A Família Burke no Brasil       - 1919-2006

 
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Sítio do Vovô

Por John Ulic Burke (1924-1987)

 

Em novembro de 2005, Thomas encontrou, entre antigos documentos guardados por Henrietta, um manuscrito de 10 páginas intitulado "Sítio do Vovô", escrito de próprio punho por seu irmão, John Ulic Burke, provavelmente por volta de 1976. Tratava-se de uma historinha infantil, inteiramente baseada em pessoas reais e "personalidades" animais que viviam no sítio da família Burke em Mogi das Cruzes. Infelizmente, as páginas estavam bastante danificadas pela ação do tempo, e para evitar que viessem a acabar se perdendo para sempre, Thomas digitalizou-as e transcreveu-as. Uma foto reduzida da primeira página é reproduzida abaixo, seguida da transcrição completa da historinha.

 

                      

 Transcrição, com algumas pequenas correções:

 

Sítio do Vovô

 

No último piquenique que vocês, sobrinhos meus, fizeram no sítio do vovô, devem ter notado que poucos dos bichinhos que lá moram se fizeram ver. É que são muito ariscos, não se mostrando com facilidade, nem mesmo para o titio. Mas para que vocês os conheçam melhor, vou contar historinhas de alguns deles.

Na varanda da casa do vovô, mora dona Curuira e sua família. Dona Curuira, depois de consultar seu marido, resolveu fazer seu ninho e criar os filinhos num canto por cima de um caibro do telhado da varanda, bem perto da janela do quarto do vovô e da vovó.

A escolha foi bem pensada, pois o vovô não deixa ninguém fazer mal aos bichinhos moradores do sítio e tem predileção especial pelos passarinhos.

Dona Curuira é um passarinho miudinho marrom, muito meiga, bondosa, que só fala bem dos outros. Quando ela precisa sair de casa para procurar comida, tem certeza que seus filinhos estarão bem em segurança. Por sinal, quem contou que morar perto do vovô é bom, foi o Teobaldo, e a comadre Tesourinha confirmou.

Teobaldo é uma rãzinha [seu nome verdadeiro era Calaveras, dado por Mr. Burke] que mora na cozinha da vovó dentro de um vaso de pedra-sabão, que foi trazida lá de Minas Gerais. A pedra-sabão não é de sabão, não, é apenas uma pedra meio mole quando é tirada da pedreira e que endurece depois. Enquanto a pedra fica mole, é fácil fazer o vaso.

A vovó usava o vaso para ter uma folhagem que caia dos lados e que brotava de uma batata-doce. Sempre fica com um pouco de água para refrescar as raízes da planta.

Um belo dia, o Teobaldo, muito curioso, se esgueirou por baixo da porta e foi investigar a cozinha. Como ele tem uns discos nas pontas dos dedos que grudam nas coisas quando ele quer, não teve dificuldade de subir em tudo. Era uma tarde muito quente e quando o Teobaldo descobriu aquela linda piscina e enfeitadinha de ramagens de bata-doce, não teve dúvidas: tshibum, lá foi ele para dentro.Tanto gostou, que não percebeu passar o tempo e quando deu por si a vovó já estava entrando na cozinha e não dava mais para fugir sem ser descoberto.

O Teobaldo se encolheu todo e ficou bem escondidinho dentro do vaso com o coraçãozinho batendo como pipoca pulando na frigideira.

A vovó deu uma arrumação na cozinha e o Teobaldo, vendo que não foi notado, foi sossegando. Mas de repente a vovó veio para o lado do Teobaldo com uma caneca de água na mão. Ela ia colocar mais água no vaso, que agora era esconderijo da rãzinha, após ter sido sua piscina. O Teobaldo ficou com tanto medo que nem se lembrou de pular, e quando a vovó chegou perto e ia pôr a água, viu o coitadinho todo encolhidinho e, oh, que maravilha, sorriu! Não colocou água para não assustá-lo mais e saiu da cozinha. O Teobaldo, mais do que depressa, sumiu dali.

