A Família Burke no Brasil       - 1919-2006

 
Esclarecimentos
Brasão

A Saga

Genealogia

Biografias

Origens

Relíquias

Albúm de Família

Contatos

   

5 – APRENDENDO A VIVER NA GRANDE CIDADE

(1941-1951)

 

Acostumando (quase) a viver em São Paulo           

A primeira casa dos Burke em São Paulo, uma espécie de "filial" da casa da Água fria, foi alugada na Rua Tanabi (paralela à Av. Turiaçú e distante 800m da Av. Água Branca). Era um sobrado de dois pavimentos e mais um sub-solo. A família se mudou para lá em 1941, ficando Mr. Burke em Água Fria.  Tommy e Eddy, que tinham estado internados no Colégio São Bento, passaram para o regime de semi-internato. Iam e vinham da escola de bonde da "Light" (The São Paulo Tramway, Light and Power Company, Limited), que passava pela Av. Água Branca e ia até o Largo São Bento. O bonde era praticamente o único tipo de transporte coletivo na cidade de São Paulo naquela época.

Vista da Igreja, Mosteiro e Colégio São Bento, onde John, Tommy e Eddy foram colocados internos em 1931 e 1940. Ali fizeram seus cursos, desde a primeira série até o último ano do "científico".

 

 John terminou seus estudos no Colégio São Bento em 1941 e entrou no curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde se formou em 1945. Em 22/11//1945 ele se casou com Cecília Pedrosa Dantas e foi viver no bairro Santo Amaro.

 Como o estado de saúde da Mary, que estava morando em Mogi das Cruzes em companhia da Rosa Suzuki, piorava, ela, já acamada, foi trazida de volta para São Paulo, para viver em companhia da mãe e dos seus irmãos. Em março de 1942, foi levada para o Hospital Samaritano, onde acabou falecendo no dia 01 de abril, com 22 anos de idade. Foi sepultada no Cemitério São Paulo, ao lado do irmão Carlito, que havia morrido em 1935. Alguns anos depois, José Gonçalves, o antigo noivo de Mary, se casou com a Lourdes, grande amiga de Mary desde quando ela tinha estado no sanatório em Campos do Jordão.           

Em 1943, a família mudou-se para a um apartamento alugado na Rua General Jardim, próximo a Praça da República, para que Tommy e Eddy ficassem mais perto do colégio São Bento. Em 1945, mudaram-se para uma casa na Rua dos Franceses (atrás do Hospital), mas logo foram obrigados a se mudar novamente porque a parte dos fundos da casa, construída sobre um aterro de encosta (que dava para o vale da Av. 9 de Julho) desabou, felizmente sem vítimas.

Desta vez, para alegria de John, Tommy e Eddy, eles foram morar numa chacrinha (retorno à natureza...), pertinho da antiga Estrada de Santo Amaro (Av. Santo Amaro), desmembrada da grande "Chácara dos Ingleses", que ficava ao lado do Córrego da Traição (sobre o qual hoje passa a Av. dos Bandeirantes, na divisa entre Vila Nova Conceição e Brooklyn Paulista).

D. Emma voltou para viver com Mr. Burke em Água Fria e Tommy e Eddy foram deixados aos cuidados de Teta e Passos. Passos continuava trabalhando na Estação do Ipiranga. Nesta foto, de 1949, num dia de festinha, aparecem João, Teta, Joãozinho, Mary e Lúcia.

Durante as férias escolares, Tommy e Eddy iam para Água Fria, onde se divertiam em companhia de Milton e de outros filhos do Dr. Milton Spencer Veras e D. Margot, vizinhos que ocupavam metade da antiga casa dos Burke. Também iam para o sítio em Mogi das Cruzes.

Em 1949, John e Emma voltaram, de navio, aos Estados Unidos (a única vez), para uma visita aos seus parentes e à cidade de Nova York, de onde haviam partido 30 anos antes. Ficaram lá apenas dois meses, e voltaram dizendo "não agüentamos mais as saudades...", e trazendo muitos presentes.

Em julho de 1949, Tommy, Eddy, Milton e mais três amigos, foram acampar na "Prainha" da Bertioga, do outro lado da ilha de Santo Amaro. (Na foto, Tommy joga peteca com Milton em frente das barracas).

