Março
de 2004, era uma terça feira, as duas últimas aulas de
literatura, estávamos todos prontos para ir embora depois de
uma longa jornada de estudos, quando somos surpreendidos com um desafio
proposto pelo professor: representar de maneira teatral o conteúdo
de um livro cujo título era “O Livro das Ignorãças”,
com til no a . Um pouco indecisos aceitamos a proposta, na aula seguinte
decidiríamos como fazê-lo.
A partir de então, sabíamos que estávamos comprometidos
a fazer um teatro, para tanto, precisávamos ler e compreender
o livro. Compreender o livro... foi aí que surgiram as primeiras
dúvidas, nos deparamos com um livro essencialmente lírico,
uma forma da expressão poética dotada de uma visão
individual, subjetiva e carregada de emoções que não
estávamos acostumados a ver, era como se fôssemos peixes
fora d’água. Contudo não desistimos, ao contrário,
por se tratar de uma linguagem metafórica, na qual o sentido
das palavras adquirem uma comparação, ficamos mais motivados
a realizá-lo.
Queríamos de alguma forma compartilhar com as outras classes,
por exemplo, que as coisas que não existem são mais bonitas.
Mas como??! Não parecia estranho achar mais bonito as coisas
que não existem, do que algo que pudéssemos tocar? Desenhar
o cheiro das árvores ou simplesmente alcançá-lo?
Ficamos confusos, mas só depois entendemos que é com o
coração que se vê corretamente, o essencial seria
invisível aos olhos.
O dia da apresentação se aproximava, ensaiávamos,
ensaiávamos até a hora chegar. Ensaiar era um dom do teatro.
Finalmente o dia chegou, estávamos um tanto ansiosos e até
um pouco nervosos, afinal era nossa primeira apresentação
e apesar de toda essa mistura de sentimentos conseguimos cumprir o desafio.
Em certa medida, refizemos o caminho trilhado pelo autor no momento
em que converteu em imagem determinados sentimentos, realizamos um exercício
contínuo de reflexão sobre imagens e metáforas
para descobrir o que representam, um desafio que com a colaboração
de todos foi alcançado com sucesso, afinal exigia-nos concentração
e capacidade de interpretação de uma linguagem até
então estranha pois não estávamos acostumados a
nos dar com ela, mas daqui algum tempo não será mais tão
estranho quanto costumávamos achar, uma vez que o apresentado
estará guardado para sempre em nossas memórias.
“Somos puxados por ventos e palavras...”.
( Manuel de Barros )