Mais tarde, ele se lembrou do sorriso da vovó, das folhagens, da água fresquinha, das paredes grossas do vaso de pedra-sabão, e numa tarde quente não resistiu e voltou. Desta vez teve menos medo e como ninguém o enxotou, foi se sentindo aceito e começou a ser freqüentador assíduo da piscina, que já era sua. Gostou tanto, que nos tempos de calor dormia ali mesmo.

Numa tarde, quando o Teobaldo estava todo à vontade terminando seu banho de sol, o titio, que não sabia nada da estória, foi olhar dentro do vaso. Não sei dizer quem ficou mais espantado, o titio ou o Teobaldo.

O Teobaldo deu um enorme de um pulo, passando bem perto da cara do titio; caiu em cima da mesa e dali pulou para dentro de uma das botas do vovô e, se pondo bem no fundinho, no lugar dos dedos do pé, ficou ali quieto ouvindo o que estavam falando dele.

O vovô e a vovó tiveram que contar para o titio a estória todinha do Teobaldo, inclusive que ele era mulher e não homem. Souberam do fato somente muito depois que tinham posto o nome nele, e como todos aceitaram o nome, não quiseram mudá-lo. O titio não estranhou muito, pois já havia sido apresentado a um gato muito macho na casa do Laércio e dona Beth, que só atende pelo nome de Brigite.

Mas lá estava o Teobaldo no fundo do pé de bota ouvindo a discussão entre o titio e o vovô. O titio queria virar a bota para ver o Teobaldo, e o vovô não deixava. No final ganhou o vovô, pois a bota era dele, e se ele queria emprestá-la para o Teobaldo, estava no seu direito.

Pois foi esse mesmo Teobaldo que contou para dona Curuira que o vovô e a vovó gostavam dos animais. A dona Tesourinha, mais do que depressa, entrou na conversa e contou sua estória.

A dona Tesourinha gosta muito de viajar. Todo ano ela faz uma viagem e na volta procura um lugar bem sequinho para fazer seu ninho. Dona Tesourinha é uma andorinha muito elegante, cujo marido só anda de fraque e camisa engomada, e ela só usa vestido de saia comprida com cauda dividida ao meio. Quando ela voa, a cauda fica dividida, parecendo uma tesoura de costura de longe. Daí seu nome.

Na primavera de um ano que já ficou muito para trás, ela chegou e fez seu ninho na chaminé da lareira da sala de jantar do vovô, sem ao menos pedir licença. Coisas de gente rica. Criou duas filhas e dois filhos, e pelo meio do ano foi viajar. Não disse até logo, nem muito obrigado. Pouco estava sabendo que o vovô e a vovó gostavam de fazer fogo na lareira nas noites frias, e que não o tinham feito para não perturbá-la com a fumaça. Não tinha consciência que seus filhos, como todas as crianças sadias, tinham feito algazarra na hora de repouso do vovô depois do almoço. Nem procurou saber. Quando chegou a hora de passear, lá se foi ela com a família, e nem ao menos varreu a sujeira que ficou para trás.

Os filhos cresceram, casaram, e foram cuidar da vida. O casal voltou no ano seguinte e ao procurar a chaminé da lareira, a encontrou limpinha, varrida, sem nem um cheiro de fumaça, pois o vovô não permitiu que ninguém acendesse o fogo, para que quando Dona Tesourinha voltasse sua casa estivesse em ordem.

"Foi uma lição que me deram", disse dona Tesourinha a sua comadre dona Curuira. "Perdi boa parte do meu orgulho. Nunca mais chego ou saio sem cumprimentar e agradecer a hospitalidade. Boa gente! Posso sair para as compras e deixar tudo destrancado, que não mexem em uma palha sequer. E a segurança? Todos os netinhos do vovô sabem que no sítio ninguém pode caçar passarinhos. Comadre, faça seu ninho aqui, que você vai gostar."

