A Família Burke no Brasil       - 1919-2006

 
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3 – A VIDA DE DESBRAVADORES

(1928-1938)

Iniciando Uma Nova Vida

 

A mudança dos Burke de Santo Amaro para Água fria foi, como relata Henrietta, que participou dela, uma verdadeira aventura, "feita com 5 crianças, 2 cachorros (Pinga e Cerveja), 1 gato (Ginger) e 1 empregada (Helena). A casa  era apenas o ‘esqueleto’ do que seria feito aos poucos. Janelas? Sim (apenas os batentes). Portas? Idem. Os cachorros entravam e saiam à vontade, lambendo a cara de quem dormia".

Durante os anos em que os Burke viveram sua primeira, difícil e complicada vida no Brasil, Charles F. Burke e Julia, o pai e a madrasta de John, vieram duas vezes ao Brasil para visitá-los. A segunda visita foi em 1929, ano em que John e Emma comemoravam o seu décimo aniversário de casamento. Trouxeram consigo um grande pedaço do bolo servido no casamento ("plumpudding", uma espécie de bolo de frutas secas), que havia sido guardado durante todos aqueles anos dentro de uma lata lacrada hermeticamente. Todos, encantados, festejaram a data comendo aquela preciosa relíquia... (parece que naqueles tempos ninguém se preocupava muito com a "data de validade" de um produto...).

           

No dia 3 de maio de 1931, cinco anos após ter começado a trabalhar na Cia. de Cimento Perus, John e Emma, agora com 6 filhos (Mary, Margaret, John, Henrietta, Charles e Thomas), escreveu uma carta para sua madrasta, Julia, que chamava de mãe. Nela, John dava notícias sobre a família e tecia alguns comentários sobre os acontecimentos dos últimos anos da "grande depressão" (crise econômica), que abalara o mundo econômico e social. Eis um pouco do que ele disse naquela carta, na qual comentava o que tinha acontecido à Companhia de Cimento Perus durante aquele período.

 

(traduzida do inglês).

[...] Nosso negócio, pelo menos, está indo a toda velocidade, e todos os recordes de produção foram batidos. Uns poucos meses atrás tudo estava no buraco, mas nós conseguimos nos arranjar de alguma maneira. O panorama geral é um tanto obscuro, mas isso não é nada particularmente surpreendente quando se olha ao redor do resto do mundo. Eu tenho uma grande fé no futuro deste país, mas parece como se as pessoas estão esperando o milênio aparecer por algum passe de mágica ao em vez de pegar uma picareta e uma pá e virar a terra para plantar alguma coisa.

            Nós estivemos bastante incomodados por algum tempo por uns pretensos comunistas, mas essa bobagem foi prontamente debelada, e por enquanto o governo tem sido capaz de lidar com esse aspecto em bom estilo. O Brasil encontrará sua saída das suas atuais dificuldades, mas não será da noite para o dia, paciência e visão clara serão necessárias para recolocar o barco no prumo. Em todo caso, este país parece estar basicamente em melhor condição que a maioria dos outros, de forma que nós todos vivemos em esperança. Quando a maré econômica virar, como certamente o fará, nós todos olhamos para um período de desenvolvimento por muito tempo, e numa escala que se rivalizará com os "hey-days" dos U.S.A., sem, esperamos, a insensatez de não olhar para onde estamos indo. Os brasileiros têm em sua verdadeira natureza criar um país que talvez sirva bem como modelo para futuras gerações, e Deus permita que eles aproveitem integralmente a gloriosa oportunidade.

            [...] Lamento que o mercado de ações pareça tão podre, mas sempre as coisas parecem mais negras – etc. Eu não prego o socialismo, mas eu não hesito em dizer, para constar em registro, que a menos que seus líderes industriais acordem para os fatos batendo-lhes na cara e adotem uma política mais sensata em relação aos trabalhadores, vocês terão problemas ainda muito mais graves nas mãos do que aqueles que tiveram que enfrentar até agora – que, em comparação com a presente aflição econômica parecerão um agradável piquenique.

            Muito amor para você e papai (e para toda a gang) de nós todos.

                                                                                            Seu menino John

 

Abrindo Pedreiras, Construindo Vilas e Ferrovias

           

Quando os Burke se mudaram para Água Fria (hoje Cajamar) em 1928, ela era um  lugarejo pertencente ao município de Santana do Parnaíba*. Era pouco mais do que um grande pátio ferroviário e uma pequena vila operária, que estavam sendo construídos para a mineração de pedra calcária, usada para a produção de cimento na fábrica em Perus. Ficava num vale, em região montanhosa, na Serra dos Cristais, coberta por floresta nativa. No fundo do vale, serpenteava o córrego Água Fria (afluente do Juqueri Mirim, afluente do Juqueri Guaçu, afluente do Tietê). A região toda era ainda praticamente intocada, coberta de florestas nativas e habitada por uma grande variedade de animais silvestres.

Água Fria distava cerca de 3 km do antigo vilarejo de Lavrinhas (diminutivo de lavras), que consistia de um armazém de secos e molhados, e um punhado de pequenas casas, ao longo de uma estradinha de terra. Ali, antigamente, houve garimpo de ouro, o que podia ser comprovado pelos enormes montes de seixos, areia e cristais de quartzo cobertos de vegetação encontrados ao longo do córrego. Lavrinhas, muitos anos mais tarde, veio a se tornar sede do município de Cajamar (1959), que se tornou bastante conhecido no Brasil todo por causa de afundamentos de partes da cidade, engolindo casas e ruas, causados pelo colapso de grutas calcárias existentes no seu subsolo, e amplamente noticiados pela imprensa e mostrados na TV.


 


 

Água Fria distava 20 quilômetros da fábrica de cimento em Perus, ao qual era ligada por uma ferrovia, de linha única e bitola estreita (60 cm entre trilhos). A "Perus-Pirapora" fora projetada oficialmente como um ramal ferroviário para ligar a SPR (São Paulo Railway, hoje "Santos-Jundiai") à cidade de Pirapora, mas de fato destinava-se ao transporte de cal, produzido no bairro de Gato Preto pela família Beneducci, Sylvio de Campos e alguns outros empresários, e ao transporte de pedra calcárea para a fábrica de cimento em Perus.

Ao longo da ferrovia não havia qualquer moradia ou outra edificação, somente uma linha telefônica, instalada pela Companhia. A cada dois ou três quilômetros, havia um pequeno trecho de linha dupla, permitindo que os trens que iam das pedreiras pudessem cruzar com os que voltavam vazios da fábrica. Em cada cruzamento havia uma pequena "cabine" telefônica "de bloqueio" (aberta, de concreto, telefone com baterias e acionado a manivela). Eram locais de parada obrigatória. O maquinista descia da locomotiva e ligava para a cabine central de controle do tráfego, comunicando sua chegada e aguardando a ordem para prosseguir até o próximo cruzamento ou para aguardar a chegada do trem vindo em sentido contrário. O processo todo era lento, fazendo com que o percurso de apenas 20 km geralmente levasse mais de uma hora para ser percorrido.

