Ferida Acesa
- Vó !!!
- Oi !!!
- O que quer dizer isso aqui ?
- Isso o quê ?
Apontou para uma folha de rascunhos, onde estava escrito:
"Marcha o homem sobre o chão Leva no coração Uma ferida
acesa".
- Você leu, querida ?
- Li.
- Gostou ?
- Para dizer a verdade, não entendi muito bem.
A Vovó sorriu.
- Esse é um verso de uma música de Caetano Veloso.
- Aquele cantor que você gosta ?
- Isso.
- E o que quer dizer ?
- Quer dizer um monte de coisas, como
costuma
acontecer com os poetas.
- Um monte de coisa o que ?
Acariciou seus cabelos cacheados.
- Essa música diz assim:
"Marcha o homem sobre o chão/ leva no coração / uma ferida
acesa/ Dono do sim e do não/ diante da visão da infinita beleza/ Finda por ferir
com a mão essa delicadeza/ coisa mais querida".
Continuou olhando, impaciente, entendendo cada vez menos.
- Isso quer dizer que todo mundo tem no coração uma ferida.
- Como assim ?
- Não é muito fácil de explicar, meu bem, mas Vovó vai
tentar. Lembra da historinha que eu te contei, do Adão e da Eva ?
- Lembro.
- Lembra que eles ficaram muito tristes quando foram
expulsos do Paraíso ?
Assentiu com a cabeça.
- Se Adão e Eva representam todas as pessoas, então todo
mundo tem no coração essa saudade do Paraíso.
Todo mundo passa muito tempo na vida procurando o seu
Paraíso Perdido.
- E onde é que as pessoas procuram pelo tal do Paraíso,
que ninguém encontra ?
Riu-se discretamente, para a neta não achar que ela estava
fazendo
graça.
- O que eu estou tentando te explicar, é que todo mundo
tem no coração essa ferida, essa espécie de saudade, como se
tivesse perdido alguma coisa que não consegue mais encontrar.
Cada um
vive de um jeito com essa dor: Algumas pessoas gritam
" - Socorro! Socorro! Eu tenho um negócio que está doendo! "
- Outras pessoas tentam ganhar muito, muito dinheiro,
pensando:
"- Eu vou ter dinheiro para comprar o melhor
analgésico do mundo e vou achar o Paraíso com
passagem
de primeira classe. "
- Tem mais algumas pessoas que dizem.
- Essa história de Paraíso é conversa
mole, pra boi dormir - e saem pelo mundo
castigando as pessoas pela dor que elas sentem.
- A música quer dizer tudo isso .
- Viu como o poeta consegue dizer muita coisa com poucas
palavras ?
- E o resto ?
- Que resto ?
- O resto que você me cantou... ?
O resto da música... ?
- Dono do sim e do não/ diante da visão da infinita beleza
- Isso.
- O homem foi expulso do Paraíso por isso...
- Como assim ?
- O homem ganhou consciência do Bem e do Mal. Ele pode ser
dono do Sim e do Não. Pode escolher fazer A ou B, pode subir ou pode descer,
pode procurar ou esperar. É dono de Livre Arbítrio. Entendeu ?
Entendeu médio, mas fingiu que entendeu tudo.
- Vó !!!
- Oi !!!
- O que adianta ser dono do Sim e do Não ?
- Adianta muito e não adianta nada... Adianta muito porque
todo dia você pode escolher para onde ir, o que fazer. Não adianta
para um
monte de outras coisas, que não dá nem para falar.
- E essa visão ?
- A visão da infinita beleza ?
- Essa mesmo.
- O homem fica muito ocupado sendo dono do
Sim e do Não e decidindo o que fazer com eles... Não
consegue ver a infinita beleza da vida. A infinita
beleza e a infinita delicadeza das coisas que estão
debaixo
de nosso nariz.
- E aí - Aí ele se preocupa demais em ser
dono de Sim para as coisas que quer e do Não
para todo mundo, e sai por aí falando Sim-Não,
Sim-Não, Sim-Não para todos os lados...
O
resultado vem depois, na música.
- Como assim ?
- Na parte que a letra diz:
Finda por ferir com a mão essa delicadeza/ Coisa mais
querida.
- O que isso quer dizer - Isso quer dizer que as pessoas não
sabem da ferida acesa no seu coração, não sabem que são donas de Sins e de Nãos
e acabam ferindo a delicadeza da vida: machucam tudo o que é delicado e
indefeso.
- Como as crianças ?
- Machucam as crianças, as plantas e os bichos. Mas machucam
sobretudo elas mesmas. A menina ficou com os olhos apertados por uma suave
angústia.
- Vó !!!
- Oi !!!
- É por isso que as pessoas grandes são tão infelizes ?
A avó soltou um discreto suspiro.
- É por isso mesmo, meu bem.
- Elas não sabem cuidar da própria ferida ?
- Acho que não.
Continuou pensativa, com ar de densa gravidade.
- E o que a gente pode fazer para ajudar ?
Aconchegou-a mais perto.
- A gente deve cuidar de tudo o que é belo e delicado,
meu bem. Começando pelo nosso próprio coração. Só de
parar de espalhar mais tristeza, as feridas do mundo
começam a
melhorar.
Tomou fôlego, numa postura que a Vovó sabia
trazer uma pergunta mais definitiva e importante.
- Vó !!!
- Oi !!!
- Por que você deixa esse verso escrito encima da mesa ?
Foi a Vovó que tomou fôlego dessa vez.
- A Vovó gosta muito desse verso, querida.
Mas não é por isso que ela o deixa aí na mesa, não.
- E por que ele fica aí, então ?
- É para a Vovó se lembrar que, por
mais estúpidas que sejam as pessoas, elas o são por
não saber lidar com essa ferida.
- Essa ferida acesa ?
Suspirou mais uma vez.
- Essa ferida tão difícil de apagar.
Achegaram-se as duas.
A menina notou um passarinho pulando na árvore, suavemente,
sem quebrar os galhos mais delicados.
Era um movimento de infinita beleza.