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A chuva fria desbota o retrato da mulher. Talvez fosse mesma chuva que caíra naquele 3 de outubro de 1948, quando Rita chorou pela primeira vez no hospital. E igual a esse choro seriam muitos.
Mamãe dizia nunca ter visto bebê mais bonito. O primeiro passo da menina foi um contentamento para o casal de classe média paulistano. As primeiras palavras, os desenhos coloridos feitos na escolinha. Como filha única, recebia os mimos do pai, que sempre lhe trazia um presente dos lugares que viajava.
Na escola, conheceu Luisa, sua primeira amiga. Eram inseparáveis. Lú, assim a chamava, adorava cozinhar. Sempre que visitava Rita, levava-lhe um doce de maracujá. Da fruta restaram as flores, murchas em cima da grama molhada.
Na loja do pai conheceu Tomas, seu primeiro amor. Menino branco e raquítico, era indiferente a ela. Paixão platônica de infância.
Desandou aos olhos da mãe com 18 anos, quando rasgou os vestidos rendados e arrancou a fita rosa do cabelo. Ouvia disco dos Mutantes, era doida por rock e pela liberdade de que tanto se falava. Quase foi expulsa de casa.
A Jovem Guarda foi passando e Rita começou a fazer curso de datilografia. Casou-se com Oscar e teve cinco filhos. Ela trabalhava na secretaria de um colégio tradicional paulistano. Ele era empregado de uma fábrica de tecidos, e chegava tarde todos os dias do trabalho. A camisa cheirando perfume feminino barato.
Depois de 15 anos casada, ficou viúva por causa do cigarro. A filha mais nova, Angélica, se suicidou com a morte do pai. Abandonada pelos filhos vivos, Rita enlouqueceu. Vagava durante a noite pela casa vazia chamando por eles, era constantemente assombrada pelo marido. Foi encontrada sem vida no chão do quarto, vestida com uma camisola vermelha e fotos espalhadas no assoalho. A prima Judite tocou violino no enterro e o padre rezou uma oração antiga.
A chuva fria desbota o retrato da mulher.
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