* Cajamar teve origem no antigo Distrito de Santana do Parnaíba denominado Água Fria. Em 1944, através do Decreto Lei No. 14.344 de 30 de novembro, passou a chamar-se CAJAMAR. Sua elevação municipal deu-se pela Lei No. 5.285 de 18 de fevereiro de 1959, sendo instalada oficialmente em 1º. de janeiro de 1960. Com um território de 134 km2, limita-se com os municípios de Jundiaí, Franco da Rocha, Caieiras, São Paulo, Santana do Parnaíba e Pirapora do Bom Jesus.

 Pela estrada de ferro trafegavam as composições que transportavam as pedras de Água Fria até a fábrica em Perus. Eram formadas por vagões de aço puxados por uma locomotiva a vapor, que queimava óleo combustível. O último vagão era de madeira e destinava-se ao transporte de passageiros. Duas vezes por dia, também trafegava uma composição especial formada por um só vagão de passageiros e a locomotiva. Oficialmente, eram as composições "M-2" e M-3" da E.F.P.P, simplesmente chamadas de "o eme". Algumas das locomotivas mais modernas e vagões de passageiros foram comprados da antiga fazenda de café da família de Santos Dumont, que possuía uma ferrovia própria.

 

Em cima (à direita), uma das primitivas pequenas locomotivas usadas pela Cia. Perus para movimentar as vagonetas nas pedreiras. À esquerda, uma das locomotivas compradas da Fazenda da família Dumont, acoplada ao vagão de passageiros, formando a composição chamada de "O Eme". (Fotos tiradas em julho de 1949, onde aparecem Tommy, Eddy e membros da família Veras)

 

        

A retirada das rochas das pedreiras só podia ser feita por linhas férreas, que precisavam ser construídas através de uma região muito montanhosa. Isso obrigava a abertura de muitos cortes nas encostas e a construção de aterros e pontes. Todo esse trabalho era feito apenas

com o emprego de picaretas, enxadões e pás, e toda a terra era movimentada por carroças puxadas por burros. A foto mostra o "corte grande" sendo construído para a construção da linha férrea entre Água Fria e a pedreira "Pires". 

A única outra via de acesso à Água Fria, além da ferrovia, era uma estrada de terra muito precária, que ia até Santana do Parnaíba e Pirapora do Bom Jesus. Somente por volta de 1950, quando a Via Anhangüera foi construída, passando por Gato Preto (pouco antes do que é hoje o distrito de Jordanésia), foi aberta uma nova estrada ligando-a a Água Fria (que passara a se chamar oficialmente de Cajamar a partir de 1944).

(Para mais informações sobre Água Fria (Cajamar), a Fábrica de Cimento Perus e a Estrada de Ferro Perus-Pirapora, ver os Apêndices C)

 

  

As Pedreiras

 Tudo em Água Fria girava em torno das pedreiras de calcário ( enormes jazidas de rochas sedimentares metamórficas (carbonatos de cálcio e magnésio) formados durante milhões de anos pelo depósito de conchas e carapaças de animais marinhos no fundo de mares primitivos, e erguidos pelos movimentos da crosta terrestre. As pedreiras eram identificadas de acordo com a ordem em que eram descobertas. Quando os Burke chegaram à Água Fria, a pedreira "um" já estava chegando ao seu fim, e a pedreira "três" entrando em exploração. Alguns anos depois, a "dois" foi aberta, e em pouco tempo se tornou um imenso paredão de rocha, com cerca de quinhentos metros de frente por cem de altura. Dentro de um raio de uns 5 km em torno de Água Fria, tinham sido descobertas várias outras grandes jazidas de rocha calcária, que mais tarde viriam a ser abertas como novas pedreiras: "Gato Preto", "Rosário", "Bocaina", e "Pires".

 

Vista aérea de Água Fria por volta de 1934. Bem no centro da foto está o pátio ferroviário. Logo acima, vê-se o caminho que leva à casa dos Burke, e um pouco adiante (acima) está a pedreira "Três". A pedreira "Dois", (à esquerda do pátio), estava apenas começando a ser aberta. Depois de passar pelo pátio, a linha férrea se bifurca, um ramo seguindo rumo à pedreira "Um", à esquerda (que não aparece), e o outro rumo à pedreira "Pires", passando entre a vila operária e o campo de futebol (parte de baixo da foto). Pouco acima do ramo da esquerda está outra vila operária e abaixo dele o entreposto da Cia. Perus.

 

Nesta foto de 1935 aparecem as pedreiras "dois", já em plena produção (à esquerda), e a "três" (à direita). A estrada de ferro vinda de Perus surge no canto inferior direito e segue até o pátio de manobras. As duas manchas claras abaixo da linha férrea são os lagos de barro resultantes do desmonte por lavagem dos morros das pedreiras. Algum tempo depois, estes dois lagos acabaram tomando toda a área situada entre a linha e o riacho Água Fria, ao pé do "Morro Grande" (de onde a foto foi tirada). Gato Preto (por onde muitos anos mais tarde passaria a Via Anhanguera) fica no vale entre o moro das duas pedreiras e o Moro do Rosário (outra pedreira), o mais alto que aparece no horizonte. A chácara com a casa dos Burke aparece bem no centro da foto.

Uma nova pedreira começava pelo desmatamento do morro e pela remoção de toda a camada de terra que cobria a rocha. A terra era retirada com o emprego de um "canhão" d’água, abastecido por um grosso cano, mantido sob forte pressão por bombas possantes, que tiravam a água do córrego Água Fria. No caso da pedreira "três", o lodo produzido pela lavagem causou a formação de um enorme "lago" de barro mole, perto da saída do vale, que, aos poucos, acabou sendo totalmente coberto por taboa.

