Tipo Assim...
Tô ficando velha !!!
Um dia desses, às 2 da manhã, peguei o carro e fui buscar minha filha
adolescente na saída de um show.
Ela e as amigas estavam eufóricas e eu ali, meio dormindo, meio de
pijama, tentei entrar na conversa.
- "E aí, o show foi legal".
A resposta veio de uma mais exaltadas do banco de trás:
- "Cara! Tipo assim, foda!".
E outra emendou:
- "Tipo foda mesmo!"
Fiquei, tipo assim..., calada o resto do percurso, cumprindo minha
função de motorista. Tô precisando conversar um pouco mais com minha filha,
senão logo logo vamos precisar de tradução simultânea.
Pra piorar ainda mais, inventaram o ICQ, essa praga da internet onde
elas ficam horas e horas escrevendo abobrinhas umas pras outras, em código
secreto. Tipo assim:
- "Kct! vc tmb nunk tah trank,kra. Eh d+, sl. T+ Bjoks. Jubys".
O que significa...!!!!
- "Cacete! Você também nunca está tranqüila, cara. É demais, sei lá. Até
mais, beijocas. Jubys".
Jubys, que deve ser pronunciado "diúbis". Só que este é o nome de
batismo de minha filha Júlia, um nome bonito, cujo significado é "cheia de
juventude", que eu e meu marido escolhemos, sentados na varanda, olhando a
lua...
Pois Jubys é hoje essa personagem de cabelo cor de abóbora, cheia de
furos na orelha que quer encher o corpo de piercings e tatuagens.
Tô ficando velha !!!
Outro dia tentei explicar pro mesmo bando de adolescentes o que era uma
máquina de escrever. Nunca viram uma. A melhor definição que consegui foi:
- É tipo assim um computador que vai imprimindo enquanto você digita.
Acho que não entenderam nada. Eu sou do tempo do mimeógrafo. Pra quem
não sabe, é uma máquina que você coloca
álcool e gira uma manivela pra imprimir o que está na folha matriz.
Por sua vez, essa matriz precisa ser datilografada (ver "datilografia"
no dicionário) na tal máquina de escrever, sem a fita (o que faz com que você só
descubra os erros depois do trabalho feito), com o papel carbono invertido...
Tipo... é melhor você procurar na internet que deve haver algum site sobre
mimeógrafo, papel carbono, essas coisas.
Se eu ficar explicando cada vocábulo descontinuado, não vou conseguir
acompanhar meu próprio raciocínio.
Voltando às garotas, a cultura cinematográfica delas varia entre a
"obra" de Brad Pitt e a de Leonardo de Caprio. Há anos tento convencê-las a ver
"Cantando na Chuva", mas sempre fica para depois.
Um dia, cheguei entusiasmada em casa com a fita de um filme francês que
marcou minha infância: "A guerra dos botões". Chamei a Jubys para a exibição
solene e a coisa não durou nem 5 minutos, pois ela inventou "um trabalho de
história sobre a civilização greco-romana que tem que entregar tipo amanhã,
senão perde ponto".
Uma amiga me contou que o filho de 10 anos ficou espantado quando viu um
telefone de discar. Sabe telefone de discar É tipo assim um aparelho sem teclas,
geralmente preto, com um disco no meio, todo furado, onde cada furo corresponde
a um algarismo. Você enfia o dedo indicador no buraco correspondente ao número
que precisa registrar, gira o negócio até uma meia lua de metal e solta a
roleta, que lá por dentro está presa a uma mola que a faz voltar a posição
inicial.
Esse aparelho serve para conversar com outra pessoa, como qualquer
telefone comum, desde que esteja, é claro, conectado na parede. Eu sou do tempo
em que vidro de carro fechava com maçaneta. E o Fusca tinha estribo e quebra
vento.
Não espalha, mas eu andei de Simca, Chambord, de DKW, Gordini, Aero
Willis e até de Romiseta.
Não dá pra explicar aqui o que era uma Romiseta, só vou dizer que era
tipo assim um veículo automotivo, com 3 rodas, que a gente entrava pela frente e
a direção era grudada na porta.
Procure na internet, deve haver um site. Tá bom, tá bom, confesso mais.
Usei Camisa Volta ao Mundo, casaquinho de Banlon, assisti à Jovem Guarda, ao
Direito de Nascer... mas é mentira essa história de que meu primeiro disco
gravado foi em 78 rotações.
Há pouco tempo, João, meu filho de 8 anos, pegou um LP e ficou
fascinado. Botei pra tocar e mostrei a agulha rodando dentro do sulco do vinil.
Expliquei que aquele atrito gerava o som que estávamos escutando... mas
aí ele já estava jogando o Pokemon Stadium no Game Boy. Não é que ele seja
desinteressado, eu é que fiquei tipo patinando nos detalhes.
Ele até que é bastante curioso e adora ouvir as "histórias do tempo em
que eu era criança".
Quando contei que a TV, naquela época, era toda em preto e branco, ele
"viajou" na idéia de que o mundo todo era em preto e branco e só de uns tempos
para cá é que as coisas começaram a ganhar cores.
Acho que de certa forma ele tem razão.
Tipo assim.........