus filhos em regime de internato nos melhores colégios de São Paulo. Em 1931, John, com 8 anos de idade, foi colocado, em regime de internato, no Colégio São Bento, dos padres beneditinos, no Largo São Bento, em São Paulo. Fugiu de lá, não se sabe como, e apareceu em Água Fria, mas foi prontamente levado de volta, onde ficou até 1941. Em 1930, Mary, com 10, e Peggy, com 9 anos, foram colocadas internas no Colégio Des Oiseaux, das Cônegas de Santo Agostinho, na Rua Caio Prado, em São Paulo. Em 1934, Teta, com 10 anos, teve o mesmo destino.
O pai de Mr. Burke, Charles Francis Paul Burke e sua esposa de segundo matrimônio, Julia Eleonor Martin, vieram dos Estados Unidos (de navio) visitar a família em Água Fria. Estiveram lá em 1931 e 1933. Em 1936, Julia, agora viúva, voltou só e ficou seis meses. Estas fotos são da visita de 1933, onde também aparecem Tommy e Eddy. Frances Hennesy, amiga de infância de D. Emma, também veio visitar os Burke em 1934, 1937 e 1939.
Curiosidades e Historinhas Logo após chegarem à Água fria, John passou a ser chamado por todos de "Mister Burke", e Emma de "Dona Emma", nomes pelos quais foram conhecidos pelo resto de suas vidas. John chamava Emma de "Em" ou "Emma", e Emma chamava John de "Jack". As crianças tratavam os pais de "Daddy" ou "Dad" e de "Mummy" ou "Mom". Os pais conversavam entre si e com os filhos em inglês, já os filhos preferiam conversar entre si em português. Mr. Burke era de estatura mediana, um pouco acima do peso ideal, e ficou calvo bem cedo (ver foto na pg. 12). Usava botas de cano curto e às vezes vestia polainas. Sempre que saia usava chapéu ou um capacete quase branco, daqueles típicos dos exploradores ingleses. Também costumava levar consigo um "walking stick" (pau de caminhar), uma espécie de bengala, "para matar cobras", como dizia (de fato havia muitas cascavéis, jararacas e corais na região). Fumava cigarros da marca "17", e gostava de tomar uma garrafa de cerveja Antártica no almoço e um gole de whisky White Horse antes do jantar.
Durante o período da Segunda Grande Guerra, devido à total escassez de óleo combustível, as locomotivas da Cia Perus foram modificadas para queimarem lenha. As fagulhas saídas da chaminé costumavam causar queimaduras nas roupas dos passageiros, o que somente era percebido pelo "cheiro de queimado", quando o estrago já tinha sido feito. Durante esse período, para atender ao grande consumo de lenha pelas locomotivas e fornalhas da fábrica de cimento, a Companhia recorreu a terceiros para a compra de enormes quantidades de lenha, o que causou um enorme desmatamento em toda a região. Não podendo prever quanto tempo duraria a falta de óleo, a Cia Perus começou a fazer grandes plantações de eucalipto nas áreas desmatadas. Alguns anos depois do término da guerra, as locomotivas e os fornos voltaram a queimar óleo combustível e a Cia de Cimento Perus se tornou uma grande fornecedora de madeira de eucalipto para terceiros, especialmente para fábricas de papel e celulose.
