QUEM TEM MEDO DA MORTE – RICHARD SIMONETTI

Girlane Glazar

 

IV - BALANÇO

A iminência da morte dispara um curioso processo de reminiscência.

         O moribundo revive, em curto espaço de tempo, as emoções de toda a existência, que se sucedem em sua mente como um prodigioso filme com imagens projetadas em velocidade vertiginosa.

         É uma espécie de balanço existencial, um levantamento de débito e crédito na contabilidade divina, definindo a posição do Espírito ao retornar à Espiritualidade, em face de suas ações boas ou más, considerando-se que poderão favorecê-lo somente os valores que “as traças não roem nem os ladrões roubam”, a que referia Jesus, conquistados pelo esforço do Bem.

         Trata-se de um mecanismo psicológico automático que pode ser disparado na intimidade da consciência sem que a morte seja consumada. São freqüentes os casos em que o “morto” ressuscita, espontaneamente ou mediante a mobilização de recursos variados.

         Há médicos que vêm pesquisando o assunto, particularmente nos Estados Unidos: “Vida depois da vida – Raymond A. Moody Júnior”, esse livro descreve experiências de pessoas declaradas clinicamente mortas.

         Alguns relatos:

*corpo espiritual ou perispírito

*dificuldade de perceber a condição de “morto”

*contato com benfeitores espirituais e familiares

*facilidade em sentir o que as pessoas estão pensando

*possibilidade de volitar, com sensação de leveza

*visão dos despojos carnais e as impressões extremamente desagradáveis dos que tentaram o suicídio.

         Os fenômenos são freqüentes e os pacientes silenciam a respeito temendo ser julgados mentalmente debilitados.

         Da mesma forma a autenticidade das pesquisas, é demonstrada estatisticamente pelos relatos de centenas de pacientes que retornaram do Além, abordando os mesmos aspectos a que nos referimos, não obstante professarem diferentes concepções religiosas, situarem-se em variadas posições culturais e sociais e residirem em regiões diversas.

         A experiência de reviver a própria existência em circunstâncias dramáticas pode representar para o redivivo uma preciosa advertência, conscientizando-o de que é preciso investir na própria renovação, a fim de não se situar "falido" no Plano Espiritual quando efetivamente chegar sua hora.

V - DIFICULDADES DO RETORNO


         A progressiva debilidade do paciente, levando-o à inconsciência, representa uma espécie de anestesia geral para o Espírito que, com raras exceções, dorme para morrer, não tomando conhecimento da grande transição.

         Indivíduos equilibrados, com ampla bagagem de realizações no campo do Bem, superam a "anestesia da morte", e podem perfeitamente acompanhar o

Trabalho dos técnicos espirituais.

         Isso poderá ocasionar-lhes algum constrangimento, como um paciente que presenciasse delicada intervenção cirúrgica em si mesmo, mas lhe favorecerá a

Integração na vida espiritual.

         Consumado o desligamento situar-se-ão plenamente conscientes, o que não ocorre com o homem comum que, dormindo para morrer, sente-se aturdido ao despertar, empolgado por impressões da vida material, particularmente aqueles

Relacionadas com as circunstâncias do desencarne.

         Companheiros familiarizados com as manifestações de Espíritos sofredores, em reuniões mediúnicas, conhecem bem esse problema. Os comunicantes geralmente ignoram sua nova condição, queixam-se do descaso dos familiares, que não lhes dão atenção, sentindo-se perturbados e aflitos.

         Despreparados para a grande transição, não conseguem libertar-se das experiências da vida material, situam-se como peixes fora d'água ou mais exatamente como estranhos doentes mentais, vivendo num mundo de fantasias, na

Intimidade de si mesmos.

         A dissipação desse turvamento mental pede concurso do Tempo. O amparo dos benfeitores espirituais e as preces de familiares e amigos podem apressar o esclarecimento, mas, fundamentalmente, este estará subordinado ao seu grau de comprometimento com as fantasias humanas e à capacidade de assimilar as novas realidades.
         O despreparo para a Morte caracteriza multidões que regressam todos os dias, sem a mínima noção do que as espera, após decênios de indiferença pelos valores mais nobres.

         São pessoas que jamais meditaram sobre o significado da jornada terrestre, de onde vieram, porque estão no Mundo, qual o seu destino. Sem a bússola da fé e a bagagem das boas ações, situam-se perplexas e confusas.

         Esse aspecto, forçoso reconhecer no Espiritismo um abençoado curso de iniciação às realidades além-túmulo.

         O espírita, em face das informações amplas e precisas que recebe, certamente aportará com maior segurança no continente invisível, sem grandes problemas para identificar a nova situação, embora tais benefícios não lhe confiram o direito de ingresso em comunidades venturosas. Isso dependerá do que fez e não do que sabe.

         O balanço da morte definirá se temos condições para pagar o ingresso em regiões alcandoradas com a moeda da virtude e o espírita certamente será convocado a desembolsar o "ágio do conhecimento", partindo-se do princípio lógico: mais se pedirá a quem mais houver recebido.

 

VI – AS MELHORA DA MORTE

         Diante do agonizante o sentimento mais forte naqueles que se ligam a ele efetivamente é o de perda pessoal.

         Curiosamente, ninguém pensa no moribundo. Mesmo os que aceitam a vida além-túmulo multiplicam-se em vigílias e orações, recusando admitir a separação.

         Esse comportamento ultrapassa os limites da afetividade, desembocando no velho egoísmo humano, algo parecido como o presidiário que se recusa a aceitar a idéia de que seu companheiro de prisão vai ser libertado.

         O exacerbamento da mágoa, em gestos de inconformação e desespero, gera fios fluídicos que tecem uma espécie de teia de retenção, a promover a sustentação artificial da vida física.

         Semelhantes vibrações não evitarão a morte. Apenas a retardarão, submetendo o desencarnante a uma carga maior de sofrimentos.

         É natural que, diante de sério problema físico a se abater sobre alguém muito caro ao nosso coração, experimentemos apreensão e angústia. Imperioso, porém, que não resvalemos para a revolta e o desespero, que sempre complicam os problemas humanos, principalmente os relacionados com a morte.

         Quando os familiares não aceitam a perspectiva da separação, formando a indesejável teia vibratória, os técnicos da Espiritualidade promovem, com recursos magnéticos, uma recuperação artificial do paciente que, “mais pra lá do que pra cá”, surpreendentemente começa a melhorar, recobrando a lucidez e ensaiando algumas palavras...

         Geralmente tal providência é desenvolvida na madrugada. Exaustos, mas aliviados, os “retentores” vão repousar, proclamando: “-Graças a Deus! O senhor ouviu nossas preces”.

         Aproveitando a trégua na vigília de retenção os benfeitores espirituais aceleram o processo desencarnatório e iniciam o desligamento. A morte vem colher mais um passageiro para o Além.

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