PERDÃO DAS OFENSAS
de Izamara Intra (20/04/2006)
Quantas vezes perdoarei a meu irmão? Perdoar-lhes-ei não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes. Comparai essas palavras de misericórdia com as da oração tão simples, tão resumida e tão grande em suas aspirações, que Jesus dá aos seus discípulos, e encontrareis sempre o mesmo pensamento. Jesus, o justo por excelência, responde a Pedro: Perdoarás, mas sem limites; perdoarás cada ofensa, ainda que a ofensa te seja feita freqüentemente: ensinarás aos teus irmãos este esquecimento de si mesmo que os torna invulneráveis contra o ataque, os maus procedimentos e as injúrias; serás brando e humilde de coração, não medindo jamais a tua mansuetude; farás, enfim, o que desejas que o Pai celestial faça por ti; não tem ele que te perdoar freqüentemente, e conta o número de vezes que seu perdão desce para apagar tuas faltas?
Escutai, pois, essa resposta de Jesus e, como Pedro, aplicai-a a vós mesmos; perdoai, usai de indulgência, sede caridosos, generosos, pródigos mesmo de vosso amor. Dai, porque o Senhor vos restituirá; perdoai, porque o Senhor vos perdoará; abaixai-vos, porque o Senhor vos elevará; humilhai-vos, porque o Senhor vos fará sentar a sua direita.
Ide, meus bem-amados, estudai e comentais estas palavras que vos dirijo, da parte d’Aquele que, do alto dos esplendores celestes está voltado sempre para vós, e continua com amor a tarefa ingrata que começou a dezoito séculos. Se os seus atos vos foram pessoalmente prejudiciais, é um motivo a mais para serdes indulgentes, porque o mérito do perdão é proporcional à gravidade do mal; não haveria nenhum em relevar os erros de vossos irmãos, se eles não houvessem feito senão ofensas leves.
Espíritas, não olvideis jamais de que, tanto por palavras, como por ações, o perdão das injúrias não deve ser uma palavra vã. Olvidai o mal que se vos pôde fazer, e se não penseis senão uma coisa: o bem que podeis realizar. Aquele que entrou nesse caminho dele não deve se afastar mesmo pelo pensamento, porque sois responsáveis pelo vosso pensamento, que Deus conhece. Feliz pois, aquele que pode cada noite adormecer dizendo: Nada tenho contra o meu próximo. (SIMEÃO, Bordéus, 1862).
Perdoar os inimigos, é pedir perdão para si mesmo: perdoar os amigos, é dar-lhes uma prova de amizade; perdoar as ofensas é mostrar que se tornou melhor. Perdoai, pois, meus amigos, a fim de que Deus vos perdoe, porque se sois duros, exigentes, inflexíveis, se tendes rigor mesmo por uma ofensa leve, como quereis que Deus esqueça que, cada dia, tendes maior necessidade de indulgência? Oh! Ai daquele que diz: “Eu nunca perdoarei”. Quem sabe aliás, se, descendo em vós mesmos, não fostes o agressor? Quem sabe, se nessa luta que começa por um golpe de espinho e acaba por uma ruptura, não iniciaste o primeiro golpe? Se uma palavra ofensiva se não vos escapou? Se usaste de toda a moderação necessária?
Admitamos que fostes realmente o ofendido numa circunstância, que diz que não envenenastes a coisa por represálias, e que não fizestes degenerar em querela séria aquilo que podido facilmente cair no esquecimento? Se dependia de vós impedir-lhe as conseqüências, e se não o fizestes, sois culpados. Admitamos enfim, que não tendes absolutamente nehuma censura a vos fazer, e, com isso, não tereis senão maior mérito em vos mostrar clementes.
Mas há duas melhores maneiras bem diferentes de perdoar: há o perdão dos lábios e o perdão do coração. Muitas pessoas dizem de seus adversários: “Eu lhe perdôo”, enquanto que interiormente, experimentam um secreto prazer do mal que lhe acontece, dizendo para si mesmas que ele não tem senão o que merece. Quantos dizem: “Eu perdôo” e que acrescentam: “mas não me reconciliarei nunca; não quero vê-lo pelo resto da vida”. Está aí o perdão segundo o Evangelho? Não; o perdão cristão, é aquele que lança um véu sobre o passado; é o único que vos será contado, porque Deus não se contenta com a aparência: ele sonda o fundo dos corações e os mais secretos pensamentos; não se lhe engana com palavras e vãos simulacros. Não olvideis que o verdadeiro perdão se reconhece pelos atos, bem mais que pelas palavras. (PAULO, apóstolo, Lião, 1861).
FONTE: O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo X - Bem-aventurados aqueles que são misericordiosos.