Dito e feito.Todo ano dona Curuira faz seu ninho bem pertinho da janela do vovô e da vovó. Dona Tesourinha, um ano faz seu ninho na chaminé, outro ano não vem, pois não perde essa mania de viajar, mas sabe que o vovô e a vovó, por mais frio que passem, não farão jamais fogo na lareira sem primeiro consultá-la.

No sítio existem muitos outros personagens que não vivem assim tão pertinho do vovô e da vovó. Gostam de manter uma certa independência. Alguns têm nomes, outros não.

Um tatu, que tem mania de cavar túneis, está empenhado na construção de um metrô no matinho para cima da bica de água. Passa o dia todo metido nos seus buracos e só sai de noite para passear. A titia já pôs nome nele de Paulo Maluf. É o único que tem sobrenome, igualzinho a gente grande.

O Paulo Maluf (Deus nos livre de chamá-lo apenas de Paulo ou de Maluf) gasta de, lá pelas duas horas da madrugada, passear pela calçada da casa do Pedro Conceição, ao lado da casa do titio. Quem não gosta da estória é a Pipoca, que faz uma barulheira danada, pondo a boca no mundo.

O Pedro Conceição é uma bondade de preto, magro, muito forte, com cabelos começando a branquejar. Toma conta do sítio, não deixando faltar nada para as plantas e os bichinhos.

A Pipoca é uma cadelinha amarela que ficou sabendo, não sei como, que o Pedro Conceição estava necessitando de ajuda, pois mora sozinho.

Foi chegando devagarinho, muito humilde, sem coragem de pedir para ficar. Quando o Pedro saiu para trabalhar, lá foi ela atrás, sempre guardando uma distância respeitosa. Na hora do almoço, apesar da fome, não pediu nem um pedacinho de pão. O Pedro, que tem um coração deste tamanho, não resistiu e repartiu seu almoço com a Pipoca, na sombra da jabuticabeira. Quando voltou para casa à tardinha, Pipoca foi atrás. Deitou-se no terraço em frente à porta como se estivesse dizendo: este dono é meu e eu vou guardar sua casa.

Pipoca conquistou o coração do Pedro e de todos. Já tem sua casinha de madeira, pintadinha, com seu nome sobre a entrada. Nunca contou de onde veio nem do seu passado, e também ninguém vai perguntar. Só sabemos que é boa, paciente, meiga, humilde, ótima mãe.

O único capaz de tirá-la do sério é o Paulo Maluf. Pudera! Ela morre de medo que ele invente de estender uma linha do seu metrô para baixo da casa do Pedro.

Por falar em túneis, a Pipoca conhece o assunto bem. Quando foi ter cachorrinhos, ela cavou um bonito túnel no barranco que fica defronte à porta da cozinha da casa do Pedro Conceição e fez um quarto bem quentinho para os filinhos.

Faz tempo que o titio não vê a Dina e seu filinho. Dina é uma lagartixa de estimação. Seu nome foi dado pelo primo de vocês, o Pedro Paulo. Disse que parecia um dinossauro em miniatura, daí o nome de Dina.

Quando o titio e a titia moravam no sítio, antes de mudarem para São Paulo, a Dina fazia companhia e se encarregava de livrar a casa das moscas, mosquitos e outros insetos. Era bastante tímida, parando pouco para conversar. Acredito que está bastante zangada conosco por termos mudado para a capital. Quando vamos ao sítio, não tem se mostrado. Qualquer dia vou marcar uma entrevista com o Jacaré lá da lagoa, para ver o que ele aconselha.