Os Burke possuíam um aparelho espantoso (um imenso rádio Philips, o que havia de mais moderno no mundo naquela época. Tinha cerca de 80 cm de altura, 40 cm de largura e 30 cm de profundidade. Era todo de aço, pintado de preto. Pesava uns 20 kg (só o alto-falante devia pesar uns 3 quilos). Na parte inferior da frente havia uma grade telada, por onde o som saia. Na parte superior ficava o painel de controle, com uma janelinha vertical de 5cm x 2cm, através da qual se via o dial, uma roda branca com números ligada ao botão de sintonia dos canais; a alavancazinha ON-OFF e o botão VOLUME. A parte de trás do aparelho era fechada por duas portinholas com grades, que permitiam a ventilação e o acesso às partes internas do aparelho. O rádio funcionava com grandes válvulas eletrônicas. Só pegava ondas longas e precisava ser ligado a uma grande antena erguida fora da casa (um fio de cobre horizontal de uns 15m). Além de pegar mal poucas estações, sofria interferências de muita estática, principalmente quando haviam tempestades nas redondezas. Para poder captar notícias do exterior (EUA e Inglaterra), Mr. Burke comprou um aparelho complementar só para ondas curtas (uma caixa de madeira com válvulas etc.), que ficava sobre o grande rádio e a ele ligado, mas só se conseguia pegar alguma estação durante a noite e com muita dificuldade. Depois de ligar os aparelhos, antes que eles pudessem funcionar, era preciso esperar algum tempo para que as válvulas esquentassem o suficiente. Os Burke conservavam muitos hábitos alimentares da cultura norte-americana. O "breakfast" era reforçado. Começava com "grapefruit" (pomelo), que eram cortados em metades na noite anterior, salpicados com açúcar e colocados na geladeira até a manhã seguinte. A seguir, vinha o tradicional "bacon and eggs" (ovos e toucinho fritos) e "porridge" (mingau de aveia), além do café com leite, pão torrado com manteiga e geléia. No almoço, comiam salada (alface, pepino, rabanete, tomate, abacate etc.); carne (vaca, porco, carneiro, coelho, pato, marreco, ganso, peru, galinha, fígado, rim, bucho, miolos etc.), geralmente com molhos; purê ou batata assada, milho verde, vagem e, às vezes, "Boston backed beans" (feijão branco com toucinho e melado, assado no forno). Nunca comiam arroz e feijão. A sobremesa era pudim de chocolate, sagu no creme, "pumpkin pie" (torta de abóbora com noz moscada), torta de morango, "nervous pudding" ("pudim nervoso", de gelatina) etc. À tarde ("tee time") tomavam chá preto com biscoitos. O jantar era mais leve, sempre começando com um prato de sopa cremosa, ou canja de galinha, seguida de salada e algum outro prato e sobremesa. D. Emma costumava fazer uma grande variedade de "receitas americanas", salgadas e doces. Também fazia conservas de verduras e geléias de frutas, que eram guardadas em frascos, previamente fervidos e depois fechados com tampas lacradas com parafina. Ela também preparava e assava o pão e bolos, bolachas e biscoitos. Os Burke costumavam tomar seus banhos antes de irem para a cama e consideravam "supertição" o medo que os brasileiros tinham de tomar banho logo após as refeições.
Mr. Burke desenvolveu, além dos seus conhecimentos, o que se poderia chamar de uma "atitude científica" (entender cientificamente a realidade e agir de acordo com ela), e procurava sempre passar aos filhos essa mesma atitude. Intuitivamente, usava de uma pedagogia revolucionária para aquela época: observar atentamente, pensar e chegar a uma conclusão. Ao em vez de simplesmente responder às perguntas e curiosidades espontâneas dos filhos, aproveitava-as para estimulá-los a pensar e a pesquisar (coisa que, infelizmente, até hoje, as escolas não costumam fazer…). Estimulava os filhos a consultar com freqüência a coleção de 12 volumes do "Book of Knowledge" (Livro do Conhecimento), uma enciclopédia fartamente ilustrada. Só para exemplificar essa "pedagogia", eis dois exemplos que talvez expliquem um pouco por que os irmãos Burke também vieram a manifestar ao longo da vida uma "atitude científica" semelhante: Numa ocasião, a família estava reunida na cozinha tomando o chá da tarde, enquanto lá fora desabava um temporal. Tommy, olhando pela janela, perguntou "daddy, why does it rain?" (papai, por que é que chove?). Mr. Burke pensou um pouco, e disse: "let’s make an experiment" (vamos fazer uma experiência). Levantou-se, pegou uma frigideira, pôs um