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I - Amanhecendo
Acordou meio bêbado feito um balão apagado que despenca do último andar da vida. Olhou o relógio e para sua surpresa ainda eram quatro e meia da matina. E aquele gosto chato de cabo de guarda-chuva invadia-lhe a boca que de tão seca quase não conseguia abrir. Pensou que era sonho, mas quando viu do seu lado aquela mulher dormindo e roncando, da qual nem se lembrava o nome viu que na verdade se tratava de um pesadelo.
Onde? Como? Quando lhe conheceu? Era a amnésia alcoólica que invadia o seu destino. Talvez se fumasse um cigarro na varanda do apartamento, ele pudesse lembrar de algo, quem sabe?
Sentou-se na cadeira de vime, coçou a cabeça e ascendeu o fazedor de fumaça e de câncer. Pensou, pensou, tentou ativar os neurônios dilacerados pela permanente ação da bebida em seu cotidiano. Não adiantou, o fato é que havia uma mulher em seu quarto e ele não se lembrava de nada. Mais um fazedor de doença foi aceso, desta vez quase queimara o dedo, perdido em sua divagação matinal.
- Água! Preciso de água agora! -pensou em voz alta fazendo a sua vítima, quer dizer, parceira se virar na cama, quase fazendo-a despertar antes da hora.
Bebeu três copos d'água, engolidos rapidamente com voracidade "ressacal". Foi até o banheiro, olhou-se no espelho e viu o resultado de noites e mais noites curtidas sob efeito do álcool. Precisava urgentemente de um banho para refazer o seu visual de coroa arrumado, quarenta e cinco anos de pura loucura e malandragem.
Saiu do chuveiro e em sua cabeça pairou mais uma dúvida, não se lembrava nem da cor do cabelo da moçoila, que dirá o nome. Quiçá não seria uma amiga de trabalho? Isso lhe facilitaria em muito a lembrança. Pior mesmo seria se fosse um "tribufu" com cara de bruxa malvada! Nada, coisa nenhuma brotava daquela cabeça de vento oca!
Voltou até a cadeira e por um instante esqueceu de tudo. Era o sol que brotava de trás das montanhas, lembrou-se então da canção de mestre "Rauzito":
"Pois se uma estrela há de brilhar
Outra então tem que se apagar
Quero estar vivo para ver
O sol nascer!O sol nascer! O soooool nascer!!!"
Será que esta estrela brilhante não podia iluminar sua cabeça desmiolada e fazer-lhe lembrar da aventura da noite passada? Ou seria sua amante a estrela brilhante e ele a que se apagou? Posto que em sua memória não restavam nem cinzas, melhor seria acreditar na frase final, ou seja, "Quero estar vivo para ver o sol nascer!". Isso, estar vivo já era uma dádiva divina, afinal o bastardo não lembrava de nada! Será que sabia pelo menos a cor da pele de sua parceira? Não que desse importância a esse tipo de coisa, mas já seria um começo. Uma centelha que ascendesse em sua mente, já poderia ser de grande valia para o seu pobre e desnudado ego.
II - A estrela cortante
Quem se apagou afinal? Sua vítima que estava ainda dormindo, sua memória que mais se parecia com uma caverna sem luz ou o fogo de seu cigarro que terminou? Perguntas, somente perguntas, oh destino cruel! Ser ou não ser, quer dizer, lembrar ou não lembrar eis a questão!
Lembrou-se da infância, quando sempre acordava nos pesadelos ou em situações de desespero, nas quais podia sempre contar com a ajuda dos pais.
- Mãeeeee! Paiêee! Cadê vocês agora? - pensou em voz mais alta ainda, desta feita quase acordando a vizinhança e fazendo despertar a sua companheira.
Será que ela ouvira seus gritos, que vexame! Um burro velho daquele tamanho querendo pedir ajuda dos progenitores? Francamente hein, professor Chapisco?
A mina acordou, melhor dizendo, a mina detonou!
- E agora José, José e agora? José, José, José, Josefi.., Josefina! "Euraca"! Ops, Eureca! Josefina! Oba! - pelo menos alguma coisa surgiu de sua mente desmiolada.
- Oi "Chapisquinho", tudo bem? Dormiu bem gato? - rosnou-lhe aquela voz sutil feito um rinoceronte selvagem.
- Oi Zezé, dormi bem sim, quer dizer, enquanto durou o efeito da bebida, feito um anjinho!
- Anjinho? "Chapisco", tu ta mais é pra ogro do que pra anjo, não acha? E Zezé é a messalina que te gerou, o pato rouco do Cafubá! -mangou a beldade.