Depois de limpa por cima, a pedreira ia sendo cortada, de alto a baixo, por meio de enormes explosões de dinamite, colocada em profundas perfurações, feitas com martelos pneumáticos (de ar comprimido). Antes de cada explosão, uma seqüência de fortes apitos (a vapor), audíveis por toda Água Fria, avisava que, dentro de alguns minutos, "iam dar fogo", para que todos procurassem imediatamente um abrigo seguro, já que as explosões arremessavam pedras a centenas de metros de distância, chegando até a atingir algumas das casas. Após cada "dinamitada", os trabalhadores voltavam para encher manualmente os vagões com as pedras. As demasiado pesadas para serem erguidas e jogadas dentro dos vagões eram quebradas a golpes de pesadas marretas; os blocos maiores eram deixados para serem posteriormente quebradas com pequenas cargas de dinamite. Cada vagão era carregado por um só homem, identificado pelo seu número, escrito em giz na lateral do vagão. O pagamento dos carregadores era feito semanalmente, conforme a produção de cada um (peso total de pedra carregado na semana), o que era controlado por uma balança ferroviária, colocada ao lado do escritório da Cia Perus.

Carregar vagões com pedra era um trabalho pesado, bruto, extenuante e sem limite de horas. Somente cerca de vinte anos mais tarde é que foram introduzidas grandes máquinas carregadeiras, para substituir o trabalho braçal (foto).

À medida que a frente da pedreira avançava, os ramais provisórios da ferrovia iam sendo estendidos, permitindo que os vagões pudessem chegar até às pedras dinamitadas. Havia uma "turma da linha" para cuidar exclusivamente dessa tarefa.

Durante muitos anos, as pedras brutas (de tamanhos muito variados) eram transportadas diretamente de Água Fria até a fábrica em Perus. Ali, antes de serem reduzidas a pó fino nos moinhos, passavam por um primeiro britador, que apenas as quebravam em pedaços um pouco menores. A seguir, as pedras seguiam por uma esteira rolante, ao longo da qual eram observadas por operários encarregados de descartar todas as pedras ricas em magnésio, impróprias para produção de cimento, o que era perceptível pela sua coloração mais "esverdeada" em comparação com a cor mais "cinza, azulada e esbranquiçada" do carbonato de cálcio. Muitos anos mais tarde, essa britagem prévia e seleção passou a ser feita num grande britador construído em Água Fria, perto da entrada da pedreira "dois" e ao lado do pátio de manobras, evitando com isso transportar muito rejeito até Perus.

As pedras, dentro dos vagões e antes de seguirem para a fábrica de cimento, eram lavadas com fortes jatos d'água. O controle visual de qualidade das pedras era sempre acompanhado por coletas de amostras, para serem examinadas no laboratório da Cia. Uma preocupação permanente de Mr. Burke (quase uma obsessão) era com os teores de magnésia (carbonato de magnésio) das rochas que estavam sendo mineradas. Isso porque, para a produção de cimento de boa qualidade o minério não pode ter um teor de magnésio superior a um certo limite. Várias vezes por dia, Mr. Burke passava pelo laboratório para verificar os resultados das últimas análises, e, depois de voltar para casa no fim da tarde recebia pelo telefone os resultados do último boletim do dia (veja mais sobre o telefone em "Curiosidades e Historinhas").

A Vila de Água Fria

Na vila de Água Fria, além das casas dos trabalhadores, havia o entreposto da Cia Perus. Era o único estabelecimento onde se podia comprar gêneros de primeira necessidade, produtos de limpeza, carne e alguns poucos artigos de vestimenta. As compras eram feitas a dinheiro (raramente), com vales e "na caderneta", descontadas nas folhas de pagamento dos empregados. Para qualquer outra coisa, o jeito era ir até Perus ou mesmo São Paulo. Uma vez por mês, os Burke e algumas outras famílias de funcionários mais graduados eram visitados por um mascate da Casa Lima (de São Paulo, Ladeira Porto Geral), o "Zé Turquinho", que chegava de trem e andava carregando uma enorme mala e um imenso volume embrulhado em papel Kraft cheios de roupas e amostras de tecidos. A família comprava alguma das suas mercadorias e encomendava outras, para serem trazidas na próxima visita. Uma vez por mês, Mr. Burke e D. Emma iam a São Paulo para fazerem compras no Empório Sírio ("pertinho da Praça da Sé, quase na Rua Direita", como diziam). Ali compravam quase tudo que a família consumia em matéria de "secos e molhados". O Empório se encarregava de embalar as mercadorias em caixas de madeira e despachá-las para Água Fria.

As casas dos trabalhadores da Cia. Perus eram construídas com tijolos de cimento, cobertas com telhas e razoavelmente confortáveis.

Toda Água Fria era servida de energia elétrica e água encanada tratada, produzidas pela Cia. Os fogões das casas queimavam lenha, coletada pelas mulheres e crianças, que percorriam muitos quilômetros nas matas da redondeza para "lenhar" ou "lenhando", como se dizia naqueles tempos. A família do Mr. Burke gozava do privilégio de ser abastecida regularmente com lenha cortada em pequenos pedaços pela serraria da Cia. A serraria funcionava também como marcenaria, fazendo mobílias, e até caixão de defunto.

Na vila havia uma pequena "farmácia", atendida por um farmacêutico ("Seu Nezinho"), que também "quebrava o galho" como médico. O médico da Companhia, Dr. J. B. Rodrigues Pacheco, vinha de São Paulo todas as quartas e sábados, para atender consultas (sempre visitava os Burke). Não havia dentista diplomado, e os Burke iam a São Paulo ("no Dr. DeLuca") sempre que precisavam de tratamento dentário. A população local era atendida (debaixo da caixa d’água que abastecia as caldeiras das locomotivas) por um dentista prático, que "esterilizava" seus instrumentos ao Sol, colocando-os sobre uma toalha no parapeito da janela...

Uma vez por mês, um padre vinha de Santana de Parnaíba, para celebrar missa e fazer batizados e casamentos numa igrejinha (de São Sebastião) ao lado do caminho de Água Fria para Lavrinhas. A Igreja foi construída em 1931 com recursos doados por Charles e Julia, avós dos Burke brasileiros. Os paramentos, toalhas, cálice etc., foram contribuição de Frances Hennessy e Anna Colighan, duas grande amigas de infância e juventude de D. Emma.

John e Emma eram católicos fervorosos. Rezavam antes das refeições e de dormir, participavam de todas as atividades religiosas da vila (missas, procissões, quermesses) e davam "aulas de catecismo" aos filhos. Os padres de Santana do Parnaíba visitantes hospedavam-se com os Burke. Também os padres redentoristas missionários norte-americanos, que vinham ao Brasil catequizar índios no oeste do Paraná e em Mato Grosso, costumavam passar alguns dias com os Burke em Água Fria, antes de prosseguirem viagem. Alguns deles se tornaram grandes amigos da família pelo resto da vida.