pouco d’água dentro e a colocou sobre o fogão a lenha, que ficava sempre aceso. Disse para Tommy e Eddy chegarem bem para perto do fogão, para observarem e irem dizendo o que vissem (tudo em inglês, como de costume). Quando eles disseram "está começando a sair uma fumacinha…", e um pouco depois, "está fervendo e subindo fumaça!", Mr. Burke pegou um prato (frio) e o segurou, invertido, sobre o vapor que subia da frigideira, mandando os meninos ficarem olhando para a sua parte inferior, e irem dizendo o que eles viam. Logo, foram exclamando, aos poucos: "ta ficando molhado… ta formando gotinhas…. ta pingando água!", um deles então disse, encantado, "it’s rainning!" (ta chovendo!). Mr. Burke pôs o prato de lado, tirou a frigideira do fogo, e começou a conversar com eles, explicando que na natureza o calor do sol fazia evaporar lentamente a água dos mares, rios, lagos e da terra molhada, mas que não se podia ver o vapor subindo, como o da frigideira e do bico da chaleira, por que o calor do sol não chegava a ferver a água. Explicou, também, que bem lá no alto o ar era muito mais frio que aqui embaixo (assim como o prato era bem mais frio que a frigideira), e por isso o vapor invisível que subia começava a formar gotinhas, que iam crescendo, formando as nuvens, e quando as gotas ficavam bem grandes, com as nuvens ficando escuras, elas começavam a cair na forma de chuva. Aproveitou também para explicar por que, às vezes, chovia pedras de gelo. Noutra ocasião, logo após o jantar, quando já estava escurecendo, uma das crianças perguntou "Daddy, por que é que tem dia e noite?" (em inglês, é claro). Novamente, ao em vez de responder prontamente, ele levantou-se, foi até a cozinha, pegou uma laranja e um palito, voltou e disse algo do tipo: "vocês já sabem que a Terra é uma grande bola que gira no espaço (tinha lhes dito isso anteriormente). Vamos fazer de conta que esta laranja é a Terra, e que está lâmpada (que ficava pendurada sobre a mesa de jantar) é o Sol, e que este palito (espetando-o na laranja) é uma pessoa vivendo na superfície da Terra. Aproximou a laranja até cerca de um metro da lâmpada, com o palito apontando para ela, e perguntou o que eles notavam na sua superfície. As crianças foram logo dizendo que do lado voltado para a lâmpada a laranja estava "no claro", e que do outro lado ela estava "no escuro". Mr. Burke começou, então, a girar lentamente a laranja, até parar com o palito no lado da sombra, e perguntou o que tinha acontecido. Quando disseram que o lado que antes estava no claro agora estava no escuro, e o que estava no escuro agora estava no claro, ele simplesmente continuou girando a laranja lentamente, várias vezes, perguntando "o que acontece com este sujeito?" (apontando para o palito). Na conversa animada que se seguiu, todas as diferenças entre a laranja e a Terra, e a lâmpada e o Sol foram devidamente esclarecidas, e ninguém ficou mais com dúvidas por que existia dia e noite. Todas as crianças Burke foram alfabetizadas em inglês e receberam as primeiras noções de matemática, geografia e história por D. Emma, antes de irem para os colégios em São Paulo. Henrietta fala sobre esse ensino pré-escolar da seguinte forma: Todos nós fomos "desasnados" pela mãe, que era professora formada nos U.S.A. Em parte foi bom, em parte foi uma tragédia – Português – Eu tinha idade e conhecimentos suficientes para entrar no 3o. ano primário – Primeiro dia de aula – Cadernos lindos, etc. Prof. de Português – D. Adalgiza. Tudo de acordo – entreguem os cadernos. Aula seguinte, professora indignada queria saber de quem foi a brincadeira de mau gosto, mas apenas disse: "Quem é Henrietta?" Muito feliz, levantei a mão. – "Pegue suas coisas e vá para o segundo ano – se não para o primeiro!". Note-se: eu havia escrito: "Prof. Salxixa" – Penei, padeci – mas consegui passar do 4o. ano para o 1o. ginasial sem ter que cursar o admissão. "Tragédias" semelhantes em relação ao português aconteceram com todos os Burke quando foram colocados na escola, mas todos acabaram conseguindo passar para o 1º. ginasial sem ter que cursar o "admissão". A "criançada" (como costumava dizer a ajudante Rosa Suzuki) vivia brincando, se divertindo e aprontando... Construíam cabanas em cima de árvores e em escavações no barranco, caçavam com espingarda e estilingue; "nadavam" em represas, rios e córregos, e até, escondido, no tanque dos patos...
