REPRESSÃO SEXUAL
Girlane L. Glazar - 08/2006
Como a repressão se instala nas pessoas
A repressão sexual é um fenômeno curioso, na medida em que algo meramente biológico e natural sofre modificações quanto ao seu sentido, à sua função e à sua regulação quando é deslocado do plano da Natureza para o da Sociedade, da Cultura e da História. Entretanto, a repressão não é apenas algo que vem de fora, submetendo as pessoas. As proibições e interdições externas são interiorizadas, convertendo-se em proibições e interdições internas, vividas sob a forma de vergonha e culpa.
Marilena Chauí, em seu livro Repressão Sexual, considera que a
repressão sexual será tanto mais eficaz quanto mais conseguir ocultar,
dissimular e disfarçar o caráter sexual daquilo que está sendo reprimido. Nossos
sentimentos poderão ser disfarçados, ocultados ou dissimulados, desde que
percebidos ou sentidos como incompatíveis com as normas, os valores e as regras
da nossa sociedade.
Quando a repressão é bem-sucedida, já não é sentida como tal e a
aceitação ou recusa por um determinado tipo de comportamento é vivido como se
fosse uma escolha livre da própria pessoa.
Os prejuízos da repressão sexual
Para Freud, o sofrimento humano tem três origens: a força superior da
natureza, a fragilidade dos nossos corpos e a inadequação das normas que regulam
as relações mútuas dos indivíduos na família, no Estado e na sociedade.
O filósofo Bertrand Russel vê na repressão sexual graves prejuízos para
a humanidade. A doutrina de que há no sexo algo pecaminoso é totalmente
inadequada, causando sofrimentos que se iniciam na infância e continuam pela
vida afora. Ele acredita que mantendo numa prisão o amor sexual, a moral
convencional concorreu para aprisionar todas as outras formas de sentimento
amistoso, e para tornar os homens menos generosos, menos bondosos, mais
arrogantes e mais cruéis.
Reich considera que as enfermidades psíquicas são a conseqüência do
caos sexual da sociedade, já que a saúde mental depende da potência orgástica,
isto é, do ponto até o qual o indivíduo pode se entregar e experimentar o clímax
de excitação no ato sexual.
Para ele, o homem alienou-se a si mesmo da vida e cresceu hostil a ela.
Sua estrutura de caráter - refletindo uma cultura patriarcal milenar - é
encouraçada, contrariando sua própria natureza interior e contra a miséria
social que o rodeia. Essa couraça de caráter seria a base do isolamento, do
desejo de autoridade, do medo à responsabilidade, do anseio místico e da miséria
sexual.
A unidade entre natureza e cultura continuará a ser um sonho enquanto o
homem continuar a condenar a exigência biológica de satisfação sexual natural
(orgástica). Numa existência humana ainda sujeita a condições sociais caóticas,
prevalecerá a destruição da vida pela educação coerciva e pela guerra.
O homem é a única espécie que não satisfaz à lei natural da
sexualidade. A morte de milhões de pessoas na guerra seria o resultado da
negação social da vida, que por sua vez seria expressão e conseqüência de
perturbações psíquicas e somáticas da atividade vital. "O processo sexual, isto
é, o processo expansivo do prazer biológico é o prazer vital produtivo per se",
diz Reich.
O neuropsicólogo James W. Prescott, do Instituto Nacional de Saúde
Infantil e Desenvolvimento Humano, de Maryland, EUA, publicou em 1975 o
resultado estatístico da análise de quatrocentas sociedades pré-industriais e
comprovou algumas teses de Reich sobre o desenvolvimento humano e social. Ele
concluiu que aquelas culturas que dão muito afeto físico a seus filhos e que não
reprimem a atividade sexual de seus adolescentes são culturas pouco inclinadas à
violência, à escravidão, à religião organizada - e vice-versa.
Prescott afirma que uma personalidade orientada para o prazer raramente
exibe condutas violentas ou agressivas e que uma personalidade violenta tem
pouca capacidade para tolerar, experimentar ou gozar atividades sensualmente
prazerosas.
Como a repressão se instala nas pessoas
A repressão sexual é um
fenômeno curioso, na medida em que algo meramente biológico e natural sofre
modificações quanto ao seu sentido, à sua função e à sua regulação quando é
deslocado do plano da Natureza para o da Sociedade, da Cultura e da História.
Entretanto, a repressão não é apenas algo que vem de fora, submetendo as
pessoas. As proibições e interdições externas são interiorizadas, convertendo-se
em proibições e interdições internas, vividas sob a forma de vergonha e culpa.
Marilena Chauí, em seu livro Repressão Sexual, considera que a
repressão sexual será tanto mais eficaz quanto mais conseguir ocultar,
dissimular e disfarçar o caráter sexual daquilo que está sendo reprimido. Nossos
sentimentos poderão ser disfarçados, ocultados ou dissimulados, desde que
percebidos ou sentidos como incompatíveis com as normas, os valores e as regras
da nossa sociedade.
Quando a repressão é bem-sucedida, já não é sentida como tal e a
aceitação ou recusa por um determinado tipo de comportamento é vivido como se
fosse uma escolha livre da própria pessoa.
Por que tanta repressão?
O sexo, como os demais
elementos da condição humana, sempre foi usado para o controle dos povos por
suas elites políticas. Como fonte de prazer, o sexo dos escravos pertenceu
sempre aos seus proprietários. Sendo o escravo uma res (coisa, em latim) ele era
objeto de uso de seu senhor. Essa é mais antiga e, até nossos dias, a mais
praticada repressão que o sexo sofre: a sua reificação, coisificação.
Sendo a via natural da reprodução humana, o sexo é reprimido com a
dupla função: controlar o prazer e os lucros dele provenientes através da
industria do erotismo e da pornografia, e manter sob vigilância as proles, a
natalidade, os exércitos de reserva para o trabalho e a guerra, e a mulher.
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