- Ué? Teu nome não é Josefina?
- Josefina sim, e com muita honra! Mas, Zezé não né, chulé! Acho que vou me embora agora! - bradou a mulher.
- Pois já vai tarde! Ô Josefina da canela fina! Tu deves é ter parte com Napoleão Bonaparte!
- Josefina da canela fina? Com quem você pensa que está falando?
- Com a mulher mais chata e feia que já dormiu comigo. E que ronca feito um trem doido!
"Josefa" ouviu tudo calada. Lentamente foi até a cozinha e pegou a primeira faca que achou, partindo com tudo pra cima do "Chapisquinho do Cafubá", movendo aquele objeto mortal em zigue-zague parecendo uma estrela cadente, quer dizer, cortante.
Em sua cabecinha oca e de vento passavam-se novamente além de pedaços de sua vida desregrada, partes da canção de Raul Seixas, principalmente aquele pedaço "quero estar vivo para ver O sol nascer! O sol nascer! O soooool nascer!!!! O sol! O sol! O.... Foi quando seu corpo caiu inerte na varanda, quando viu pela última vez o sol nascer.
- Deus? Deus? Deus aqui vou eu! Estou voando, voando, não falei que era um Anjo! Agora posso voarrrrr!!!! Estou livre! Livre como um passarinho!!! Sou um Bem-te-vi!!! Não sou Anjo!!!
III - No céu
No céu, um lugar cheio de paz e luz, nosso protagonista viu muitos anjos, belos e felizes. E tinha também uma porta imensa, com um Senhor de barba longa e alva como a neve.
- O Senhor Deve ser o São Paulo, né? - indagou-lhe "Chapisquinho" na versão angelical.
- Chapisco do céu! Tu continuas o mesmo, né? Não sabe que o guardião do paraíso é São Pedro? Virgem Maria, tu és mesmo um desmemoriado!
- Chamou-me São Pedro? - Aproximou-se dele com uma luz esplêndida.
- Desculpe mãe de todas as mães! É que esse anjinho aqui me deixou maluco e me escapuliu, perdão.
- Tudo bem Pedrinho, tu já ta ficando meio lelé da cuca mesmo! Deixe-me ir.
- E eu Pedrinho? - perguntou o recém chegado.
- Ô "Chapisquinho", olha o respeito, hein? Se não, eu te mando direto pro inferno!
- Não São Pedro, faz isso não! Não!!!
Bum! - um trovão invadiu aquelas nuvens e jogou o "Chapisquinho" direto pro fogo eterno!
IV - Na casa do "Coisa ruim"
- Seja bem vindo! Se aqui chegou é porquê boa gente não foi lá na terra, né?
- Quê isso ô "Coisa ruim", me tira daqui! Deve haver algum engano!
- Todos falam a mesma coisa filho. Mas aqui não é tão ruim como parece. Veja você, temos uma temperatura média de quatrocentos graus centígrados, umas fornalhas pra alimentar, banho de bosta diário pra refrescar e uns copinhos de conhaque do alcatrão do bom!
- Conhaque? Foi isso mesmo que vosmecê falou!
- Que foi falei a palavrinha mágica? Tendo cana, tudo bem um banhozinho de cocô e uma fornalha bestial, né?
- Não seu diabinho, sabe o que é? Eu tenho experiência nessa coisa de bebida. Não dá pro senhor, vossa senhoria me arranjar um emprego no bar?
- Se quiseres, pode ser?
- Oba! Oba! Eu vou tomar todas e tenho dito: Eu aceito! Aceito, só se for agora!
- Ok, assine aqui. Como é o seu nome mesmo filho?
- Chapisco! Chapisco do Cafubá!
- Só tem um probleminha que eu esqueci de te dizer.
- Tem problema não o "Coisa ruimzinha"!
- É o seguinte: Quem trabalha no bar, não pode beber!
- Nem um copinho? Nem um golinho?
- isso nada! E além do mais tem que lavar as louças!
- Mãeeeee! Paiêee! Cadê vocês agora? - Gritou desenfreadamente!
De repente acordou todo suado, mijado e outras "coisitas" mais, que não vale a pena agora falar.
Olhou pro lado e viu uma mulher horrorosa, mulher não um traveco que acordou e foi logo apalpando-lhe.
- Ai meu Deus! Socorro! Socorro!
Correu tanto que se esqueceu que estava no décimo sexto andar, despencou então da varanda e durante a queda olhou pro céu e viu pela última vez o sol nascendo.
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