 

A Comprida Casa dos Burke

A casa destinada ao superintendente das pedreiras, para onde a família Burke se mudou em 1928, vinda de Santo Amaro, em São Paulo, foi construída de uma forma inusitada. Ficava numa encosta bastante íngreme no morro que ligava a pedreira "dois" e a pedreira "três" (ver fotos na página 28). Para construir a casa, foi feito um comprido corte na face do morro (um "dente" nivelado de aproximadamente 50m por 12m), de modo que na frente o terreno descia rapidamente, e nos fundos ficou um barranco, quase vertical, mais alto que a casa. Daquele local, em noites de lua cheia, era possível se avistar onças passando no alto do morro. Da frente da casa, avistava-se todo o vale de Água Fria e os grandes morros ao seu redor.

            A casa, sem portas e janelas, para a qual os Burke tinham se mudado precariamente em 1928, foi sendo melhorada aos poucos. Logo foram colocadas as portas e janelas e construída uma lareira (1929 foi o ano de inverno mais frio de que se tem notícia naquela região). A casa foi sendo progressivamente "espichada" conforme as necessidades da família. Inicialmente, ela (a partir da esquerda, olhando-a de frente) era formada por uma comprida cozinha, com um fogão a lenha, mais tarde substituído por outro maior, com um grande forno e provido de uma serpentina para aquecer a água, que ficava depositada em dois grande cilindros presos na parede sobre ele. Anexo à cozinha havia uma sala de jantar com a lareira, ligada a três dormitórios, um pequenino banheiro (mais tarde ampliado com uma grande banheira de ferro esmaltado e chuveiro). Anexa à cozinha, havia uma despensa com prateleiras. Mais tarde foram construídas (em várias etapas), à esquerda da cozinha, dependências para empregada (dois quartos e um banheiro), e ao lado direito da sala outra grande sala de estar, mais dois quartos outra cozinha e um banheiro.

Ao longo de toda frente da casa havia uma grande varanda, com aproximadamente 3m de largura., onde a família passava grande parte do tempo. Esta foto foi tirada muitos anos mais tarde (1950), no canto esquerdo da varanda, bem em frente da grande cozinha. Ao redor da grande mesa (de pingue-pongue), estão reunidos num churrasco, Mr. Burke, D. Emma, João passos e alguns familiares do Dr. Milton Veras.

Ao redor de toda a casa havia uma calçada de cimento de 2m de largura. Encostado ao barranco, atrás da casa, ficava um "puxado", com um tanque de cimento e um grande forno de barro à lenha. Havia também uma enorme "geladeira" escavada dentro do barranco, com cerca de dois metros de profundidade por um de largura, no interior da qual uma pessoa podia ficar em pé. Rente ao teto, havia um cano de ferro com vários ganchos de açougue, onde eram penduradas as carcaças de porcos e carneiros, produzidos e consumidos pela família. A geladeira era fechada por uma grossa e pesadíssima porta de concreto (naquele tempo não existiam materiais isolantes térmicos). A refrigeração era conseguida pela colocação de longos blocos de gelo (de aproximadamente 25cm x 25cm e 1,5m de comprimento) num "túnel" retangular paralelo, na altura da parte superior da câmara frigorífica, e conectada com ela através de orifícios. As barras de gelo vinham, semanalmente, despachadas de São Paulo (fábrica da Antártica) pela estrada de ferro, embaladas em caixas de madeira e envoltas em serragem (o material isolante usado na época).

A casa era coberta com telhas de barro "francesas", e todos os cômodos eram forrados com tábuas finas. Um dia, uma grande pedra arremessada por uma "dinamitada" na pedreira "três" atravessou o telhado e o forro, ido parar perto das crianças, que brincavam na sala, causando um enorme susto. Preocupado, Mr. Burke mandou colocar um outro forro, de grossas tábuas de pinho, entre o forro fino e o telhado. Quando mais tarde novos cômodos foram acrescentados à casa, seus forros foram construídos em concreto.

Em 1936 ocorreu na região um surto de febre amarela transmitida por pernilongos (não existia vacina contra essa doença naquele tempo). Como medida preventiva, todas as matas mais próximas ao redor de Água Fria foram derrubadas. As portas, janelas e varanda da casa dos Burke foram protegidas por painéis removíveis de tela metálica, pintados de verde. 

Devido ao fato de só haver uma escolinha primária (classe única) em Água Fria (a professora vinha e voltava de São Paulo todos os dias), e os novos Burke precisarem começar a estudar, John e Emma resolveram construir uma "escolinha" particular, um pouco acima da casa, na encosta. Era uma sala retangular, com lareira e prateleiras de cimento, e era coberta com laje de concreto (como medida de segurança contra pedras arremessadas pelas explosões nas pedreiras). Ali, D. Emma, que havia se formado professora primária antes de vir para o Brasil, passou a alfabetizar, em inglês, seus filhos e a lhes ensinar religião e as primeiras noções de matemática, geografia e história americana, até que atingissem idade suficiente para serem colocados em colégios internos em São Paulo. Tudo funcionava como se fosse uma verdadeira escola, com horário, disciplina e com programas, livros e cadernos importados dos Estados Unidos, para ir acostumado as crianças, desde cedo, às normas e costumes do ensino escolar formal pelo qual iriam passar futuramente.

A grande casa dos Burke ficava no centro de um grande terreno, uma espécie de sítio, formado por pastos, pomar, horta, roça, bosque, galinheiros, chiqueiros, tanque (de patos, marrecos e gansos) e pombal. O sítio era cercado por uma cerca de arame farpado e mourões de cimento. Mais tarde, devido à constante invasão de porcos e cabritos, que eram criados soltos pelos moradores da vila e causavam danos às plantações, foi construída uma mureta de placas de concreto, com 80cm de altura, ao longo de toda a cerca.

 

Nestas fotos aéreas aparecem a chácara e a comprida casa dos Burke. À esquerda estão os chiqueiros e galinheiros. Atrás e um pouco acima da casa está a escolinha particular (no meio de um pomar). O caminho que descia da casa até o pátio de manobras aparece à esquerda, passando pelo pasto com árvores, que ocupa toda a parte inferior da encosta. A casa que aparece um pouco abaixo do centro da foto é uma cabine de transformação de energia elétrica, de onde saia a eletricidade da chácara.

 

Desde a sua chegada à Água Fria, os Burke sempre foram ajudados por uma empregada doméstica e um empregado (que cuidava de tudo fora da casa, inclusive dos animais). Nos primeiros anos, a empregada foi a Helena (magrinha), que já trabalhava para a família em Santo Amaro. Depois foi a japonesa, Rosa Suzuki (a gorduchinha da foto), cujo marido, José ("O Suzuki"), trabalhava como mecânico na Cia.Perus. Quando Suzuki em 1936 pegou tuberculose e foi internado num sanatório em Campos do Jordão (naquela época não havia outro tratamento para o mal), Rosa, com sua filha Suzana ("Suzy"), recém nascida, passaram a morar com os Burke. Em 1939, quando os Burke mudaram para Perus e depois São Paulo, Rosa foi viver com eles, inclusive acompanhando a Mary (também com tuberculose) enquanto ela morou em Mogi das Cruzes. Finalmente, depois da morte de Mary, Rosa foi viver novamente com o marido Suzuki (que estava curado) em Campos do Jordão, onde eles abriram uma oficina de bicicletas. (na foto estão Peggy, Rosa, Suzy e Tommy).