A criançada gostava de pescar lambaris, carás e até bagres e traíras no córrego e em lagoas, com "equipamento" improvisado. Como nos primeiros tempos em Água Fria não se podia comprar varas de bambu, linhas e anzóis, improvisavam, usando varas de "veludinho" (um arbusto que produz umas frutinhas roxas peludas ao longo de ramos longos e flexíveis); linha de costura, e anzóis feitos com alfinetes entortados, devidamente surrupiados da caixa de costura de D. Emma. A isca era facilmente obtida: bastava ir ao quintal e arrancar algumas minhocas "bravas". A paixão pela pesca, que Tommy e Eddy conservam até hoje, provavelmente começou com aquelas primeiras pescarias.
Parece que a dupla Tommy e Eddy foi especialmente traquina, provavelmente por terem nascido depois de um intervalo de quatro anos após o nascimento do Carlito, e terem apenas pouco mais de um ano de diferença de idade entre eles, sendo tratados pela família quase como se fossem uma única pessoa caçula. Eram chamados de "Tommy-Eddy" (sem o "e" entre um e outro). Eles também eram chamados de "The Scorpions"... Dentre as muitas artes que a dupla aprontou, três se tornaram memoráveis:
Quando, alguns dias depois os pais voltaram e a "hora do juízo final" chegou, eles disseram, com as carinhas mais inocentes do mundo, que "o ganso entrou voando pela janela, bateu no relógio e quebrou o vidro..." A surra foi dupla: uma por terem quebrado o vidro, e outra por terem mentido de forma tão sem vergonha... Teta, que de longe assistia à cena, tratou logo de se esgueirar para a cozinha, para não ser também incriminada... Noutra ocasião, Tommy e Eddy, intrigados com o fato de verem que os patos e marrecos nadavam sem problemas, enquanto que as galinhas (que às vezes caiam acidentalmente no tanque) não conseguiam nadar e acabavam morrendo afogadas, trataram de elaborar uma teoria explicativa (talvez já contaminados pela "atitude científica" de Mr. Burke...). Concluíram que os patos e marrecos estavam cheios de ar, fazendo com que boiassem, e as galinhas não tinham ar por dentro. Para testar sua teoria, pegaram um pato e, com uma faquinha cega (usada para tirar barro dos sapatos), fizeram, sob os veementes protestos do pobre pato, vários buracos profundos no seu corpo, "para deixar o ar sair", e o jogaram sangrando no tanque. O resultado foi surpreendente: o pato morreu logo, mas, estranhamente, não afundou como a teoria previa. Frustrados e confusos, resolveram ir brincar com outras coisas menos misteriosas. Quando o pato foi encontrado e examinado (para se descobrir a causa da sua morte), os responsáveis foram prontamente identificados e interpelados. Eles simplesmente se justificaram contando por que tinham feito aquilo. Salvaram-se de uma boa surra (por terem contado a verdade), mas não de um longo sermão sobre crueldade para com os animais. Talvez Tommy já estivesse começando a mostrar seu interesse por ciência, que mais tarde o levaria a se tornar professor de metodologia científica, em cursos de pós-graduação da USP... Mas os moleques nem sempre eram muito "científicos". Um dia Tommy convenceu Eddy, que estava bravo por ter tomado uma surra da mãe, injusta segundo ele, a se vingar jogando uma pedra na D. Emma, que estava sentada costurando na varanda. Disse, também, que depois de jogar a pedra ele deveria correr para fugir dela, e se enfiar debaixo de um pinheiro novo (que tinha os ramos inferiores cheios de "agulhas" pontiagudas, quase raspando o chão), onde ela não conseguiria pegá-lo. Dito e feito, a pedrada foi certeira, só que o impossível aconteceu: D. Emma rastejou por baixo do pinheiro, apanhou e arrastou Eddy para fora, e deu-lhe a maior surra da sua vida. Tommy, depois, teve que ouvir, um montão de vezes, a acusação: "Você disse que minha mãe não ia conseguir me pegar!" Até hoje, quando eles se encontram e começam a relembrar os velhos tempos de infância, Eddy culpa Tommy pelas memoráveis palmadas que tomou naquele dia... talvez nunca o tenha perdoado totalmente… (Em Perus, a dupla aprontou mais algumas… ver próximo capítulo).
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