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2 – OS PRIMEIROS TEMPOS NO BRASIL (1916-1928)
Início Esperançoso, Complicado e Difícil John Ulic Burke, recém formado em contabilidade, com 25 anos de idade, ainda solteiro, veio ao Rio de Janeiro em 1916, para trabalhar numa firma americana de importação-exportação (principalmente papel, fios elétricos e arames), na qual investia sistematicamente todos os seus dólares. Como os negócios iam bem, John voltou aos Estados Unidos para se casar com Emma Anna Roggemann. Casaram no dia 13-10-1919, retornando ao Brasil e indo morar numa grande casa comprada na Rua São Benedito, no sub-distrito de Santo Amaro, em São Paulo. Ali nasceram as filhas Mary (1920) e Margareth (1921). Três anos depois de chegarem ao Brasil, no dia 5 de novembro de 1922, Emma escreveu uma carta à sua amiga de juventude, Frances Hennesy, contando um pouco sobre o que era viver neste país. Eis a segunda página daquela carta:
Tradução: Estamos na primavera e entrando no verão. Não consigo imaginar vocês entrando no inverno. Não tivemos frio nenhum este ano, nem mesmo uma única geada forte, de forma que as verduras continuaram a crescer, as flores florescem o ano todo, haja ou não geada. Agora mesmo Lírios da Páscoa e enormes margaridas [provavelmente adálias] estão florindo por todos os lados. Os lírios crescem 3 a 4 pés de altura e têm entre 6 a 12 ou 13 flores em cada ramo. As margaridas têm entre 4 e 5 polegadas de diâmetro. É quase impossível acreditar no enorme tamanho das coisas. Um jovem cogumelo fresco enche um prato de sopa, servindo 4 ou 5 pessoas. Este é certamente um lindo lugar para se viver. Bem – bye-bye, não morra congelada este inverno. Pense em nós assando [morrendo de calor] no Natal e indo à Missa da Meia-Noite. Jack [era assim que Emma chamava John] manda lembranças. As crianças mandam grandes beijos. Sinceramente Emma R. Burke
Como relata Henrietta hoje, a família "possuia um carrão (importado – creio que inglês), chofer e empregada ¾ Maravilha!, se esse sonho fosse adiante ¾ a firma faliu, deixando o casal a ver navios ¾ perderam tudo!". John, então, partiu para outra aventura: instalar uma granja de galinhas, em Santo Amaro, em sociedade com um amigo. Esse "amigo", de repente, vendeu tudo e sumiu com o dinheiro, deixando John cheio de dívidas para pagar. Como comenta Henrietta, "sumiu, não para sempre, pois mais ou menos uma década depois apareceu em Água Fria pedindo um prato de comida. Ganhou o alimento pedido bem como foi solenemente escorraçado por Dona Emma". John precisou vender tudo o que possuía para poder pagar as dívidas. Resolveu, então, buscar um emprego. O Primeiro Emprego Em 1923, John conseguiu uma colocação na Light and Power Company, para cuidar da importação através do porto de Santos do material e equipamento a ser usado na construção da usina hidroelétrica de Cubatão (hoje Usina Henry Borden)*. A usina de Cubatão era parte do complexo represa-usina planejado pelo engenheiro norte-americano Billings. Ficava no sopé da Serra do Mar, cerca de 700 metros abaixo do nível da represa (que hoje tem o seu nome), de onde a água que movimentava as turbinas geradoras descia através de grandes dutos metálicos. Ela entrou em funcionamento em 1926, com uma capacidade instalada de 35 MW, reforçando os 16 MW fornecidos pela hidroelétrica instalada no rio Tiete em Santana do Parnaíba (hoje, usina Edgar de Souza). Com o passar dos anos a usina de Cubatão sofreu sucessivas ampliações,inclusive com a construção de um grande túnel dentro da rocha, chegando a produzir 887 MW, energia suficiente para abastecer uma cidade de dois milhões de habitantes.
Vista da construção do primeiro duto da usina (esquerda). Subia até o ponto de captação na barragem erguida o alto da serra, formando a represa Billings (foto da direita). A linha férrea ao lado do duto foi construída exclusivamente para transporte do material e dos operários. Esse sistema era e ainda é operado por troles rebocados por cabos devido à alta declividade.
Em 1924, a irmã de Emma, Margaret Roggemann, ainda solteira, veio dos EUA visitar os Burke no Guarujá. No retorno para casa conheceu, no navio, Charles Doherty, que voltava do Chile para os EUA, com quem veio a se casar no ano seguinte. O novo casal foi viver no Chile, na região do deserto de Atacama. Charles trabalhava para a Cia Dupont, que extraia minérios naquela região.
Terminado o trabalho em Santos, John continuou trabalhando para a Light no escritório central em São Paulo, mas, no início de 1926, ele, intempestivamente, pediu demissão, por não concordar com o superfaturamento que um filho de um diretor estava praticando. Viu-se, então, com uma família de cinco filhos, novamente sem nada.
O Segundo Emprego
Ainda no início de 1926, John conseguiu um novo emprego, desta vez na "The Brazilian Portland Cement Company", criada em 1925 pela empresa canadense Drysdale & Pease, de Montreal, que estava instalando a primeira fábrica de cimento no Brasil. A nova empresa foi criada em sociedade com alguns empresários brasileiros que já exploravam jazidas de calcáreo para produção de cal na região de Gato Preto, e que operavam desde 1914 uma pequena linha férrea ¾ a Estrada de Ferro Perus-Pirapora. John trabalhou na fase final da construção da fábrica em Perus e abertura das jazidas de calcário na região de Água Fria, hoje município de Cajamar. Em abril-maio de 1926, a fábrica de cimento começou a funcionar, vendendo 96% da produção para a Light and Power Co. (Mais detalhes sobre a fábrica de cimento e a ferrovia nos apêndices "C", no final do livro). Durante esse período, John passou a viver numa pensão (a "Casa Grande"), em Perus ("no mato", como dizia Emma), e a família continuou morando em Santo Amaro. A cada duas semanas, John fazia uma visita à família. Em 1928, os Burke mudaram-se para Água Fria, onde Mr. Burke assumiu o posto de superintendente das pedreiras da Companhia Perus, posição que veio a ocupar durante os próximos 23 anos.
Vista recente da usina hidroelétrica em Cubatão, que John Ulic Burke ajudou a construir no início da década de 1920, agora chamada Usina Henry Borden.
Vista da Fábrica de Cimento em Perus, na qual John Ulic Burke começou a trabalhar em 1926, ano em que ela entrou em funcionamento. Esta foto é de 1928, ano em que a família Burke mudou-se para Água Fria, onde Mr. Burke, como John passou a ser conhecido, foi superintender as operações de abertura e funcionamento das pedreiras.
A abertura de uma nova pedreira de calcáreo exigia a construção de vários ramais ferroviários, que precisavam ser mudados de posição freqüentemente. Nesta foto vemos três linhas paralelas, algumas vagonetas (rente à face da rocha) e uma das muitas pequenas locomotivas usadas para movimentar vagonetas e vagões nas pedreiras. Este é um cenário típico de uma das operações permanentes que Mr. Burke veio a superintender durante todo o tempo em que trabalhou para a Cia. de Cimento Perus (veja no próximo capítulo, muito mais sobre abertura e funcionamento das pedreiras).
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