 

A família cresce e começa a se dispersar

 Ao se mudarem para Água Fria, em 1928, Mr. Burke e D. Emma trouxeram consigo seus filhos nascidos em Santo Amaro: Mary, com 8 anos; Margareth (Peggy), com 7 anos;  John, com 5 anos;  Henrietta (Teta), com 4 anos, e Charles (Carlito), com 2 anos. Em 1931 e em 1932 nasceram Thomas (Tommy) e Edward (Eddy), ambos no Hospital Samaritano (do Dr. Lane), em São Paulo. 

Nesta foto de 1933, vê-se (da esquerda no alto): Eddy, no colo de Mary; Peggy; John, Teta, Carlito e Tommy. Ao fundo, o vale do córrego Água Fria, o "Morro Grande", e mais ao longe, o "Morro Redondo" (situado ao lado da pedreira Pires).

 Mr. Burke tinha um excelente salário, o que lhe permitia colocar todos os seus filhos em regime de internato nos melhores colégios de São Paulo. Em 1931, John, com 8 anos de idade, foi colocado, em regime de internato, no Colégio São Bento, dos padres beneditinos, no Largo São Bento, em São Paulo. Fugiu de lá, não se sabe como, e apareceu em Água Fria, mas foi prontamente levado de volta, onde ficou até 1941. Em 1930, Mary, com 10, e Peggy, com 9 anos, foram colocadas internas no Colégio Des Oiseaux, das Cônegas de Santo Agostinho, na Rua Caio Prado, em São Paulo. Em 1934, Teta, com 10 anos, teve o mesmo destino.

O pai de Mr. Burke, Charles Francis Paul Burke e sua esposa de segundo matrimônio, Julia Eleonor Martin, vieram dos Estados Unidos (de navio) visitar a família em Água Fria. Estiveram lá em 1931 e 1933. Em 1936, Julia, agora viúva, voltou só e ficou seis meses. Estas fotos são da visita de 1933, onde também aparecem Tommy e Eddy.  Frances Hennesy, amiga de infância de D. Emma, também veio visitar os Burke em 1934, 1937 e 1939.

Em fins de 1934, Carlito, com 8 anos de idade, começou a se sentir mal e apresentar dificuldade de coagulação do sangue. Foi levado para o Hospital Samaritano, em São Paulo, onde foi diagnosticado que ele sofria de hemofilia. Passou a receber transfusões de sangue do pai, a cada 3 meses. Foi internado e acabou falecendo em 01/06/1935, com 9 anos de idade. Foi sepultado no Cemitério São Paulo, no bairro de Pinheiros. No mesmo mês, morria nos Estados Unidos seu avô Charles, em homenagem a quem havia sido batizado.

 

Em 1939, quando se iniciava na Europa a Segunda Grande Guerra, Mr. Burke foi transferido para Perus, para superintender a fábrica da companhia, e a família se mudou para sua nova residência, ocupando a casa destinada ao superintendente (ver próximo capítulo). Em 1942, ele foi reconduzido ao seu antigo posto de superintendente das pedreiras em Água Fria, voltando a viver lá. D. Emma, John, Tommy e Eddy foram viver em São Paulo, onde Mr. Burke os visitava nos fins de semana.

Da frente da casa dos Burke em Água Fria descia um caminho, de 100m, em largos degraus, até o portão de entrada da chácara, que dava acesso direto ao pátio de manobras da ferrovia, perto da cabine de controle do tráfego. A foto foi tirada em 1938, na frente do portão, e é a única foto na qual a família toda (exceto Carlito, que havia falecido 3 anos antes) aparece reunida.

 Os "vizinhos" mais próximos dos Burke moravam a cerca de um quilômetro de distância, nas vilas que ficavam além do pátio de manobras (ver foto na página 28).

 

Curiosidades e Historinhas

Logo após chegarem à Água fria, John passou a ser chamado por todos de "Mister Burke", e Emma de "Dona Emma", nomes pelos quais foram conhecidos pelo resto de suas vidas. John chamava Emma de "Em" ou "Emma", e Emma chamava John de "Jack". As crianças tratavam os pais de "Daddy" ou "Dad" e de "Mummy" ou "Mom".  Os pais conversavam entre si e com os filhos em inglês, já os filhos preferiam conversar entre si em português.

Mr. Burke era de estatura mediana, um pouco acima do peso ideal, e ficou calvo bem cedo (ver foto na pg. 12). Usava botas de cano curto e às vezes vestia polainas. Sempre que saia usava chapéu ou um capacete quase branco, daqueles típicos dos exploradores ingleses. Também costumava levar consigo um "walking stick" (pau de caminhar), uma espécie de bengala, "para matar cobras", como dizia (de fato havia muitas cascavéis, jararacas e corais na região). Fumava cigarros da marca "17", e gostava de tomar uma garrafa de cerveja Antártica no almoço e um gole de whisky  White Horse antes do jantar.

A Cia Perus possuía um veículo de bastante estranho: um automóvel Ford 1929, de capota conversível, especialmente adaptado para correr sobre trilhos. Era usado para serviços extraordinários ou de emergência. Mais tarde, ele foi substituído por um Ford 1935, de capota rígida, batizado de "baratinha" (foto). As rodas originais foram substituídas por rodas de trem. Na frente, foi instalado um "lipa-trilhos". O volante permanecia no lugar, mas desligado das rodas. Os bancos eram de madeira. Como o veículo precisava trafegar longos trechos de ré, foi acoplada uma segunda caixa de câmbio entre o diferencial traseiro e a caixa original. Para viajar para trás, bastava engatar a marcha ré da caixa original e depois ir engatando a 1a, 2a e 3a marchas da caixa extra.