Uma manhã, eles foram de canoa (emprestada de um pescador) até a vila de Bertioga, para comprar pão e um filme para a máquina fotográfica. Como na vila não havia o filme, foram até a Colônia de Férias do SESC (uns 6 quilômetros pela praia). Ao entrarem na colônia (que não era cercada), perguntaram a uma moça, que estava atrás de um dos chalés lavando roupa no tanque, onde ficava a lojinha da colônia; foram até lá, compraram o filme e voltaram para o acampamento na Prainha. Lá chegando, contaram aos companheiros o que tinham feito e disseram que a colônia estava cheia de moças bonitas... Todos ficaram muito excitados, e resolveram levantar acampamento e irem para a Bertioga. Como estava chovendo já há alguns dias, resolveram pedir ao Seu Elias Nehme ¾ dono do armazém da vila e da Pensão Paulista, onde os Burke costumavam se hospedar nas férias de julho ¾ para deixá-los acampar dentro de um barracão fechado que ficava ao lado da pensão, no que foram prontamente atendidos.

Ficando sabendo que à noite havia bailinhos na colônia de férias do Sesc, para lá se dirigiam às tardinhas e dançavam até o fim dos bailes (às 22:00 hs., quando os geradores de eletricidade da colônia eram desligados). Logo na primeira noite, Tommy tirou para dançar a moça a quem havia pedido informação naquela manhã, e ficou sabendo que ela se chamava Maria Therezinha, e que estava passando uns dias com sua família na colônia. Conversa vai, conversa vem, foram logo se engraçando, e se tornaram um par constante nas próximas noites e passaram a namorar. Quando Maria Therezinha e sua família voltaram para São Paulo, Tommy os acompanhou. Alguns dias depois ficaram noivos. Esta foto foi tirada na barca em que voltavam de Bertioga para Santos. No ano seguinte, voltaram para passar uma semana na colônia onde haviam se conhecido.

 

1950 - Foto de John com seu filho Pedro Paulo, em Bertioga, durante um passeio na colônia de férias do SESC, onde os noivos Tommy e Maria passavam férias com a família dela.

Em 1950, não desejando mais continuar seus estudos, Eddy foi viver no sítio em Mogi das Cruzes, para começar uma granja de galinhas. Em 1951, Tommy foi para o Rio de Janeiro (Ceropédica, na baixada fluminense), para estudar Agronomia na ENA (Escola Nacional de Agronomia, da Universidade Rural), e Teta e Passos se mudaram para a casa comprada por John e Cecília, na Av. Odila (Planalto Paulista). 

Teta e Passos mudaram-se em 1955 para a Rua João Julião (Paraíso); depois, em 1970, para o apartamento que compraram na Alameda Franca, onde viveram até 1991. Durante esse período, Passos, que vinha sofrendo de uma doença degenerativa dos músculos e articulações (esclerose múltipla), foi piorando. Em 1992, mudaram-se para uma casa alugada na cidade de São Carlos – SP, para que Passos pudesse ter mais liberdade de movimento. Lá ficaram até 1997, quando se mudaram para um apartamento na Av. Presidente Wilson, na cidade de Santos (Praia José Menino), onde Passos veio falecer em 2001. Teta continua vivendo lá, e atualmente em companhia de Tommy e Maria.

 

 

Curiosidades e Historinhas           

Em 1941, quando os Burke foram morar em São Paulo, a cidade tinha apenas cerca de um milhão de habitantes. O principal meio de transporte coletivo, além dos trens de subúrbio, eram os bondes da "Santo Amaro Tramway" e da Light. Todo comércio varejista mais importante estava localizado no centro, especialmente na área entre a Praça da Sé, Largo São Francisco, Praça do Patriarca e Largo São Bento (especialmente as ruas São Bento, Direita e Líbero Badaró). A grande casa comercial da cidade era a Mappin Stores, na Rua São Bento, entre as ruas da Quitanda e Direita, com frente para a Praça do Patriarca (mais tarde, a Mappin mudou-se para o grande edifício em frente do Teatro Municipal). Nos bairros, só havia armazéns de secos e molhados, e empórios; não existiam padarias como as de hoje. Havia pouquíssimos prédios com mais de cinco andares, e o Edifício Martinelli, com 25 andares, no início da Av. São João, era o orgulho da cidade. Não havia terminal rodoviário, e os pontos terminais dos ônibus intermunicipais e interestaduais partiam das respectivas agências de venda de passagem.           

