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PASSARINHO
"Canta, canta passarinho.
Canta, canta miudinho na pala da minha mão.
Quero ver você voando. Quero ver você cantando..."
(Geraldo Azevedo)
Década de setenta na pequena cidade de Bom Jesus do Itabapoana, as crianças
cresciam livres pelas ruas de paralelepípedo. O cheiro de mato e o canto dos passarinhos nos arredores compunham uma sinfonia mágica e bela.
Zezinho, um moleque traquino, franzino e que adorava passarinhos possuía em sua casa, uma coleção deles de causar inveja a qualquer marmanjo da região. Seu pai, o ensinou a caçar os pequeninos desde que completara seis anos de idade, confeccionando armadilhas com visgo em galhos de árvores e alçapões que quase nunca deixavam de capturar suas indefesas presas.
O garoto passava horas no quintal admirando o canto dos pobrezinhos que viviam confinados em suas gaiolas de madeira. Havia um sabiá treinado que cantarolava parte do hino nacional brasileiro, um curió que não parava de pular e cantar, dois casais de canários da terra que cantavam o dia inteiro, uma araponga que perturbava a vizinhança com seu ruído metálico e para finalizar um coleirinho muito sapeca.
Sua avó materna o alertara sobre a tristeza dos pássaros presos na gaiola e o aconselhara a soltá-los o mais rapidamente possível.
- Por que, Vovó? Eles estão felizes, veja como cantam o dia inteiro, só pode ser de alegria!
- Meu netinho ouça a voz de sua avó, eles cantam sim, mas eu com minha experiência de vida posso lhe garantir que seu canto é de tristeza, eles só querem a liberdade!
Zezinho gostava muito de sua avó e levava sempre em conta a sua opinião. Naquela noite o menino sonhou com os passarinhos e imaginou a melancolia que sentiam por serem presos na gaiola. Em seu sonho podia entender a linguagem daquelas pobres
avezinhas... O coleiro faceiro cantava em dó maior:
- Zezinho meu amiguinho, eu quero voar! Aqui nessa gaiolinha só consigo bater de cabeça na madeira... Deixe de ser mau, me solte, por favor! Você já ouviu qual triste é o canto da araponga amiga? E o Sabiazinho que cantarola o hino? Ele me disse que aprendeu na esperança de que você o soltasse.
Zezinho acordou chorando e foi para o quintal. Abriu cada uma das gaiolas e observou atônito a alegria de seus amiguinhos que cantavam em tom diferente. Acho que devia ser sol maior, o tom da alegria. Até a araponga evitava o barulho estridente e cadenciava um som de piano rachado, uma bela tentativa de agradecer a seu amiguinho. O Sabiá arriscava mais uma estrofe do hino nacional. Os casais de canários se beijavam no ar lembrando a canção mágica de Tom Jobim e Vinícius de Morais:
"E pássaros mil, voando e fazendo Amor..."
Zezinho exultava de alegria e chamou sua avó... Ela ficou maravilhada diante daquela situação. Afinal, seu neto favorito, havia escutado seu clamor.
O garotinho ficou tão contente que partiu com tudo pra mata e curtiu um colibri que pairava sobre uma
florzinha. Vislumbrou um João de Barro terminando de construir sua casinha. De tão empolgado o moleque não notou que caminhava para uma ribanceira, distraidamente ele tropeçou numa pedra e caiu, rolou por alguns segundos e caiu desfalecido em frente a um coqueiro ao lado de um riacho. O seu amigo Sabiá apareceu do nada e lhe fez estes versos:
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Passarinho
Passarinho quer voar, passarinho quer sonhar...
Passarinho quer amar, passarinho canta mas ninguém lhe ouve...
E em seu lamento vive em seu mundo,
Que de tão pequeno num segundo bate na gaiola!
Todos os dias ele sonha que esse martírio vai terminar...
Todos os dias ele canta pra sua tristeza espantar!
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Quando o moleque acordou ele se viu numa cama de hospital, sua avó lhe acariciando, sua mãe a lhe sorrir, olhando pro outro lado vê seu pai orgulhoso que lhe pede perdão e diz que nunca mais vai caçar um passarinho. Afinal, Zezinho fora salvo pelo seu amigo Sabiá que cantando parte do hino nacional chamou a atenção de seu pai desesperado a lhe procurar pela mata. Devido àquele canto encontrara o seu menino caído perto do riacho.
(*) Homenagem à minha terra natal: Bom Jesus do Itabapoana. |
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