 

Além da baratinha, a Cia tinha um outro veículo ferroviário estranho, a "charanga", totalmente aberto. Consistia de uma plataforma sobre a qual havia dois bancos, um de costas para o outro. Era movido por um pequeno motor a gasolina (não tinha caixa de câmbio). Na frente de um dos bancos, havia duas alavancas manuais (a "embreagem" e o breque) e uma alavancazinha lateral (o acelerador). A "embreagem" funcionava por meio de uma correia, que passava por uma polia no eixo do motor e outra no eixo das rodas. A correia podia ser esticada ou afrouxada pela alavanca da "embreagem", ligando ou desligando a tração. Mr. Burke usava a "charanga" para supervisionar os trabalhos nas pedreiras do Pires e de Gato Preto. Tommy e Eddy gostavam de acompanhá-lo nessas viagens, inclusive por que Mr. Burke os deixava dirigir aquela espantosa viatura. Mais tarde, a "charanga" foi substituída pelo "caranguejo" com motor diesel e os bancos colocados lateralmente. Nesta foto de 1949, aparecem sobre o "caranguejo" 3 funcionários da Cia. Perus; Tommy (canto direito), Milton Veras (erguendo o chapéu), e Eddy (erguendo uma espingarda de ar comprimido).

Durante o período da Segunda Grande Guerra, devido à total escassez de óleo combustível, as locomotivas da Cia Perus foram modificadas para queimarem lenha. As fagulhas saídas da chaminé costumavam causar queimaduras nas roupas dos passageiros, o que somente era percebido pelo "cheiro de queimado", quando o estrago já tinha sido feito. Durante esse período, para atender ao grande consumo de lenha pelas locomotivas e fornalhas da fábrica de cimento, a Companhia recorreu a terceiros para a compra de enormes quantidades de lenha, o que causou um enorme desmatamento em toda a região. Não podendo prever quanto tempo duraria a falta de óleo, a Cia Perus começou a fazer grandes plantações de eucalipto nas áreas desmatadas. Alguns anos depois do término da guerra, as locomotivas e os fornos voltaram a queimar óleo combustível e a Cia de Cimento Perus se tornou uma grande fornecedora de madeira de eucalipto para terceiros, especialmente para fábricas de papel e celulose.  

A rede telefônica pertencia à Cia Perus, e funcionava com grandes pilhas, que precisavam ser trocadas periodicamente. As ligações passavam sempre pela telefonista. Os aparelhos telefônicos eram caixas de madeira, penduradas na parede, no interior das quais ficavam duas grandes pilhas e o gerador de sinal. Na parte frontal, havia um bocal, e sobre ele duas sinetas; do lado esquerdo, um gancho, que segurava o fone de ouvido; do lado direito, uma manivela para gerar o sinal de chamada à telefonista.

Os Burke possuíam um aparelho espantoso (um imenso rádio Philips, o que havia de mais moderno no mundo naquela época. Tinha cerca de 80 cm de altura, 40 cm de largura e 30 cm de profundidade. Era todo de aço, pintado de preto. Pesava uns 20 kg (só o alto-falante devia pesar uns 3 quilos). Na parte inferior da frente havia uma grade telada, por onde o som saia. Na parte superior ficava o painel de controle, com uma janelinha vertical de 5cm x 2cm, através da qual se via o dial, uma roda branca com números ligada ao botão de sintonia dos canais; a alavancazinha ON-OFF e o botão VOLUME. A parte de trás do aparelho era fechada por duas portinholas com grades, que permitiam a ventilação e o acesso às partes internas do aparelho. O rádio funcionava com grandes válvulas eletrônicas. Só pegava ondas longas e precisava ser ligado a uma grande antena erguida fora da casa (um fio de cobre horizontal de uns 15m). Além de pegar mal poucas estações, sofria interferências de muita estática, principalmente quando haviam tempestades nas redondezas. Para poder captar notícias do exterior (EUA e Inglaterra), Mr. Burke comprou um aparelho complementar só para ondas curtas (uma caixa de madeira com válvulas etc.), que ficava sobre o grande rádio e a ele ligado, mas só se conseguia pegar alguma estação durante a noite e com muita dificuldade. Depois de ligar os aparelhos, antes que eles pudessem funcionar, era preciso esperar algum tempo para que as válvulas esquentassem o suficiente. 

 Os Burke conservavam muitos hábitos alimentares da cultura norte-americana. O "breakfast" era reforçado. Começava com "grapefruit" (pomelo), que eram cortados em metades na noite anterior, salpicados com açúcar e colocados na geladeira até a manhã seguinte. A seguir, vinha o tradicional "bacon and eggs" (ovos e toucinho fritos) e "porridge" (mingau de aveia), além do café com leite, pão torrado com manteiga e geléia. No almoço, comiam salada (alface, pepino, rabanete, tomate, abacate etc.); carne (vaca, porco, carneiro, coelho, pato, marreco, ganso, peru, galinha, fígado, rim, bucho, miolos etc.), geralmente com molhos; purê ou batata assada, milho verde, vagem e, às vezes, "Boston backed beans" (feijão branco com toucinho e melado, assado no forno). Nunca comiam arroz e feijão. A sobremesa era pudim de chocolate, sagu no creme, "pumpkin pie" (torta de abóbora com noz moscada), torta de morango, "nervous pudding" ("pudim nervoso", de gelatina) etc. À tarde ("tee time") tomavam chá preto com biscoitos. O jantar era mais leve, sempre começando com um prato de sopa cremosa, ou canja de galinha, seguida de salada e algum outro prato e sobremesa. D. Emma costumava fazer uma grande variedade de "receitas americanas", salgadas e doces. Também fazia conservas de verduras e geléias de frutas, que eram guardadas em frascos, previamente fervidos e depois fechados com tampas lacradas com parafina. Ela também preparava e assava o pão e bolos, bolachas e biscoitos.

 Os Burke costumavam tomar seus banhos antes de irem para a cama e consideravam "supertição" o medo que os brasileiros tinham de tomar banho logo após as refeições.

D. Emma costurava roupas para toda a família, e também fazia acolchoados e travesseiros, com lã de carneiro e penas de ganso produzidos pelos próprios Burke. Quando as crianças iam para a cama, ela lia para elas capítulos das histórias de animaizinhos, dos livros da coleção "Peter Rabbit Tales" ("Contos do Coelho Pedro", uma espécie de Pernalongas daqueles tempos). Nesta foto ela estava com 39 anos de idade, e carrega Tommy nas costas.

 

Mr. Burke, que tinha se formado em contabilidade antes de vir para o Brasil, foi aos poucos se tornando um verdadeiro engenheiro de minas, geólogo e minerologista. Além da prática que ia adquirindo, comprava e estudava livros sobre essas matérias e freqüentemente trocava idéias com o Dr. Moraes Rego (à direita na foto), professor da USP, que dava assessoria à Cia Perus, e que ia periodicamente à Água Fria, hospedando-se com os Burke e tendo se tornado um verdadeiro amigo da família. *Nesta foto aparecem Mr. Burke (ao lado do Dr. Moraes, de terno branco) e dois outros altos funcionários da Cia. Perus.