Mr. Burke, D. Emma, Tommy e Eddy costumavam ir com freqüência ao sítio em Mogi das Cruzes. No começo, viajavam pelo trem de subúrbio da Central do Brasil, que partia da Estação do Norte. Havia poucos trens por dia, e viviam sempre superlotados, atrasavam até horas e os desastres eram freqüentes. A estação de Mogi ficava ao lado da praça central da cidade. Depois da Segunda Grande Guerra, a Central do Brasil se tornou parte da Rede Ferroviária Federal, e a Estação do Norte recebeu o nome de Estação Roosevelt, em homenagem ao falecido presidente dos Estados Unidos durante a Segunda Grande Guerra. Depois, quando foi criada uma linha de micro-ônibus entre São Paulo e Mogi (que funcionava no sistema "lotação"), os Burke passaram a usá-la.  A agência ficava ao lado da Estação do Norte. O trajeto era pela Av. Celso Garcia até a igreja da Penha, seguindo pela antiga estrada Rio-São Paulo, passando por São Miguel Paulista (onde terminava o asfalto); depois, sempre por terra, buracos, barro e poeira, passava por Ferraz de Vasconcelos, Calmon Viana, Poá, Suzano e Braz Cubas, onde começava o trecho asfaltado que atravessava a cidade de Mogi. Os motoristas eram o "Madureira" e Seu Bonafé, antes choferes de caminhão.

Ao chegarem em Mogi, os Burke iam até o sítio de táxi, combinando dia e hora para o táxi apanhá-los para o retorno. Quando acontecia deles ficarem no sítio várias semanas (nas férias), iam a pé até a cidade nos domingos, para assistirem missa e fazerem compras no Mercado Municipal, tomando o táxi para voltarem ao sítio. Na foto, o ponto de táxi em frente da estação de Mogi, da Estrada de Ferro Central do Brasil. Ao fundo aparece o coreto do jardim da cidade. 

Durante os anos da Segunda Grande Guerra, os táxis, que tinham direito a adquirir apenas uma cota muito reduzida de gasolina por semana (todo combustível era importado), acabavam ficando sem gasolina suficiente para levar os Burke até o sítio. Alguns motoristas, que haviam se tornados amigos da família, compravam alguns litros de álcool comum no armazém, e os colocavam no tanque, junto com o restinho de gasolina. O motor, que não era feito para usar tal mistura, custava muito para pegar, funcionava muito mal, "tossia queném tuberculoso com tosse comprida", e morria a toda hora. Quando isso acontecia, era preciso drenar a água acumulada na cuba do carburador.

Durante o período de falta de gasolina e óleo diesel, muitos proprietários de automóveis (e até alguns de ônibus e caminhões), adaptaram os motores para funcionar com "gasogênio". O aparelho gerava o gás combustível (pobre) numa câmara que queimava carvão ou mesmo lenha de onde passava para dois grandes cilindros verticais, e dali seguia para o motor. O conjunto era instalado do lado externo, preso atrás, na frente ou sobre o veículo.  Para ligar o motor, era preciso acender o carvão (ou a lenha) e esperar até que houvesse gás suficiente nos cilindros. De tempos em tempos, era preciso parar para reabastecer o aparelho, o que obrigava o motorista a levar no veículo sempre um estoque de carvão ou lenha. Não era nada prático nem limpo, mas "quebrava o galho". Na foto do caminhão Peujot, vê-se o motorista abastecendo a fornalha com lenha, e, sobre a carroceria, o cilindro de armazenamento do gás.  Este automóvel Ford levava o conjunto de gasogênio preso atrás do porta-malas.

