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JOÃO PASSOS E LAMPIÃO
Um pouco sobre Lampião e seu bando
Lampião ganha fama por onde passa. Muitas são as lendas criadas em torno de seu nome. Por sua vivência no sertão nordestino, em 1926, o governo do Ceará negocia a entrada de seu bando nas forças federais para combater a Coluna Prestes. Seu namoro com a lei dura pouco. Volta para o cangaço, agora melhor equipado com as armas e munições oferecidas pelo governo.
Lampião tem suas regras, sua cultura e sua moda. As roupas, inspiradas em heróis e guerreiros, como Napoleão Bonaparte, são desenhadas e confeccionadas pelo próprio Lampião. Os chapéus, as botas, as cartucheiras, os ornamentos em ouro e prata, mostram sua habilidade como artesão.
Cangaços para todos os gostos - (extraído de um artigo de Marco Bonetti) Margem do São Francisco, próximo à grota de Angico, no município Poço Redondo, onde morreu Lampião. "Grota não é gruta". Ali se escondia o Rei do Cangaço e outros 29 cangaceiros e 5 mulheres, no dia 28 de julho de 1938, quando duas colunas de soldados comandadas pelo tenente João Bezerra da Silva cercaram o local munidos de fuzis e metralhadoras, e começaram a disparar uns antes outros depois mas todos na direção do "bandido". Aos primeiros tiros Lampião tombou morto. Chegara o fim do Rei do Cangaço. Um daqueles homens que em determinado momento da vida consegue desagradar desde a todos os homens da volante até o presidente Getúlio Vargas. Os autores que abordam sua morte se perguntam por que ele morreu ali, em que errou. A pergunta mais original é saber por que demorou tanto acontecer. Para chegar até ali, a polícia extraíra de um coiteiro informação preciosa ao preço de tomar também dele unhas arrancadas à faca, e alguns furinhos pelo corpo, em requintes de torturas policiais dignas do tempo da ditadura militar no país. O troféu: 11 cabeças, 2 de mulheres, 9 de homens, incluindo a do chefe Virgulino Ferreira, o Lampião, levadas em cortejo triunfal. No início, desfilaram por cidades de Alagoas, até a Capital Maceió. Mais tarde, os restos de Maria Bonita e Lampião foram para o Instituto Nina Rodrigues, em Salvador, onde ficaram até 1969. Ficar no Instituto Nina Rodrigues tem boa explicação. Não se trata de um lugar qualquer. O Nina Rodrigues representa um dos pontos altos no Brasil do casamento entre medicina e direito, ou estudo da criminalidade, e tem por origem o tempo em que o positivismo estava não só em moda, mas também no poder. As cabeças enviadas para lá eram medidas, pois a partir do estudo de diâmetros ou formatos dos crânios, acreditava-se poder prever traços que teriam por resultado a tendência à criminalidade. Além de Lampião e Maria Bonita, passaram por ali anteriormente as cabeças de Antônio Conselheiro e outros homens não tão conhecidos, que tinham por traço comum o fato de serem vistos pelo poder como excrescências genéticas que resultaram em traços violentos e em criminalidade. O último caso famoso de vísceras ali estudadas foi o de PC Farias. A família de Lampião ganhou o direito de retirar dali os despojos de seus mortos depois de 31 anos. Só em 1969 os restos ganharam repouso, no cemitério das Quintas, em Salvador. Os criminosos eram dissecados depois de mortos e tiveram de deixar como herança a luta da família para garantir seu sossego. Contra eles, os heróis das volantes. Aqueles que subtraíam aos cangaceiros o peso dos aiós, alforjes feitos de uma raiz resistente. Desse material que dizem ser ouro, dinheiro e pedras de valor, pouco se sabe, e quase ninguém viu. A neta de Lampião, Vera Ferreira, conclui em seu livro sobre o avô que "todos escondiam como podiam o que roubavam dos cadáveres dos cangaceiros". Sobraria espalhado pelo chão da batalha o que nem mesmo a volante quis. Metal menos nobre. Os corpos pesados de chumbo. Corpos mortos. Mitos vivos. Hoje, um grupo de arqueólogos tenta localizar os restos mortais ou indícios daquele pedaço de história desprezado. Não adianta. Ali, o tempo trouxe a paz aos corpos. E vida aos fatos recuperados pelos depoimentos dos sobreviventes. Sabe-se, por exemplo, que Maria Bonita não morreu na batalha. Foi ferida por um tiro nas costas. Mas em vez de presa, foi degolada pouco depois. Ato de bravura comum para a época, se pensarmos que 40 anos antes, as mulheres, em Canudos, adentravam com filhos no colo em casas ardendo em chamas da guerra e da destruição, conforme depoimento de Euclides da Cunha. Mais mitos. Sabe-se que os cangaceiros eram protegidos por coiteiros, que recebiam dinheiro para escondê-los em sítios afastados das cidades e vilas, e para levar-lhes comida, armas e munição, como aquele Pedro Cândido que delatou o cangaceiro depois de ter unhas e entranhas arrancadas. Sabe-se que as volantes eram grupos de soldados tão ou mais temíveis que os cangaceiros, que roubavam em nome das perseguições que faziam, e que lutavam como bichos no solo seco da caatinga atrás dos fora-da-lei. Sabe-se que grota é uma formação rochosa semelhante a uma gruta, só que mais aberta, um vale profundo. E em lugares como aquele ali, os cangaceiros tinham seu repouso de guerreiro. Banhavam-se à exaustão com perfume, para promover seus bailes perfumados animados ao som de um tocador da região. O perfume daquele dia perdeu lugar para o cheiro de carne putrefata que por muito tempo ali cheirou. Mas muito não se sabe. Ou poucos dizem saber. O guia da Grota do Angico arrisca-se em reproduzir a tese de que a ordem de matar Lampião partiu pessoalmente de Getúlio Vargas, já que, em 1939, os interventores de Sergipe e Alagoas protegiam o bandido em troca de favores. Um candidato a prefeito de Piranhas, a cidade emparelhada a Canindé do lado alagoano do rio, diz que Lampião era amigo dos poderosos, gente que contava com ele para assassinar inimigos políticos e lhe dava guarida. Aliás, muito não se sabe também no presente.
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