*Dr. Moraes Rego, professor da Escola Politécnica da USP. Faleceu em 25/06/1940. Tinha só 43 anos de idade. Foi encontrado morto no apartamento onde vivia sozinho. Como não tinha parentes, seu sepultamento foi feito pela Escola.

 Mr. Burke desenvolveu, além dos seus conhecimentos, o que se poderia chamar de uma "atitude científica" (entender cientificamente a realidade e agir de acordo com ela), e procurava sempre passar aos filhos essa mesma atitude. Intuitivamente, usava de uma pedagogia revolucionária para aquela época: observar atentamente, pensar e chegar a uma conclusão. Ao em vez de simplesmente responder às perguntas e curiosidades espontâneas dos filhos, aproveitava-as para estimulá-los a pensar e a pesquisar (coisa que, infelizmente, até hoje, as escolas não costumam fazer…). Estimulava os filhos a consultar com freqüência a coleção de 12 volumes do "Book of Knowledge" (Livro do Conhecimento), uma enciclopédia fartamente ilustrada. Só para exemplificar essa "pedagogia", eis dois exemplos que talvez expliquem um pouco por que os irmãos Burke também vieram a manifestar ao longo da vida uma "atitude científica" semelhante:

Numa ocasião, a família estava reunida na cozinha tomando o chá da tarde, enquanto lá fora desabava um temporal. Tommy, olhando pela janela, perguntou "daddy, why does it rain?" (papai, por que é que chove?). Mr. Burke pensou um pouco, e disse: "let’s make an experiment" (vamos fazer uma experiência). Levantou-se, pegou uma frigideira, pôs um pouco d’água dentro e a colocou sobre o fogão a lenha, que ficava sempre aceso. Disse para Tommy e Eddy chegarem bem para perto do fogão, para observarem e irem dizendo o que vissem (tudo em inglês, como de costume). Quando eles disseram "está começando a sair uma fumacinha…", e um pouco depois, "está fervendo e subindo fumaça!", Mr. Burke pegou um prato (frio) e o segurou, invertido, sobre o vapor que subia da frigideira, mandando os meninos ficarem olhando para a sua parte inferior, e irem dizendo o que eles viam. Logo, foram exclamando, aos poucos: "ta ficando molhado… ta formando gotinhas…. ta pingando água!", um deles então disse, encantado, "it’s rainning!" (ta chovendo!). Mr. Burke pôs o prato de lado, tirou a frigideira do fogo, e começou a conversar com eles, explicando que na natureza o calor do sol fazia evaporar lentamente a água dos mares, rios, lagos e da terra molhada, mas que não se podia ver o vapor subindo, como o da frigideira e do bico da chaleira, por que o calor do sol não chegava a ferver a água. Explicou, também, que bem lá no alto o ar era muito mais frio que aqui embaixo (assim como o prato era bem mais frio que a frigideira), e por isso o vapor invisível que subia começava a formar gotinhas, que iam crescendo, formando as nuvens, e quando as gotas ficavam bem grandes, com as nuvens ficando escuras, elas começavam a cair na forma de chuva. Aproveitou também para explicar por que, às vezes, chovia pedras de gelo.

Noutra ocasião, logo após o jantar, quando já estava escurecendo, uma das crianças perguntou "Daddy, por que é que tem dia e noite?" (em inglês, é claro). Novamente, ao em vez de responder prontamente, ele levantou-se, foi até a cozinha, pegou uma laranja e um palito, voltou e disse algo do tipo: "vocês já sabem que a Terra é uma grande bola que gira no espaço (tinha lhes dito isso anteriormente). Vamos fazer de conta que esta laranja é a Terra, e que está lâmpada (que ficava pendurada sobre a mesa de jantar) é o Sol, e que este palito (espetando-o na laranja) é uma pessoa vivendo na superfície da Terra. Aproximou a laranja até cerca de um metro da lâmpada, com o palito apontando para ela, e perguntou o que eles notavam na sua superfície. As crianças foram logo dizendo que do lado voltado para a lâmpada a laranja estava "no claro", e que do outro lado ela estava "no escuro". Mr. Burke começou, então, a girar lentamente a laranja, até parar com o palito no lado da sombra, e perguntou o que tinha acontecido. Quando disseram que o lado que antes estava no claro agora estava no escuro, e o que estava no escuro agora estava no claro, ele simplesmente continuou girando a laranja lentamente, várias vezes, perguntando "o que acontece com este sujeito?" (apontando para o palito). Na conversa animada que se seguiu, todas as diferenças entre a laranja e a Terra, e a lâmpada e o Sol foram devidamente esclarecidas, e ninguém ficou mais com dúvidas por que existia dia e noite.

Todas as crianças Burke foram alfabetizadas em inglês e receberam as primeiras noções de matemática, geografia e história por D. Emma, antes de irem para os colégios em São Paulo. Henrietta fala sobre esse ensino pré-escolar da seguinte forma: 

Todos nós fomos "desasnados" pela mãe, que era professora formada nos U.S.A. Em parte foi bom, em parte foi uma tragédia – Português – Eu tinha idade e conhecimentos suficientes para entrar no 3o. ano primário – Primeiro dia de aula – Cadernos lindos, etc. Prof. de Português – D. Adalgiza. Tudo de acordo – entreguem os cadernos. Aula seguinte, professora indignada queria saber de quem foi a brincadeira de mau gosto, mas apenas disse: "Quem é Henrietta?" Muito feliz, levantei a mão. – "Pegue suas coisas e vá para o segundo ano – se não para o primeiro!". Note-se: eu havia escrito: "Prof. Salxixa" – Penei, padeci – mas consegui passar do 4o. ano para o 1o. ginasial sem ter que cursar o admissão.

"Tragédias" semelhantes em relação ao português aconteceram com todos os Burke quando foram colocados na escola, mas todos acabaram conseguindo passar para o 1º. ginasial sem ter que cursar o "admissão".

A "criançada" (como costumava dizer a ajudante Rosa Suzuki) vivia brincando, se divertindo e aprontando... Construíam cabanas em cima de árvores e em escavações no barranco, caçavam com espingarda e estilingue; "nadavam" em represas, rios e córregos, e até, escondido, no tanque dos patos...

Outro divertimento da criançada era montar cavalos. Possuíam o velho decrépito e preguiçoso "Branquinho", que morreu logo; o garboso "Magnésia", de cor vermelha; o tranqüilo "Baio", de cor creme, e "Ghosty" (fantasminha), todo branco e mal humorado. Nesta foto de 1935, Tommy monta Magnésia, Eddy monta Baio. Mary, em seu traje de montaria, segura as rédeas dos cavalos e apóia a mão direita na cabeça de John. Peggy, exibe seu traje de ocasião e Teta se protege do sol com seu sombreiro. Wolf, o pastor alemão da família, espera pacientemente a cavalgada começar, e mostra não estar nem um pouco interessado em sair na foto.