 Em Mogi das Cruzes, na esquina do Largo do Rosário com a R. Dr. Wertheimer, havia uma loja "tem de tudo", cuja proprietária (imensa) vendia todo tipo de coisas usadas (e algumas novas), especialmente ferragens, ferramentas, fogões, fogareiros, lampiões, utensílios de cozinha, armas e munições. Os Burke eram simplesmente fascinados pela loja, e costumavam comprar muita coisa ali. Um dia, Tommy e Eddy, ficaram encantados com uma velha carabina Winchester calibre 22 de repetição, e perguntaram à proprietária se ela (a arma) ainda funcionava bem. A espantosa dona da loja não disse nada, apanhou uma bala, meteu-a na carabina, apontou para um velho penico que estava pendurado no fundo da loja e disparou, atravessando o pobre penico bem no meio e levantando uma nuvem de poeira da parede de taipa onde a bala foi se alojar. Todos ficaram impressionados e convencidos, mas Mr. Burke simplesmente disse que o melhor seria comprarem uma arma mais moderna, o que causou uma enorme decepção em Tommy e Eddy e, certamente, também na decidida vendedora...

Algum tempo depois, Mr. Burke comprou uma carabina Marlyn (americana), calibre 22 (de um tiro), em São Paulo (Casa Gaúcho - R. Líbero Badaró), e a deu como presente de natal para Tommy e Eddy. John (Jr.) tinha uma espingarda Floubert 9mm (belga), que usava cartuchos com chumbinhos e também balas curtas (uma esfera de chumbo). É impossível fazer uma estimativa da quantidade de tiros que a Marlyn deu durante sua vida útil. Tommy e Eddy gastavam todas as suas mesadas e mais um pouco comprando caixas e mais caixas de munição, que era gasta caçando sanhaços, sabiás, rolinhas, pombas do mato, gaviões, saracuras, lagartos e gambás.

Adoravam, também praticar tiro ao alvo em garrafas e alvos pregados numa grande paineira ao lado do caminho para a nascente. A pobre paineira acabou ficando barriguda, "inchada, de tanto comer chumbo" (certamente algumas dezenas de quilos...). Mais tarde, quando Tommy e Eddy já estavam casados, o poder de fogo dos Burke foi aumentando gradativamente, com Eddy comprando uma cartucheira Rossi cal. 36. Tommy comprau um revolver Taurus cal. 32 e uma carabina BRNO (checa) cal. 22, com pente de 5 balas (na foto), armas que ele entregou à Polícia Federal em 2004.

John, que estudava engenharia na Escola Politécnica, numa das férias, combinou com o colega e amigo Paulo Rapyo irem a pé do sítio em Mogi das Cruzes até a praia da Bertioga. Pegaram barraca, roupas, alguma comida e a espigardinha Flobert, colocaram tudo sobre o cavalo Ghosty, e partiram, puxando o cavalo. Seguiram pela estrada até Capela do Ribeirão, e dali tomaram uma trilha pela mata atlântica, acampando pelo caminho, até chegarem a uma casinha no alto da serra, onde deixaram o Ghosty num pastinho, aos cuidados do morador. Na trilha, haviam cruzado com uma onça pintada, que passou tranqüilamente a uns cinqüenta metros deles. Desceram até o pé da serra pela trilha que acompanhava os canos de água da usina de Itatinga ¾ antiga fornecedora de energia elétrica para a Companhia Docas de Santos ¾; atravessaram o Rio Tapanhaú e chegaram até a praia da Bertioga. Ficaram lá alguns dias, e fizeram o percurso de volta até o sítio em Mogi, muito empolgados e orgulhosos com o que haviam feito.

Tommy e Eddy tinham como hobby colecionar selos, cultivar orquídeas, montar rádios e vitrolas (fizeram um curso de "radio técnico" por correspondência), consertar eletrodomésticos e revelar fotografias. Sua oficina-laboratório fotográfico ficava no porão da casa. Descobriram até uma maneira de tirar fotografias sem o uso de filme: colocavam papel fotográfico no lugar do filme na máquina "caixote", batiam a fotografia, revelavam o "negativo" e depois tiravam, por transparência forçada, a cópia positiva. Esta é uma das fotos tiradas por esse sistema. Ao lado, uma máquina Kodac do tipo "caixote", semelhante à usada pelos Burke em suas primeiras fotos no Brasil, e que usaram até por volta de 1950. Com ela, Tommy e Eddy fizeram suas experiências fotográficas sem o uso de filme. 

