Relato de Uma Mãe

Gostaria de começar dizendo que para mim, como mãe de uma criança, é muito difícil relatar o que realmente senti com a chegada de Eduardo. Tudo começou numa manhã de janeiro de 1983, quando depois de entrar em trabalho de parto e passar por uma longa espera entre a dor, a angústia e a expectativa, meu parto chegou ao fim trazendo Eduardo, vítima de anóxia perinatal (falta de oxigênio) e consequentemente, portador de uma lesão cerebral irreverssível.

Tudo indica que isso aconteceu por erro médico, o que não me cabe julgar, já que acredito que médicos são humanos e passíveis de erros. Diante desse diagnóstico e uma "via sacra" por vários médicos, me vi depois de 06 meses perante uma crua e dura realidade, onde o último neurologista que consultei me disse: "seu filho não é normal e nunca mais será! Ele é portador de uma extensa lesão cerebral e você como mãe não tem nada a fazer."

Sai do consultório com ele nos braços e não conseguia ver mais nada na minha frente. Os prédios, os carros, as pessoas, tudo achatado, como se um trator tivesse passado por ali. A dor que senti foi imensa naquele momento. Queria que o chão se abrisse e eu fosse tragada por ele. Tinha eu então 21 anos, um filho nos braços e um diagnóstico que eu não sabia o que era e nem imaginava o que poderia ser. A palavra "lesão", naquela época, me era desconhecida em todos sentidos.

Comecei então ua nova maratona de sofrimento e angústia. Vem a fase de não aceitação, dos conflitos interiores e da culpa. De quem a culpa? Porque comigo? Logo em seguida vem a fase da ansiedade, do querer fazer tudo para amenizar aquele problema, na esperança, quem sabe, de uma cura. Acompanhado disso, vem a cobrança e a ansiedade dos familiares, amigos e pessoas alheias, no sentido dos pais fazerem mais e mais por aquela criança.

Entrei nesse mundo e me desdobrei em leituras, atividades e exercícios para estimular Eduardo e atenuar seu sofrimento. Isso durou algum tempo até que um dia, diante de um cansaço enorme e uma crise de nervos, diante da vida que estava levando, me perguntei: para que tudo isso? Será que Eduardo está feliz diante desta avalanche de exercícios? Cheguei enfim a uma conclusão de que eu precisava me respeitar e respeitar meu filho,dentro de suas limitações, aceitando apenas o que ele poderia me dar, que era muito.

Apesar de não falar nada e pouco se mover, nos ensinou tantas coisas, semeando entre nós paciência, aceitação e uma certeza de que a vida não termina aqui. Eduardo nos deixou também a escola da APAE que hoje tem seu nome e eu, como mãe, participei da sua fundação. Apesar dele ter partido, continuo meu trabalho, vendo em cada criança um pedacinho do meu tão estimado filho, que tanto me ensinou a respeitar a vida, seus valores, e a razão de estar aqui no planeta terra.

 

Homenagem a Eduardo

...A VIAGEM...

"Venho de onde não existe tempo, mas sou eterno agora.

Por tudo isso nada é longe.

Não há morte, não há tempo, não há espaço, não há sorte.

Por tudo isso fica o amor e fica o abraço.

Bem vindo a vida; tudo é trama, tudo é laço, não há fim e nada cessa.

Tudo que existe só começa....."

(Trecho extraido e adaptado da novela "A VIAGEM " - Rede Globo de Televisão)

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