A criançada gostava de pescar lambaris, carás e até bagres e traíras no córrego e em lagoas, com "equipamento" improvisado. Como nos primeiros tempos em Água Fria não se podia comprar varas de bambu, linhas e anzóis, improvisavam, usando varas de "veludinho" (um arbusto que produz umas frutinhas roxas peludas ao longo de ramos longos e flexíveis); linha de costura, e anzóis feitos com alfinetes entortados, devidamente surrupiados da caixa de costura de D. Emma. A isca era facilmente obtida: bastava ir ao quintal e arrancar algumas minhocas "bravas". A paixão pela pesca, que Tommy e Eddy conservam até hoje, provavelmente começou com aquelas primeiras pescarias.

Hoje, com mais de setenta anos de idade, eles pescam dourados, pacus, pintados e tucunarés, tilápias javanesas, robalos, sargos e outros peixes, no Pantanal de Mato Grosso, na represa do Tietê em Pereira Barreto-SP, na baia da Babitonga, em São Francisco do Sul-SC, ao largo da costa e dos mangues de Santos e São Vicente-SP, e em pesqueiros "pesque-pague", em Londrina-PR; usando varas de fibra-carbono com molinetes coreanos, linha "sem memória", anzóis noruegueses e, como isca, tuviras, caranguejos, camarões vivos, iscas artificiais e "massinha"...  Nesta foto da pescaria em Perreira Barreto, aparecem: Tommy (sem camisa), Eddy, e, nas pontas, os filhos do Eddy: Paulinho (com um tucunaré) e Carlinhos.

Parece que a dupla Tommy e Eddy foi especialmente traquina, provavelmente por terem nascido depois de um intervalo de quatro anos após o nascimento do Carlito, e terem apenas pouco mais de um ano de diferença de idade entre eles, sendo tratados pela família quase como se fossem uma única pessoa caçula. Eram chamados de "Tommy-Eddy" (sem o "e" entre um e outro). Eles também eram chamados de "The Scorpions"... Dentre as muitas artes que a dupla aprontou, três se tornaram memoráveis:

Num dia em que Mr. Burke e D. Emma estavam em São Paulo cuidando do Carlito, jogaram uma bolinha de vidro que quebrou o vidro do grande relógio, que ficava sobre a lareira, uma relíquia valiosa da família (atualmente está com a Teta, em Santos). Apavorados com o que lhes iria acontecer quando os pais voltassem, resolveram inventar uma história salvadora, para explicar como o desastre tinha acontecido.

Quando, alguns dias depois os pais voltaram e a "hora do juízo final" chegou, eles disseram, com as carinhas mais inocentes do mundo, que "o ganso entrou voando pela janela, bateu no relógio e quebrou o vidro..." A surra foi dupla: uma por terem quebrado o vidro, e outra por terem mentido de forma tão sem vergonha... Teta, que de longe assistia à cena, tratou logo de se esgueirar para a cozinha, para não ser também incriminada...

Noutra ocasião, Tommy e Eddy, intrigados com o fato de verem que os patos e marrecos nadavam sem problemas, enquanto que as galinhas (que às vezes caiam acidentalmente no tanque) não conseguiam nadar e acabavam morrendo afogadas, trataram de elaborar uma teoria explicativa (talvez já contaminados pela "atitude científica" de Mr. Burke...). Concluíram que os patos e marrecos estavam cheios de ar, fazendo com que boiassem, e as galinhas não tinham ar por dentro. Para testar sua teoria, pegaram um pato e, com uma faquinha cega (usada para tirar barro dos sapatos), fizeram, sob os veementes protestos do pobre pato, vários buracos profundos no seu corpo, "para deixar o ar sair", e o jogaram sangrando no tanque. O resultado foi surpreendente: o pato morreu logo, mas, estranhamente, não afundou como a teoria previa. Frustrados e confusos, resolveram ir brincar com outras coisas menos misteriosas. Quando o pato foi encontrado e examinado (para se descobrir a causa da sua morte), os responsáveis foram prontamente identificados e interpelados. Eles simplesmente se justificaram contando por que tinham feito aquilo. Salvaram-se de uma boa surra (por terem contado a verdade), mas não de um longo sermão sobre crueldade para com os animais. Talvez Tommy já estivesse começando a mostrar seu interesse por ciência, que mais tarde o levaria a se tornar professor de metodologia científica, em cursos de pós-graduação da USP...

 Mas os moleques nem sempre eram muito "científicos". Um dia Tommy convenceu Eddy, que estava bravo por ter tomado uma surra da mãe, injusta segundo ele, a se vingar jogando uma pedra na D. Emma, que estava sentada costurando na varanda. Disse, também, que depois de jogar a pedra ele deveria correr para fugir dela, e se enfiar debaixo de um pinheiro novo (que tinha os ramos inferiores cheios de "agulhas" pontiagudas, quase raspando o chão), onde ela não conseguiria pegá-lo. Dito e feito, a pedrada foi certeira, só que o impossível aconteceu: D. Emma rastejou por baixo do pinheiro, apanhou e arrastou Eddy para fora, e deu-lhe a maior surra da sua vida. Tommy, depois, teve que ouvir, um montão de vezes, a acusação: "Você disse que minha mãe não ia conseguir me pegar!" Até hoje, quando eles se encontram e começam a relembrar os velhos tempos de infância, Eddy culpa Tommy pelas memoráveis palmadas que tomou naquele dia... talvez nunca o tenha perdoado totalmente… (Em Perus, a dupla aprontou mais algumas… ver  próximo capítulo).

Os Burke, quando foram viver em Água Fria, costumavam passar as férias de julho no Guarujá, onde John e Emma tinham vivido no início da década de 1920.  Na foto, de 1933, estão: Mary, Teta, Peggy, John, Tommy e Eddy.

 

 

Mais tarde os Burke passaram a freqüentar a praia da Bertioga. Lá, gostavam de sair, com o pescador Pedro Damião em sua grande canoa, para pescar, com "linha de fundo" segurada na mão. Mr. Burke e D. Emma também participavam das pescarias. Esta foto foi tirada em 1939, antes de saírem para uma manhã de pesca no canal. Ao lado do pescador Pedro, estão: Teta, Mary, Peggy, John, Tommy e Eddy. Tommy, muitos anos mais tarde, já casado, voltou sozinho, várias vezes, a pescar de canoa, no canal da Bertioga e nos manguezais do município de São Vicente, da forma que aprendera na infância com o velho pescador Pedro.

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