Eles também gostavam de comprar e ouvir discos de música clássica, algo meio estranho para jovens da sua idade. Andavam bastante de bicicleta, inclusive indo até às matas perto de Parelheiros e Itapecerica da Serra, para coletarem orquídeas nativas.           

Enquanto cursavam os dois anos do "científico", Tommy e Eddy trabalharam meio período no escritório de engenharia do irmão John, na Praça da Bandeira. Faziam os desenhos, em papel vegetal, das plantas de concreto armado dos prédios que John e colegas projetavam e calculavam. Ganhavam por produção (metros quadrados de plantas desenhadas). Eddy também ajudou a fazer alguns levantamentos topográficos (trabalho de campo e de escritório) durante esse tempo. Depois que se mudaram para Mogi das Cruzes (ver próximo capítulo), Tommy trabalhou algum tempo no escritório de engenharia do seu irmão John e Miguel Gemma, voltando a fazer plantas de concreto armado. Ali aprendeu também a fazer os cálculos estruturais, chegando, inclusive, a calcular toda a estrutura de um prédio de quinze andares, que acabou sendo construído com apenas dez andares porque faltou dinheiro aos condôminos, um dos quais era o próprio calculista... 

Quando Tommy e Eddy cursavam o 1o ano do "científico" no Colégio São Bento (moravam no Brooklyn), eles combinaram com o amigo Milton (filho do Dr. Milton Veras, médico da Cia Perus), fazerem uma viagem de bicicleta de São Paulo até Bebedouro, onde vivia um tio do Milton, proprietário de uma fazenda de café e gado. O programa era saírem os três nas férias, em janeiro, mas Eddy "ficou em segunda época" numa matéria, e Mr. Burke e D. Emma não permitiram que ele fosse sem antes ter feito o exame e passado de ano (naquele tempo não havia "dependência"). Ficou combinado que se ele fosse aprovado, ele iria de trem até Bebedouro, levando sua bicicleta, para encontra-se com Tommy e Milton, e voltariam todos juntos para São Paulo. Na foto, Tommy e Milton estudam o percurso da viagem programada.

No primeiro dia da viagem, Tommy e Milton saíram de São Paulo e foram até Gato Preto pelo leito de terra que estava sendo preparado para a construção da Via Anhangüera. Dali foram no "Eme" (o trem de um só vagão) até Água Fria. No dia seguinte voltaram a Gato Preto, e partiram rumo a Bebedouro, sempre por estradas de terra. Cada um levava, numa mochila no bagageiro da bicicleta, uma troca de roupas, aparelho de barbear, sabonete, escova e pasta de dente, um cantil com água, e algumas bolachas. Não levavam barraca nem dinheiro, pois pretendiam conseguir "na conversa" pouso e refeições pelo caminho.

Naquele mesmo dia chegaram à Jundiaí, procuraram a casa do Traldi (colega do John na Escola Politécnica), cujo pai era dono de uma cantina produtora de vinho, onde foram muito bem tratados, inclusive com um belo almoço regado a vinho da casa. À tarde, tomaram a estrada para Jarinu, onde conseguiram um lanche na casa de uma irmã solteirona do primeiro farmacêutico de Água Fria, que não ousou convidá-los para dormirem em sua casa. Tiveram que passar a noite dormindo numa cama e num colchão no chão, dentro de uma cela da cadeia da cidade (porta destrancada), gentilmente cedidos pelo Delegado. No meio da noite, Tommy foi acordado com os gritos desesperados do Milton. Quando Tommy perguntou o que estava acontecendo, Milton, meio acordado e ofegante, disse que o preso que dormia na sela ao lado tinha enfiado um fio elétrico através das grades e estava lhe dando choques... Não foi fácil acalmá-lo e convencê-lo de que tudo não passava de um grande pesadelo... Mesmo assim, ele fez questão de ir dormir no colchão afastado da grade. No dia seguinte, foram até Atibaia, onde dormiram noutra cadeia, sem grandes sustos. Depois passaram por Bragança Paulista, onde vivia um parente do Milton, que os hospedou em sua casa e na hora de partir, deu-lhes algum dinheiro "para o caso de virem a necessitar" (dinheiro que só foi gasto comprando sorvete pelo caminho até Bebedouro).