Para falar com o Jacaré, só marcando entrevista mesmo. Oh, que indivíduo arredio que é. Não fala com ninguém. Pouquíssimos já o avistaram. Acredito que ele acha que o que é raro é caro, e se valoriza por aparecer pouco. Ficou sendo uma espécie de mito. Eu acredito que ele é mesmo muito sabido. Já viu o que aconteceu para seu primo que vivia em um bueiro, por onde o córrego que nasce na lagoa do sítio passa por baixo da estrada de rodagem, e não quer que lhe aconteça o mesmo. Fica bem quietinho, sem fazer como a dona Saracura, que toda tardinha avisa que está lá pelas taboas da lagoa. Não precisa fazer muita bulha para ir vivendo sua vidinha calma. Ele, melhor ainda do que o Pedro Conceição, sabe onde ficam aquelas gordas tilápias de quilo. Ninguém bole com ele, e ele não bole com ninguém.

Por falar em peixe, o único que tem nome e não pode ser pescado é o Big Hercules. É uma carpa grande que o titio de Campinas deixou na lagoa para tentação constante do senhor Jacaré.

Qualquer dia, não sei não, o Jacaré vai pegar o Big Hercules dormindo com o lombo fora da água tomando sol e não vai resistir.

Qualquer dia, quando o titio tiver tempo, vou contar a vocês, meus sobrinhos, ainda muitas estórias de outros habitantes do sítio. Existem os preás sem rabo, os gambás, as corujas, as cobras, aranhas e muitos bichos mais. Todos vivem na mais perfeita ordem, respeitando-se mutuamente. Ninguém ainda foi mordido por cobra ou aranha, a não ser o Pedro Conceição, caso esse que conto logo mais.

Os bichinhos costumam sair do caminho quando alguém passa, ou darem aviso que ali estão, para que a gente não os pise.

O caso do Pedro foi puro acidente. A dona Aranha estava com muito frio uma noite, e resolveu procurar um cantinho mais quente. Entrou por baixo da porta no quarto e entrou numa das botas do Pedro Conceição. Não tinha  intenção de ocupar a bota definitivamente, e ela não queria acordar o Pedro, que dormia gostoso, para pedir licença. Era intenção de dona Aranha levantar bem cedinho e sair como entrou. Mas o Pedro levantou mais cedo do que ela e, ainda com sono, quis calçar a bota com dona Aranha ainda dormindo dentro dela. Dona Aranha, apesar de ser boa pessoa, é dessas velhas meio rabugentas, sempre prontas a revidar ataques reais ou imaginários. Quando sentiu o pé do Pedro sobre as costas, acordou assustada e, sem pensar que o Pedro não teve intenção de machucá-la, largou uma ferroada no dedão do pé do Pedro. Foi aquela confusão. Dente de quem só vive tecendo teias para pegar os insetos envenena mesmo.  O pé do Pedro inchou e as desculpas de dona Aranha não é que iriam desinchar. Precisou de injeção na farmácia da cidade. Mas tudo acabou bem, apesar do Pedro e dona Aranha se tratarem com muita reserva desde então.

Os únicos bichos que não têm vez no sítio são as formigas saúva. Não sei qual o motivo, mas o vovô quando se mudou para o sítio muitos anos antes de vocês terem nascido, já trouxe uma vendeta antiga com a raça das saúvas. Deve ser o único defeito do vovô, pois ele gosta e protege todos os bichos. Mesmo das formigas em geral, ele não tem raiva. É só de saúva. Ele não conta o que houve entre eles. Só sei que o vovô vive passeando lá pelo sítio, e quando encontra um olheiro de saúva, lá vem o grito: "Pedro, oh Pedro Conceição, olha a saúva!" Lá vai o Pedro, que não gosta de matar bichinho algum com o formicida.

Não sei quem vai ganhar essa guerra, mas suspeito que não vai ser o vovô, não. Não que eu tenha coragem de dizer isso a ele, e proponho que vocês também fiquem de bico calado. Afinal de contas, quando a gente atinge uma certa idade tem direito a certas idiossincrasias. Vai ver que ele também não leva as coisas tão a sério.

 

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