O palhaço da ópera
          Há pouco tempo começamos a assistir ao magnífico espetáculo “Iraque”, dirigido por Bush filho. Não que ele não esteja fazendo valer os patrocínios de Hollywood, mas a sua argumentação está cada vez mais falha e inverossímil. No entanto, a graça de tudo isso está exatamente nesse ponto. Ou a gente acredita nas desculpas do presidente, ou ele é muito cara de pau. Ou os dois.
          Mas, pesquisando nas origens do mundo, veremos que a história está cheia de ironia e sarcasmo. A começar pela nossa heróica e singular independência. Já repararam que quem proclamou a independência do Brasil foi o próprio colonizador? E mesmo assim não fomos livrados de pagar a Portugal por nossa descolonização. O ouro das Gerais fez muito sucesso na Europa, e foi inclusive ele quem comprou os cenários e os figurinos para a superprodução industrial na Inglaterra, no século XVIII.
          Outro feito histórico dos nossos prodígios descobridores foi a assinatura do Tratado de Panos e Vinhos, em 1703, que proporcionava uma certa exclusividade comercial entre Portugal e Inglaterra. O primeiro deveria consumir os produtos têxteis da Inglaterra. Esta, por sua vez, era obrigada a comprar vinhos de Portugal. Agora ponha na balança e veja quem, excepcionalmente, saiu em desvantagem.
          Eis que, em 1808 (mais de um século depois o tratado ainda estava valendo), a grande, estupenda e amada família Real vem ao Brasil, fugindo de Napoleão Bonaparte por não cumprir o Bloqueio Continental imposto pelo imperador francês. Cá entre nós, ainda bem que eles tinham essa colônia aqui...
          E por falar em França, não podemos esquecer que ela também tem seu lugar no lado cômico da história. Em 1792 foi proclamada a República Francesa. Em 1848 tiveram a Segunda República Francesa. E finalmente, em 1870, a Terceira República Francesa veio com toda força, e definitivamente. E tem gente que não tem nenhuma...
          Ah! Lembram da Inglaterra no começo do século XVI? O governo expulsou os camponeses de suas terras, que então, naturalmente, formaram uma classe de miseráveis que vagavam pelas ruas do país. Para acabar, literalmente com essa situação, criaram-se leis dizendo que todos aqueles considerados vadios fossem marcados com ferro em brasa e chicoteados até sangrar. Interessante política social.
          Ainda nos palcos da Europa, só que mais moderna, e mais ao leste, tivemos, há dois anos o caso de Constantin Simion, operário romeno, de 52 anos, que viveu durante o período ditatorial do país, governado por Nicolae Ceausescu, e que se diz farto de democracia. "Não vejo o dia em que serei um súdito de Saddam. Se o Iraque me negar asilo, tentarei a Líbia ou Cuba, qualquer coisa, qualquer país, contanto que o regime seja totalitário”.
          Tudo isso e estamos só no 21º ato. Então não ficai-vos tristes, o espetáculo não acabou - a única coisa que está acabando agora é este texto - e não se sabe quando acabará. Ainda haverá muitas comédias (para os otimistas) e tragédias (para os não tão felizes). Há de nascer um fantasma que exploda a ópera da Broadway.

Luiza Rey

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