De Bragança Paulista, seguiram até Campinas, onde conseguiram o jantar e pouso perto da estação ferroviária, na casa de uma família negra, amiga de um ajudante direto de Mr. Burke em Água Fria, o Caramigo, famoso pela sua gagueira. De lá, foram até Conchal e depois até Santa Rita do Passa Quatro, mas ao passarem por um posto da Polícia Rodoviária Estadual bem perto de Porto Ferreira, foram detidos, porque as bicicletas não estavam licenciadas (o que era obrigatório). Os guardas se dispunham a deixá-los seguir, mas as bicicletas ficariam retidas, até que as multas fossem pagas e as bicicletas devidamente licenciadas e emplacadas. Tommy e Milton tentaram de todas as formas convencer os guardas a deixarem "os pobres estudantes, que estavam em uma viagem de estudos pelo interior de São Paulo" a levarem as bicicletas, mas sem sucesso. Eles, então, pediram licença para telefonar dali ao Prefeito, no que foram atendidos. Explicaram sua situação, e o prefeito disse para eles aguardarem um pouco, e que dentro de uma hora iria pessoalmente até lá para resolver o caso. Quando os guardas souberam da intenção do prefeito, ficaram preocupados, e foram logo dizendo que os dois não precisavam esperar por ele, e que podiam pegar suas bicicletas e seguir viagem. Tommy e Milton agradeceram aos guardas, disseram até logo, e resolveram ir até a Prefeitura, para agradecer ao prefeito pela atenção e dizer que o caso já estava resolvido. O prefeito, muito amavelmente, convidou-os para almoçar com ele em sua residência, que ficava numa chácara do outro lado do Rio Mogi Guaçú. Levou-os até lá em seu carro, e "os pobres estudantes" tiveram o melhor almoço de toda a viagem. De barriga cheia, seguiram até Santa Rita do Passa Quatro, onde o prefeito os hospedou no melhor hotel da cidade, por conta da Prefeitura, e providenciou para que fosse feita uma reportagem pelo jornal da cidade sobre "a heróica aventura dos estudantes de engenharia" (publicada no dia seguinte). 

Um fim de tarde numa estrada de terra do interior de São Paulo. Tommy segura as duas bicicletas com as quais viajavam, enquanto Milton, de sobre o barranco, tira a foto (sua sombra aparece bem no lado esquerdo).

 De Santa Rita, seguiram para Ribeirão Preto, onde o Prefeito os recebeu em seu gabinete, mas simplesmente disse que não poderia ajudá-los em nada. Decepcionados, partiram, então, rumo a Sertãozinho, conseguindo comida e um cantinho para dormir com um sitiante na beira da estrada. No dia seguinte, chegaram a Bebedouro, onde ficaram hospedados na casa do tio do Milton. Conseguiram uma troca de roupas emprestada, para vestir enquanto a Tia tratava de lavar descentemente a roupa encardida (dá pra imaginar: estrada de terra vermelha, verão, poeira, barro e suor...) que tinham usado na viagem, e que lavavam rapidinho nos córregos pelo caminho, e penduravam para secar nos arbustos, enquanto tomavam seu banho. De Bebedouro, iam diariamente até a fazenda (ao lado da estação Botafogo), onde passavam o dia nadando, pescando e comendo mangas colhidas na hora.

Nesta foto, de sobre uma ponte, Tommy contempla o rio Moji Guaçu.  Na "garupa" de sua bicicleta aparece toda a bagagem levada na viagem.

Depois de alguns dias em Bebedouro, pensando em tudo que tinham passado para chegarem até lá, resolveram que não teriam coragem de repetir a dose voltando de bicicleta até São Paulo. A coisa seria ainda bem mais complicada com a companhia do Eddy (que deveria vir de trem com a sua bicicleta), inclusive porque não poderiam passar outra vez pelos mesmos lugares pedindo comida e alojamento. Decidiram, então, voltar de trem, despachando as bicicletas. Telefonaram ao Eddy comunicando a decisão e dizendo que, infelizmente, desta vez ele teria que ficar "chupando o dedo". O seu consolo foi ouvir a história das dificuldades pelas quais os dois aventureiros haviam passado, e por ter sido aprovado no exame e promovido para o "segundo científico".

Início

 
 
Hosted by www.Geocities.ws

1